segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Já não há heróis

Os jogadores do F.C. Porto são uns privilegiados. Fazem o que gostam e nós gostamos do que eles fazem. São ídolos de pequenos e de grandes, são aplaudidos e levados ao colo pelo Zé da esquina e pelo dono do banco e ouvem o seu nome cantado por milhares de gargantas fiéis. E tudo o que precisam de fazer é ganhar.

Levantam-se de manhã na sua casa de luxo, comem o pequeno-almoço feito pela empregada ou pela loiraça de 1,80m que se deita com eles na cama e sentam-se ao volante da última novidade do automobilismo para irem para o treino. Correm, fazem uns exercícios e convivem com as estrelas azuis e brancas. Regressam ainda a tempo de descansar, de jogar Playstation como eternas crianças e de brincar com os telemóveis mais caros do mercado. Uma ou duas vezes por semana, deixam a família feliz para viajar num autocarro ou num avião confortáveis, dormem num hotel de 4 ou 5 estrelas e, durante uma hora e meia, jogam à bola com a camisola mais bonita do mundo. 

Haverá melhor profissão do que esta? 

Sim, eu sei que a pressão e o cansaço também são enormes. A exigência é muita e poucos falhanços são permitidos. Entrar num estádio cheio e ser insultado não deve ser fácil. Ouvir um ou outro assobio de vez em quando não deve ser agradável. Não poder andar na rua, ir ao supermercado ou sair à noite sem estar sujeito a dar dezenas de autógrafos ou a levar uma cabeçada também não deve ser espectacular. Mas continuo a achar que uns milhares de euros no fim do mês e a nossa admiração compensam isso. 

Imagino que um operário fabril que ganhe o salário mínimo não tenha milhares de apoiantes a cantarem o seu nome se a máquina encravar e ele, fintando um ou outro parafuso saltitante, consiga enfiar o tubo no buraquinho da agulha, por muito bonita que esta imagem seja. 

Imagino que um pescador seja mais do que assobiado se um dia chegar à doca e disser ao patrão que só conseguiu 10 quilos de camarão porque a última vez que saiu para o mar foi há apenas 48 horas e não teve tempo de descansar entretanto. 

Imagino que um agricultor possa ir à vontade ao supermercado ou sair à noite, mas que não o faça muitas vezes porque alguém tem de ficar em jogo para as colheitas. 

Imagino que um jovem que estudou e que fez tudo o que podia para aprender a executar determinada profissão fique tão frustrado por estar desempregado que tenha que emigrar para qualquer lado, a qualquer preço, mesmo depois do dia 31 de Agosto. 

Eu sei que também sou uma privilegiada. Tenho 25 anos e tenho emprego, logo naquilo que tanto gosto de fazer. Trabalho de manhã, à tarde e à noite, aos fins-de-semana e aos feriados, conforme o calendário manda. Não ouço aplausos nem assobios, mas os meus leitores, desde o Zé da esquina ao dono do banco, são igualmente exigentes. Posso sonhar em ser contratada pela BBC, mas é muito pouco provável que isso aconteça, por muito que as minhas notícias evoluam. Certamente que não me vou retirar aos 35 anos e estou a rezar para que ainda tenha reforma se o fizer aos 70. Não espero ter uma casa ou um carro de luxo e muito menos vir a dar um autógrafo na vida (a cabeçada posso levar, não serei a primeira jornalista a fazê-lo). Faça o que fizer, nunca terei um salário que sequer se assemelhe ao vosso. E pior: nunca vou entrar no Estádio do Dragão, olhar para bancada e ver um adepto a pedir a minha camisola, a camisola do Futebol Clube do Porto com o meu nome. 

É este privilégio que poucos podem ter e que ainda menos sabem como é bom ter. E é por isso que não consigo perceber por que hão vocês de estar tão interessados em ir lutar pela Europa no tottenham ou pelo campeonato russo no zenit. Dinheiro? Coitados, são tão pobrezinhos. Fama? Em clubes de merda como esses? Títulos? Porque o Porto ganha tão poucos... 

Mas vão. Vão lá, a sério. Nós até precisamos do dinheiro. E eu consigo ter consciência que vocês não amam este clube como eu, por isso não vêem as coisas desta forma. No Porto de outros tempos, era um drama substituir um Vítor Baía, um João Pinto ou um Domingos. No Porto de agora, não há Álvaro Pereira, Hulk ou João Moutinho que não se esqueça de um dia para o outro. À vossa ambição desmedida, nós, os adeptos, respondemos com uma substituição rápida: hoje pedimos a vossa camisola, amanhã pedimos a de outro qualquer. É que, para nós, já não há heróis.



