terça-feira, 28 de agosto de 2012

Eu e os selvagens


Há uma expressão célebre que diz que se pusermos alguns macacos com máquinas de escrever (a expressão é antiga, hoje usariam Macs e pareceriam hipsters, os macacos), ao fim de vários anos os macacos terão escrito as obras completas de Shakespeare.
Lembrei-me disto no Bonfim. Estava a ver o jogo junto ao RC e dá-se a cena clássica: Javi desce, Luisão e Garay abrem e toda a gente sobe lá para a frente. Como só o Witsel é que desce, mais tarde ou mais cedo sai um passe insensato ou um chutão cheio de fé para a frente. O problema foi que o RC disse o que ia acontecer como se eu estivesse a ver o jogo em diferido: “Agora o Javi dá ao Garay e o Garay chuta.” E assim foi.

Goleámos porque, só para a frente, o plantel do Benfica tem ao seu dispor: Cardozo, Rodrigo, Aimar, Carlos Martins, Gaitan, Nolito, Bruno César, Enzo Perez, Salvio. Com esta gente e enfrentando equipas falidas treinadas pelo José Mota, é como colocar numa arena uma horda de selvagens contra um hipster que frequente a FNAC da Baixa–Chiado. É óbvio que os selvagens vão conseguir bater-lhe, roubar-lhe os óculos de haste grossa, violá-lo e queimar-lhe o cadáver. Nas mãos de Jorge Jesus, não há a hipótese destes jogadores trocarem a bola e controlarem o jogo. Jorge Jesus, neste momento, é um general militar a quem dão uma super metralhadora e que, em vez de a disparar, atira-a contra a cabeça do adversário.

Não vou repetir os erros tácticos do Benfica porque já há gente a escrevê-lo muito melhor do que eu. O meu drama é o meu coração depender dessa selvajaria. Como qualquer bom adepto, ordeno mentalmente o que quero que o jogador faça antes dele o fazer. “Vai para cima dele”, “Desce”, “Mata o Hulk”, etc. O problema, neste momento, é que me sinto justamente a gritar com uma tribo lunática, praticamente sem hábitos de civilização conjunta, quanto mais de linguagem. Ainda para mais, dizem os jornais que os únicos da tribo que procuram a agricultura de subsistência (isto é: defender), podem ser vendidos. Não vou conseguir comunicar com ninguém, portanto. Se vendermos Witsel e Javi Garcia, quando perdermos a bola na saída para o ataque não vale a pensa gritar "Desce" a ninguém. É como pedir o "Romeu e Julieta" a um macaco. Ou pedir ao Jesus para jogar com 3 médios.

Não tendo a hipótese de me desligar (não há esse botão nos fanáticos), vou ter que entregar o coração a esta selvajaria. Esperar que a horda consiga mutilar consecutivamente os mais fracos de forma a que ganhe uma empatia entre si. Estou neste momento a imaginar Enzo Perez de tanga, a procurar com o seu olhar vazio Bruno César, também vestido tribalmente, os dois a trocar uma olhar de entendimento após um massacre a um Paços de Ferreira qualquer. A sede de sangue unirá a tribo e torná-la-à cada vez mais insaciáveis, tornanda-a assim cada vez mais forte frente aos fracos e mais previsível contra equipas com 2 neurónios.

A esperança reside na sorte de não apanharmos qualquer tribo mais inteligente, que se esconda em cima das árvores, deixando os nossos desorientados e a lutar entre si. Se se sucederem várias batalhas ganhas, os Benfiquistas acudirão ao estádio e gritarão cânticos de incentivo à maralha de ataque desorganizada que é a nossa equipa de futebol. Com alguma sorte no calendário (e, claro, nos jogos), poderemos chegar às batalhas decisivas sem termos já os 7-8 pontos de atraso habituais. E depois, pronto, pode ser que a tribo já tenha descoberto o fogo.

Estou lixado. Da minha felicidade depende a capacidade do Benfica deixar de ser selvagem. E isso é tão provável como macacos escreverem as obras completas de Shakespeare. Bem, antes os macacos que o Jesus.


8 comentários:

  1. Lindo, uma vez mais.

    Eu sentia-me um pouco assim com aquele louco do holandês e mais os seus 3 defesas. Só não correu pior porque estava lá o Pepe.

    E também não corre pior para os teus lados porque o Javi Garcia, o Witsel, o Garay, o Maxi e até (quase) o Luisão, são jogadores muito acima de média.

    O Witsel e o Maxi enchem-me por completo as medidas. Estes e o Javi (o Fernando é melhor, sorry) podiam estar a jogar em qualquer equipa.

    Esta equipa do Benfica treinada por um treinador mais equilibrado podia ir longe. Assim, também tenho muitas dúvidas.

    É como lá em casa, em que o VP ainda provou bem menos do que o JJ. Tenho muito medo. Tem um ano para mostrar o que vale. O JJ também tem, no máximo, isso.

    Abraço,
    PeLiFe

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    1. Só para acrescentar que estes importantes jogadores do Benfica nas manobras defensivas da equipa têm a particularidade de não terem banco. O que há está longe da qualidade deles.
      O que pode ser complicado em caso de lesões (embora o Jardel, que não é muito bem visto pelos vermelhos, dê bastante bem conta do recado)

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  2. Pois....é só o que o pobre fanático tem a dizer....pois.
    É este o adn do JJ, a metafora da selvajaria é perfeita.
    No entanto vem-me à memoria (um gajo tem que se agarrar a algo) o que se jogou este ano no estadio do chelsea e não se consegue repetir, porquê?

    Nao percebo nada disto!

    Brilhante texto!
    Cumprimentos

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  3. Fantástico texto, gostava que o JJ conseguisse ler este texto e o conseguisse entender ... Consegues fazer o mesmo usando pinturas rupestres ?


    Abraço,
    HB

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  4. :)
    Estou curioso para ver como é que o JJ vai arrumar o meio campo sem o Javi....muito curioso !

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  5. Caro M.,

    A selvajaria continua e atinge novos patamares.
    Sai Javi e entra o Lima.

    Fica a dúvida se o Lima vem para o lugar do Javi se para o de defesa esquerdo.

    Abraço,
    PeLiFe

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  6. PeLife:
    Degredo absoluto e nojo por quem dirige o meu clube. Não há figos, vem aí Tri. Só os mais lunáticos podem duvidar. Foi um 31 de Agosto surreal. Alcatrão e penas para Vieira e Jesus, não há Benfiquista que aguente.
    A contratação do Lima ou é gozo ou é sinal que Cardozo ainda vai para a Rússia. Já não há só negligência, há dolo.

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  7. Pois é M., mas como se viu ontem, estamos todos no mesmo barco.
    O Witsel ainda foi pela cláusula e a pronto.
    O Hulk foi tristemente vendido por um valor baixo, fora de prazo, com pagamentos faseados e para um campeonato no fim do mundo.
    Tudo aquilo que o PdC disse que não ia acontecer.
    Não há palavra nem honra no futebol.
    Mas não conseguimos viver sem ele e vamos continuar a desesperar com a atrocidades dos inteligentes que mandam nos nosso clubes.
    Abraço,
    PeLiFe

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