quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Boavista, com maiúscula (só hoje)

Eu odeio o Boavista. Que isso fique bem claro. Qualquer portuense sabe que boavisteiro que se preze odeia o FCPorto acima de tudo, portanto eu faço questão de retribuir a atenção. Mas hoje fiquei feliz por este clube da minha cidade, que fala a mesma língua do que eu e que foi um dano colateral de uma luta inglória contra Pinto da Costa.

A maioria das pessoas que torcem pelo Boavista (não lhes chamo adeptos porque não merecem essa honra) fazem-no porque nasceram numa cidade cuja maior bandeira é o FCPorto. O seu coração, na verdade, está pintado de vermelho. Mas também conheço muitos que só vêem axadrezado à frente. E é por esses que fico contente.

O Boavista pertence à primeira divisão. É um clube campeão, com um dos melhores estádios do país, que tenho saudades de visitar. Sinto falta do ambiente hostil do Bessa, da bancada que me causa vertigens e dos cânticos anti-Porto do princípio ao fim do jogo. As épocas não têm sido a mesma coisa sem os insultos que trocamos.

Não vai ser fácil compensá-los. A subida à primeira parece-me inevitável, mas é preciso assegurar que o fará em condições. O Boavista perdeu muita coisa em quatro anos. Perdeu dinheiro, jogadores e os tais que torciam ocasionalmente por ele. E isso é difícil de quantificar numa indemnização.

Há apenas uma coisa que sobreviveu: o amor dos verdadeiros boavisteiros. Os que andaram a cantar nos distritais. Os que viajaram para terrenos impensáveis. Os que são tão do Boavista hoje como naquele dia, contra o aves, em que se festejou um campeonato na rotunda.

Para esses, o Boavista foi tão grande quando perdeu com o coimbrões há uns meses como quando empatou em Liverpool no dia 11 de Setembro de 2001. É por esses que escrevo este texto e é por estes que espero na primeira liga. Hoje somos todos um bocadinho do Boavista. Amanhã, quando vocês voltarem a tirar-nos pontos, prometo que volto a odiar-vos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Luta de classes

Em toda a História, em todos os contextos políticos, económicos e sociais, facilmente encontramos sempre um opressor e um oprimido. Karl Marx (que eu vou citar aleatoriamente porque nesta casa ninguém liga nada a estas coisas) identificou-os como burguesia e proletariado. Na quarta-feira, em Manchester, eu vi de um lado o city e do outro o FCPorto.

Os três avançados deles custaram 100 milhões de euros. Nós temos o Kléber. Dar-se ao luxo de entrar de início com Aguero, lá pelo meio deixar o Dzeko dar uns toques e nem sequer usar o Balotelli devia ser proibido. Nós, que tínhamos de marcar pelo menos dois golos para passar, deixámos o nosso único ponta-de-lança no banco, e nem nos atrevemos a metê-lo para não piorar a situação.

Lembro-me que, nas aulas de Educação Física, o professor escolhia dois alunos para fazerem as equipas. Às vezes, um deles não era muito inteligente, por isso, e apesar de poderem escolher à vez, as equipas ficavam tão desiguais que o professor intervinha e trocava alguns de um lado para o outro para equilibrar as coisas. Devia ter sido assim nesta eliminatória.

Podem argumentar que é assim que se sentem todos os feirenses, rios aves e afins em relação aos dois grandes do futebol português. Sim, ok, compreendo. Mas o city não é o que é porque ganhou mais, ou porque tem mais adeptos, ou porque é melhor. Aquele clube é o que é graças a um bilionário qualquer que lava lá o seu dinheiro. Pior: lá têm tanta consciência disso que têm uma grande faixa no centro da bancada onde se lê "Manchester thanks you Sheikh Mansour". E isso mete-me nojo.

A luta foi desigual. Sabíamo-lo desde que a porcaria do sorteio nos ditou tal sorte. Mas isto é futebol e, se na História o oprimido se tem tramado de revolução em revolução, pelo menos nos relvados já vimos muitos Davids a humilhar Golias. Acreditámos, claro, e ainda fomos a Manchester mostrar como se apoia um clube àqueles meninos ricos que têm um palmarés com meia dúzia de títulos nacionais. Nós somos Porto e, apesar de oprimidos pela força do capital, já ganhámos muito mais do que eles.

Levámos 6-1, mas não nos sentimos humilhados. Jogámos bem, fizemos o que podíamos e houve várias incidências que os ajudaram. Temos consciência que eles nos deram a bola quando quiseram, que fomos controlados e que com este Porto só iríamos lá com uma dose de sorte que nos foge constantemente esta época. Mas, enfim, a nossa luta não é esta. O que interessa agora é controlar os danos e lutar pelo campeonato.

