quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fuga para a vitória

“Em 1942, os nazis pensavam que estavam sentados no topo do mundo”. É com esta frase que arranca o trailer de um dos filmes de bola mais famosos de sempre. “Escape to Victory” é a história ficcionada de um jogo de futebol entre a selecção alemã, a jogar em casa, perante os grandes oficiais nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, e um grupo de prisioneiros dos aliados que quer fugir do campo de concentração.

O filme nem é grande coisa. Conta com a participação de Pelé, que fala o pior inglês de sempre, mas marca um golo de pontapé de bicicleta, porque os americanos pensam que isto é uma coisa que acontece todos os dias no futebol europeu. Com o aproximar da vitória dos aliados, os adeptos começam a cantar o hino francês, num momento arrepiante, mas completamente falso. Até que Sylvester Stallone, que seria, por si só, um motivo para não ver o filme, defende um penalty ridículo, em câmara lenta, em que parece agarrar um balão com as duas mãos e um enorme à-vontade.




O realizador norte-americano inspirou-se na história, já aqui relatada pelo M., do FC Start. No entanto, no filme, o final é mais feliz: os prisioneiros conseguem fugir devido à invasão de campo, disfarçados no meio do povo. Até o Pelé, que como se sabe tem um tom de pele que era muito característico na Alemanha de Hitler.

O que “Escape to Victory” tem de inspirador é que simboliza o poder que o futebol tem perante todas as contrariedades, sejam elas financeiras, sociais ou políticas. E foi deste filme que me lembrei quando se confirmou o Alemanha-Grécia desta sexta-feira.

É verdade que, à partida, é bastante exagerado comparar a Alemanha de Hitler à Alemanha de Merkel, ou comparar a exterminação dos judeus à exterminação dos países periféricos, ou comparar a propaganda nazi à propaganda pseudo-europeísta. Mas o que não podemos negar é que o Alemanha-Grécia não será apenas um jogo de futebol.

Na sexta-feira, vão entrar em campo um país dominador e um país subserviente. Nas bancadas, estarão adeptos que foram aumentados este mês e adeptos que vêem os seus salários cortados há meses. Angela Merkel, o rosto da austeridade, poderá olhar para o banco grego e ver Fernando Santos, um português duplamente resgatado. Por toda a Grécia, e menos de uma semana depois de a ilusão de um salvador radical se ter evaporado, vai torcer-se não só contra Neuer, Ozil e Gomez, mas também contra o FMI, o BCE e a Comissão Europeia.

Infelizmente, a diferença entre a Alemanha e a Grécia no relvado parece ser ainda maior do que na taxa desemprego. Os alemães estão sentados no topo do mundo, têm jogadores muito melhores, uma equipa quase perfeita e, se for preciso, a UEFA de Platini ao seu lado. Os gregos não têm praticamente nada. E é isso que torna a coisa ainda mais bonita: apesar de, provavelmente, a Alemanha acabar por golear a Grécia, se, muito por acaso, aqueles 90 minutos forem uma loucura e os gregos passarem, haverá todo um continente farto de troikas a festejar.

“Now is the time for heroes”. O trailer do filme acaba assim. E eu estou a torcer para que, amanhã, haja heróis gregos na Polónia.




(A equipa do filme e a equipa do FC Start) 

terça-feira, 19 de junho de 2012

Messi e Maradona: o craque e o Robin dos Bosques

Não serve este texto para comparar, outra vez, Cristiano Ronaldo e Messi. Deixamos essas comparações para os madridistas e para portugueses como o Nuno Luz. Quando, cá em casa, falamos de Leo Messi, a única comparação que nos surge é com Deus, Diego Armando Maradona.

Há jogadores que passam uma carreira a um degrau de serem os melhores da sua geração, como Totti, Modric e Aimar. São génios que ficam só (?) no coração. Depois há os que, sendo os melhores da sua geração, têm que pedir licença para entrar no domínio dos deuses. Poderá Romário ser equiparado a Cruyff? E por que é que Platini é considerado melhor do que Eusébio (esta é retórica)? E, depois, entre os melhores dos melhores, há um Brasil–Argentina particular entre Pelé e Diego Armando Maradona. Mas já lá vamos.

