sábado, 15 de dezembro de 2012

Eles não sabem o que perdem

Tenho muita sorte na vida. A namorada de sonho, a família perfeita, o emprego que sempre quis. Além disso, já viajei muito para a minha idade. Já estive em Sarajevo, cheguei a ver as torres gémeas, já vi a praça vermelha em Moscovo, as pirâmides do Egipto, a grande baía dos corais na Austrália. Tenho quase vergonha de ter tanta sorte na vida. Viajar é conhecer outras coisas, é ver o mundo para além da paragem de metro onde entramos todos os dias. São outras comidas, outras gentes.
Podia continuar o resto do texto neste tom. Mas, para ser honesto, quando estou num aeroporto, a última coisa em que penso antes de embarcar é que o Benfica costuma ganhar praticamente sempre comigo no estrangeiro.

Retirando a dolorosíssima derrota com o Braga em 2010/2011 e um ou outro acidente (fora do campeonato, sempre) cito-vos de cor que ganhámos 3 jogos seguidos para o campeonato enquanto, de mochila às costas, corri a europa de Leste. Em Praga demos 4-0 ao Leiria em casa e foi com uma cerveja na mão, no City pub Sarajevo, que soube de um 2-1 ao Guimarães.
Em Roma, 2004, num périplo "ultra" com o R., ganhámos 2-0 ao Moreirense. E, mais recentemente, despachámos o Rio Ave não em Vila do Conde, mas em Banguecoque e o Olhanense no Cambodja. Às vezes acho que devia emigrar. Largar tudo. Não pela aventura, não pela procura de melhores condições de vida, mas pelo Benfica.

Isto leva-me ao último fim de semana, onde estive num congresso em Atlanta. Atlanta não é propriamente Paris, onde tudo é bonito. Não tem a luz de Lisboa, não tem a aura de Barcelona, a arte de Florença ou a calma e exoterismo de Luang Prabang, no Laos. Atlanta tem a sede da CNN e um centro de congressos muito grande. E acho que é isso.
Como é óbvio, nós, os maluquinhos, não conseguimos sair de casa sem procurar a nossa loucura. Uma pessoa não vai a Milão sem pensar em ir a San Siro, como é óbvio, senão para que é que servia ir a Milão? Na pior das hipóteses compramos um cachecol, vá. Em Tallin, num hostel preenchido por várias nacionalidades, em que acabámos todos a ir beber um copo, lembro-me de, com um alemão do 1860 Munique, perceber o quão longe estávamos de casa e sempre perto dos nossos clubes.

Em Atlanta, dada o severo atraso civilizacional do país, não procurei futebol. E contentei-me em ir ver um Atlanta Hawks - Washigton Wizards para a NBA. Dizia-vos: eu tenho muita sorte na vida e quando fui a Nova Iorque, vi um Knicks-Bucks, com o Garden cheio, o Ray Allen de um lado, o Sprewell e o Alan Houston no outrozE houve um triplo na jogada final a levar o jogo para prolongamento. Interrogo-me, à luz da minha entusiasmada e pormenorizada descrição (isto foi em 1999), se a minha memória não terá registado melhor este jogo que Times Square. Portanto, este jogo foi giro, mas bem mais desapontante. Pavilhão praticamente vazio e um jogo medíocre. Mas quantos de nós não estivémos já em estádios frios, à chuva, com meia dúzia de loucos na bancada e nos sentimos no centro do mundo? Haverá maior prazer do que o subir à rede para festejar um golo, com a chuva a cair-nos na cara e com os jogadores ali mesmo, camisola vermelha suada e punho erguido para nós?

E não precisamos dos ecrãs de altíssima definição daquele pavilhão em Atlanta, com as estatísticas a passar em tempo real.  Não queremos restaurantes com vista para o jogo. Eu quase que me esqueço de respirar quando estou a ver o Benfica, nem quero imaginar se tentasse mastigar ao mesmo tempo. Naquele pavilhão não há paixão. As pessoas entusiasmam-se mais com a "Kiss Cam", quando a câmara procura casais durante um desconto de tempo para estes se beijarem, do que com o jogo. Ninguém assobia a equipa rival e antes de todos os períodos via-se uma mensagem de um jogador da casa a apelar a que não só não houvesse linguagem imprópria, mas para que se denunciasse quem o fizesse. Os estádios de futebol são uma escola de vernáculo indispensável à sobrevivência. E, num derby, podíamos, em vez da "Kiss Cam", fazer a câmara dos piretes.

Ligado à net, nervossísmo, possuído, vibrei com a vitória em alvalade. Gritei sozinho, disse palavrões, sofri, tapei a cara, festejei como um louco. Se me tivesse comportado assim no pavilhão tinha sido denunciado e expulso. O desporto americano, uma máquina de dinheiro, é um passatempo, é um entretenimento. Ninguém sofre, ninguém se enerva. É como ir ao cinema ver um filme banal. Não há paixão, não há excessos, não há rivais, não há uma história de uma vida entre os adeptos e um emblema.
Contava Valdano (escrevi isto no meu anterior blog) que, apóso Nápoles de Maradona, um adepto napolitano faleceu e mandou escrever na campa, para os futuros napolitanos: "Vocês não sabem o que perderam". Em Atlanta, terra a que vou sempre associar Óscar Cardozo e um 1-3 em Alvalade, só eu é que gritei e só eu fui verdadeiramente feliz. Os americanos não sabem o que perdem. É que ter um clube é conhecer outras coisas, descobrir alegrias e tristezas que às vezes parecem impossíveis. Ter um clube é viajar.

Post em actualização: tenho que meter umas fotos para abrilhantar isto.

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