P.S. Bela vitória no sábado, embora a fraca qualidade do guimarães tenha ajudado. Gostei muito do Alex Sandro (tem tudo para ser melhor do que o palhaço do seu antecessor) e adorei ver que a cabeça do Hulk pode estar longe, mas o corpo, pelo menos até agora, mantém-se cá. Adorei sobretudo os foras-de-jogo idiotas e aquela defesa com a mão do N'Diaye na grande área, a fazer lembrar uma que ele fez com a cabeça na luz e que deu penalty.

24 comentários:

  1. A razão principal pela qual pretendem sair é porque querem ganhar um titulo honesto, dentro do campo e das leis do jogo. Até porque (e eles próprios sabem) já ninguém compra a tese de que são eles que ganham......a essas "conquistas" os mais eufemistas chamam-lhe "estrutura".....já o vulgo taxista chama-lhe, com toda a propriedade que o Código Penal lhe confere: CORRUPÇÃO!

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  2. Mais uma vez, depois de uma carta aberta aos jogadores do nosso clube em que fiquei fã deste local, vejo-me "obrigado" a assinar por baixo.

    É sempre um prazer ler um texto assim. Pena é ser poluído por Anónimos cobardes que, com medo de assumir publicamente posições em que deviam acreditar, se escondem por trás do anonimato para desviar atenções.

    Obrigado por mais esta bela prosa.

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  3. Como portista que sou, só tenho a dizer que senti este texto como se fosse escrito por mim, o ser portista é único é ser diferente é vibrar com as conquistas e procurar corrigir o que correu mal nas derrotas sem culpar A B ou C pelas mesmas.
    Parabéns pelo texto ganhas te um fã.
    Fico ansiosamente á espera de mais

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  4. E se algum dia tiver a felicidade de me cruzar com a Catarina peço lhe um autógrafo que bem merece. :p

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  5. Será sempre um novo desafio conseguirem jogar e ganhar sem a ajuda da corrupção. Devem estar fartos de estar num clube fundamentalmente bairrista, violento, complexado e corrupto, que apesar de ganhararem regularmente, só são reconhecidos pelos média avençados e pelos adeptos (compactuantes) do seu clube. Normal.

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    1. Bairrista - Se isso significa exigir explicações aos meus dirigentes e a cabeça do treinador quando numa época se leva 5 na casa do maior rival e na 2ª volta se lhes dá o titulo de mão beijada, sim somos;

      Violento - Não somos nós que agredimos árbitros ou jogadores adversários já no chão;

      Complexado - Já não somos. Agora somos o clube português com mais títulos. Só no sec XXI temos 3 títulos europeus oficiais(nada de torneios da amizade ou Guadiana);

      Corrupto - A justiça civil, por muito má que seja, ainda não nos condenou. A outra, que nos condenou, é a mesma que ainda não se pronunciou sobre "ele viu, não quis foi marcar" e acerca do Luisão.

      O facto de só sermos reconhecidos por alguns média e adeptos é apenas e só porque a maioria de vós gosta de chorar. Se olhassem para os vossos erros eu era bem mais infeliz.

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    2. fantástica resposta!
      (sem espinhas e com muito nível)

      bravo!

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. Hahahahahahahaha!
      "Isto" é fantástico, sem espinhas e com muito nível?
      Patético. Nem preciso de acrescentar mais nada ao que escrevi anteriormente.

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    5. @ searaman

      pelo menos tem mais Educação do que tu.

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  6. Mais uma vez revejo-me na sua crónica!
    Muitos parabéns!

    Susana Gomes

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  7. @ C.

    tal como o Pedro Baixia, também eu, se um dia tiver o privilégio de me cruzar contigo, gostaria de ter um autógrafo teu - com o consentimento do M., claro ;)

    quanto ao teor do post, todos os outros comentadores já expressaram o meu sentimento primeiro do que eu - até os infelizes anónimos, que desconhecem que só valorizam as tuas palavras e te incentivam a continuar a postar

    cumprimentos
    Miguel | Tomo II

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  8. Parabéns pelo texto!!
    "C. Dá-me a tua fita de cabelo"(o texto anterior encontra-se numa cartolina)

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  9. Estava para escrever qualquer coisa relacionada com este tema ainda hoje! Sendo assim, já não vale a pena!
    Demasiado bom este texto!
    Parabéns! Dá-me a tua caneta..