Leo Messi é o melhor que já vi. Melhor que Ronaldo, o Fenómeno, melhor que Zidane. Quando a bola lhe chega aos pés é o fim do mundo. Não há táctica nem gigantes que apanhem aquele pé esquerdo que sabe todos os caminhos até à baliza. A maneira como as ancas mentem e vão desviando adversários e a frieza com que encara os guarda-redes fazem de Leo Messi o maior génio que tive o prazer de ver. São tantos e tantos os golos e as fintas que me marcaram que é difícil enumerar. Será, então, Leo melhor que Diego?
Futebolisticamente, arrisco: sim. Messi é o melhor de todos os tempos. É mais matador do que Maradona e tem um pé esquerdo equivalente (que ousadia, Manel, que ousadia que tu acabaste de escrever!). Com uns assustadores 24 anos, Messi tem 5 campeonatos, 3 champions, 2 supertaças europeias, 2 campeonatos do mundo por clubes e é medalha de ouro dos Jogos Olímpicos. Tem três bolas de ouro e este ano pulverizou o recorde europeu de golos numa época. Dá vontade de chorar.

Mas o futebol é mais do que a soma de títulos, muito mais. Se o nosso clube acompanha a nossa vida, num imenso paralelismo entre campeonatos e feitos como acabar o curso, a história do futebol não é menos do que a história da humanidade. E a Leo falta bater à porta da história.

A Catarina escreveu no facebook que o Alemanha–Grécia vai ser o jogo mais político da nossa geração. Vamos, finalmente, ver o futebol como representação da vida dos povos. Não é que seja a primeira vez. Afinal, cada vez que vemos um jogo da Liga Espanhola, é fácil identificar ainda as cicatrizes da Guerra Civil em cada emblema. Mas falta-nos um jogo marcante, em que o mundo se una para derrotar o poder. Foi isso que Maradona conseguiu e que Leo dificilmente terá.

Se Messi é, quanto a mim, futebolisticamente superior a Maradona, socialmente não lhe chega aos calcanhares. Apesar de jogar numa equipa que enfrenta um Madrid de milhões e milhões de euros, o Barça não é propriamente uma equipa de pobretanas. Messi nem sequer tee uma juventude de futebol de rua, já que aos 15 já estava em La Masia a ser aperfeiçoado. E isso é muito.

Quando, no dia 22 de Junho de 1986 (26 anos antes do Alemanha–Grécia), Diego Armando Maradona, naquele que é o jogo mais importante de sempre da história do futebol, ganhou sozinho à Inglaterrra, o mundo nunca mais ficou igual. Com um golo com a mão (“foi como tirar uma carteira a um inglês”, disse ele. Poderia Messi, crescido em La Masia, assaltar como numa viela em Buenos Aires?) e com um slalom que ficou eterno, Maradona ganhou os povos para a sua causa.

A invasão inglesa das Falkland pairava sobre o jogo e Maradona, naquele dia, ganhou a guerra. Com uma bola de futebol, um jogador de futebol deu cabo do poder, das armas, dos mais fortes. Naquela hora e meia de 22 de Junho de 1986, não houve fome, não houve injustiças, não houve guerra. Quando Diego driblou os ingleses, foram os povos que driblaram os senhores da guerra e os senhores do dinheiro. Maradona, que foi um género de Robin dos Bosques napolitano (se bem que aquele Nápoles era fortíssimo, não era só Maradona), tornava-se, para sempre, Guevara vestido de jogador de futebol e de charuto ao canto da boca.

É isso que chateia Pelé: Maradona está no coração de todos e Pelé no bolso da FIFA. Pelé pode ter mais de mil golos, mas nunca ganhou uma guerra com uma bola de futebol. Quantos golos valem, afinal, uma guerra?

A Messi falta um Argentina–Inglaterra, falta a possibilidade de entrar não só na história do futebol, mas da humanidade.  Talvez a sorte lhe sorria e ofereça uma vitória no Campeonato do Mundo de 2014, em pleno Rio de Janeiro, contra o Brasil. Mas seria só mais uma vitória futebolística no maravilhoso pé esquerdo de Leo Messi. Para dar, definitivamente, a mão a Maradona, faltava a Messi ser o grego que expulsaria a Alemanha do Euro. 


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Ronaldo, onde estavas no 25 de Abril?

A reacção do Ronaldo no final do jogo contra a Dinamarca lembrou-me a pergunta celebrizada por Baptista Bastos e tão bem caricaturada por Herman José. Para uma certa geração, era fundamental saber onde toda a gente tinha estado no dia 25 de Abril de 1974. Todos gostavam de se mostrar muito revolucionários, mesmo que tenham passado o dia em casa. Todos coloriam a revolução como queriam, porque ali se tinha vivido História.