Antes de terminar, permitam-me uns momentos a sós com esse esteio da verdade desportiva, Michel Platini. Aposto que este ano, se tiveres a final de Manchester que tanto desejas, não vais ficar preocupado com os sheikhs e russos que andam por aí a destruir o futebol. Desde que eles joguem com um ou dois ingleses não há problema nenhum, não é?

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Manchester, a viagem que já devia ter feito

9 de Março de 2004. O meu pai e eu levantámo-nos cedo e, equipados a rigor, rumámos ao aeroporto. Só se via azul e não havia um só portista que não acreditasse que íamos passar o poderoso man. united. Era assim naqueles tempos. A reviravolta no Dragão tinha sido dos jogos mais “à Porto” de sempre e havia uma espécie de aura à nossa volta que nos convencia que tudo ia correr bem.

Fizemos o check in e o meu pai embarcou de imediato. Ia num avião mais cedo. Eu fiquei para trás, à espera dos amigos que iam no meu voo. Passei a segurança e cheguei à sala de embarque. E eis que uma senhora hospedeira não me deixa entrar no avião.

Eu tinha 17 anos na altura e, segundo ela, precisava de um autorização dos meus pais para entrar no Reino Unido. Expliquei-lhe calmamente que o meu pai estava lá, à minha espera, pelo que podia tratar das formalidades com os ingleses. Começou aos gritos, que “nós” éramos sempre a mesma coisa, que estava farta de “nos” aturar, que não éramos “nós” que mandávamos ali. Nós suponho que sejamos os adeptos de futebol, mas não sei, podemos ser nós as miúdas de 17 anos que vamos ver um jogo da Liga dos Campeões ao estrangeiro, ou nós os seres humanos em geral.

Ainda calma, disse-lhe então que ia telefonar à minha mãe para ela ir lá. A minha pobre mãe estava a dormir e pôs-se no aeroporto em tempo recorde. Enquanto isso, fui perdendo a calma. É que havia mais um como eu, um menor cujo irmão maior de idade estava mesmo ali, ao lado da hospedeira, a explicar-lhe que já tinham feito aquilo mil vezes e que nunca tinha havido problemas. E ela sempre aos gritos, com os seus argumentos poderosíssimos. Outros responsáveis do aeroporto pediam-lhe compreensão, que nós íamos só ver o Porto, que tudo podia se resolver. E ela, com a sua pose de rainha de Inglaterra, não, não e não.

Já com a minha mãe ao lado, pedi-lhe então educadamente para entrar no avião.

“- Agora já não dá. Vamos levantar voo.”

Parece que ainda estou a ver o gosto que lhe deu dizer isto. Como devem imaginar, passei-me. Não me lembro quais foram os insultos aos quais recorri. Ainda hoje, só de pensar nesse momento, sinto exactamente a mesma vontade de lhe bater que tive naquele dia. Nunca tinha sentido isso e acho que nunca mais senti: uma vontade enorme de lhe puxar os cabelos, de desatar ao murro e ao pontapé até ela ceder e deixar-me ir. Partindo do princípio que eu ganharia a luta, claro.

(In)felizmente, eu sou uma rapariga educada, e a minha mãe estava ao meu lado para me segurar e levar embora dali. Avisei os amigos que estavam no avião que não ia. E eles, que segundo aquela grandessíssima vaca estavam a levantar voo, ainda demoraram mais 40 MINUTOS a partir. Respira, Catarina.

Era dia de aulas e, se eu fosse uma pessoa normal, tinha ido. Mas só conseguia chorar. Acho que nunca chorei tanto na vida, e acho que isso diz tudo. Considero-me muito forte para encarar a morte, a doença, as frustrações e as desilusões da vida. Mas aquilo deitou-me mesmo abaixo.

Cheguei a casa e, pouco depois, ligou-me o meu pai a dizer que estava à minha espera. Chorei, chorei, chorei. Mais umas horas e ligaram-me os amigos do voo que também devia ser meu. Chorei, chorei, chorei. A minha mãe convidou a família para ir ver lá o jogo, para me animar. Chorei, chorei, chorei.

Até que chegou o jogo. A tristeza deu lugar ao nervosismo e foram 90 minutos realmente dolorosos. Mesmo quando se tornava cada vez mais provável que o FCPorto ficasse pelo caminho, nunca pensei que tinha sido melhor assim. Nunca senti aquele alívio, aquele “ufa, ainda bem que não fui”. Queria estar lá para chorar com eles.