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  10. Bom texto. Mas com o tiro a acertar muito ao lado.
    A filosofia no FCPORTO e que tão bons resultados tem dado, é exatamente a que tem vindo a ser seguida nos ultimos 15? anos.
    COMPRAR BARATO, VALORIZAR E VENDER BEM. Com o bónus de ajudarem o Clube a ganhar titulos pelo meio. Toda a gente ganha (jogadores, empresários, Clubes) e quando se ganha andamos todos contentes. Toda a gente sabe o seu papel, não existe enganos. Temos de saber viver com esta realidade.

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    1. A questão é que o Hulk não foi comprado barato, o Janko não valorizou e o Álvaro Pereira não foi bem vendido. Em teoria nada mudou, mas na prática...

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    2. Por partes então:
      HULK - Só o que o INCRIVEL deu em retorno desportivo considero eu, que já se pagou mais de 10 vezes. Em termos financeiros temos de subtrair o que custou ao preço que vierem a pagar por ele. Será só aguardar mas desconfio que ficará longe do prejuizo.
      ALVARO PEREIRA - Ficou mais um ano do que o que devia, aos olhos dos adeptos. Mas a SAD e bem para mim, pensou em que ele ia ser preciso mais uns tempos no Clube. Mas como homem ele nunca se portou á altura. Tirando este ano negro dele no Clube a passagem por cá até foi bem proveitosa quer desportiva quer financeiramente falando.
      JANKO- Foi uma emergencia para enfiar na equipa por causa da falta de cabeçinha do Walter. Não se portou mal, para um jogador com 29 anos até nem foi mal vendido.
      Para malhar na SAD só para se dizer
      que se malha já existe o MST.
      Continuo a gostar bastante da forma como sente o Nosso Clube.

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  11. Cara Catarina,

    Mais um bom texto de uma Portista a 100%.

    Para mim ser Portista é muito mais do que futebol, do que desporto. Ser Portista para mim é ser primeiro do Porto e depois do Norte. É ser regionalista e bairrista e ter orgulho nisso. Para mim não é necessário o Porto afirmar-se no País inteiro, basta-me que seja a bandeira da minha cidade e da minha região. É tambem por isso que não percebo muito bem como pode haver Portistas em Lisboa e benfiquistas no Porto.
    Se ser Portista em Lisboa tiver a ver com a absoluta necessidade de descentralizar este País, se estiver associada uma vontade politica de mudança, então já entendo. Senão são só fenomenos miméticos de vítória e esses "Portismos" são para mim menores.
    O meu orgulho (sem ser nacionalista) é ter as minhas raizes nesta cidade/região berço da Portugalidade.
    Sou como disse, Portista porque é o clube da minha cidade. Se não fosse do FC Porto seria do Boavista ou do Salgueiros, nunca mas nunca, de um clube que não fosse da minha cidade.
    Tenho pena daqueles que não tendo uma bandeira, levantam a bandeiras dos outros.

    Beijos Portistas para ti e continua a escrever porque tens em mim um leitor atento.

    Fernando Couto
    (sim, até no nome carrego o FC Porto)

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    1. "Senão são só fenomenos miméticos de vítória e esses "Portismos" são para mim menores."

      Como portista de Lisboa, é triste ler estas coisas e ao mesmo tempo ver as gentes tão simpáticas e de personalidade forte da cidade do Porto se ofenderem quando lhes dizem que o FC Porto é um clube regional, bairrista e sem projeção alguma. Se isso a si não o incomoda, ótimo. A muitos portistas, inclusive do Porto e do Norte, incomoda e bastante garanto-lhe eu. Se diz que é no Porto que está o berço da portugalidade e depois diz "Para mim não é necessário o Porto afirmar-se no País inteiro, basta-me que seja a bandeira da minha cidade e da minha região" é um bocado contraditório não acha? Desvalorizar o sentimento que alguém nutre pelo FC Porto porque mora em Lisboa ou no Algarve ou em Angola ou no Kosovo é ser igual ou pior que aqueles que nos apelidam de "andrades", "porcos", "corruptos" e por ai fora. como pessoa de Lisboa que sou, habitante da maravilhosa cidade do Porto durante 5 anos da minha vida e portista de alma e coração, entristeço-me com o seu comentário, Fernando Couto (que a principio pensei ser mesmo o autentico lol).