Nos grandes momentos, sejam eles políticos ou desportivos, é normal que toda a gente queira deixar a sua marca. Acredito que seja por isso que Ronaldo, frustrado com uma exibição terrível, tenha perguntado aos jornalistas onde estava Messi nesta altura do ano passado, lembrando que também ele tinha dificuldades em destacar-se numa selecção que também ela já teve melhores dias. E acredito ainda que seja porque Ronaldo e Messi são o melhor que a nossa geração pôde ver que os jornalistas continuem a questionar ambos sobre a inevitável comparação, mesmo que o timming seja, por vezes, duvidoso.

Eu não gosto do Ronaldo. Nunca gostei, por isso estou à vontade para falar. Não estou a dizer isto porque ele ontem não jogou uma bosta, ou porque está na moda amar ou odiar o rapaz, mas apenas porque a actualidade assim o obriga. E não vou deixar de o dizer se ele marcar quatro hat-tricks seguidos e der o campeonato da Europa a Portugal. Nem deixarei de o dizer daqui a umas décadas aos meus netos, o Lionel, o Andrés e o Messi. E não gostar do Ronaldo não implica, obviamente, não constatar o seu génio. Para mim, Ronaldo é o segundo melhor jogador do mundo de longe e, na comparação com Messi, elogiarei sempre o facto de ter de trabalhar tanto para tentar ser melhor.

O que eu não gosto no Ronaldo é o que eu não gosto noutro jogador qualquer que tenha o mesmo feitio. Não gosto do estilo superstar, do show-off, dos auto-elogios, da confusão entre "ter personalidade" e ser um arrogante bruto, da namorada que vai a jantares do Obama no dia seguinte a aparecer numa capa em lingerie, do filho pago em segredo, da família espampanante a quem ninguém tem coragem de dizer que é ridícula, das prendinhas da Nike antes de um jogo tão importante. Faz-me rir que o Gaspar, mítico central caceteiro, tenha achado normal andar anos com aquele cabelo amarelo, com uma pinta de quem achava parecer tal e qual o Brad Pitt? Sim, faz-me. Mas o Ronaldo mudar de penteado ao intervalo de um jogo com a Alemanha não me faz rir, dá-me raiva. Porque o Ronaldo é o capitão da selecção nacional e dele esperava que tivesse passado o intervalo a motivar os colegas e não a olhar para o espelho.

Dir-me-ão os acólitos de Ronaldo (sim, porque agora há uma religião e, ou somos todos uns adoráveis crentes, ou somos uns detestáveis ateus) que ele é uma vítima da sua própria fama. Sim, ok, percebo que a imprensa o persiga mais do que ao Hélder Postiga, compreendo que seja uma vida mais interessante. Mas o Messi, o inevitável Messi, o único com acesso ao mesmo patamar, não se mete nestas palhaçadas.

Alegarão os tais acólitos que um jogador de futebol não vale pelo que faz fora do campo. Sim, está bem, o Beckham seria sempre bom sem a sua Spice Girl e o Yannick Djaló nem com a Luciana Abreu lá vai (pausa para lamentar o fim desta relação, que tantas alegrias nos deu). Mas eu adoro futebol, adoro mesmo a sério, e vejo aqueles gajos como heróis, como exemplos, como pessoas que todos os dias fazem parte da minha vida. Não lhes exijo que sejam Nobel da Literatura ou que acabem com a fome no mundo, mas arrepia-me que não tenham o mínimo de respeito e educação, já nem vou dizer comigo ou com o Presidente da República, mas com os miúdos que lhes vão pedir autógrafos porque quando forem grandes querem ser como eles.

O que separa um jogador excelente de um jogador que fica na História está muito longe de ser apenas o futebol. Maradona não queria saber de chefes de Estado (a não ser o de Cuba, claro), mas pintava a rebeldia com tanta inteligência, com tanto humor, que nos deixava sempre a torcer por ele, mesmo quando era pouco mais do que um drogado. Ronaldo é simplesmente estúpido. Não sabe falar, muito menos pensar, e fica muito irritadinho porque os poucos jornalistas que não fazem uma vénia à passagem de sua excelência têm a distinta lata de exigir explicações pelos dois golos falhados só com o guarda-redes pela frente. Todos falham? Claro que todos falham. Mas uns falham, admitem o erro, aprendem com ele e seguem em frente. Este faz birra, coitadinho, porque ouve gritos a Messi onde quer que vá. Meu caro, achas mesmo que a tua profissão, que a tua vida, são um peso sobre os teus ombros? É chato adormecer à noite quando se ganha não sei quantos milhões de euros por ano? Vai à merda que o meu namorado não é rico e tem pessoas a agarrarem-se a ele para que explique a doença ou a morte de um familiar. Isso sim, deve ser horrível. Já para não falar da agricultora de 90 anos que tem de colher a própria comida ou o miúdo que tem de andar quilómetros para ir à escola. Estas pessoas são o teu país e não, não tens de te sentir culpado por seres rico e bom jogador (giro, desculpa, mas é muito subjectivo), mas também não podes esperar que esta gente te deixe em paz quando desistes de uma bola e ficas com aquele ar de “ai que não me apetece ir lá atrás”.

