segunda-feira, 30 de abril de 2012

Conto infantil

Era uma vez três meninos chamados Porto, benfica e sportem. O Porto, o benfica e o sportem eram muito diferentes, mas tinham uma coisa em comum: adoravam futebol. Sabiam tudo, idolatravam jogadores, sofriam nos dias maus e celebravam os dias bons. Aos 5 anos, já tinham muitas histórias para contar.

O Porto era esperto. Gostava de ganhar. Pior – ou melhor -, exigia ganhar. Ia ao Dragão com alegria, mas ao primeiro passe falhado assobiava o Hulk. Ficava contente quando era campeão, mas também não passava a noite toda a festejar. Estava habituado. Aos 5 anos, já tinha sido campeão quatro vezes.

O benfica era crente. Tinham-lhe dito que era do maior clube do mundo. Passava o ano feliz, tinha uma fotografia com a águia vitória no quarto e acreditava que estava tudo a correr bem, mesmo quando o Porto lhe roubava os brinquedos todos no infantário. Pensando bem, sentia-se enganado. Aos 5 anos, tinha sido campeão uma vez, e com ajuda da professora.

O sportem era maluquinho. Não gostava de brincar com os outros e continuava a dizer que era de um dos três grandes. Quando perdia (e isso acontecia quase sempre), ia para alvalade celebrar e ninguém tinha coragem de lhe dizer que aquilo não era normal. Era feliz assim. Aos 5 anos, nem sequer imaginava o que era ser campeão.

Escusado será dizer quem é que foi feliz para sempre.

Às vezes tenho inveja das crianças por verem o futebol de forma tão pura. Ontem, ao ver as imagens do meu clube BICAMPEÃO, perguntaram a um menino de cerca de 5 anos se ele gostava de ir ali aos Aliados. Ele respondeu “já tinha vindo aqui festejar”, com ar de quem achava a jornalista estúpida por não perceber logo que um portista daquela idade passava a vida ali. Sorria imenso e o pai, ao lado, fez questão de sublinhar com orgulho que o filho era uma jovem promessa do Dragon Force. Não sei se será, mas de uma coisa tenho a certeza: aquele pequenote vai ser muito feliz.

Mas as imagens que me ficaram na cabeça foram daquele miúdo, mais velho, em Vila do Conde. Equipado a rigor, todo de vermelho, chorava baba e ranho. O pai, ao lado, batia-lhe nas costas, como quem diz “vai-te habituando que isto é sempre assim”. Tive mesmo pena. O futebol devia ser uma alegria, pelo menos para as crianças. Não sei o nome do rapaz, mas espero que ainda vá a tempo de mudar para o lado dos bons.

Eu, aos 25 anos, já não vejo o futebol de forma tão pura. Sofro muito, quero mais ganhar do que ver coisas bonitas e já só penso que nunca mais é sábado para ir celebrar com os meus. Festejei ontem o meu 17º campeonato. Falta-me um para alcançar o verdadeiro sportem, que tem mais 81 anos do que eu.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Benfica, Barça, Madrid e a melancolia

Falta pouco para se consumar o golpe definitivo numa época deprimente. Às vezes fico de olhos perdidos no sofá, a ignorar placidamente um jogo decisivo na liga inglesa ou italiana, recapitulando um a um os erros desta época. O método científico, que obriga a voltar atrás em todos os passos à procura do erro, aplicado ao Benfica é especialmente doloroso.
Meto, pela enésima vez, a "Sempre que o amor me quiser" pelos Linda Martini, e volto a ter vergonha da minha alegria depois daquele Benfica - Nacional e daquela jogada vertiginosa e suicida entre Aimar, Rodrigo e Gaitan. 
Há uma melancolia tramada nas derrotas. Depois da frustração, das quase lágrimas nos olhos vermelhos e dos palavrões na garganta arranhada de gritar, uma pessoa dispersa. Encontramos livros, encontramos policiais. Aplicamo-nos no emprego. Eu volto à minha banda desenhada preferida (estou na 4ª leitura do 100 Bullets).
Entretenho-me, e muito, com o Barcelona - Madrid. Com a imprensa espanhola, com tudo o que este clássico mexe. 
Imagino-me com a Catarina e com os nossos filhos quanto estivermos a ver o Europeu de 2032 e falaremos, pela enésima vez, do que significou na nossa época este Barça - Madrid. Falaremos destes jogos e do duelo Messi - Ronaldo e Mourinho - Guardiola como o meu Pai fala do penalty do Panenka.

Quando, em 2008, estudava para o exame da especialidade, tinha o costume de estudar de noite. Jantava, bebia um café e depois entretinha-me a decorar tabelas e frases daquele livro maldito até chegar a hora da natação nos Jogos Olímpicos de Pequim. Depois, acordava a minha mãe e víamos os dois o Phelps. Não que eu e a minha mãe sejamos fãs de natação (não vejo natação há... 4 anos) ou do Phelps. Mas era história que se ia fazer. História, com letras maiúsculas. E nós queríamos estar acordados e ver e sentir aquilo, essa grandiosidade. Esse privilégio de um dia podermos dizer: "Eu vi.".

Falámos disto com o HB, sportinguista, de 24 para 25 de Abril. Falaremos disto. Falaremos disto muitas horas, esmiuçaremos cada jogada, lembraremos este duelo sempre: a melhor equipa da história contra a mais cara. Como Anquetil e Poulidor. 
Faz-me impressão que não se aprecie a história a acontecer à frente dos nossos olhos. Quando o Barça, com a maioria da equipa formada na sua cantera, com Guardiola no banco, se afogou naqueles jogadores do Chelsea, podemos ter assistido ao canto do cisne de uma equipa (quase?) perfeita, deliciosa nas suas tabelinhas, infantil na sua alegria. (Às horas a que escrevo, diz-se pela net que Guardiola não deve renovar).

O meu grande problema é que se este Barcelona - Madrid desaparecer, e quando digo este, refiro-me a Guardiola contra Mourinho, Messi contra Ronaldo e 937 milhões de euros investidos em Khedira, Benzema, Ozil, Xabi Alonso contra La Masia, com Iniesta e Xavi a trocarem a bola rente à relva e depressa, dizia eu, se este Barcelona - Madrid desaparecer, ser-me-à trágico. Trágico porque esta rivalidade, o nível futebolístico que se atingiu no 3-2 da Supertaça espanhola em Nou Camp, demorará anos a regressar. Este Barcelona - Madrid merecia uma final da Champions, com prolongamento, com polémica, com milhões colados ao ecrã a ver História e a poder dizer daqui a vários anos: "Eu vi.".

