quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O futebol das meninas

Gostar de futebol não foi, para mim, uma opção. Não houve um dia em que acordei e, por acaso, pedi à minha mãe para me calçar umas chuteiras em vez de me vestir uma saia. Não fui para o infantário e gostei mais de brincar à bola com os rapazes, esses seres nojentos com ranho a sair do nariz, em vez de ir trocar roupas da Barbie com as raparigas, esse sexo tão civilizado. Nada disso.

Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.

Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.

Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.

Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.

Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.

O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).

Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.

Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.

É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.

Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.



Obrigada Lucho, diz ao teu pai que te educou muito bem.

P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.

sábado, 8 de setembro de 2012

Uma infância feliz a ver o Benfica ganhar no Subbuteo

Num Natal, em Espinho, os meus pais e os meus tios guardaram-me uma prenda especial. Após toda a excitação da noite natalícia, não desconfiando eu que muita da alegria nas faces rosadas dos meus pais e tios eram devido ao vinho que tão bem acompanhava o bacalhau, deram-me uma caixa grande. Quando abri, era um jogo de subbuteo. Benfica e Setúbal na caixa que trazia ainda guarda-redes, bola e balizas. O meu pai explicou-me mais ou menos as regras e, de seguida, o meu Tio João (é a memória mais nítida que tenho dele), esquecido da regra "deixa o miúdo ganhar", bateu-me por 3-2, fazendo com que o Setúbal passasse a ser uma equipa odiada.

A Itália, lá atrás, fez muitas vezes de Belenenses. O Espinho e a Juventus na outra ponta e, cá à frente, o Boavista.

O subbuteo passou a ser a minha companhia, o meu mundo, um tabuleiro onde eu podia, finalmente, dar largas a todo o futebol que me fervilhava no corpo. Passei, então, a recortar d'"A Bola" todas - todas - as fichas de jogo para saber os onzes e suplentes de cada equipa. Só isso justifica que eu ainda diga de cor: Alfredo, Casaca, Nogueira, Barny, Caetano, Nelo, Tavares, Bobó, Marlon, Ricky e Artur para o Boavista de Manuel José. Era suposto o meu cérebro estar ocupado com coisas mais úteis, mas aquela prenda - mal sabiam os meus pais - mudou a minha vida. 

Desde aí que, sozinho, passei a fazer os meus campeonatos, praticando a escrita (mal entrara na primária) em cadernos onde escrevia pacientemente Benfica - Chaves; Boavista - Porto; Chaves - Sporting e por aí adiante. Depois, ia para o campo. Óbvio que isto obrigou os meus pais a ter que me comprar montes de equipas, que coleccionei e que ainda guardo. Nos anos e no Natal, tios, pais e avós sabiam que escusavam de me vir com outros brindes: eu queria equipas, equipas, equipas. Óbvio que toda a gente me oferecia o Benfica - o que me aborrecia imenso, o Benfica já eu tinha, o Beira-Mar é que era difícil de encontrar. Lembro-me perfeitamente de pedir, meio culpado, meio contrariado, o Porto e o Sporting. Fomos à Rua de Santo António e lembro-me da sensação de culpa: pedir uma coisa aos meus pais que, sabíamos todos, era odiosa. Mas o Benfica tinha que ganhar a alguém, portanto havia que coleccionar essa gente. 

 Jogadores colados de equipas muito, muito, muito derrotadas 

Jogava sempre na sala, em cima do tapete, que fazia com que a bola não fosse tão rápida como nos azulejos da sala e com que o campo não patinasse tanto. Os tempos dos jogos eram de 5 minutos por parte, marcados no relógio do velhinho VHS. Eu jogava pelas duas equipas e fazia o relato, em jeito de Gabriel Alves, dizendo imensos "aliiiiii", que era um vício de relato de Gabriel Alves (se virem o relato do 3-6 que está no Youtube, o Alves no relato do 3º do JVP, diz "E ALI, João Pinto..."). No fim, apontava o resultado no caderno e fazia a pontuação e a lista de melhores marcadores. Depois ia para o corredor com a bola e fazia o Domingo Desportivo, imitando os golos que haviam sido marcados naquele mundo mágico. atirando a bola contra o móvel e fazendo-me de guarda-redes desesperado, que não conseguia chegar àquele remate colocadíssimo, enquanto na minha cabeça ecoavam comentários à Domingo Desportivo.
As bolas iam várias vezes para baixo do sofá e eu metia a régua da escola a tapar atrás da baliza e às vezes livros e tudo o mais para impedir que as bolas fossem lá parar. É que se ficassem demasiado longe  tinha que chamar alguém, porque eu não conseguia levantar o sofá sozinho, e, se chamasse muitas vezes, mais cedo ou mais tarde o jogo pararia. 