Voltarão os acólitos à carga, porque exigimos muito mais do Ronaldo do que de outro qualquer. E eu roubo a citação ao A., que escreveu que “não se pode querer ser o melhor do mundo e ao mesmo tempo querer sofrer uma pressão semelhante à do Miguel Lopes”. É que é mesmo isso. Ontem assisti ao jogo no meu local de trabalho e vi pessoas a rirem-se quando o Postiga não chegou a um passe inalcançável do Ronaldo e caiu no relvado. Portanto, gozamos um rapaz por não chegar a uma bola, mesmo tentando, por não aparentar ser grande coisa, mas que, afinal, até mostram as estatísticas que é dos melhores marcadores da selecção, mas ai jesus que o mundo vai acabar quando alguém (o grande P.!) questiona por que razão o senhor Ronaldo tem direito a não acompanhar o lateral dinamarquês até à defesa.

Vá, venham-me lá com o argumento que ele veio de uma família pobre e humilde e que é muito difícil ser o Ronaldo. Terei todo o prazer em recordar-vos que, antes de um jogo qualquer da Liga dos Campeões, um jornalista perguntou ao Lucho, nessa altura no Marselha, se sentia muito a pressão. E ele respondeu: “A pressão real é a de um pai que se levanta cedo todas as manhãs para alimentar os filhos. Isso é o que meu pai fez por mim e pelos meus irmãos. Fico espantado quando vejo jogadores a queixarem-se de algo. Levantar-se todos os dias às cinco horas da manhã para ir fazer um trabalho de que não gostamos, isso sim, é motivo de queixa”. Isto, meus caros, é o que distingue os Luchos dos Ronaldos que aí andam. E não peço desculpa por preferir os primeiros.

Se eu acho que o Ronaldo devia ser castigado por aquela exibição, chicoteado em público e colocado no banco no próximo jogo? Não, claro que não. Ronaldo é o melhor jogador português de longe, deixemo-nos de embirrações, e até pode ser Bola de Ouro e tudo o que ele quer. Mas também não me tentem sequer obrigar a ter pena dele, porque isso nunca terei. Muito menos me façam sentir anti-patriota por não beijar o chão que ele pisa. Ronaldo é a imagem de Portugal no mundo, é verdade, por muito que isso me custe. Eu seria bem mais feliz se, na Austrália ou na Rússia, quando disse a minha nacionalidade, me tivessem respondido: “Ah, és do país do Saramago”. Mas não, disseram que eu sou do país do Ronaldo. Por isso, é normal que este país, que a geração que tem o prazer de viver na mesma altura de Ronaldo e Messi, que todos os que sentem tanto o futebol que nunca vão esquecer onde estavam no dia em que o clube venceu a Champions ou que a selecção foi à final do Euro, exijam mais dele.

P.S. O abraço de João Moutinho a Varela após o golo deste foi das coisas mais bonitas que eu já vi. Emocionou-me mesmo. Deve ser por serem do FCPorto. Sim, agora que penso nisso, às tantas, é por causa disso.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O nosso sábado

Sábado, no Porto, pela C.:

Foi um sábado como outro qualquer. Acordámos tarde, ligámos a televisão e passámos o dia a ver desporto. Primeiro o futsal, porque ver lampiões e lagartos raivosos é sempre giro, ainda que sem metade da piada dos tempos em que um jogador portista beijava o dragão que tinha tatuado no braço. Depois o andebol, porque a selecção luta pelo acesso ao Mundial e há lá uns rapazes simpáticos que vestem de azul e branco. E, claro, o grande jogo do dia, aquele pelo qual todos esperávamos ansiosamente.