Mas não. Vai ser um Bayern - Chelsea. E sem distracções, volto ao Benfica. Suspiro. Vejo o Aimar lesionado no Benfica - Porto e é como se me observasse por fora do meu corpo, a gesticular, aflito. E depois a minha voz, gasta, rouca, a pedir o Matic e a tremer com o Rodrigo a acelerar lá do fundo.
A Catarina diz - e bem - que nas derrotas ela é mais raivosa, eu demasiado depressivo. São feitios e lamento se desiludo a secção vermelha que fala a minha língua e dos meus textos se espera encontrar aquelas palavras corajosas e audazes que animam qualquer um. Eu não sou assim. Fico profundamente triste e abatido. Não consigo imaginar o Marítimo a ganhar ao Porto porque não sou, simplesmente, assim. Eu sou um Benfiquista que não se entusiasmava com o Mantorras, portanto o problema é meu.

Um dia os meus filhos e da Catarina vão-me perguntar pelo Bayern - Chelsea e vou contar-lhes que foi uma pena o Ramires ("era um médio fabuloso, Eusébio" - direi eu ao nosso mais velho) não ter jogado, e logo de seguida uma enorme melancolia me invadirá. Vou-me perder a pensar no Barcelona de Guardiola e uma parte de mim tentará, ainda, adivinhar se teríamos ou não sido campeões se o Matic tivesse entrado pelo Aimar quando ganhávamos 2-1. Reescreverei 2011/2012 com um final feliz e sorrirei tristemente da minha melancolia pateta.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sorri, José

Eu sou do FCPorto. E não conheço nenhum portista que não tenha carinho por ti, mesmo que não o queira admitir. O que é o meu caso, a maioria das vezes. Mas o que tu fizeste por cá, o que nós fizemos juntos, foi único. E nós não nos esquecemos.

Há dias fáceis de recordar: o  golo no último minuto em Manchester e a cidade do Porto a tremer, como é óbvio. Mas há outros momentos que guardo como nossos, meus e teus, de adepta e treinador a fazerem história. Foi em Alverca, faltavam uns dias para o Natal. Um tempo horrível, uma viagem de camioneta interminável e o Derlei lesionado. Um jogo mesmo mauzinho, ganhámos à rasca, de fato-macaco vestido e foice na mão. No fim, estávamos todos cansados, a pensar que a cama ainda estava tão longe e tu viraste-te para nós e sorriste, convencido que, se até aqueles três pontos tínhamos conseguido, ninguém nos ia parar.

E assim foi. A Taça UEFA, a Champions, os campeonatos, as outras taças. Não falhaste. Não falhámos. Foram anos bonitos, que ambos sabíamos que tinham de terminar.

Como em qualquer relação vivida intensamente, a separação não foi bonita. Não vou escondê-lo: foi fácil esquecer-te, mas foi muito difícil superar-te. Ao longe, vi-te a levares a nossa alegria àqueles adeptos que mal sabem o que é ganhar um título e senti sempre que não te mereciam, não aqueles gajos que têm mais milhões do que campeões.

Depois saltaste para Itália e eu mal te pus a vista em cima. Perdoem-me os defensores do Calcio, mas já não há pachorra para aquilo há muito tempo. Ouvi dizer que criaste uma equipa de guerreiros e que voltaste ao topo do futebol europeu, mas, sinceramente, acho que ambos já fizemos por esquecer depressa aquele inter de 2010.

Fizeste bem em ir para Madrid. O real é um clube que te assenta bem. Tem títulos, tem glória e tem muita necessidade de ganhar. Só não contavas com este Barcelona. Na verdade, olhando para trás, nunca tinhas tido um rival à altura. Nunca te tinha visto a ser humilhado como naquela noite da “manita” ou em tantas outras que se seguiram. Guardiola trouxe-te um novo desafio: como ser melhor do que os melhores de sempre. E a verdade é que tu conseguiste. Não ser melhor, é um facto, mas pelo menos não ser pior. E ganhar.

Tu ganhaste-lhes. Quando ninguém esperava e quando meio mundo torcia pela remontada do Barça neste campeonato. Conseguiste, já está, vais ser campeão. No entanto, no fim, não estavas feliz. Agora, nunca estás. Vejo-te sempre com ar de zangado, a responder mal aos jornalistas e sempre a descarregar frustrações que normalmente não te atribuiria. Quando a tua equipa está numa meia-final da Champions e precisa de ti, ajoelhas-te, resignas-te, isolas-te com tristeza. O que te aconteceu pelo meio, José? Onde está aquele Mourinho que eu vi correr sob o calor de Sevilha? Onde está o Mourinho que, furioso, atirava casacos chiques para o chão? Onde está o Mourinho confiante que iamos vencer à Grécia, de punho fechado e dentes cerrados?

Anima-te, homem! Volta a gostar de futebol, por favor. O real é dos maus, mas eu quero-te bem. Não foste feito para ser o grande amor de um adepto, mas tenho a certeza que, se voltares a acreditar nos Derleis que por aí andam, ainda vais fazer muitas coisas bonitas. Esquece-te por momentos que ainda queres voltar a treinar em Inglaterra, que queres ganhar a Champions pelo máximo de clubes diferentes e que ainda tens muitas publicidades por gravar. Sê tu, o Mourinho daquela noite de Alverca, e curte o momento. Tu mereces, vá.  

No fundo, José, tenho saudades de te ver feliz.

domingo, 22 de abril de 2012

Até os comemos (sem tradução para catalão)

Sábado de clássico em Espanha é sábado de clássico em Portugal. O país pára, os jornais destacam, o povo aprecia. Muito porque por cá os ventos não sopram a favor da capital, é certo, mas sobretudo porque os nossos dois grandes vizinhos são os melhores do mundo. Também eu me confesso: adoro estes Barcelona-real madrid. Assim mesmo, um com maiúscula e o outro com minúscula, porque nem tinha piada não estar a torcer por um dos lados da barricada.

O Barcelona enche-me os olhos. Messi é de outro mundo. Xavi e Iniesta fazem bem à bola. Guardiola é lindo de morrer. Nunca vi jogar assim, mas o Barcelona é muito mais do que o tiki-taka. É uma região, uma identidade, um símbolo de luta contra o poder central. É impossível não me identificar.

Mas fico-me por aqui. Quero que o Barça ganhe, gosto de os ver, mas ontem nem sequer fiquei chateada. O real madrid foi melhor, Mourinho deu baile, Ronaldo decidiu e ninguém fala do primeiro golo em fora-de-jogo porque não foi ao contrário (também em Espanha, como cá, a arbitragem é pintada como um grande monstro mau que faz os melhores ganharem títulos).