E, depois, aquele livre. Parece que ainda hoje me estou a ver a levantar do sofá e a ir empurrar o Costinha para chegar primeiro àquele ressalto. Fui eu, eu sei disso. Se eu estivesse em Manchester, às tantas tinha-me distraído a bater palmas ou a cantar na confusão. Assim, não. Concentrei-me, acompanhei tudo com os olhos e fui lá ajudá-lo a marcar. Foda-se, acho que nunca gritei tanto um golo numa sala qualquer. Corri, esbracejei, abracei-me a quem ali estava, que naquela altura era a minha tia mas também podia ser o Pedroto. Porra, foi lindo.

As imagens que chegavam de Old Trafford deixaram-me a chorar novamente. Aqueles adeptos estavam a viver um momento histórico. As caras deles não podiam estar mais felizes e eu devia estar ali com eles. Recebi um telefonema do meu pai. Não o ouvia, mas ouvia os portistas loucos, a sentirem cada vez mais que a Champions ia ser nossa.

E foi. E aquela noite foi, digam-me se concordam, o momento mais emocionante dessa caminhada. Ainda fui a Lyon, à Corunha e a Gelsenkirchen, mas perdi aquilo. E como nunca o poderia viver novamente, prometi que nunca mais iria àquele estádio. Old Trafford ficaria a ser o meu estádio maldito num dia de tanta sorte.

Agora, com 25 anos, vou a Manchester. Já não preciso da autorização dos meus pais e o estádio do city não entrou na promessa. Tenciono passar à porta de Old Trafford e lembrar-me como já foi o palco dos nossos sonhos. Entrar é que nunca.

A tarefa adivinha-se impossível. O resultado de ontem foi catastrófico e impensável para quem viu os primeiros 30 minutos de jogo. Esqueçam aqueles clichés segundo os quais o Porto vai ter de estar na sua máxima força e esperar que o man. city erre. Do que nós precisamos na próxima quarta-feira é de heróis. Heróis como os que foram à Grécia desafiar todas as estatísticas e dar a volta à eliminatória. Heróis como o Derlei, que estava magoado e ainda assim marcou dois golos ao Panathinaikos.

Eu, confesso, não acredito mesmo nada. Ontem, no final, não senti aquela aura, aquela vontade de ir lá com pose de “até os comemos”. Mas vou lá, podem contar comigo. A menos que a hospedeira seja a mesma.

P.S.1 Vários menores foram a Manchester sem familiares mais velhos e não tiveram problema nenhum em Inglaterra.

P.S.2 Ainda com 17 anos, mas na época seguinte, voltei a Inglaterra para o chelsea-Porto. Os meus pais tiveram o trabalho de ir ao notário fazer uma autorização a sério. Gastaram 25 euros. Nunca ninguém ma pediu.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Raciocínios complicados acerca de coisas muito simples

Como é óbvio, sou do Benfica antes de ser português. Mesmo quando viajo, só digo que sou português quando vem a pergunta da nacionalidade assim, directamente. E mesmo aí, quando falo de Portugal, gosto de acrescentar "My club is Benfica", para que não haja mal entendidos.
Aliás, fosse a nacionalidade uma coisa verdadeiramente importante para mim e estaria aqui indignadíssimo pelo facto do meu clube ir em primeiro sem apresentar um português no onze base. Mas não, estou-me a cagar, eu quero é que o Benfica ganhe, seja com onze portugueses nascidos e criados em Alfama, seja com um jogador de cada nacionalidade, incluindo Ilhas Samoa.
Tenho muito mais em comum com o Matic, que ainda não deve conseguir soletrar Benfica, do que com o Bruno Alves, que até jogou no Farense, clube da minha terra. Acrescento ainda que acho que a entrada de Bruno Alves ontem é para amarelo e que a UEFA, que permite jogos em campos daqueles em que uma queda a maior velocidade pode lesionar (como se viu), é que é a principal responsável pela lesão de Rodrigo. Não quer isto dizer que eu não vá assobiar o Bruno Alves e chamar nomes à mãe do Bruno Alves (que é a mãe do Geraldo também, e portanto deve ser insultadíssima) quando ele vier à Luz. Até porque já tenho uma namorada do Porto e qualquer dia ainda fico sem o cativo. Mas mais do que isso porque odeio o Bruno Alves.
Estava eu a dizer, portanto, que isso das nacionalidades me afecta pouco - sou um internacionalista e sou do Benfica. Afecta-me, então, quando nas jornadas europeias, arranque aquele discurso do "Somos todos portugueses" ao qual me apetece responder que também somos todos da espécie humana (menos o Bruno Alves - uma piada para prender os mais radicais!) e que isso não me faz gostar de todos os humanos igualmente. O Cavaco é português, não é humano, e eu também não gosto dele. Como vêem, há muitos exemplos.