Vimos o benfica-Porto em hóquei com a família praticamente toda junta, porque as grandes ocasiões assim o exigem. A lição estava bem estudada. Conhecíamos os jogadores, discutimos os clubes pelos quais já jogaram, sublinhámos as maiores ameaças do adversário. Tentámos ainda lembrar-nos da última vez em que o Porto não foi campeão nesta modalidade. Não conseguimos. Ficámos também a saber que os adeptos portistas foram proibidos de se deslocarem ao pavilhão da luz. Não consigo perceber como é que, num país democrático, as forças policiais têm poderes para privar pessoas que tinham bilhetes na mão de irem ver um jogo de hóquei e como é que achamos que zelar pela segurança dos adeptos passa por proibi-los de aparecer. Se a moda pega...

Enfim. Começámos mal, a perder, sem grande reacção. Conforme os nervos aumentavam, desapareciam as garrafas de cerveja do frigorífico. Já estávamos encostados ao sofá, sem grande vontade, quando os golos chegaram. Emoção, rivalidade, vontade, um jogador adversário a gritar para as bancadas que nos iam "matar, caralho", estava lá tudo. O jogo adivinhava-se cada vez mais renhido quando chegou a hora do Portugal-Alemanha. Ora, nós somos malucos, mas ainda somos capazes de perceber a importância de um campeonato da Europa de futebol. A televisão grande ficou, então, sintonizada na selecção, enquanto a pequena televisão da cozinha transmitia o hóquei naquele canal nefasto.

Não foi, portanto, nada surpreendente que, enquanto o jogo de hóquei não terminou, a cozinha tivesse ficado mais lotada do que a sala. Era vê-los a amontoarem-se, a fecharem os olhos porque com aquele tamanho de ecrã já não se vê lá muito bem e a gritarem dois golos de seguida, como se a selecção estivesse a ganhar a final do Euro com uma exibição do caraças. Ainda hoje tento imaginar o que terão pensado os vizinhos, pessoas normais que certamente viam o Portugal-Alemanha. Adoro sonhar que nos ouviram e que, atentos, ansiosos pelo golo, pensaram que a sua televisão estaria atrasada. Mas o golo não chegava, porra. O que se passará então? E pumba, mais outro, só para os deixar KO.

Claro que, como é habitual em todas as modalidades, a equipa de arbitragem decidiu dar um ar da sua graça e o Porto acabou por perder a vantagem. Imagino também que na minha casa, em Lisboa, onde só há uma televisão, esses golos tenham sido festejados com mais vontade do que os golos do Pauleta, do Nuno Gomes, do Eusébio e do Fernando Gomes todos juntos (fui obrigada a recorrer à história porque esta selecção não marca golos). É por isso que sempre que me perguntam como é que eu consigo aturar o M. (e é uma pergunta que me fazem muitas vezes, estranho) eu respondo: é que nós somos iguais, só muda a cor.

A noite continuou com a seca do Portugal-Alemanha, comigo a gritar para o Moutinho não dar muito nas vistas e uma oportunidade perdida de vendermos o Varela. Acho engraçado que o país esteja contente com uma coisa nunca antes vista, o chamado "empate moral", porque se eu fosse adepta desta selecção estaria certamente muito zangada por a minha equipa não querer (nem saber, admitamos) ganhar aquele jogo. Felizmente, não sou, por isso acabei o sábado felicíssima com mais um golo do Hulk que pode aumentar a conta em mais uns milhões. Fazendo as contas, só no sábado marquei 6 golos (cinco do hóquei mais este). Quase que aposto que será mais do que esta selecção durante todo o Euro.

Sábado, em Lisboa, pelo M.:

O meu sábado começou sexta à noite, com copos no Bairro e uma animada discussão Benfiquista, onde eu e o L. defendemos o Cardozo como se fosse um irmão, contra os infames ataques do L. Já antes, à espera deles, eu e o R. discutimos a imperiosa necessidade de impingir o Gaitan a alguém e de que o Witsel fique. 

Estávamos um bocado desapontados com as declarações do Manuel José porque puseram fim ao espírito "visita de estudo" que a seleção tem desde os tempos do Queiróz e que, na nossa humilde opinião, podiam evitar uma goleada (estávamos certos). Falámos mal sem parar do Cristiano Ronaldo e continuámos nos copos.

Um copo puxa o outro e falámos mal do Porto, soube umas coisas do Jesus (tanto o L. como o L. são da Amadora e na Amadora sabe-se tudo do Jesus, inclusive expressões literais ditas pelo mesmo, o que torna as conversas muito mais reais. Às 4 da manhã, podia jurar que estava a ouvir Jesus himself a discutir com o Rui Costa) e continuámos a esquecer-nos que havia essa coisa da seleção.