E é aqui que tudo se explica. O Barcelona não é o meu clube. Se fosse, ontem tinha sido um dia muito difícil para mim. Tinha insultado o Pep, batido no Tello e cuspido no namorado daquela manequim da Intimissimi que não sabe falar inglês. Porra, nem quero imaginar. Nem conseguiria estar aqui a escrever isto. Mas, felizmente, sou do Porto.

E o Porto, perdoem-me os tons de sobranceria, mas ontem não tinha perdido aquele jogo. Num momento daqueles, com o rival ali em nossa casa, mesmo ao nosso dispor, depois de terem estado com tamanha vantagem (conseguida muito à custa de joguinhos com duas e três grandes penalidades por marcar), o Porto não falharia. Os outros até tremiam só de pensar. Entrariam de cabeça baixa, conformados, como que já à espera da natural humilhação que se iria seguir.

Ao Barça, provavelmente a melhor equipa de sempre com provavelmente o melhor jogador de sempre, faltou um “até os comemos” em catalão. A classe que demonstraram em Madrid quando estavam a perder devia ter-se transformado na garra que ontem deixaram em casa. Às vezes, mesmo sendo uma equipa de meninos perfeitos patrocinada pela Unicef, é preciso ser-se um grande filho da puta. E, ainda por cima, do outro lado estava alguém que sabe transmitir isso como ninguém aos seus jogadores, mesmo que estes sejam idiotas, burros e feios.

Nós, os adeptos do futebol, aplaudimos o campeonato vencido pelo real e esperamos pela final tão desejada da Champions. Mas nós, os portistas, ontem só sofremos com o FCPorto-beira-mar. Jogo paciente, ligeiramente descontrolado na primeira parte e com os anormais do costume a assobiarem. Por mim eram corridos todos a pontapé. Que vão torcer pelo Barça, ou pelo real, ou por outro qualquer.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Obrigada, presidente

Tenho 25 anos. O Porto sem Pinto da Costa, para mim, não existe. Não vivi os tempos vis e cruéis de domínio dos clubes da capital, quando passar a ponte era uma ameaça temível e ganhar um campeonato em cada cinco era uma grande vitória. Desconheço os cinco violinos, nunca vi Eusébio jogar.

A minha avó fala de Pedroto com ternura, o meu avô ainda hoje diz que Cubillas foi o melhor jogador de sempre do Porto. A minha mãe festejou o primeiro campeonato com 19 anos, o meu pai esperou esse tempo todo para ver nas Antas o golo que mudou o futebol português.


FCPorto 1977/78 - golo de Ademir contra Benfica por blogdoblueboy

Admiro o portismo deles, mas não os invejo. Eu tive a sorte de crescer com os Aliados em festa, as buzinas a apitar toda a noite e a cidade sempre azul. Tinha seis meses e já andava a gritar golo do Madjer em Viena. Com 12 anos aprendi a palavra penta. Ainda menor, fui a Sevilha e Gelsenkirchen. Já mulher adulta e com responsabilidades, não podia perder Dublin.

Ser do FCPorto, para mim, não é só uma alegria e um enorme orgulho. É algo de óbvio, é o mais natural, é o que qualquer miúdo escolhe. Já não me surpreende ver portistas do Minho ao Algarve. Não estranho nada um adepto de azul com sotaque lisboeta. Quando viajo para qualquer parte do mundo, digo sempre de peito cheio que sou do Porto campeão europeu com Mourinho (e cuspo para o chão mentalmente quando me respondem que então sou do país do Ronaldo).

Para mim e para a FIFA, mas não para o Record e A Bola, o FCPorto é o melhor clube português, tem o melhor palmarés e um domínio como nunca se viu igual. O Porto mete medo aos outros, humilha-os, faz-lhes mal. O portista é o rei do local de trabalho, do café, da bancada. A conversa do maior de Portugal e da maior rivalidade se sentir na Segunda Circular já não faz sentido para ninguém com as suas faculdades mentais intactas (ou seja, excluindo o Record e A Bola). Cá em casa, eu sou a que ganha, o M. é o que sofre. E os nossos filhos terão todo o direito de escolher qual deles preferem.

É-me mesmo muito fácil amar este clube. Não só porque representa a minha cidade, a minha região, a minha gente, mas sobretudo porque me faz constantemente feliz. Com 25 anos, ser adepta do FCPorto é isso: é ser feliz. E devo-o a uma pessoa, que hoje completa 30 felizes anos ao leme desta nossa paixão.


Jorge Nuno Pinto da Costa.

De todos os portistas, os que conheceram Cubillas e Pedroto, os que estiveram 19 anos sem ganhar e que viram o golo do Ademir nas Antas, e os que, como eu, passaram a vida a comemorar títulos,

Muito, muito obrigada.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Benfica, um conto noir

Estava deitado no meu escritório de ressaca. Doía-me a cabeça e o corpo e o meu hálito ainda fedia a whisky. Ultimamente, com a falta de casos, andava a sair mais à noite para esquecer a crise: ser detective privado em tempos de austeridade não compensa. Foi aí que o telefone tocou (eu já não tinha casos há tanto tempo que nem me lembrava do toque do telefone). Quando atendi, a voz do outro lado soava preocupada.
"Detective M.?" 
"Sim."
"Daqui é um adepto do Benfica. Vou precisar da sua ajuda."
"Farei o que puder."
"O Benfica desapareceu."

Ah, o Benfica. Acendi um cigarro e lembrei-me de 2009/2010, a última vez que beberamos um copo. Foi numa noite de chuva, na Luz, e acabámos a noite a dar um bom pontapé nos tomates do Porto. Foi uma boa noite, porque já não nos encontrávamos há uns bons anos. Tínhamos sido amigos desde sempre. Mas em 1995 o Benfica meteu-se com gente esquisita. Um tal de Artur Jorge, com a mania que era poeta, acabou por separá-lo de mim. De vez em quando telefonávamo-nos, mas desde aí senti que o Benfica tinha mudado. Um gajo não admite, mas sempre tive saudades dele e em 2009/2010 o reencontro foi mesmo bonito. Até fomos para os copos em Marselha. Mas os últimos dois anos foram esquisitos e o Benfica fez-me coisas que nem vos vou contar. Só que, apesar deste meu aspecto duro, sou um sentimentalão: eu tinha de aceitar o caso.

"Encontramo-nos na Luz daqui a uma hora."

Quando cheguei à Luz estava frio e chuviscava, como se Lisboa também sentisse falta do Benfica. Ao longe, cinco tipos bebiam cervejas numa roullote. Tive saudades de vir aqui com o Benfica. Acendi outro cigarro e estava a tentar não me arrepiar com recordações como Leverkusen quando o adepto me bateu no ombro.