Então tu torces sempre contra os clubes portugueses? A resposta óbvia é "sim", mas eu sou mais elaborado do que isso. Às vezes convém que os clubes rivais avancem ligeiramente nas competições europeias para se desgastarem, trazendo com isso vantagens ao Glorioso. Um Benfiquista mais sábio, publicou no Facebook que a vitória dos verdes na Choupana desmoralizava o Nacional em vésperas de vir à Luz. Isto, meus amigos, é ser do Benfica. O meu pai, por exemplo, não tem facebook e não insultou o Bruno Alves por essa via. Mas foi aos comentários do El Mundo Deportivo pedir a expulsão do Bruno Alves, lembrando aos barcelonistas que ele vem da mesma escola do Pepe, buscando solidariedade internacionalista nesta luta. Isto, meus amigos, é ser doente. Tenho muito orgulho no meu pai.
Portanto, antes de cada jornada europeia, há que ver se estamos em fase de os cansar ou se podemos lançar já os gritos animalescos contra os outros. Por exemplo, a UEFA tem a vantagem de ter mais uma eliminatória após a fase grupos do que a Champions e muito próximas. Portanto o ideal era que o Porto e Sporting tivessem que jogar as duas. Mas isso fazia com que se encontrassem e com que o Porto fosse aos quartos, o que me ia por nervoso, até porque não confio no Manchester United a 100% para depois os eliminar mais à frente (quantos de vocês já fizeram isto, de ir ver quem é que os pode lixar se o City não conseguir?). Portanto, tudo somado, é preferível o City eliminá-los já. Quanto ao Sporting, dado que não ganhará nem o Campeonato nem a UEFA, pode torcer-se já contra.
Ou seja, tudo somado, hoje sou do Légia e do Manchester City. Agora dizem vocês: "Epá, tanta volta e foi tudo dar ao mesmo". Nada mais errado, eu cheguei à mesma conclusão que a maioria dos Benfiquistas, mas de uma maneira rigorosa e científica.

Quanto ao jogo de ontem: não foi mau, face ao frio. Os outros gajos estavam adaptados e nós não. Depois há mais coisas, mais complicadas, como a nossa fragilidade nas transições defensivas, mas se para explicar que hoje sou do Légia e do City foi preciso um texto, imaginem sobre isso. O amarelo ao Aimar é um insulto e uma filha-da-putice e fez-me dizer mais palavrões que a entrada do outro.
Uma última palavra aos meus doentes que ontem decidiram não comparecer na minha consulta, permitindo-me ver toda a segunda parte: Obrigado. Não ponho em questão que terão faltado por serem do Benfica. Devem ter olhado para o papel de marcação da consulta e dito: "Mas este gajo é parvo? Consulta dia 15 de Fevereiro às 17.20? Joga o Glorioso, porra!" Se apresentarem provas que estiveram a ver o jogo, ver-vos-ei assim que quiserem. Se apresentarem provas que não foram à consulta porque estavam em São Petersburgo, ganharam um amigo.

Bruno Alves, esse "assassino"

Bruno Alves sempre foi um jogador agressivo. De um central com aquele físico e aquela raça, aliás, não se espera outra coisa. Estou convencida, no entanto, que teve a sorte de evoluir no clube e com os treinadores certos.

Quando o Porto perdia 0-2 em casa com o benfica e o vi dar aquela cabeçada no Nuno Gomes, pensei que tínhamos garantido um grande adepto, mas um péssimo jogador. Felizmente para ele e para nós, Bruno Alves cresceu muito e deixou-se dessas coisas. Embora, enfim, ninguém lhe dê o mérito de ter terminado com a única veia goleadora que habitava o corpo de Nuno Gomes.

Continuou, claro, a ser agressivo e tinha momentos em que se esquecia de toda a aprendizagem. Lembro-me, por exemplo, de um jogo em Matosinhos onde fomos muito prejudicados pelo árbitro e em que ele, furioso, decidiu espetar um pé nas costas do Jorge Gonçalves. Foi muito feio, não saber controlar a raiva contra um adversário que agora habita ligas inferiores.

Na Europa, Bruno Alves era mais esperto. Usava o físico e a raça em doses q.b. e os árbitros não vinham com aquela imagem criada algures na capital portuguesa segundo a qual era um jogador violentíssimo. Foi isso que lhe valeu uma transferência de milhões, que, e apesar de reconhecer sempre a sua dedicação, me deixou muito contente, porque não é propriamente jogador que me deliciasse as vistas.