Acordei, naturalmente, tarde. Já não tenho a prática universitária e basta uma noite fora de horas que parece que fui atropelado. Felizmente, havia o futsal. Festejei de janela aberta cada golo dos nossos rapazes para o vizinho lagarto se lembrar da minha voz - que ele nunca vai esquecer, dado que fiz abanar o prédio com o terceiro golo do Llorente em Bilbao - e fui à baixa resolver uns assuntos, ainda satisfeito com a mão cheia.

Depois veio o R. e ficámos a sofrer com o hóquei. Havia mesmo gente que estava a comentar o Holanda-Dinamarca no twitter, o que não deixava de ser fascinante, já que o centro do Mundo era, obviamente, o pavilhão da Luz. O Benfica jogou melhor e devia ter ganho. O guarda-redes do Porto meteu a mão nos tomates e fez piretes,  mas vai continuar sem receber ordenado, que é muito bem feito. Desmoralizámos no 3-5, chegou o C. (lagarto) que fez pressing para mudar para a seleção e nós, que estávamos a perder e já não queríamos saber de hóquei para nada - toda a gente sabe que os árbitros ainda favorecem mais o Porto no hóquei do que no futebol (e isso é um feito) e começámos a ver aquela seca. Mas eu continuei no computador a controlar o hóquei (queria lá saber da seleção, não queria era ser mau anfitrião), e foi assim que eu e o Rafa festejámos o 4-5 e o 5-5. Com isto lá mudámos para o hóquei e ficámos a curtir o caos. O Reinaldo foi para a rua e eu e o Rafa gritámos "TOMA, FILHO DA PUTA!" e, a não ser que o Lahm tenha levado amarelo ao mesmo tempo, isso pode ter confundido os vizinhos. Acabou 5-5, podemos ser campeões em Almeirim (sim, tornei-me um expert instantâneo em hóquei) e isso é que interessa.

Depois mudámos para a seleção e foi horrível, até porque a minha televisão está super atrasada e ouvimos os vizinhos a gritar "Foda-se!" ainda o Nélson Oliveira não tinha conquistado brilhantemente a bola para o Varela falhar. Tecemos milhares de considerações técnicas e desapaixonadas sobre a necessidade de um número 10 e de um ponta-de-lança e batemos sem perdão no Cristiano Ronaldo. A seguir vimos o Argentina-Brasil, ainda a tempo de festejarmos o terceiro golo do Messi. Gozámos com as pessoas que dizem que o rapaz só é bom no Barça e que é muito protegido (sim, o C. é verde, mas detesta o Ronaldo).

Foi um sábado óptimo, com 5 aos lagartos e um passo fundamental para o título de hóquei. E, só para não dizerem que eu sou faccioso e mais não sei o quê, também fiquei contente com a seleção. Parece-me que, no próximo jogo, o Nélson Oliveira vai ser titular! 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

E vem-nos à memória uma frase batida: a minha seleção é o Benfica

Qualquer doente de bola adora Europeus e Mundiais. São momentos míticos, com uma magia especial, que sabemos que vão entrar para a história. O Euro 2000 parece-me sempre uma coisa irreal, cheia de histórias, que aconteceu há milhares de anos, mas do qual me lembro de tudo. E ainda no outro dia passei meia hora com o meu pai ao telefone, a vermos os dois um programa sobre o Europeu de 96 e a adorar a imagem do Andreas Moller com uma pose de pretensa realeza depois de marcar o penalty decisivo que eliminou a Inglaterra em pleno Wembley.
 


Não gosto da seleção portuguesa, é-me impossível. Quem sofre a sério com um clube não consegue ter um segundo amor, um romance de Verão de 2 em 2 anos. O nosso coração está entregue há muito. E o futebol é mais do que isso. Não se gosta só do Benfica. Um Benfiquista detesta os rivais (e vice-versa). Quem não sente isto, não percebe o jogo. Quem não torce contra os adversários na Europa não está dentro da beleza da rivalidade, da deliciosa maldade que os adeptos podem ter.

Mas, dizia eu, os Europeus e Mundiais são momentos deliciosos. Eu tinha um orgulho enorme quando colava um jogador estrangeiro do Benfica numa caderneta de um Mundial ou Europeu e lia o "SL Benfica (PORTUGAL)" em baixo. Lembro-me que o Schwartz (a propósito, vão ler o Constantino) me saiu a um domingo na caderneta do Mundial de 1994. Recordo, pela enésima vez, que o Suécia - Brasil do Itália 90, com Mozer, Valdo e Aldair de um lado e Thern, Magnusson e Schwartz do outro, foi qualquer coisa de muito especial.