Um fiscal de linha que, pisado, teve que ficar com a bandeira colada ao cotovelo

Quando eu jogava subbuteo, as equipas arrumavam-se tacticamente, exactamente na disposição que os jornalistas d'"A Bola" haviam escalado a equipa no diagrama. O Paneira, sabia eu, era aquele boneco na meia direita. E várias vezes flectia para o meio e marcava. Antes de chutar eu fazia o relato "Perde a bola o Belenenses e, ALI, Paneira a rematar... GOOOOOLOOOOOO. GOOOOOOLO DO BEN-FI-CA!" e juntava os jogadores, como se eles se abraçassem, mas não muito, porque depois tinha que os distribuir outra vez pela táctica e os minutos no VHS passavam rápido e tinha que mudar de campo.
O Benfica, nas minhas mãos, era cheio de ases e de craques, e os outros, nas minhas mãos, falhavam passes atrás de passes e passavam a bola ao Paneira e só marcavam golos ao Neno se o Benfica já tivesse 4 ou 5 de vantagem e os minutos no VHS já estivessem quase a anunciar o escaldante Beira-Mar - Estoril que se seguiria.
Uma vez uns amigos do meu pai foram jantar a nossa casa e tive que arrumar as coisas mais cedo. Estava eu, pacientemente, a arrumar um Penafiel-Sporting (3-0 Penafiel, lembro-me bem), quando o Ninito, um amigo do meu pai, Benfiquista doente - e, logo, uma pessoa fantástica - me pediu um dos meus cadernos. Lembro-me perfeitamente dos risos quando ele disse: "Isto é que é um filho: 8 jornadas e o Sporting tem 0 pontos".  Eles riram-se muito e hoje eu também me rio, mas na altura lembro-me de pensar que, se calhar, mas só se calhar, eu fazia alguma batota. Mesmo com a sensação que estava a prejudicar ligeiramente os de alvalade, a época acabou por não melhorar para eles, acabando numa escandalosa descida que mereceu especial reportagem no corredor de minha sala. Como não tinha assim tantas equipas, no ano seguinte jogaram de novo o campeonato e, tragicamente, desceram mais uma vez.

Mas nem tudo foram rosas para o Glorioso. Já com 5 títulos na manga (sim, eu lembro-me de tudo isto vivamente), numa manhã de sábado, enquanto davam desenhos-animados, jogava-se o muito aguardado jogo do título. Adivinharam: Benfica-Farense (um crónico segundo lugar). Estava eu muito bem a brincar, a fazer os relatos na minha cabeça e às vezes alto e o Benfica a ganhar 2-0, quando a minha irmã, cansada de fazer os TPCs, resolve chatear-me e dizer que quer jogar. Eu lá lhe explico: quem ganhar é campeão, Benfica-Farense, está 2-0 e tal e ela diz que vai jogar pelo Farense. A minha irmã é 6 anos mais velha do que eu, portanto tive que comer e calar. Falhei o 3-0 com o Yuran (era tão mais fácil quando eu segurava o guarda redes adversário, ainda por cima com a mão esquerda...) e ela fez 2 golos (fez batota de certeza). 2-2. E agora? Agora, penalties. Perdi. Fiquei furioso, mas tive que escrever no caderno: Farense campeão. Foi, até eu deixar de jogar, a única mancha no incólume palmarés Benfiquista.

Farense campeão. Como não tinha o nome dactilografado para o placard, tive que o escrever.