"M.?"
"Muito prazer."
"Obrigado por ter aceite o caso."
"O que se passa? Quando foi a última vez que viu o Benfica?"
"Epá, o Benfica andava esquisito, mas animado, percebe? Um gajo via-o aí pelas ruas todo contente, como se tivesse o Mundo na mão e ninguém lhe quis dizer para ir trabalhar. O Benfica dizia que tinha tudo controlado e tal. E nós, os amigos mais chegados, acreditámos. Estávamos contentes de o ver assim, percebe? Depois de tudo o que o Benfica passou..."
"E o que é que aconteceu?"
"O Benfica foi para os copos em Guimarães e veio de lá um bocado marcado. A malta percebeu que a coisa já não ia tão bem. Depois foi a Coimbra e disse que tinha sido lá gamado e já andava a pedir guito à malta. Claro que para nós é difícil dizer que não..."
"Como assim?"
"Epá, é o Benfica."
"Mas não lhe disseram nada? Não era óbvio que as coisas andavam mal?"
"Eram, mas só quando tivemos aí uma noite má é que topámos. Estávamos todos aí na noite quando vimos o Porto a pontapear o Benfica no chão. Pontapés na cabeça, uma cena violenta, mesmo."
"Foda-se. Mas não sabem com quem é que o Benfica tem andado? Não há pistas."
"Epá, diz-se que o Benfica anda metido com um tipo da Amadora, o Jesus, não sei se já ouviste falar. Parece que o Jesus lhe prometeu trabalho e que ele ia ganhar o dobro, uma cena assim. Foi a última vez que soube do Benfica."
"Mete-te em casa, meu. O Jesus é um dos duros. Eu ligo-te quando tiver novidades."

Já tinha ouvido falar deste Jorge Jesus. Um tipo com fama de chico - esperto da Amadora. Cabelo esquisito, falar quase incompreensível. O tipo de gajo que tanto pode estar a beber um copo contigo como prestes a dar-te uma facada. Meti-me no carro e fui à Amadora.

Cheguei à Amadora e fui ter ao bar onde o Jesus costumava estar.
O ambiente era pesado. Motards da Amadora e muitos capangas. O Jesus era aquele tipo com a mania que é o rei da pista. Bebia a sua terceira Carlsberg cheio de si e a falar alto, contando histórias que pareciam inventadas sempre na primeira pessoa.  Como é que o Benfica se tinha aproximado de um tipo assim? Cheguei-me ao pé do tipo e pedi um whisky.
"Sabes, Jesus, Carlsbergs qualquer um bebe. Podias era fazer-te homem e pedir um whisky."
O cabrão olhou para mim com aquele ar de marialva, desafiador, à espera que o bar todo o apoiasse se andássemos à porrada.
"Era mesme de um tipo come tu que eu estava à espera no sorteio para me animar o dia."
"Jesus, e se te deixasses de tangas e me dissesses onde é que está o Benfica?"
"Deves ter a mania, tu... O Benfica está muito bem d`sde ca começou a trabalhar pa mim e pó patrão. O Benfica é nosso, meu. E põe-te daqui pa fora."

Quem seria o patrão? A cara e o discurso do tipo estavam-me a irritar, mas o mais importante era desmascará-lo. Resolvi enervá-lo:
"Eu saio do bar, Jota. Não me quero meter com gajos que ficaram atrás do Nacional do Manuel Machado..."

O tipo enervou-se e sacou uma faca. Atirou-se todo para a frente contra mim. Só tive de me desviar e deixá-lo cair. Enchi-o de pontapés na cabeça. Não curto gajos que se acham superiores ao Benfica. Deixei o gajo cheio de sangue e o bar não fez nada. Afinal, muita gente não curtia o gajo.
Peguei-lhe na cabeça pelo cabelo pintado e disse-lhe ao ouvido: "O teu problema, Jesus... É que treinas mais o ataque do que a defesa.". Mas não valia a pena, o anormal já não respirava.
Acendi um cigarro fora do bar e enquanto matutava sobre quem seria o famoso patrão, um tipo argentino chegou-se a mim. Um Aimar.
"Mira: el jefe de Jesus es Vieira. Se echas a Vieira, recuperas el Benfica."

Vieira. Vieira. Só o nome pôs-me mal disposto. Esse tipo tinha uma fama do pior. Havia quem dissesse que ele era sócio do Porto. Só de me lembrar disso cuspi para o chão, enojado. Como é que o Benfica, o meu Benfica, tinha acabado misturado com esta gente? Com esta corja de aldrabões, de bandidos? O Vieira era conhecido como um escroque do pior: tráfico de jogadores em camiões, eleições muito duvidosas e um crescimento à custa de mentiras e jornalistas comprados.
Lembro-me vagamente do Benfica me ter falado nele. O cabrão prometeu ao Benfica ter uma super equipa a trabalhar com ele. Só portugueses (vão ser a tua espinha dorsal!, prometeu o bandido). Prometeu-lhe tudo: casa, finanças organizadas e uma vida do caraças. Na altura disse ao Benfica que a coisa me parecia suspeita (o tipo antes era amigo do Polvo), mas o Benfica estava a recuperar de uma fase difícil e deve ter acreditado.

Eu sei que o adepto é que mo tinha pedido, mas fazia-o mais por mim e pela minha ligação ao Benfica do que pelo caso em si. Verifiquei que o revólver tinha balas e mandei mensagem ao adepto para ir ter comigo à noite, ao meu escritório. Meti-me no carro e fui direito à mansão do Vieira.
A entrada estava bem guardada: aqueles guarda costas, o Delgado e o Gomes da Silva, tinham montado um bom esquema de segurança. Mas só contra os papalvos, porque as brechas eram demasiado evidentes. Saltei o muro d`"A Bola" e entrei calmamente.
Lá dentro a coisa tornou-se mais labiríntica. Tive que me esconder enquanto passavam cá para forma uma série de estrangeiros ilegais, claramente em tráfico: Zahovic,  Pesaresi, Moretto, Marcel, Andrez Diaz e muitos outros pequenos bandidos há muito desaparecidos do submundo da Luz. Avancei por um longo corredor de revólver em punho e parei perto de uma porta entreaberta. Lá dentro, um homem conversava ao telefone: "...Está tratada a transferência para Zaragoza. Sim, sim. Depois falamos para Madrid outra vez. ... Não, não. Já te disse que este ano não. Depois do Sálvio e do Reyes dá muita cana.... Vá, um abraço, hombre"
Do Benfica nem sinal. Avancei em silêncio e encontrei a porta principal. Espreitei e lá estava o Benfica à mesa com o Vieira. Atrás dele, o emblema de 25 anos de sócio do Porto.
Entrei de repente, de pistola em punho.
"Anda, Benfica, vamos para casa."
"M.? Que é que fazes aqui?"
"Vim buscar-te. Há muita gente preocupada contigo. Larga este gajo, é um bandido, não te quer bem, só te quer usar."
O Benfica pareceu confuso, olhando para mim e para o Vieira alternadamente.
"Não sejas assim, M. Tu sabes que eu já estive pior. Lembras-te de quando eu me dava com o Vale?"
"Cala-te, caralho. E anda para casa. Nem Vales nem Vieiras. Caga neste gajo."
"Epá, M., tens de ter calma. O Sr. Vieira deu-me uma casa nova."

