sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O FCPorto de Bruxelas

A questão impôs-se às primeiras horas em Bruxelas.

- Onde é que se pode ver o Porto?

A resposta foi imediata.

- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.



Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.

As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:

- É portista?

À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.

O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.

Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.

Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.

O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.

Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.

2 comentários:

  1. Embora não exista casa do Sporting, do Benfica ou do Porto em Amesterdão, revi-me muito na tua descrição quando vou ver a bola a uma das associações portuguesas que existem cá.
    Eu, que já andava meia desligada do futebol quando emigrei, dei por mim de novo a chatear-me à conta da bola e a levar a cena um pouco mais a sério.
    Não sei que efeito é este que o estrangeiro tem em nós... mas a verdade é que nos acabamos por aproximar de tudo aquilo que nos lembra o nosso país.

    Beijinhos

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  2. Sim, de acordo: foram roubados... do bom futebol.

    Aliás, dos 3 que venha o diabo e escolha. Estão todos a jogar que dá mesmo vontade de passar 90 m em frente a um ecrã.

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