O que eu achei curioso quando ontem vi o zenit-benfica foi a reacção à entrada de Bruno Alves sobre o Rodrigo. É uma entrada agressiva, obviamente, nem o Pôncio Monteiro o poderia negar. Mas o que a tornou violenta foi a forma como o jogador caiu, num relvado gelado, sendo a lesão não no pé em que Bruno Alves acertou, mas na anca.

Comecei a ler palavras como “assassino”, “na luz matamos-te” e “estava encomendado pelo FCP”. Não sei se só eu que tenho memória, mas não foi no passado fim-de-semana que um jogador com passado ligado a este clube espetou uma bota na perna do João Moutinho? Moutinho esse que, num jogo com o paços de ferreira, sofreu uma entrada violentíssima de um jogador que na altura estava emprestado e que hoje veste a camisola encarnada? Camisola essa envergada por Javi Garcia, Katsouranis, Petit e, sei lá, Binya?

Bruno Alves, repito, é um jogador agressivo. Mas mostra tudo em campo, não esconde recados porcos atrás das mãos que lhe tapam a boca. Mas nunca partiu uma perna a um rival cheio de talento e nem amarelo levou. Mas não lhe chamam “Pitbull”, alcunha que nasceu de muito suor num boavista à imagem de Jaime Pacheco. Mas não foi suspenso seis jogos das competições europeias por uma entrada para matar, como se diz na gíria.

Eu acho bem que os lampiões o odeiem. Todos nós temos os nossos ódios momentâneos e quase idiotas, e ainda há pouco tempo também tive um no zenit. Agora não metam é o Porto nisto. Tenham vergonha e lembrem-se do quanto andaram aí a aplaudir o Shaffer e o Nélson Oliveira todos contentes.

P.S. Bruno, na segunda mão é no Cardozo, se faz favor.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Portuguesa sim, mas totó nunca

Estamos em semana europeia. Até para o sportem. O que significa que eu vou ter de, mais uma vez, multiplicar a minha personalidade de forma a num segundo ser do Legia de Varsóvia desde pequenina e noutro sentir S. Petersburgo como a minha casa. Sou uma espécie de Fernando Pessoa, mas, em vez de escrever, gosto mais de festejar as derrotas e humilhações dos outros.

Nunca alinhei no argumento “vamos torcer pelas equipas portuguesas na Europa”. Porque simplesmente não o compreendo. Então eu, que sou portista (não sei se já tinham percebido), tenho de torcer pelos meus adversários porquê? Porque partilhamos a nacionalidade? É verdade, mas também partilhamos a rivalidade, a competição, o ódio até. E isso é muito mais forte do que aquela parte no BI que temos em comum.

Não consigo compreender como é possível num sábado estar a torcer para que o Aimar parta uma perna e na quarta-feira a seguir festejar um golo dele. Só porque é “na Europa”.

É que a Europa nunca me fez mal nenhum. O Besiktas, o Legia e até o Zenit não andam propriamente a afectar-me todos os dias. Não são os jogos deles que vejo todas as semanas à espera que percam. Não são eles que torcem para que o meu clube perca. Não é neles que penso quando planeio colocar uma bomba num estádio.

Já os outros, “os portugueses”, dão-me cabo da cabeça. E eu quero que percam sempre, mesmo num jogo a feijões com a respectiva equipa B. É por isso que muitos me chamam de maluca, radical, extremista. Com todo o prazer. Demonstram mesmo alguma ignorância, uma vez que eu nunca conheci um país com futebol decente em que todos torcessem pelas equipas nacionais nas competições europeias.

Em Barcelona, politicamente correcto é desejar que o madrid leve 5 do CSKA. Em Londres, os adeptos do chelsea têm algo do milan dentro de si, e os do arsenal sentem a costela do nápoles a vir ao de cima. Dizer a um italiano que tem de torcer pelo seu rival é mais arriscado do que viajar agora para a Síria. Eles compreendem-me.

E o mais engraçado é que, por cá, achamos imensa piada a essas rivalidades. O Porto vai jogar a Liverpool e fazemos uma reportagem com os adeptos do everton. Ai que giros que eles são, a torcer por nós porque não gostam dos vizinhos. Tão catita! Mas uma portuguesa que tenha uma página da Internet aberta com o último onze do Legia de Varsóvia, em busca de potenciais alegrias, ai que essa já é maluca, radical e extremista.