Vieram depois as descobertas: as equipas na Europa, as selecções. O Espinho deixou de ser o Espinho e passou também a Juventus. O Braga a Arsenal, o Estoril a Suécia. O Chaves passou também, vejam lá, a ser o Barcelona. Torneios e torneios (às vezes sem o Benfica, para equilibrar) sucederam-se na sala. Escrevia folhas e folhas sobre Taças Uefas imaginárias, fazia sorteios, desenhava os jogos, fazia tudo. Deram-me, dois Natais mais tarde, um placard. Delirei. Folhas e folhas com nomes de equipas para eu recortar e meter no placard, dando cada vez mais verosimilhança ao meu mundo, fazendo-me aprender a escrever Tottenham Hotspur e a ver ali, magicamente dactilografado, BENFICA. Havia o Milan, a Juventus, o Real. Mas havia o Benfica. Amava aquele placard.
O campo era cada vez mais real. E as caixas onde vinham as equipas eram os autocarros para os jogos. O meu avô e o meu pai davam-me equipas e viam, deliciados, os jogos. Aliás, muitas das equipas eu nem sequer queria - estou a falar a sério - porque em princípio não jogariam com o Benfica, mas o meu avô achou um escândalo eu não ter a selecção holandesa (que viria, num torneio de Verão, em Espinho, a ser o Blackpool). E vai daí, decidiu dar-me éne selecções. Fiz um Mundial aos pés dele na casa dos meus avós, ficando ele felicíssimo pela minha alegria a comemorar o Mundial com a Argentina que ele me oferecera.  


                             As selecções, quase todas oferecidas pelo meu avô.

A primeira vez que viajei na vida - sou um  rapaz com mesmo muita sorte - foi a Londres, com 9 anos. Lembro-me do Big Ben, do museu de História Natural, de nunca deixar de dar a mão aos meus pais. Mas do que me lembro melhor foi de entrar numa loja que só vendia subbuteo. O céu. Pessoal: o céu. Abri muito os olhos de alegria, o meu pai pegou-me no ombro, levou-me lá para fora e disse-me: "Porta-te bem. Escolhes duas equipas, é a tua prenda." Concentrei-me. Revirei a loja. Comprei o Milan (Savicevic, Boban, Maldini) e o PSG (Valdo, Ginola, Ricardo Gomes). A equipa do PSG tinha umas tiras nas mangas. Era a primeira equipa que eu via pintada assim. Pareceu-me que tinha comprado um palácio.

 Reparem nas mangas. Que delícia.

No último dia, o meu pai mostrou-me que me tinha comprado o Liverpool (também com riscas nas mangas e que, mais tarde, viria a ser muito mais vezes o Bayer de Leverkusen. Quando jogava contra o Bayer, o Benfica jogava todo de branco, melhorando substancialmente a performance daquela equipa, que era várias vezes o Guimarães.) e o Arsenal. O Arsenal, que nós tínhamos acabado de vergar em Highbury, tinha, inclusive o patrocínio nas camisolas. Os olhos do meu pai brilharam mais do que os meus nesse pormenor, juro.
JVC. Mítico.

 Muitas vezes repetiram estes bonecos o 4-4 em Leverkusen.

Apesar de ter sido uma criança relativamente solitária no mundo do subbuteo, muitos clássicos partilhei com o meu grande amigo Tiago Palma. Companheiro de carteira desde os 6 anos, foi o Tiago que me explicou a regra dos golos fora nas competições europeias, distraindo-me tanto nessa aula, que ainda hoje não consigo fazer contas de dividir por números com mais de um dígito. Partilhámos muitas futeboladas no pátio da escola, no parque perto de minha casa e na rua atrás de casa dele. Farenses-Benfica e Benficas-Farense sucediam-se até à exaustão. Sem entrar nos campeonatos que até tinham direito a caderno - porque isso envolvia uma perseverança e uma rectidão que me obrigava a fazer disputar nebulosos jogos como Setúbal-Porto antes de ir dormir-, travámos duelos mortais na minha sala e na dele. Como os bonecos de subbuteo eram relativamente frágeis e os duelos entre nós aguerridos e bem disputados (quem nunca perdeu pontos no São Luís que atire a primeira pedra!), passámos a jogar com os bonecos dos bolos de anos, feitos em PVC, mais maleáveis e transportáveis. Pintámos os do Sporting de preto, o alternativo do Farense, e jogámos até ao infinito.
A rapaziada com que eu e o Tiago pontificávamos.

São os meus brinquedos que nunca deixei a minha mãe dar. Aprendi a escrever e a contar com eles. Tenho memórias vivas de jogos, de torneios, de coisas que aconteciam à minha volta enquanto o Benfica triunfava sem parar em Portugal e no estrangeiro, no tapete verde e as repetições do corredor. Não encontro subbuteos em lado nenhum e gostava de continuar a coleccioná-los.
Não gosto muito de dedicatórias, mas neste tem de ser: um abraço ao Tiago Palma pelas tardes a ver futebol a jogar futebol e a conversar sobre futebol, e um obrigado aos meus pais, por me terem feito uma criança tão feliz.