Peguei-lhe no braço e gritei-lhe: "Benfica: nos últimos onze anos, foste feliz? Diz-me, foste feliz? Saíste à rua, voaste pelo Marquês? Viajaste pela Europa, orgulhoso de ti? Diz-me, porra, diz-me!"

Mas, antes que o Benfica me respondesse, senti o ardor da primeira bala nas costas. Uma sensação quente e vazia ao mesmo tempo. Depois senti a segunda e a terceira bala nas costas e o sabor do sangue a vir-me à boca. Quando caí de joelhos, vi o adepto entrar, de arma na mão. Quando meus olhos começaram a ficar vermelhos, só tive tempo de o ver levar o Benfica outra vez para junto da secretária de Vieira. Tinha sido tramado e usado. Tinha matado o Jesus, mas o Benfica tinha ficado outra vez nas mãos de Vieira.

Caí desamparado, recordando aquela noite em Leverkusen, onde eu e o Benfica parecíamos unidos para sempre.


quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chamem a polícia

Tive uma infância feliz. Nunca rachei a cabeça, gostava de ir à escola e não conhecia nenhum lagarto. Fui obrigada, portanto, a criar uma imagem do adepto do sportem à distância. Foram anos de estudos antropológicos através da Sporttv.

O lagarto, para a C. que não conhecia nenhum, era aquele gajo com um ar altivo, nobre, convencido até, que à primeira vista parece que está muito orgulhoso pelos feitos do seu clube, mas que afinal só acredita mesmo que nasceu com um sangue de cor diferente e que os genes valem mais do que as vitórias, porque essas, enfim, são uma miragem constante.

Imaginei sempre um adepto a tirar o cachecol muito bem arrumado da gaveta dos pólos e a colocá-lo aos ombros. Nunca percebi porquê, mas só os adeptos do sportem é que colocam o cachecol aos ombros, sem dobras ou nós ou essas coisas tão pouco fashion. E ele não cai! Se isto não é nobreza…

O cachecol está limpinho e é verde, uma cor horrível, ninguém se veste assim num dia normal. Mas lá vão eles, todos empertigados, para um dos estádios mais feios do mundo, cantar pela “equipa belíssima”. Belíssima? A sério? É mesmo assim que vocês gostam de adjectivar um grupo de 11 homens suados, valentões, machos à séria, como o José António Saraiva gosta? Adiante.

Entre mim e o sportem poderia ter nascido uma enorme indiferença nessa altura, mas não. Eu vi o que se passou em Campo Maior e percebi que tinha de odiar aquele clube. Vê-los a festejar o campeonato do Bruno Paixão (mas festejar à maluca, com alguns “bolas” e “poças” pelo meio, e o cachecol sempre sem cair dos ombros) gerou em mim uma animosidade tal que o lagarto desconhecido passou a ser realmente de uma elite, mas não de uma vanguarda cultural ou de uma minoria intelectual. Antes de uma elite parva, que acha que perder consecutivamente é ter uma oportunidade de mostrar ainda mais o seu amor, que sente a infelicidade como uma vantagem e que vai acabar a festejar quartos lugares. Ah, esperem, isso já aconteceu.

Esta elite acha-se um degrau acima de todos os outros adeptos, os que dizem asneiras e sujam os cachecóis, mas depois tem rapazes cocaínados a invadir relvados, comentadores aos gritos na televisão e pancadaria nas eleições. E, agora, tem um vice-presidente que pagou a um árbitro antes de um jogo. É bom demais para ser verdade.

Que me perdoem os verdadeiros adeptos do sportem que entretanto conheci. O J., que sofre como nós, que diz asneiras e que aposto que tem um cachecol sujo. O pequeno J., que chorou quando o Moutinho saiu e que me disse que não vê jogos do Porto e do benfica (o meu sonho é conseguir ter este deprezo pelos adversários). Também os há, é verdade, e espero que não leiam este meu desabafo dirigido a todos os lagartos que hoje viram a PJ encontrar um clube corrupto, com armadilhas sombrias e trapaceiros ao leme.

Muitos hão-de gritar e espernear que eu e o M. não temos moral nenhuma para vos atirar isto à cara. Pois não, não temos. Mas a partir de agora, finalmente, vocês também não.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vergonha para todos

Nada está ganho, nada está perdido. Se há coisa que este campeonato demonstrou é que qualquer equipa pode perder pontos em qualquer campo, até em alvalade. Quatro (que na prática são cinco) pontos de distância entre o primeiro e o segundo classificados parece muito quando faltam apenas quatro jornadas para o fim, mas sabe-me a pouco quando o primeiro é o Porto e o segundo é outro qualquer. Guardemos, então, as celebrações para mais tarde.

A hora é de vergonha. Desde logo, vergonha para os adeptos do Porto que passaram a época a desfazer o treinador e a assobiar a equipa. E não venham agora tentar disfarçar. Nós sabemos quem vocês são e, caso isto acabe bem, não vos vamos deixar festejar tanto como nós. Sintam a vergonha de não terem contribuído em nada para este possível sucesso. Aprendam com os erros e, para o ano, espero não vos encontrar na bancada a repetirem as tristes figuras.

