sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta ao André Gomes

André,


Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4 ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?

Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos – onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu, racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).

Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo – convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A), mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.

E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério. Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol. Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o Benfica pode perder pontos.

E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador, André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe, mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por si – de ti um bom jogador, mas agradou­-me. Porque um tipo que é mau nunca recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe – que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.  

Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o Rui Baião, tipos desse género.

Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar, enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto esfola-te e chega lá.

É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho. Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.

Um abraço,

Manel

PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.

11 comentários:

  1. Pois é, quando se fala de qualidade lá vêm sempre aqueles de azul...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tout court !

      Quando se comenta o "Post Scriptum" de um texto com esta qualidade, torna-se desnecessário acrescentar algo mais ...

      Eliminar
  2. Excelente post. Subscrevo tudo por inteiro. Ainda que subtraindo a tua idade por 6, já não vou a tempo de contribuir dentro do campo para as vitórias do meu clube do coração.

    Vamos lá, André. Não nasceste lampião, como nós, mas assim morrerás, certamente, como nós (e como o Fábio Coentrão).

    ResponderEliminar
  3. Muito bom!
    Não resisto a comentar.
    À medida que ia lendo o post, lembrei-me da estreia do Maniche (sim, esse que depois andou com "outras camisolas" e não o alto, loiro e tosco, que saudades do Danish!) e do quão similar foi o meu pensamento na altura, sentado no velho terceiro anel numa tarde de sol. Havia ali qualquer coisa. Depois...bem, acabou por manchar o futuro.
    É um grande prazer ler este blog! Continuem os dois!


    ResponderEliminar
  4. Grande post. Parabéns.
    Lamentei ver o André Gomes estrear-se pelo Benfica e marcar um golo como se nada fosse. Sinal de que não é benfiquista e não sente tanto? Sinal de maturidade? Que dê tudo em campo, é o que se pede.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viste o mesmo jogo que eu?!

      O rapaz faz o golo e corre para os braços dos adeptos.

      Eliminar
  5. Depois do jogo em Barcelos, pergunto, és bruxo?!:)

    ResponderEliminar
  6. @artnis, aquando do post e do meu comentário, ainda não tínhamos ido a Barcelos :) Depois gostei e lembrei-me do que aqui escrevi.

    ResponderEliminar
  7. Magnífico, simplesmente magnífico. Cheguei ao blog aconselhado por um amigo, Benfiquista, claro. Passo a seguir, com grande prazer!

    ResponderEliminar
  8. "É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a bola sobre o guarda-redes. "

    Já tinhas uma ideia do que ia ser o SLB 3-1 FCP em Abril de 2014?

    ResponderEliminar