terça-feira, 4 de setembro de 2012

Gota d'água

Não consigo perceber por que é que não temos meio campo. Até consigo: a direcção e a equipa técnica do Benfica são atrasados mentais ou, simplesmente, não querem saber. As duas hipóteses revelam que estão a mais. Que Ruben Amorim esteja num rival e Nuno Coelho sabe-se lá onde são só cerejas no topo de um bolo. Ou de um castelo de cartas prestes a ruir. A liderança com o melhor ataque é uma ilusão que talvez nem o mais incauto dos Benfiquistas já iluda. Adivinha-se (mais) uma intempérie.

Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).

Já Javi foi um soco na alma. Javi Garcia podia ter sido um Paneira, podia ter sido um daqueles estrangeiros míticos, à Benfica. Podia ter sido um Thern, um Schwartz, um Isaías. Quando Javi marcou o golo aos lagartos, o ano passado, sorriu para a bancada como um adepto do Benfica. Tinha saltado mais alto do que um dos de verde e cabeceou seco um delicioso centro de Aimar. Não fez os corninhos do Isaías no 3-6, mas sorriu como ele. Para sempre já tinham ficado as imagens de Javi, podre de bêbado, a festejar o título e a gritar juras de amor a um clube que ele, claramente, não sabia ser tão grande. Sem os pés de Witsel, Javi sempre foi cheio de entrega, sempre cheio de concentração. Javi Garcia foi daqueles medíocres que, vestido à Benfica, se tornou gigante. Odiado pelos rivais, Javi jogava sempre de dentes cerrados, sempre a suar a camisola, sempre a dar tudo. Em Javi vi o Benfica que sonhei e que cheguei a ver. Javi Garcia empatizou imediatamente com as bancadas e as bancadas com ele. Javi parecia carregar as alegrias do passado e uma raiva nos dentes devido às derrotas do presente. Merecia o nome nas camisolas, merecia a aprovação até de um céptico como eu. Sonhei-o capitão.



Mas a vida não está para sonhos e muito menos o Benfica. Num futebol mercantilizado, com milionários tristes e praticamente sem símbolos, não há espaço para o coração infantil que me palpita quando o Benfica joga. Num clube onde ninguém percebeu que haveria médios centro a menos, que é o mesmo que não saber as vogais todas do alfabeto, poderemos nós estar preocupados com símbolos, com mística, com magia? 

Às vezes fico tão preocupado com o Benfica, com os erros perpétuos, com degenerações, que me esqueço o quanto gosto deste clube. Acho que essa é a maior tristeza que estas derrotas todas me deram: sofro tanto que me esqueço do amor que tenho às camisolas vermelhas, ao terceiro anel cheio, aos gritos BEN-FI-CA BEN-FI-CA BEN-FI-CA até não ter ar nos pulmões.

Não posso deixar que me tirem este amor. E antes de me preocupar outra vez com o buraco no nosso meio campo, vou ficar triste por Javi, afinal, não ser o Thern dos meus dias. O meu Benfiquismo merece isso.




Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

6 comentários:

  1. Está na altura de pôr o Vieira na alheta, certo?

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  2. O dinheiro é que manda!
    Se o presidente (que vai ganhar as próximas eleições...) não percebe isso, numa lógica de provável vendedor, ele lá sabe.
    Não precisamos de comprar ninguém nem de acautelar situação nenhuma.

    Bastam dois na defesa, dois no meio campo e o resto é com tracção à frente. Como nos tempos antigos.
    E acreditar na Virgem.

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  3. és um artista das palavras, mas a verdade é que amor pelo Benfica só mesmo nós

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  4. Caro M.

    Só reparei que era mesmo o Chico na foto à terceira vez que li o teu delicioso post.
    Mas logo à primeira fui lendo à medida que cantarolava a música.
    E achei lindo que acabasses com a letra da música.
    Grande Chico.
    E que grande amor tem também ele por bola.
    É outro doente.

    Abraço,
    PeLiFe

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  5. Sim amor pelo Benfica - Nós, adeptos e sócios que amamos o jogo, a arte da vitória e as camisolas berrantes!

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  6. A elegancia do Shéu, o génio do Chalana, a voz do Coluna, o educado Néné ... e tantos outros. Tambem eu projectava no Javi o mesmo destino que aqui tão bem descreve. Você é um benfiquista como eu, que felicidade :)

    Jorge Carvalho

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