Esta é a equipa do meu coração. Vermelha e branca, altiva e humilde, com garra e técnica. O Benfica da minha infância, o Benfica que ficou, para sempre, guardado no meu coração.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Gota d'água

Não consigo perceber por que é que não temos meio campo. Até consigo: a direcção e a equipa técnica do Benfica são atrasados mentais ou, simplesmente, não querem saber. As duas hipóteses revelam que estão a mais. Que Ruben Amorim esteja num rival e Nuno Coelho sabe-se lá onde são só cerejas no topo de um bolo. Ou de um castelo de cartas prestes a ruir. A liderança com o melhor ataque é uma ilusão que talvez nem o mais incauto dos Benfiquistas já iluda. Adivinha-se (mais) uma intempérie.

Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).

Já Javi foi um soco na alma. Javi Garcia podia ter sido um Paneira, podia ter sido um daqueles estrangeiros míticos, à Benfica. Podia ter sido um Thern, um Schwartz, um Isaías. Quando Javi marcou o golo aos lagartos, o ano passado, sorriu para a bancada como um adepto do Benfica. Tinha saltado mais alto do que um dos de verde e cabeceou seco um delicioso centro de Aimar. Não fez os corninhos do Isaías no 3-6, mas sorriu como ele. Para sempre já tinham ficado as imagens de Javi, podre de bêbado, a festejar o título e a gritar juras de amor a um clube que ele, claramente, não sabia ser tão grande. Sem os pés de Witsel, Javi sempre foi cheio de entrega, sempre cheio de concentração. Javi Garcia foi daqueles medíocres que, vestido à Benfica, se tornou gigante. Odiado pelos rivais, Javi jogava sempre de dentes cerrados, sempre a suar a camisola, sempre a dar tudo. Em Javi vi o Benfica que sonhei e que cheguei a ver. Javi Garcia empatizou imediatamente com as bancadas e as bancadas com ele. Javi parecia carregar as alegrias do passado e uma raiva nos dentes devido às derrotas do presente. Merecia o nome nas camisolas, merecia a aprovação até de um céptico como eu. Sonhei-o capitão.



Mas a vida não está para sonhos e muito menos o Benfica. Num futebol mercantilizado, com milionários tristes e praticamente sem símbolos, não há espaço para o coração infantil que me palpita quando o Benfica joga. Num clube onde ninguém percebeu que haveria médios centro a menos, que é o mesmo que não saber as vogais todas do alfabeto, poderemos nós estar preocupados com símbolos, com mística, com magia? 

Às vezes fico tão preocupado com o Benfica, com os erros perpétuos, com degenerações, que me esqueço o quanto gosto deste clube. Acho que essa é a maior tristeza que estas derrotas todas me deram: sofro tanto que me esqueço do amor que tenho às camisolas vermelhas, ao terceiro anel cheio, aos gritos BEN-FI-CA BEN-FI-CA BEN-FI-CA até não ter ar nos pulmões.

Não posso deixar que me tirem este amor. E antes de me preocupar outra vez com o buraco no nosso meio campo, vou ficar triste por Javi, afinal, não ser o Thern dos meus dias. O meu Benfiquismo merece isso.




Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

Obrigada, Hulk

Estava a trabalhar na redacção do Porto quando me chamaram para ir à janela ver a nova contratação do FCP. A primeira coisa que pensei foi que nunca tinha visto um jogador de futebol tão largo. Percebi imediatamente que a alcunha «Incrível» não devia ser por acaso.

Mas aquela que guardo carinhosamente como a primeira recordação tua, Hulk, e que tão bem te define, aconteceu na tua estreia no Estádio do Dragão. Jogávamos contra o belenenses e tu entraste já na segunda parte. O FCPorto ganhava, mas 1-0 é um resultado que nunca satisfaz aquela plateia. Houve um livre e tu assumiste que querias bater. O Mariano, coitado, ainda não devia ter treinado muitas vezes contigo, porque se colocou à frente. Saiu lesionado. E tu ainda marcaste o segundo. Percebi imediatamente que tínhamos ali os pés mais fortes do mundo.