Obviamente que, como doente, colar o Balakov e o Kostadinov me fez impressão. Aquilo era gente que nem numa caderneta do campeonato nacional devia estar, quanto mais numa coisa tão rara e preciosa. Daí que sempre me tenha feito impressão que eu, que ainda não consigo olhar para o Domingos sem ficar nervoso, tenha que torcer pela seleção portuguesa e, pior, ter que esquecer as inimizades, as insanáveis diferenças. É-me organicamente impossível. Eu sei - de cor - que o Benfica foi a equipa com mais titulares no primeiro jogo do Euro 1996 (Hélder, Dimas e JVP). Ou pelo menos isso era o 11 anunciado pel`"A Bola" no dia do jogo. Mas acho que jogaram mesmo os 3. Portanto, olhe para onde olhe, tenho mais carinho pelo cromo do Schwartz e no facto de termos tido mais titulares do que os outros do que pela seleção em si.

Isto, claro, torna-se mais surreal em 2012. Só de pensar no onze inicial, fico enjoado. Rui Patrício (não mete medo, mas não gosto, obviamente); João Pereira (o ar de gozo depois do último derby... Nojo.), Pepe (ui, que bom, um caceteiro que no Dragão tinha praticamente licença de porte de armas e que agora tenta lesionar o Messi todos os dias. Adoro!), Bruno Alves (tenho que comentar?) e Fábio Coentrão (pronto, o único rapaz aceitável e merecedor de aplausos). Miguel Veloso (o tal que jurou nunca jogar no Benfica - como se nós te quiséssemos - e cujo pai me lixou a infância. Também fico em pulgas quando tem a bola), Moutinho (pagava para que o Khedira lhe metesse o joelho para dentro. Ou os dois) e Meireles (filho de uma grandessíssima...). Nani (ler a explicação do Rui Patrício), Hugo Almeida (pausa para incredulidade. Em milhões de portugueses, este é o melhor a ponta de lança? Tenho a mesma sensação com o Cavaco: isto é o melhor que arranjamos para Presidente da República?) e Cristiano Ronaldo (um lagarto atrasado mental, oligofrénico, cuja imprensa portuguesa quer que seja maior que o Eusébio, que já fez um pirete aos adeptos do Benfica em plena Catedral). 

E querem que eu torça por isto? Sábado, o Glorioso Sport Lisboa e Benfica recebe os verdes na final do futsal e pode ser campeão em hóquei contra os azuis. Preferia ganhar o jogo 1 da final de futsal (sim, só o jogo 1, nem estou a falar da final toda) a que Portugal fosse campeão da Europa. Sim, o meu nível de doença é este.

Apesar de ser muito ténue a esperança de sequer ganhar um jogo (quanto mais passar o grupo), por respeito aos cromos que colei, por respeito ao clube do meu coração e ao próprio futebol, a minha equipa este Europeu é a deste senhor:



Que pena a caderneta da Panini do Euro não ter um cromo para os treinadores. 
 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Blog anti-adeptos da selecção

O Euro está a chegar. Para nós, lá em casa, isso significa terminar uma caderneta de cromos, decorar nomes e caras de jogadores esquisitos, esperar por grandes jogos e, sobretudo, apostar a dinheiro num vencedor. Mas esta é a parte boa de um Europeu ou de um Mundial, competições que cremos terem sido originalmente pensadas para dar motivos para viver aos malucos, como nós, que não aguentam um mês de Junho de pausa no futebol.

A parte má é a que está aí, por todo o lado, e chama-se selecção nacional. O Euro ainda nem começou e já não há pachorra, embora tenha ficado desiludida por ninguém se ter lembrado de comprar um helicóptero para filmar as três horas de voo entre Lisboa e Poznan. Comecemos, então, pelos protagonistas: esta selecção não sabe jogar à bola, não entusiasma, não tem aquela aura do Euro 2000 à volta, a esperança saloia do Euro 2004 ou a qualidade do Mundial 2006. Olhando de fora, pouco mais se vê do que um grupo de jogadores com penteados horrorosos e um péssimo gosto para roupas e namoradas. O seleccionador está sempre com ar de chateado, de quem está ali por obrigação e de quem só quer picar o ponto e vir embora. Tudo isto pode ser uma estratégia para desviar as atenções e aliviar a pressão, claro, e não quero aqui juntar-me aos profetas da desgraça porque não tenho poderes divinatórios, mas assim torna-se mesmo difícil torcer por eles.