Aplaudir um corte do Polga (lol, esta teve piada), entusiasmar-me com uma arrancada do Gaitan, desculpar o João Pereira de um cartão vermelho evidente, são coisas que nunca vão acontecer. A não ser que beneficiem o FCPorto de alguma forma. E não me venham com a conversa do “és mais portista do que desportista”. Como se isso não fosse o maior elogio que me podiam fazer.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O futebol ao contrário

Feira, Barcelos, Madeira. Não se fala de outra coisa. As arbitragens estão a ter influências evidentes nos resultados e estão pelo menos a tentar ajudar a resolver o campeonato e a taça. E quem achar o contrário é melhor fechar já esta página e ir a correr ouvir o Rui Santos.

Este texto não vai ser, contudo, uma argumentação sobre o quanto o FCPorto tem sido prejudicado e os seus rivais beneficiados. É um facto, portanto não vou perder tempo com isso. Prefiro antes constatar como neste assunto somos todos iguais.

Recordo perfeitamente o dia em que conheci o pai do M., um benfiquista à séria (não escrevi lampião porque o respeitinho é muito lindo). Porto e benfica jogavam de seguida e decidimos ir lá a casa ver as duas partidas. Primeiro foram eles e eu, apesar da vergonha inicial, não evitei marcar umas faltas, assinalar uns foras-de-jogo e reclamar uns cartões. Lembro-me da cara do meu sogro, estupefacto, de olhos abertos para o M., provavelmente a questionar-se onde é que ele tinha desencantado uma extraterrestre.

O jogo ainda nem a meio ia e já ele desabafava:

- Tu vês tudo ao contrário...

E é mesmo assim. Um jogador do benfica caía ao chão e eu gritava que se estava a atirar para a piscina, que se via perfeitamente que não era nada, enquanto eles pediam amarelo e talvez vermelho por uma entrada tão dura. O fiscal-de-linha levantava a bandeira e eu via claramente aquela perna à frente do defesa, enquanto eles exemplificavam na sala como o jogador do benfica estava três ou quatro metros atrás.

Além da visão, também outros sentidos são afectados. Eu insultava o comentador, claramente lampião, que não conseguia dizer que os nossos estavam a jogar melhor. E eles a insistir que o gajo era do Porto, toda a gente sabia disso, lá estava ele outra vez a elogiar o benfica para disfarçar.

E as repetições, meu deus, como se esquecem de as passar quando não favorecem o benfica! E eles a defender que todos os realizadores da Sporttv têm o cartão de sócio do FCP no bolso.

Tudo ao contrário, de facto. O benfica ganhou esse jogo com um golo decorrente de um livre cuja falta não existiu. O M., antes deste ser marcado, admitiu que não era nada. O meu sogro calou-se, porque foi mais esperto e aprendeu primeiro do que nós o que se deve fazer quando o inimigo está mesmo ali. Quando é mesmo muito, muito evidente, só podemos remeter-nos ao silêncio. Admitir, nunca. Só quando estamos a ganhar por 5-0 e devia ter sido marcado um penalty para os adversários. Aí sim, damos aquele ar de adeptos racionais, e dizemos com um ar condescendente:

- O árbitro podia ter marcado...

O Porto jogou a seguir e a história repetiu-se, mas ao contrário. Quando é o M. a ver um jogo com os meus pais, exactamente a mesma coisa. Todos nos queixamos, todos estamos convencidos que somos os mais prejudicados e que o mundo está contra nós. Todos nos lembramos daquele campeonato roubadíssimo, daquele árbitro que favorece sempre o mesmo e daquele penalty que até o Tribunal do Jogo assinalou por unanimidade. Todos chamamos ladrão ao Paixão, gatuno ao Proença e cabrão ao Duarte Gomes.

Não acho que sejamos todos malucos, embora compreenda se assim o pensarem. Acho é que somos todos uns adeptos do caraças, que os nossos clubes têm muita sorte em ter pessoas assim a defendê-los e que o Porto e o benfica são muito diferentes, mas nós não.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Lucho, dos verdadeiros

João Pinto, Lima Pereira, Eduardo Luís, Frasco, André, Jorge Costa, Fernando Couto, Paulinho Santos, Sérgio Conceição, Rui Barros, Rui Filipe, Fernando Gomes, Domingos, Vítor Baía. O mito do jogador à Porto nasceu e cresceu com todos eles. Tinham em comum a nacionalidade, a entrega, a identificação com o clube. Tudo o que faziam, para nós, adeptos, era bem feito. Uns com mais técnica do que outros, outros mais bem comportados do que uns. Quando vestiam a camisola, asseguravam-nos, no mínimo, a dedicação. E isso era mais do que suficiente.

