quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O futebol das meninas

Gostar de futebol não foi, para mim, uma opção. Não houve um dia em que acordei e, por acaso, pedi à minha mãe para me calçar umas chuteiras em vez de me vestir uma saia. Não fui para o infantário e gostei mais de brincar à bola com os rapazes, esses seres nojentos com ranho a sair do nariz, em vez de ir trocar roupas da Barbie com as raparigas, esse sexo tão civilizado. Nada disso.

Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.

Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.

Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.

Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.

Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.

O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).

Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.

Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.

É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.

Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.



Obrigada Lucho, diz ao teu pai que te educou muito bem.

P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.

13 comentários:

  1. É um tipo porreiro, pena jogar onde joga.. Força para ele neste momento difícil

    Beijinhos tripeirinha

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  2. Tão bonito! as lágrimas foram tomando conta dos meus olhos enquanto lia. Força C. se encontrares novamente o Victor Baia dá- lhe o tal abraço ele merece.

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  3. Boas,
    Este post está fantástico, parabens C. Pois é, também penso que os portistas não vão esquecer a atitude do nosso Lucho, grande capitão, grande homem.
    E fico por aqui, porque de resto já está tudo dito...

    Cumprimentos

    Ana Andrade

    www.portistaacemporcento.blogspot.com
    www.artigosonlineanaandrade.blogspot.com


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  4. Muito bom, o «post». Só lamento uma coisa, o «ódio».
    Eu, benfiquista, não odeio o Porto, ou o Sporting, ou o Braga. São instituições. Ponto.
    Focando o Lucho, um dos focos da postadela, gosto imenso dele quer enquanto futebolista, quer enquanto a pessoa que eu «conheço» dos «media». É claro que quero que ele, em cima da linha de golo, consigo chutar por cima da barra; outras vezes vejo-me a desejar que ele tropece na linha e dê uma marretada na barra e fique de molho um par de semanas... É mentira. Como poderia eu desejar isso para um gajo que joga tão bem à bola, mesmo que num adversário e me tenha dado fartas tristezas.
    Eu não odeio o Capel; adoro aquela gajo, aquela genica, aquela mania de enfiar a cornadura no chão e querer ficar meio mundo, depois voltar para trás e tentar fintá-lo novamente.
    Se eu encontrasse o Madjer, far-lhe-ia uma vénia do tamanho do universo, mesmo que depois a minha idade já avançada não me permitisse voltar a endireitar a espinhela.
    Dava muito jeito que o Messi (ou o Xavi, o Iniesta...) partisse a unha do dedo mindinho e não pudesse jogar contra o Benfica. Mas não, isso significaria não ver jogar um talento daqueles, um tipo que surge de décadas em décadas. E os futebolistas têm uma carreira muito pequena. E o Messi «já» tem 25 anos. «Já não» temos muito tempo para o ver espalhar magia pelos relvados, por isso eu quero vê-lo contra o meu Benfica, mesmo que, no final, fique um par de noites a remoer duas possíveis pauladas que leve no toutiço.
    Quero que o Benfica vença? CLARO! Mas, mais do que isso, quero que vença com qualidade, porque aquilo de que eu gosto é de ver bom futebol. Afinal, eu despertei para o jogo com a Holanda de 78 e o Brasil de 82. Deu-me gozo o campeonato de Trappalhoni? Sim, mas... porque aquilo foi um futebol miserável, fraquinho, fraquinho, fraquinho.
    Já não estou em idade para andar a perder tempo a odiar adversários ou a delirar com vitórias que não deixam marca. Quero aproveitar o que me resta para me divertir a ver gente que sabe e joga bem à bola.
    Talvez por isso, confesso que, quando aquele maluco holandês treinou o Porto, eu fiz muitas vezes o que não costumo: via os jogos do FCP na televisão. O tipo, repito, era maluco, mas o Porto praticou, «n» vezes, um futebol brutal. Lembro-me, perfeitamente, de estar colado ao ecrã a pensar: «Quem é que para estes gajos? Como é que se impede este vendaval?».
    Quanto a posteres de futebolistas, tive alguns (devem estar nalguma gaveta em casa de minha mãe), mas nunca consegui os cinco que sempre persegui em adolescentes: Toni (esse mesmo, o do vídeo iraniano), Dr. Sócrates, Falcão e Zico, o meu grande ídolo na adolescência.

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    1. Muito obrigada pelo seu comentário, também ele é muito bonito. Espero chegar a essa idade com esse espírito.

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  5. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  6. vitor baia melhor jogador portugues de todos os tempos??? LOLOLLO
    piada do seculo.
    já agora onde estão as bolas de ouro?! LOLOLOL

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    1. http://www.youtube.com/watch?v=WnUhqZ0AXcY&feature=related

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  7. Uns anos atrás, numa famosa discoteca em Lisboa, subia eu umas escadas e eis que um Sr. ligeiramente embriagado esbarra na minha pessoa, tropeça e quase cai de forma ignóbil por um lance bem grande de escadas...
    Eu segurei-o, ele agradeceu de forma atabalhoada e eu uns segundos depois eu vejo que o Sr. em questão não é outro senão o GRANDE Vítor Baía ( sim ainda estive para o ir chatear e dizer-lhe : És o MAIOR !! - mas não me parece que quisesse grandes conversas ) que tinha pendurado as luvas uns meses antes...
    Por isso, até certo ponto o ele estar presente no teu emprego C., deve-se à minha pessoa, porque aquele tombo seria muito feio...

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  8. Vítor Baia é o quê?! Por favor, menos paixão e mais razão...Quem é Vítor Baía comparado com...vá lá...Hope Solo?!

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  9. bolas, ias tão bem ...!

    estragaste tudo com essa do Vitor Baía, é que nem no lugar específico que ocupou foi o melhor

    o Lucho é um senhor em qualquer lado ...

    até no clube do namorado da messalina !!!

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  10. A narrativa é uma forma de arte que sempre me fascinou.

    As minhas limitações no desmpenho da mesma, só potenciou esse sentimento mas tive que optar pela velha alínea f, do então Liceu e percorrer o conhecimento das ciências médicas...

    Como agora se diz, parabéns pelo "post"!

    Sempre fui fã da selecção americana de "soccer" e dos festejos exuberantes da mesma...

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