Se há momento teu que o mundo não pode esquecer é aquele que protagonizaste em alvalade, com o único jogador que pesava mais do que tu na altura. Eu estava lá, e desde que pegaste na bola que comecei a gritar “Hulk, Hulk, Hulk”. E gritei, e gritei, e gritei. E tu correste, e deixaste o Rochemback para trás, bem para trás, e fuzilaste-os. Percebi imediatamente que tínhamos ali um Fenómeno.


Depois, Hulk, foi uma questão de ires aguentando os assobios do Dragão. Sonho com o dia em que terei oportunidade de dar dois estalos a cada adepto que te assobiou e que, a qualquer falhanço da equipa esta época, vai questionar a tua venda. Eles existem, como sabes. Mas tu não lhes ligaste puto. Continuaste sempre o mesmo: forte, possante, irreverente, decisivo e muito, muito egoísta. Hulk, aqui que ninguém nos ouve, perdoa-me todas as vezes em que soltei um audível “passa a bola filho da puta”. Tu é que tinhas razão. Eu não o percebi imediatamente, mas a bola tinha de ser tua.

Até que chegou aquele dia. O túnel. O maldito túnel. Foste tão menino Hulk. Naquela altura já te deviam ter explicado o que aquela casa gasta. E tu, mesmo assim, caíste. Não imagino o que te terá passado pela cabeça quando era a tua cabeça que queriam. Suspenderam-te de imediato, que é uma coisa que não acontece, por exemplo, a jogadores que mandam árbitros ao chão. Tentaram que te fosses embora, que a tua carreira acabasse logo ali, e depois vieram corrigir o erro. De quatro meses para três jogos. E ainda me recordo bem daqueles arautos da verdade desportiva a fazerem as contas e a apregoarem que o FCPorto até fazia mais pontos sem ti do que contigo. Oh, Hulk, percebes agora como me rio deles, não percebes?

O que eles talvez não saibam é como isso nos ajudou a ver-te como um jogador à Porto. Outro qualquer, o Sapunaru, por exemplo, não conseguiria controlar a raiva por eles. Tu fizeste melhor: humilhaste-os.


E calaste-os. Porra, Hulk, este é o melhor silêncio do mundo. E qualquer um percebe isso.





Agora, Hulk, está na hora de ires. E eu tive o privilégio de ver o teu último golo com a nossa camisola, quando fuzilaste aquele guarda-redes de voz fininha no sábado. Um portista sabe que esta foi a melhor maneira de saíres do nosso clube. Parece-me que tu até nem querias muito, o que me faz admirar-te ainda mais. Ambos sabemos que vais para pior e que vais ter saudades do que já ganhaste aqui. E também ambos sabemos que o Porto vai sentir a tua falta, mas vai continuar a ganhar. Mas obrigada, Hulk. Muito, muito obrigada. És Incrível.

domingo, 2 de setembro de 2012

Pequeno Futebol Clube

É sábado, o mercado fechou há umas horas e, na sede do Pequeno Futebol Clube - uma tasca com três estrelas Michelin -, as manchetes dos jornais desportivos não interessam a ninguém. João Moutinho não foi para o Tottenham? Vira a página. Javi Garcia saiu do benfica (aleluia, irmãos)? Passa à frente. Na página 30, finalmente, a notícia do dia, lá em baixo, num quadradinho sem cor: o PFC fintou os Abramovich desta vida e conseguiu três reforços por empréstimo.

Dois defesas-esquerdos do benfica e um médio do FCPorto. A custo zero. E vestem o mesmo tamanho do que os emprestados da época passada, por isso é só trocar o nome da camisola. O presidente do PFC, desta vez, esmerou-se. Do sportem não quis ninguém, claro, porque ainda há uma diferença entre o Pequeno Futebol Clube e o Mínimo Futebol Clube.

É dia de bola. Da sede ao estádio seria só atravessar a rua, mas, desta vez, o PFC vai fazer uma deslocação até um estádio do Euro abandonado. Os sócios estão revoltados. As cadeiras confortáveis e limpas fazem doer as costas. O relvado impecável prejudica o futebol de qualidade ímpar. Os torniquetes, meu deus, é o fim do mundo, até funcionam.