A maioria vivia o Porto desde o berço. Jogaram à bola no Cerco, na Sé e na Ribeira, em Matosinhos, em Leça e Gondomar. Falavam com sotaque. Conheciam as Antas como ninguém. Às vezes eram mais adeptos do que nós. Dizia-se até que assinavam as renovações em branco, sem esperar grande pagamento por ter a honra de representar o clube que amavam.

O FCPorto cresceu muito desde então. Formaram-se equipas pentacampeãs, campeãs europeias e mundiais. O clube ganhou, ganhou e ganhou. Passaram por cá muitos jogadores. Uns melhores do que outros, outros mais falhados do que uns. O jogador à Porto foi-se transformando e hoje não vemos, à partida, nenhum dos verdadeiros.

No entanto, se olharmos bem, vemo-los por aí. Helton tem o seu quê de Baía, Ricardo Carvalho de Fernando Couto, João Moutinho de André, Deco de Rui Barros, Drulovic de Rui Filipe e até Jardel de Fernando Gomes. Em todos eles, há uma identificação com o clube fora do normal para pessoas que nasceram tão longe daqui. Alguns nem português falam, mas sabem bem o que é falar à Porto. E a todos eles reconhecemos dedicação.

E, depois, há Lucho. Lucho González é tudo o que um jogador à Porto não devia ser. Tem tatuagens, usa brincos, gosta de aparecer com gorros e óculos vistosos, como se a aparência nos servisse de algo. É calmíssimo, dentro e fora do campo, fala bem, e passa ao lado de todas as guerras que compramos para que a mística sobreviva. Nunca daria uma cotovelada à Paulinho Santos. Nunca reclamaria uma taça só para ele à João Pinto. Nunca diria uma asneirada portuense à Frasco.

Lucho González é argentino, bem-parecido e parece sempre que a qualquer momento se vai lembrar que afinal devia ter sido actor, ou qualquer outra coisa que não envolvesse andar a suar uma camisola. Só que a camisola é do FCPorto e ele sente-a como todos os outros, os verdadeiros, e corre, e finta, e passa e marca por ela. Fá-lo como só os predestinados conseguem e fá-lo sempre como se tivesse nascido no Hospital de São João e como se os pais o tivessem feito sócio do FCP nesse mesmo dia.

Desde já, Lucho, pelo que já nos deste, obrigada. Obrigada por me fazeres acreditar que, quando marcavas um golo, colocavas a mão na testa para me procurar na bancada. A mim ou a qualquer um como eu, que amamos mesmo este clube, para nos mostrares que estavas sempre connosco. Obrigada por fazeres com que os meus pais me dessem uma camisola do Porto, autografada por ti, e que essa tenha sido a melhor prenda que alguma vez recebi. Foi um prazer aplaudir-te durante tanto tempo, cantar a tua música e admirar-te sempre, sempre.

Quando te foste embora, e apesar de o FCPorto não depender de nenhum jogador para vencer, deixaste um vazio. No campo, claro, mas sobretudo nas bancadas, que caíram no erro de regressar ao passado e acreditar que só quem nasce e vive neste clube sabe o sonho que isto é. Foste pelo dinheiro, que tu e o clube queriam, mas era impossível levar-te a mal. No fundo, sempre soubemos que ias voltar.

Ver-te a sorrir, à saída do nosso aeroporto, confesso, emocionou-me. Senti-me a maior parola do mundo por, no dia a seguir a termos ficado a 5 pontos do primeiro, ficar genuinamente feliz. Mas, sinceramente, não quis saber. Não o fiz por acreditar que és tu que nos vais dar esses 5 pontos que faltam. Sei lá eu se vais jogar e o que vais jogar. E não será, certamente, um jogador a resolver os nossos problemas. Só que és tu, Lucho, o nosso Comandante, e nós estávamos mesmo a precisar de um dos verdadeiros.


Em Marselha, à pergunta de um jornalista sobre a pressão que sentia, Lucho González respondeu que «a pressão real é a de um pai que se levanta cedo todas as manhãs para alimentar os filhos».

«Isso é o que meu pai fez por mim e pelos meus irmãos. Fico espantado quando vejo jogadores a queixarem-se de algo. Levantar-se todos os dias às cinco horas da manhã para ir fazer um trabalho de que não gostamos, isso sim é motivo de queixa», disse ele.

É impossível não adorar este gajo, não é?

