Vivemos nesta doce harmonia até chegarmos a Portugal. O
Porto, que na sexta-feira era a única equipa invencível da Europa, a equipa com
mais pontos na Liga dos Campões e o dominador implacável do futebol português
das últimas décadas (esta continuará a ser, peço desculpa), teve a
sorte de ir jogar a Braga e perdeu. Perdeu bem, diga-se de passagem, porque não
jogou o que tinha de jogar para ganhar. E, como se o adeus prematuro a um
título não fosse suficientemente duro para os adeptos portistas mastigarem,
ainda por cima perdeu com um onze em campo claramente a léguas do melhor que
nós temos. E vamos chamar-lhe onze porque eu continuo a achar que o Kléber
conta para as estatísticas, só isso.
Vítor Pereira decidiu poupar os jogadores principais e
apostar numa equipa alternativa. E isso é sempre fatal, não só quando se perde,
mas principalmente porque é Vítor Pereira e ainda há adeptos que se dizem do
Porto que torcem contra o clube para ficarem com a barriga cheia de razão.
Fê-lo por duas razões, segundo o que percebi: por um lado, quer perceber até
onde pode ir com a rodagem do plantel, porque os tempos estão difíceis (para
alguns) e não vamos comprar um substituto para o Lucho à altura quando este
estiver de rastos; por outro, quis poupar as estrelas para o jogo desta
terça-feira em Paris.
Ora, em relação à primeira tentativa, falhou redondamente. O
plantel do Porto é curto, demasiado curto, e há poucas opções de categoria. Já
me parece assim desde a pré-época, e tenho pena que o nosso treinador tenha
demorado até ao último dia de Novembro para o ver. Mas enfim, no ano passado a direcção também
só o viu no mercado desta altura, quando foi buscar um ponta-de-lança porque
deixou de se fiar em milagres.
Quanto à segunda, falhou ainda mais escandalosamente. A sério
que me esforcei para perceber que, embora já estivéssemos classificados e me
tenha custado milhões abdicar de uma competição para isto, a Liga dos Campeões
é sempre uma prioridade, seja pelo dinheiro imediato, pelo dinheiro no futuro
ou pelo prestígio. Só que o Porto perdeu, outra vez, e perdeu bem, sem que
tenha jogado o que tinha de jogar para ganhar. Perdeu por causa de um frango
(normalmente é um por ano portanto pode ser que já estejamos safos), é certo,
mas perdeu um primeiro lugar que ainda vamos ver o quanto nos podia ajudar na
próxima fase. E, muito mais do que o dinheiro ou o prestígio, é isto que me
preocupa: que o Porto, muito provavelmente, não tenha equipa para ir além dos
oitavos.
Duas derrotas em cinco dias vão muito além do que um adepto
portista consegue suportar. Coitados dos adeptos das equipas pequenas que acham
isto normal. Imaginem como será ser adepto do sportem, meu deus.
Dizem que o fim do mundo é este mês e agora começo a
acreditar. Se o apocalipse tinha de começar por algum lado, era por aqui, pelo
mais inesperado. E é por isso que alerto os portistas que estamos numa fase
crucial da época e que não podemos perder pontos até à ida ao salão de festas.
Ainda por cima, o benfica tem o calendário facilitado, uma vez que vai a
alvalade.
Peço-vos, portanto, que não baixem os braços perante duas
batalhas perdidas. Durante a nossa viagem, olhámos para a paisagem e percebemos
claramente por que razão os americanos perderam ali uma guerra: o clima é
inóspito e traiçoeiro e as pessoas são unidas nas suas crenças e orgulhosas nos
seus ideais. Mantenhamo-nos assim: orgulhosos e unidos. E acreditemos que não será este clima inóspito e traiçoeiro, de excitação com os nossos desaires, que nos irá derrotar.
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