Vergonha, claro, para os adeptos do benfica. A confirmar-se o cenário mais provável, este campeonato talvez não seja uma grande vitória, mas será certamente uma enorme derrota. Os sinais que agora tantos apregoam como verdades absolutas – o treinador idiota, os reforços desequilibrados e a direcção irresponsável – estiveram sempre lá. Sempre, mesmo quando foram campeões. Demoraram foi demasiado tempo a ver a luz ao fundo do túnel, sendo que a palavra túnel não apareceu aqui por acaso. Levaram 5, viram-nos ser campeões em casa deles e ainda levaram com aquela reviravolta humilhante. Mas continuaram a achar-se os maiores, a aplaudir o Jasus e o seu 4-0-caos. Eu gostei, confesso, porque se há coisa que me apraz é ver um adversário aos gritos com o fora-de-jogo do Maicon (recordo: dois minutos depois da grande defesa do Cardozo na área) em vez de pensar no que significa perder cinco pontos de vantagem para os mesmos de sempre, mas que este ano nem sequer tiveram de se empenhar muito. Gritem, gritem muito. Eu não me esqueço de Barcelos, da Feira, de Olhão e de tantos outros. E, enquanto fazem isso, não parem para pensar em responsabilidades. Deixem o presidente do benfica campeão europeu e “coluna vertebral da selecção” em paz. Não me venham agora dizer que a culpa é do Jasus, quando vocês tanto aplaudiram aquele meio-campo vazio e negligente. E muito menos apontem o dedo ao grande capitão Luisão, que acaba expulso quando se irrita, ao menino bonito Javi Garcia, que não faz mal a uma mosca (a menos que seja preta), aos valiosos Gaitan, Nolito, Bruno César, Cardozo, Rodrigo, Saviola e Nélson Oliveira, que se apagam nos jogos mais importantes da vida de um adepto, mas que são “munta fortes” contra os leirias que andam por aí. Não façam isso, por favor.

Vergonha, ainda, para os adeptos do sportem. É verdade que o futebol dá tantas voltas que, vá-se lá saber como, continuam na Liga Europa e até podem ganhar a Taça. É estranho, eu sei, e talvez seja um grande feito para vocês. Mas festejar um quarto lugar no relvado daquela maneira? Eu sei que faço parte da geração que vai deixar de dizer “os três grandes”, porque aquele argumento do palmarés começa a ser estúpido quando se fica tão para trás nos títulos nacionais e não se ganham troféus internacionais. Ainda assim, tenham algum recato. Não é por mim, que devo ter festejado mais do que vocês, mas é pelos vossos filhos e netos, que poderão não conseguir escolher um clube vencedor, mas pelo menos devem ter direito a sentir-se infelizes por isso.

Repito: nada está ganho, nada está perdido. Vamos a eles. Quero festejar esta merda de vez.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quando for grande quero ser jogadora de futebol

Não é fácil ser mulher e gostar de futebol desta forma. Os homens, por muito que não queiram, acham-se donos e senhores do fanatismo e, mesmo quando percebem o meu nível de loucura, parece que têm medo de discutir um 4-4-2 à minha frente. Não é por mal, eu sei, mas foi e será sempre assim.

A culpa é minha, que quando era miúda preferia mil vezes uma Barbie a uma bola. Quase não falava com os meninos e muito menos brincava com eles. O problema é que, em casa, os meus companheiros de brincadeira eram o meu irmão e dois primos. E eles eram um bocadinho estalinistas no que aos passatempos diz respeito. Nunca consegui convencê-los sequer que fazer do Action Man o namorado da Barbie não era uma cena maricas.

Fui obrigada a jogar tanto futebol que comecei a gostar mesmo daquilo. O melhor foi quando eles decidiram fazer as equipas para um campeonato que terá durado uns 5 anos: eu e a minha prima S. de um lado e os três marmanjos do outro. Estavam convencidos que iam humilhar as meninas, mas ganhámos os jogos todos. Mas assim mesmo fácil. Vergonha eterna para eles.

Na escola começaram a dizer que eu até tinha jeito. Nas aulas de Educação Física (eu não jogava à bola nos intervalos, claro, porque isso ia estragar a minha popularidade feminina), as maiores estrelas dos rapazes dividiam-se para fazer as equipas. Escolhiam primeiro os melhores amigos, aqueles com quem trocavam ranho nas camisolas e cuspo nos calções. A maior glória que alcancei é que era sempre a primeira menina a ser escolhida, antes até do que os gordos, os caixas-de-óculos e os que não tinham a mínima coordenação motora.

Conforme fui crescendo, havia menos desculpas para jogar futebol. Mas nas férias lá nos juntávamos todos para torneios de grande gabarito como o célebre “seis ou sete equipas nortenhas VS uma pobre equipa lisboeta” da época 1999/2000. Eu calhei na equipa dos veteranos, os jovens de 20 e tal anos que tiveram pena da menina que queria jogar. As outras equipas estavam recheadas de adolescentes com borbulhas e hormonas a rebentar, prontos a tirar as t-shirts nos golos para mostrarem os pseudo-abdominais às moças da plateia. Alguns jogavam com equipamentos completos, chuteiras de última geração, tinham tudo para ganhar. Os meus eram os que já fumavam há imensos anos, que bebiam tanta cerveja que já tinham barriga e que, agora à luz dos anos percebo, deviam estar com uma bela ressaca para me escolherem a mim.

Disseram-me para ficar à frente, “na mama”, como se diz na nossa terra, à espera que me passassem a bola. No fundo a intenção era que eu não atrapalhasse. Mas os jogos começaram – jogavam duas equipas de cada vez, quem ganhasse ficava no campo e entrava outra, sempre a rodar – e fez-se história naquele parque de campismo.

Ganhámos os jogos todos, eu fui a melhor marcadora e os veteranos de 20 e tal anos aguentaram estoicamente até ao fim. Foi lindo ver os adolescentes borbulhosos com ar de parvos, enervados pela miúda que jogada de vestido e sapatilhas de ténis, mas que os fintava como um Deco, cruzava como um Capucho e marcava como um Jardel (não terá sido assim tão perfeito, mas deixem a minha memória em paz). Ali, naquela tarde, convenci os meus amigos que aquilo de eu gostar de futebol não era uma moda ou um capricho.

E ainda hoje tenho de o fazer, de vez em quando, aos homens que olham para mim com um ar enternecido de quem pensa “ai que giro que é esta jovem ser tão portista”. Embora já não tenha o mínimo jeito para jogar futebol, faço-o, inconscientemente, quando o adepto desconhecido na bancada pergunta quem vai substituir o Fernando e eu, que estou a olhar para o aquecimento há 10 minutos, digo Defour como quem diz “seu grande anormal”.

Hoje, aos 25 anos, consigo ser suficientemente racional para saber que nunca vou ser jogadora de futebol. Nunca poderei vestir a camisola do meu clube, entrar em braga e comer a relva para ser campeã. É uma pena, o potencial parece-me estar todo lá. Resta-me ficar na bancada, a aplaudir os meus heróis e a conversar sobre aquele Dortmund-Estugarda brutal. O futebol é isto, não é meus senhores?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sífilis Clube de Portugal

Segunda feira jogamos a época em Alvalade. Um derby que, sendo decisivo, será mais um marco na lenda do derby de Lisboa. No Benfica - Sporting jogam-se duas histórias feitas em paralelo. Paralelo não será bem o termo, porque a direcção do insucesso do Sporting estava escrita nos seus genes. As rectas separaram-se cedo. Quero dizer: não é bem isto, porque o Sporting só teve equipa de futebol quando conseguiu roubar jogadores ao Benfica. 
Quem são, então, os nossos vizinhos? Quem é este clube que nos irrita tanto, a quem damos uma importância que, claramente, não tem? Quem é, de onde veio o Sporting? Por que é que lhes chamamos Viscondes com ar de gozo? O que é aquilo dos prémios Stromp?