Os que sofrem

Várias vezes falo de futebol. É comum o fenómeno de ser o maluquinho do clube X num local de trabalho. Eu ganhei o Benfica para mim no meu Serviço. Há outros, mas eu sou o que sofro mais, eu sou o primeiro a discutir, a defender o clube, a lembrar que já o Jorge Coroado que escreve aquelas asneiras n`”O Jogo” é o mesmo que conseguiu que conseguiu expulsar o Canniggia sem ele mexer os lábios. Há outros “representantes” de outros clubes. Somos os que sofrem, aqueles que toda a gente cumprimenta nas vitórias e goza nas derrotas. Ouvi bocas sobre o Yannick de t-o-d-a a gente. TODA. Porque o Benfica, ali, sou eu.

Falo de futebol com os meus doentes. É um assunto sobre o qual toda a gente tem uma opinião e quebra logo ali o gelo, os doentes perdem aquela coisa do “senhor doutor” e vêem em mim mais um humano que gosta de bola. A mim, dá-me gozo humanizar a coisa e fazer esquecer uma doença com uma conversa sobre um 442. E depois conhecer os doentes pelo clube além da doença. É mais bonito lembrar-me que o senhor X tem um Mieloma e é do Benfica do que dizer “o senhor X do Mieloma”. É óbvio que não dou esta conotação facilmente. Do Benfica é um senhor que assim que saiu do internamento foi ao Seixal ver um treino. São os que sofrem.

Ontem, para não variar, a meio de uma consulta falou-se de futebol. Desta vez nem fui eu. Os familiares falam do Yannick, eu continuo a escrever e digo solto só um “nem me fale”.
O doente, rápido, desarma-me com a pergunta: “É dos que sofre?”. Não me perguntou o clube, não me perguntou se tinha cativo, perguntou-me se sofria. E o que eu senti no olhar dele, foi se eu era do clube dele, dos que sofrem. Disse-lhe que sim, que sou dos que sofrem.
Isto é um bocado surrealista, porque há ali uma pessoa doente à frente, fala-se de doença, fala-se de tratamentos duros, e de repente a palavra “sofrer” vem relacionada com futebol. E perdemo-nos ali, falamos dos dias em que não jantamos por causa do nosso clube, daquele acordar horrível depois das derrotas e dos inenarráveis minutos em que estamos a perder e falta pouco para acabar e queremos que a equipa avance e nada.

Cá em casa sofre-se. No domingo, respeitei com o meu silêncio cada esgar de dor da Catarina, como ela compreendeu os meus espasmos e palavrões durante o jogo na Feira. No fim não se goza, porque isto custa muito. É engraçado como nesta alienação da vida se ultrapassa a própria vida. Como o futebol e o amor a um clube às vezes não são apenas analogias da vida, nem uma conversa no meio de uma consulta importante. É óbvio que não é assim para toda a gente. Para aquelas pessoas que não se debruçam todos os Verões sobre o equipamento alternativo, o futebol é só isso, é só um jogo. Mas para uma seita, para uma tribo, para os representantes do clube em cada local de trabalho, há ali uma dor, uma responsabilidade pungente.

E com esses não se brinca. Quando são adversários, respeitam-se, fala-se de questões sérias, como se se tratasse de um encontro entre dois velhos espiões da Guerra Fria. Às vezes, diplomaticamente, cede-se um elogio. Quando os sofredores são dos nossos, partilha-se tudo, as maiores esperanças e os medos, como se fossemos irmãos. Recordam-se, esmiuçados, os momentos de glória e analisa-se o futuro como se o dinheiro a investir fosse do nosso bolso.

Dizia-vos que cá em casa, até para sobrevivermos à loucura um do outro, há esse respeitinho. Espreitamos pelo canto do olho a reacção a cada decisão arbitral, controlamo-nos em cada golo, com uma disciplina desumana. Chega a haver, entre mim e a Catarina, uma detestável piedade pelo que perde – e isso ainda é mais irritante, mas gostamos um do outro e sofremos e a vida é mesmo assim.

Vamos com 5 pontos de avanço, mas eu, além de sofredor, sou um pessimista. E isto do Benfica já só poder não ser Campeão por culpa própria é de uma responsabilidade terrível. Lá no serviço já me entregaram as faixas, mas eu não quero isso, não quero distracções.
Quero que a rapaziada continue séria e a dar tudo, se possível com mais qualidade porque isto tem sido uma carga de nervos a cada 90 minutos, e que não entre em loucuras. É que se perdermos, naquele serviço sou eu que levo na boca, como tantos outros Benfiquistas sofrerão noutros locais de trabalho ou cafés. Portanto, não me venham com festas, nem com coisas. Não me lixem (com F) a vida agora. É que eu sou dos que sofrem.