Já não bastavam estas contrariedades, ainda por cima do outro lado está o campeão. E o PFC detesta o campeão. Não é que o campeão alguma vez tenha feito mal ao PFC, mas adepto do PFC que é adepto do PFC detesta todos os clubes que lutam por títulos. Ao adepto do PFC, soa a insulto que uma equipa queira sempre os três pontos. O adepto do PFC tem como melhor momento da sua vida aquela tarde soalheira em Vila Nova do Fim do Mundo, em que o PFC conquistou um glorioso empate que assegurou a permanência na primeira divisão, no último minuto da última jornada. Isto sim, é sentir o futebol. Os adeptos do campeão sabem lá o que isto é, esquisitinhos da caca que ainda há um ano andavam aí na rua a festejar uma Liga Europa.


Ser adepto do campeão é fácil. Pega-se no carro, faz-se centenas de quilómetros e entra-se numa bancada pintada da mesma cor. Canta-se por Hulk e Moutinho, que tantos corações partiram ao estarem ali, e espera-se que James entre para resolver o imbróglio. Os golos chegam, como quase sempre, e para a semana há mais (não há, porque o calendário é ridículo). Isto não faz sentido para o adepto do PFC.

Ser adepto do PFC é lixado. Na bancada estão os do costume, só que desta vez misturados com os adeptos do campeão, com aquele ar sorridente de quem está sempre a vencer troféus. Começam tímidos, não vá aparecer aí uma goleada, mas animam-se com aquele golo em contra-ataque perante o facilitismo da defesa do campeão. A noite, afinal, pode ser de festa para o PFC! Tudo o que têm de fazer é defender, dar pau e perder tempo durante toda a eternidade de jogo que se segue. Resta-lhes ainda assobiar o avançado brasileiro do campeão, porque, para os adeptos do PFC, só o seu central caceteiro de quase 40 anos vale 50 milhões de euros. Para seu azar, é esse mesmo avançado brasileiro que fuzila o guarda-redes de voz fininha do PFC e mata o jogo.

Tudo o que o adepto do PFC desejava era aquele empate no último minuto, num golpe de sorte, fruto de um falhanço de um rapaz do campeão. Com aquele empate, a noite de sábado na sede seria uma loucura. Os filhos e os netos do adepto do PFC iriam recordar para sempre aquela partida mítica em que o central caceteiro conseguiu acabar sem amarelo. Infelizmente, tudo correu como seria normal e o campeão ganhou.

Mas não há drama. O adepto do PFC, o verdadeiro adepto do PFC, é um adepto do caraças. Torce pelo PFC e apenas pelo PFC, por isso já está a preparar a deslocação ao rival Sporting Clube da Pequenez. Nesses jogos é que se conquistam permanências, nesses jogos é que o pequeno se separa do mínimo. O campeão que vá à sua vida, que o PFC vai continuar a lutar pela sua.

O pior são aqueles adeptos do PFC que ontem lá estavam, e que tantas vezes encontro por esses estádios fora. Disfarçam-se adeptos do PFC, mas na verdade são adeptos de outros clubes bem maiores, frustrados pelos títulos perdidos para o campeão. Quando o Targino faz o 3-2, não é a permanência do Olhanense que eles vêem à frente, mas sim a aproximação ou a conquista de pontos das suas equipas. Quando o Moutinho corta uma bola, é atropelado por trás e cai para o chão magoado, eles não gritam “maçã podre” porque ele é de Portimão, mas porque trocou o clube deles pelo campeão. Quando o Hulk passa por eles a 300 km/h, não é das portagens na Via do Infante que se lembram, mas daqueles 5-0 no Dragão e do seu querido David Luiz (pausa para elogiar a brilhante exibição frente ao Falcao) a ser ultrapassado por este camião brasileiro que os estúpidos dos russos nunca mais cá vêm buscar.

Admiro muito os primeiros adeptos do PFC. Quero que as crianças de Vila Nova do Fim do Mundo cresçam a torcer pelo clube da sua terra, que nas tascas se discutam as notícias mais pequeninas dos jornais desportivos e que os empates que asseguram a permanência no último minuto da última jornada sejam para sempre recordados como o melhor momento das suas vidas. É-me muito fácil ser do FCPorto, pelo que vocês, do Olhanense, do Beira-Mar, do Rio Ave, etc, me parecem os verdadeiros adeptos de futebol.

Quanto aos segundos adeptos do PFC, meus caros, azar. Preocupem-se com o meio-campo vazio da vossa equipa ou o ataque mortífero que apenas vos faz ganhar a equipas dinamarquesas de cujo nome já nem me recordo. Era o que eu faria, se fosse vocês. Mas felizmente sou do campeão.