quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Apocalypse Now

Estivemos em viagem pelo Sudeste Asiático e, durante três semanas, os nossos clubes portaram-se bem. Porto e benfica deixaram-nos fazer turismo calmamente, sem grandes exaltações a não ser os saltos da cama às quatro da manhã para ir ver os SMS com os resultados. Devo dizer, no entanto, que nos foi complicado ir além dos resultados na percepção do que se foi passando por cá. Isto porque as mensagens escritas vinham tanto dos meus pais como do pai do M. e estas não podiam ser mais diferentes. Se uma dizia “benfica ganhou, moreirense claramente gamado”, a que se seguia era um “benfica ganhou, e só não foram mais por causa do árbitro”. Enfim, cada um de nós acreditou no que quis (eu decidi basear-me na ciência e ir pela amostra mais ampla, claro).

Vivemos nesta doce harmonia até chegarmos a Portugal. O Porto, que na sexta-feira era a única equipa invencível da Europa, a equipa com mais pontos na Liga dos Campões e o dominador implacável do futebol português das últimas décadas (esta continuará a ser, peço desculpa), teve a sorte de ir jogar a Braga e perdeu. Perdeu bem, diga-se de passagem, porque não jogou o que tinha de jogar para ganhar. E, como se o adeus prematuro a um título não fosse suficientemente duro para os adeptos portistas mastigarem, ainda por cima perdeu com um onze em campo claramente a léguas do melhor que nós temos. E vamos chamar-lhe onze porque eu continuo a achar que o Kléber conta para as estatísticas, só isso.

Vítor Pereira decidiu poupar os jogadores principais e apostar numa equipa alternativa. E isso é sempre fatal, não só quando se perde, mas principalmente porque é Vítor Pereira e ainda há adeptos que se dizem do Porto que torcem contra o clube para ficarem com a barriga cheia de razão. Fê-lo por duas razões, segundo o que percebi: por um lado, quer perceber até onde pode ir com a rodagem do plantel, porque os tempos estão difíceis (para alguns) e não vamos comprar um substituto para o Lucho à altura quando este estiver de rastos; por outro, quis poupar as estrelas para o jogo desta terça-feira em Paris.

Ora, em relação à primeira tentativa, falhou redondamente. O plantel do Porto é curto, demasiado curto, e há poucas opções de categoria. Já me parece assim desde a pré-época, e tenho pena que o nosso treinador tenha demorado até ao último dia de Novembro para o ver. Mas enfim, no ano passado a direcção também só o viu no mercado desta altura, quando foi buscar um ponta-de-lança porque deixou de se fiar em milagres.

Quanto à segunda, falhou ainda mais escandalosamente. A sério que me esforcei para perceber que, embora já estivéssemos classificados e me tenha custado milhões abdicar de uma competição para isto, a Liga dos Campeões é sempre uma prioridade, seja pelo dinheiro imediato, pelo dinheiro no futuro ou pelo prestígio. Só que o Porto perdeu, outra vez, e perdeu bem, sem que tenha jogado o que tinha de jogar para ganhar. Perdeu por causa de um frango (normalmente é um por ano portanto pode ser que já estejamos safos), é certo, mas perdeu um primeiro lugar que ainda vamos ver o quanto nos podia ajudar na próxima fase. E, muito mais do que o dinheiro ou o prestígio, é isto que me preocupa: que o Porto, muito provavelmente, não tenha equipa para ir além dos oitavos.

Duas derrotas em cinco dias vão muito além do que um adepto portista consegue suportar. Coitados dos adeptos das equipas pequenas que acham isto normal. Imaginem como será ser adepto do sportem, meu deus.

Dizem que o fim do mundo é este mês e agora começo a acreditar. Se o apocalipse tinha de começar por algum lado, era por aqui, pelo mais inesperado. E é por isso que alerto os portistas que estamos numa fase crucial da época e que não podemos perder pontos até à ida ao salão de festas. Ainda por cima, o benfica tem o calendário facilitado, uma vez que vai a alvalade.

Peço-vos, portanto, que não baixem os braços perante duas batalhas perdidas. Durante a nossa viagem, olhámos para a paisagem e percebemos claramente por que razão os americanos perderam ali uma guerra: o clima é inóspito e traiçoeiro e as pessoas são unidas nas suas crenças e orgulhosas nos seus ideais. Mantenhamo-nos assim: orgulhosos e unidos. E acreditemos que não será este clima inóspito e traiçoeiro, de excitação com os nossos desaires, que nos irá derrotar.

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