André,
Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em
ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4
ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo
parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?
Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos
– onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E
essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o
sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do
mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu,
racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos
deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa
clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em
Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te
estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na
segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).
Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de
que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para
isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo
– convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver
a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e
príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A),
mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha
opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo
mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a
três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não
escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é
a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos
lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.
E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério.
Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso
custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol.
Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio
campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não
porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não
quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim
tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o
Benfica pode perder pontos.
E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador,
André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da
equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um
craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não
obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil
observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo
Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu
nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a
mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o
Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça
levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância
quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe
surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe,
mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé
por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é
esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias
jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E
isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem
maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já
tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele
medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor
dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate
pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste
imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por
si – de ti um bom jogador, mas agradou-me. Porque um tipo que é mau nunca
recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser
bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom
medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola
para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe
– que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de
recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.
Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom
jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar
alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma
responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo
para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande
potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem
o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o
Rui Baião, tipos desse género.
Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um
bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez
eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto
imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e
só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar,
enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me
mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a
ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já
tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da
Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será
aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei
de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto
esfola-te e chega lá.
É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita
e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à
chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a
bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido
ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada
ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho.
Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à
espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.
Um abraço,
Manel
PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.
Pois é, quando se fala de qualidade lá vêm sempre aqueles de azul...
ResponderEliminarTout court !
EliminarQuando se comenta o "Post Scriptum" de um texto com esta qualidade, torna-se desnecessário acrescentar algo mais ...
Excelente post. Subscrevo tudo por inteiro. Ainda que subtraindo a tua idade por 6, já não vou a tempo de contribuir dentro do campo para as vitórias do meu clube do coração.
ResponderEliminarVamos lá, André. Não nasceste lampião, como nós, mas assim morrerás, certamente, como nós (e como o Fábio Coentrão).
parabéns!
ResponderEliminarMuito bom!
ResponderEliminarNão resisto a comentar.
À medida que ia lendo o post, lembrei-me da estreia do Maniche (sim, esse que depois andou com "outras camisolas" e não o alto, loiro e tosco, que saudades do Danish!) e do quão similar foi o meu pensamento na altura, sentado no velho terceiro anel numa tarde de sol. Havia ali qualquer coisa. Depois...bem, acabou por manchar o futuro.
É um grande prazer ler este blog! Continuem os dois!
Grande post. Parabéns.
ResponderEliminarLamentei ver o André Gomes estrear-se pelo Benfica e marcar um golo como se nada fosse. Sinal de que não é benfiquista e não sente tanto? Sinal de maturidade? Que dê tudo em campo, é o que se pede.
Viste o mesmo jogo que eu?!
EliminarO rapaz faz o golo e corre para os braços dos adeptos.
Depois do jogo em Barcelos, pergunto, és bruxo?!:)
ResponderEliminar@artnis, aquando do post e do meu comentário, ainda não tínhamos ido a Barcelos :) Depois gostei e lembrei-me do que aqui escrevi.
ResponderEliminarMagnífico, simplesmente magnífico. Cheguei ao blog aconselhado por um amigo, Benfiquista, claro. Passo a seguir, com grande prazer!
ResponderEliminar"É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a bola sobre o guarda-redes. "
ResponderEliminarJá tinhas uma ideia do que ia ser o SLB 3-1 FCP em Abril de 2014?