quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Torcer pelos maus

Diz que é por volta dos seis anos que começamos a distinguir o bem do mal. No meu caso foi aos três, quando os meus pais finalmente me fizeram sócia do Futebol Clube do Porto (o meu irmão é sócio desde que nasceu, prova inequívoca que é o filhinho preferido). No entanto, a vida vai-nos mostrando que nem tudo é preto ou branco, que há momentos em que as noções se confundem e cabe-nos a nós aprender com isso. Um derby entre sportem e benfica parece-me um exemplo perfeito disso.

O meu corpo transpira ódio pelos dois e, geneticamente, estou disposta a torcer sempre contra ambos. Nos gloriosos tempos em que o benfica terminava campeonatos em sexto lugar, eu torcia na mesma pelo quinto, mesmo que este constituísse uma maior ameaça para o meu clube. Nestes amorosos tempos em que o nacional vai à frente do sportem, eu torcerei sempre pelo primeiro na próxima jornada, até porque continuo a acreditar que tenho uma excelente oportunidade de ver o segundo descer de divisão.

Só que, às vezes, eles jogam um contra o outro e aí impera a lei: torcer sempre pelo resultado que interessar mais ao Porto. E eu acho que não se dá o devido valor à dificuldade que um adepto doente como eu tem em fazer isto. Torcer pelos maus. Olhar para aquelas camisolas detestáveis e querer que elas corram, que elas fintem, que elas marquem. Que horror, até me custa escrever.

Os dérbis da segunda circular são porreiros porque nos dão sempre pontos, mas fazem sentir-me uma pessoa pior. Em 2000, gritei o golo do Sabry em alvalade e ainda hoje sinto o peso da vergonha na troca de olhares com os meus pais, que fizeram o mesmo. Esta semana, gritei um golo do Wolfswinkel e tive vontade de me enfiar num buraco no segundo a seguir. Ensinaram-me que estes dois são maus e eu não devia ter de fazer isto.

É um bocado como no Dexter. A série conta a história de um serial killer que canalizou a sua vontade de matar para os homicidas, os pedófilos e todos os criminosos que não são devidamente punidos pela Justiça. E eu, que sempre vi os serial killers como maus, doentes e detestáveis, dou por mim a torcer para que ele mate mais e escape à polícia e acabe feliz para sempre com outra assassina. Tudo coisas que uma criança com seis anos facilmente saberia dizer que são más.

A moral da história? Mesmo aquilo que à partida é mau pode ser bom um dia, dependendo do resultado que pretendes. O Dexter mata gente má, tem diálogos excepcionais e, bem, é apenas uma personagem fictícia que me entretém desta forma. E o sportem? Bem, o sportem é uma merda e não dá para contar com esta gente.


(Vitória muito, muito importante com o moreirense. Na verdade, se continuarmos a ganhar quando jogamos menos bem e a jogar melhor para ganharmos mais, nem precisaremos de nos distrair com isto)

4 comentários:

  1. Como eu percebo isto tão bem…
    Uma vez mais, um texto demasiado bom!
    Parabéns!

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  2. Cara C.
    Mais uma vez vejo-me “obrigado” a comentar um dos teus posts.
    Torcer pelos maus é muito ruim. Mas parece-me que existem algumas incorrecções, que devo salientar:
    • não devias sentir vergonha por torcer pelo SCP. Este ano, torcer por esse clube é um acto de caridade. Mas não te podes esquecer que para a próxima época podem ser campeões (quer dizer a continuar assim da II Liga mas campeão é campeão);
    • o Dexter consegue distinguir entre o Bem e o Mal. Devido ao trauma de infância vê-se obrigado a escolher o Mal (o mal menor uma vez que só mata criminosos). Eu não tenho a certeza se consegues distinguir o Bem (Glorioso SLB) do Mal (FCP) mas compreendo que isso se deve ao trauma de infância (terem-te “obrigado” a ser sócia aos 3 anos ;)
    • mas ainda tenho esperança que abandones o lado negro da força e te juntes ao lado da Luz (caro M. estamos 6 milhões a contar contigo).
    Atentamente,
    Duarte
    PS: estou a ver o Império Contra-Ataca

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