A foto acima é quase um retrato de uma história com muitos anos. Cosme Damião, fundador do Benfica, exibe uma elegantíssima jaqueta vermelha, bordada com um emblema que o Mundo inteiro conhecerá e admirará. Cosme Damião enche a fotografia. É como se só víssemos vermelho. A fotografia, a bem dizer, é sobre ele, e todos os outros são figurantes. Os outros dois senhores de facto admiram-no, como que impressionados. Cosme Damião, que cometeu apenas um pecado na vida - ter sido suficientemente cavalheiro para disputar um jogo amigável com a camisola dos eternos rivais (momento mais alto da história do Sporting) - tem um ar educado sem ser snob, um ar confiante sem ser malcriado. E está de vermelho. De um vermelho enormíssimo, belíssimo, aquele vermelho que me preenche. 

E a outra figura, quem é? Francisco Stromp? Stromp? Que raio de nome é esse? Para já, vários pormenores me saltam à vista: Stromp está a mais na fotografia. Sente-se a mais. Stromp está incomodado com o à vontade de Cosme Damião. Está incomodado com aquele vermelho que apaga tudo à volta. Reparo ainda que Stromp não tem emblema na sua camisola, que é, aliás, horrorosa. Uma junção de meia camisa branca com meia camisa verde. Sem emblema. Vê-se na sua cara, na sua expressão incomodada, que Stromp sabe que está mal vestido, que não está à altura. Ou então, pelo gesto da mão esquerda, tem as cuecas enfiadas no rabo e está a ver se safa. Cosme Damião finge que não vê - que educação, senhores!

Mas, correndo o risco de ser injusto para com os nossos vizinhos, investiguemos mais acerca de Stromp, cuja fotografia horrível pode ter sido um momento mau único na carreira, nódoa numa vida imaculada. Estudemo-lo, então. Segundo a Wikipédia, Francisco Stromp é sócio fundador do Sporting. Juntamente com nomes como José Maria Gavazzo, Alfredo Augusto das Neves Holtreman e João H. Scarlet. Uma pessoa vê logo pelos nomes que aquilo era coisa de gente fina e distinta, que subiu a custo e a pulso na vida. Este Holtreman, pelos vistos, era o avozinho do José de Alvalade e resolveu oferecer-lhe terrenos da própria quinta para o netinho brincar com os amigos. 
Criava-se assim, neste clima de enormes dificuldades financeiras e logísticas, o Sporting Clube de Portugal.

Mas este Francisco Stromp, cujo nome já baptizou curvas em Alvalade e equipamentos, quem foi? Era um homem orgulhoso de ser do Sporting? Viveu até aos cem anos nas quintas do avô, a tempo de viver os 5 violinos ou a final Taça UEFA em casa?
Segundo a Wikipédia, Francisco Stromp "era a alma da equipa, apelava ao Sportinguismo de todos, e fazia-o de tal forma que conseguia sempre unir o grupo e viveu quase exclusivamente para o Sporting, o clube era a sua grande e única paixão."
Epá, o tipo era um lagarto à séria. Já estou a ver porque é que os verdes gostam tanto dele. E, segundo a Wikipédia, era um atleta e tanto: jogava disco e falam de um jogo em que até jogou à baliza.
Mas será que isto faz sentido? Estará nos genes do Sporting ter um atleta distinto, cavalheiro? Ganhador?! Bem, Cazal Ribeiro ficaria orgulhoso de saber que Stromp chegou a estar preso por estar "envolvido na preparação do golpe para a restauração da monarquia", não fossem os Holtremans ficar sem as suas regalias. 
Bom, como terão sido então, os últimos anos deste grande emblema do Sporting?

"Mas a doença" - epá, a doença?! Mas o homem ficou doente? Um atleta destes? Um cavalheiro? Mas o que é que lhe aconteceu? Foi uma lesão, fruto do excesso de desporto? Foi num duelo à pistola porque alguém ofendeu o Sporting ou o rei? O que é que aconteceu? Que doença foi? Que doença apanhou este modelo de virtudes?!

"a sífilis, seria a sua sentença de morte."

A sífilis? O gajo tinha sífilis? Mas... Mas... A sífilis não é aquela doença que se transmite... quando se vai às... Epá, sífilis... Mas então... Sífilis? Mas então o Stromp, que era tão bom rapaz e desportista, monárquico e tudo, apanhou sífilis? Querem ver que o bom do Stromp, em linguagem futebolística moderna, comeu fruta?

E como é que souberam que ele tinha sífilis? Caiu estoirado no meio do chão a meio de um jogo, já com o coração afectado? Como foi o diagnóstico? Terá ele desmaiado a meio de um chá com os seus amigos, aterrorizados com a vinda da República, quando subitamente Stromp diz: "Estou a sentir uma certa comichão na virilha" (será que é esse o prurido que incomoda Stromp na fotografia, e que o pobre tenta defender com uma discreta coçadela com a mão esquerda?)? Como viveram os Stromp e o Sportinguismo o drama? 

"O seu pai, médico famoso, detectou-lhe o mal quando ele o surpreendeu a querer comer a sopa com um garfo"

Vamos todos fazer uma pausa para ler isto outra vez. (sopa com um garfo? Foda-se, estavas todo queimadinho, ó Stromp)
Portanto, o "capitão-geral do futebol" do Sporting comia sopa com um garfo. Deixa-me lá ver se entendi: viram-no a comer sopa com um garfo e foi aí que o seu pai lhe disse "Chico, quantas vezes já lhe expliquei que esse garfo é o da salada!", foi? Este tipo era o capitão - geral? Era ele que dava a táctica, fazia os discursos empolgantes? Um gajo que comia sopa com um garfo? 
E ninguém estranhou antes? Quando ele começou a dizer: "Rapazes, hoje vamos tentar uma coisa nova: eu, que sou avançado, jogarei a guarda - redes!" ninguém sussurou no balneário: "Porra, o Stromp deve andar cheio de sífilis naqueles cornos"? Não? Pelos vistos não. 