      Saudações portistas de uma ferrenha cá do sul.

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    2. « para mim não é necessário o Porto afirmar-se no País inteiro, basta-me que seja a bandeira da minha cidade e da minha região. é também por isso que não percebo muito bem como pode haver Portistas em Lisboa e benfiquistas no Porto »

      i)
      felizmente que a projecção do clube já extravasou as nossas fronteiras políticas.

      ii)
      quanto ao não perceber as idiossincrasias regionais e, por inerência, clubísticas, a Catarina Martins já respondeu muito bem no seu comentário.

      iii)
      certamente que o "defeito" é meu, mas não percebo como ainda há portistas que pensam como o sr.
      respeito (pouco) esse ponto de vista, ams não o aceito. de todo!

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    3. Obrigado Catarina Martins (e obrigado caro Penta).

      A Catarina disse o essencial.
      Eu, como Portista de Lisboa, também me custa muito ouvir este tipo de discurso.

      Felizmente que o no nosso clube me parece que são cada vez menos os que pensam assim.
      E devo dizer que são portistas como este que boicotam e atrasam o nosso crescimento.

      Era arranjar um cantinho no Dragão e colocar lá estes, os assobiadores e os que atiram bolas de golfe. Fazia-se uma caixinha como a da Luz, mas em vidro. À prova de som.

      PeLiFe

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    4. Cara Catarina,

      Eu nunca me ofendi por me chamarem tripeiro, regionalista, morcão, andrade, etc... porque esses insultos vindos de onde vêm não me incomodam. São consequencias do mau perder e acima de tudo são sinonimo de inveja e mau caracter.

      No futebol, tal como noutras coisas (na politica por exemplo), o que não faltam são pessoas que quando estão no Norte assumem um discurso regional e que quando a ambição, a vida, ou o infortunio, os leva para os lados do sul, passam a ter um discurso "nacional". Deve ser da agua que lhes dão a beber.

      Eu sou assumidamente regionalista e bairrista e tambem me parece que a Catarina luta para ter o melhor de 2 mundos: Ser de Lisboa (com as vantagens que isso lhe trás) e do FC Porto (com a luta que isso significa).

      Já agora e como estamos em circunstancias similares. Eu sou casado com uma benfiquista quase portista, e que viveu muitos anos em Lisboa, mas que agora ama apaixonadamente o Porto e as suas gentes.

      Saudações Portistas e Portuenses,

      Fernando Couto

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  12. Parabéns C. por mais este excelente texto.

    Também me sinto incomodado por esse fenómeno, que parece não ter hipótese de reversão.

    A traição do AVB foi das dores maiores que senti como adepto. Como é possível ter aquele discurso e depois aquela atitude?

    Tenho a certeza absoluta de que se eu fosse o treinador do Porto e (como se fosse preciso tanto!) recebesse 1M€ por ano para o fazer, nunca abandonaria a equipa a uma semana do início da época para ir ganhar 5M€. É impensável.

    Mas há sempre algumas excepções. Não sei se serão heróis, mas não são de certeza vilões como os Álvaros, Rolandos, Guarins ou Rodriguez que por cá têm passado.

    Lucho - Saiu apenas porque foi empurrado por necessidades financeiras e uma lamentável falta de visão. Felizmente voltou. É um dos grandes e espero que cá fique depois de pendurar as chuteiras.

    Deco - Saiu para o Barcelona depois de jogar mais de 5 épocas e de nos dar a Taça UEFA e a Champions (fora tudo o resto, que não foi pouco. Até se não tivesse ganho nada tinha valido a pena. O melhor que vi com a camisola mais linda do mundo). Sempre afirmou que queria voltar e quase deu para o fazer.

    Como estes mais recentes há certamente mais alguns (poucos, é certo).
    Não me lembro, por exemplo, de ouvir o Pepe, o Ricardo Carvalho ou o Paulo Ferreira a dizer que queriam sair.
    Há muita pressão para que estes negócios se realizem, independentemente da vontade do atleta.
    Há as respectivas WAG's (que querem mais de tudo. Factor mais importante, claro), os empresários (se não vendem não recebem) e os clubes (os 3 exemplos acima foram negócios irresistíveis para o Porto. 30+30+20=80 milhões).

    Enfim. Divago.

    Keep them coming.

    PeLiFe



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