Eu, neste assunto, sou suspeita. Não torço pela selecção. Desculpem-me aqueles que apregoam que, por ter nascido dentro de um território definido há quase 900 anos, sou obrigada a meter uma bandeira na janela e a pintar a cara de vermelho e verde (Pausa: com estas cores, como é que queriam que eu aderisse?). Sim, claro que Portugal me diz mais do que a Ucrânia e a Polónia, mas só porque os nomes dos jogadores são mais fáceis de pronunciar. Olhando para aqueles 23, e admitindo uma natural simpatia por quem actualmente enverga ou já envergou a camisola azul e branca, não há nada que faça o meu coração bater mais depressa.

Se durante o ano todo achei o Ronaldo um idiota, não sei por que é que durante estes 15 dias o hei-de tratar como um herói. Se durante o ano todo insultei o Nélson Oliveira por se atirar para o chão, não sei por que é que agora tenho de gritar golo dele. Se durante o ano todo torci para que o João Pereira se lesionasse, não sei por que é que este é o momento de não o fazer. Não percebo, a sério. Ah e tal, porque agora vestem a camisola das quinas e somos todos um só e não sei quê. Não, não, e não. Eu sou do FCPorto e ocupo todo o meu tempo de adepta com isso, não tenho espaço para mais nada.

E isso leva-me à parte mais delicada da questão: as pessoas que durante dois anos não falam de bola, até se incomodam com quem chega segunda-feira ao trabalho e comenta o decisivo resultado do paços de ferreira-marítimo, não sabem quem é o melhor médio centro da Liga, não sabem sequer o que é um médio centro, e que olham para mim com aquele ar de "coitadinha, não tem mais nada que fazer do que fazer 600 quilómetros para ir ver um jogo de 11 homens contra 11", mas que durante o mês de um Europeu ou de Mundial são uns grandes malucos pela selecção.

É vê-los a irem para as praças das cidades com três cachecóis, duas bandeiras e uma fotografia do Nani que tinham lá em casa. É vê-los nas estradas a dizerem adeus ao autocarro da selecção ou naqueles programas da manhã ou da tarde de altíssima qualidade a comentarem se deve jogar o João Moutinho, o Hugo Viana ou os dois. É vê-los por esses cafés, restaurantes e locais de trabalho por esse país fora a argumentarem que a selecção portuguesa é a pior do mundo após a derrota com a Turquia ou é a melhor do mundo se não perder com a Alemanha. Esta gente é assim: emociona-se com cada passe falhado do Bruno Alves, grita de cada vez que o Ronaldo toca na bola e acha que o Rui Patrício é deus. Mas para nós, os verdadeiros adeptos, o Bruno Alves ou é um central raçudo à Porto, ou é um caceteiro do pior à Porto, o Ronaldo ou é o melhor jogador do mundo ou o segundo melhor jogador do mundo e o Rui Patrício é o totó que ainda não percebeu que não pode agarrar a bola quando um defesa da sua equipa a passa com o pé. E é mesmo difícil explicar-lhes que nós não os vamos conseguir ver de outra maneira, só porque a camisola que usam nestes dias é a de Portugal.

E a pior parte é quando, naqueles directos deprimentes de uma terrinha qualquer, eles dizem que não perdem uma. Quando uma é a transmissão televisiva de um dos prováveis três jogos de um grupo de jogadores dos quais essas mesmas pessoas não souberam nada nos últimos dois anos nem vão saber nos próximos dois, isso é um insulto para nós, os doentes. Eu é que não perco uma do meu clube. E por não perder uma entenda-se ir ao estádio ou ver na televisão todos os jogos, ouvir na rádio quando não há outra opção, ler três ou quatro crónicas diferentes sobre os mesmos 90 minutos só para ver se concordam comigo, falar todos os dias ao telefone com os meus pais sobre aquela nova contratação ou aquele grande palerma que falhou um golo no sábado, discutir com o M. sobre os árbitros da anterior, da próxima e de qualquer jornada e perguntar aos colegas de trabalho se também acham que aquele ponta-de-lança não vale um chavelho. Isso sim, é gostar de um clube, de uma equipa, de um grupo de jogadores que, nas melhores alturas do ano (e ano é uma época, nós nunca sabemos nada pelos anos civis), me deixam tremendamente feliz ou infeliz de três em três dias.

Sim, é muito bonito recordar os espanhóis a festejarem nas ruas, o sorriso inesperado dos gregos ou aquele dia épico dos dinarmaqueses. Claro que sim. Eu adoro bola, por isso é impossível não me entusiasmar com as grandes selecções, que marcam a história do futebol. O problema é que Portugal nunca tem uma selecção assim.