Mas pronto, Francisco Stromp, segundo rezam as crónicas, era um cavalheiro cheio de valores e estou certo que aguentou estoicamente o facto da doença não ter cura, atribuindo à loucura da sífilis os sucessivos insucessos que o seu clube foi sofrendo. Vamos continuar a ler a Wikipédia, vamos ler a condigna morte no leito de um sócio - fundador do Sporting:

A 1 de Julho de 1930, com trinta e oito anos, faleceu por vontade própria, na agonia da sua doença, escolhendo o dia em que o Sporting festejava o seu 24º aniversário. Levantou-se cedo, mas em vez de ir para o Banco Ultramarino, como sempre ia, tomou o caminho da Estação de Comboios de Sete-Rios, quando se apercebeu do comboio, despiu o casaco e correu para ele de braços abertos, assim se suicidou o primeiro grande capitão e treinador do Sporting.

Portanto, o tipo dos prémios Stromp, do equipamento Stromp e que até tem um busto e que era o maior da rua dele... matou-se? Suicidou-se? Bem, isto é tão à Sporting! Agora já percebemos porque é que o Rogério falhou aquela bola na final da UEFA e aquilo acaba com um golo do CSKA: o Sporting fez um Stromp! 
Reparem, eu não levo mal o pobre do Francisco-que-foi-às-meninas. Se a mim me dissessem: o que é que fazias se inventasses o Sporting? "Por-me debaixo de um comboio em Sete Rios" ia estar nas minhas primeiras 3 respostas. No fundo, para quem comia sopa com o garfo, o homem teve um instante de lucidez! E no próprio aniversário do clube! Isto é de um simbolismo mágico, está tudo lá! 
Portanto, a grande figura mítica do Sportinguismo é um tipo nobre que ia à meninas e que acabou a comer sopa com um garfo e que se matou no dia do aniversário do Sporting. Isto não tem preço. Mas melhor, melhor, só esta citação que cita o próprio site dos nossos vizinhos:


Amante? Amante? É melhor o Sporting ir fazer análises.



terça-feira, 3 de abril de 2012

Apaguem as luzes

Há momentos na vida impossíveis de esquecer. Momentos de felicidade, de excitação, e em que o mundo parece perfeito. O nascimento do meu irmão, os 50 anos de casados dos meus avós, o primeiro beijo, o M. a aparecer-me à frente. Os factos esvaem-se com o passar dos anos, ficam nublados, às vezes até confusos, mas na memória ficam pequenos e deliciosos pormenores.

Lembro-me de não me deixarem ver o meu irmão e de a minha tia C. me levar para um café comer chicletes. Lembro-me de um olhar trocado entre os meus avós, 50 anos depois do primeiro “sim”, como que a dizerem um ao outro que aquele amor ainda tem tanto por viver. Lembro-me das escadas da escola, com o C., e do encostar desajeitado dos lábios. Lembro-me da cara do M., atrevida, quando mandou uma boca sobre o Porto mesmo para eu ouvir.

E, depois, há os momentos na vida que ultrapassam tudo isso. Momentos em que nos sentimos maiores do que os outros, orgulhosos, únicos, capazes de tornar o mundo melhor. Imagino que o nascimento de um filho, o escrever de um livro e o plantar de uma árvore entrem nessa categoria. Nunca fiz nenhum dos três, mas já me senti assim. Em Sevilha, claro, porque houve ali algo de mágico. Em Gelsenkirchen, porque toquei no céu. Em Dublin, porque conheci o poder da invencibilidade. Em tantos estádios por aí fora, com histórias incríveis para contar. E na luz, há exactamente um ano.

É curioso como já me esqueci de tanto sobre esse dia. Não faço a mínima ideia de como estava o tempo. Não me recordo do que se passava no mundo ou no país. Não sei a que horas foi o jogo, como estava vestida ou o que comi. Só retive o essencial.

O meu pai veio buscar-me a casa e fomos para o local da concentração de carro. Fizemos o habitual cortejo juntos, rimo-nos dos cânticos e piadas que só surgem no meio de uma multidão azul e branca, atravessámos as bolas de golfe e a entrada caótica e despedimo-nos. Cada um para o seu lado, como é habitual: eu para os índios, ele para os intelectuais da bola, se é que não vai dar tudo ao mesmo.

A confusão era tanta que fiquei no primeiro lugar disponível. À volta, rostos mais ou menos conhecidos destas andanças. Miúdos em êxtase a mostrarem os cinco dedos da mão aos adversários. Graúdos preocupados com o onze, a discutirem opções e estratégias. O campeonato estava decidido, é certo, mas ali poderia fazer-se história.

E fez-se. O Guarin chuta e o Roberto (pausa para a devida vénia) ajuda-nos. O árbitro rouba-nos escandalosamente. O Hulk mata aquela merda. Noventa minutos de felicidade, de excitação, e em que o mundo parece perfeito.

E, finalmente, o apito final. Acredito que ter um filho seja um sentimento fortíssimo, mas acho que nem no parto vou gritar tanto como ali. Parecia que o tempo tinha parado para me dar aquela oportunidade de ser feliz. Agarrei-me aos desconhecidos, tenho ideia até que um deles me deu um beijo na testa, disse asneiras, cantei, saltei, fiquei toda despenteada e suada. Não conseguia parar. Queria ficar ali, naquele momento, para sempre.

Nem me lembro de olhar para os tristes lampiões. Aquele momento era nosso, só nosso, e eles iam embora para casa (o M., homem mais inteligente que eu conheço, já tinha ido há muito tempo). Só me lembro dos jogadores a correrem até nós, das luzes a apagaram-se e da água a sair do relvado.

Foi demasiado lindo, forte, arrebatador. Quem lá esteve sabe do que falo. Quem não esteve, certamente recordará esse momento de outra maneira qualquer: a família em casa a festejar, os abraços dos amigos do café, as mensagens escritas para todos os que sabem o que é ser campeão em casa do maior rival.

Se há coisa da qual me recordo perfeitamente do dia 3 de Abril de 2011 é do regresso a casa, a ouvir as celebrações portistas por todo o lado através da rádio. O meu pai conduzia, mas não conseguia tirar aquele sorriso da cara. Nem falávamos. Falar ia colocar os verbos no passado e nós só queríamos poder voltar à luz mais um bocadinho, só mais uns minutos, uns dias, uns anos.

Lisboa tinha muito azul nessa noite. Lá em casa, o M. dormia e eu fiquei na sala, de janela aberta e luz apagada, a ouvir as buzinas portistas. Mais do que a emocionante vitória, mais do que o inesquecível campeonato, o que eu senti naquele momento foi um enorme orgulho em ser do Futebol Clube do Porto.

Um ano depois, obrigada por terem sido campeões na luz. E que venha o próximo!