sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta ao André Gomes

André,


Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4 ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?

Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos – onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu, racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).

Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo – convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A), mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.

E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério. Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol. Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o Benfica pode perder pontos.

E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador, André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe, mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por si – de ti um bom jogador, mas agradou­-me. Porque um tipo que é mau nunca recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe – que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.  

Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o Rui Baião, tipos desse género.

Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar, enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto esfola-te e chega lá.

É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho. Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.

Um abraço,

Manel

PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vota Vieira

Camaradas, está na hora de definirmos posições. Ou estamos de um lado, ou estamos do outro. Fora o Paulo Portas, claro. Vivemos tempos difíceis, instáveis e incertos, em que ninguém sabe qual é o melhor caminho. Mas eu já escolhi: estou com Luís Filipe Vieira.

Vieira a primeiro-ministro

Desde logo porque, para mim, os sócios do Futebol Clube do Porto estão sempre em primeiro lugar. Se é para entregar algo nas mãos de alguém, que seja em quem eu já sei que vai lutar pelos mesmos interesses do que eu.

Vieira a ministro das Finanças

Soube que Vieira era a melhor opção quando valorizou Mantorras até aos 18 milhões de contos.

Vieira a ministro dos Assuntos Parlamentares

As pessoas já não acreditam nos mesmos de sempre, estão fartas, precisam de uma alternativa. Com Vieira, teremos certamente “um novo ciclo”.

Vieira a ministro da Justiça

Precisamos de alguém que conheça o sistema por dentro, por isso nada melhor do que um condenado por roubo.

Vieira a ministro da Administração Interna

Temos de reforçar a segurança. Há malucos a atirarem petardos em assembleias-gerais, a pintarem paredes e a denunciarem as trafulhices cá para fora. Só Vieira pode chamar os capangas que roubaram o Moretto ao Porto (muito obrigada, meus caros, devo-vos esta).

Vieira a ministro dos Negócios Estrangeiros

Agradeçamos ao homem que, só para dar um exemplo, descobriu Falcao.


Vieira a ministro da Educação

Está na altura de segurar os nossos jovens, de deixarmos de exportar o nosso melhor produto para outros países. Com Vieira, não há conselhos à emigração (Nelson Oliveira, pára de ler o post). Queremos a “coluna vertebral” da selecção.

Vieira a ministro da Saúde

Chega de colocar o Serviço Nacional de Saúde nas mãos dos profissionais… de Saúde. Exigimos um gestor, alguém que possa racionar os tratamentos. Com Vieira, o homem que não gosta da maneira de jogar de Hulk, temos olho clínico assegurado.

Vieira a ministro da Economia

Andámos a viver acima das nossas possibilidades. Adivinham-se tempos em que os presidentes terão de andar em cuecas e só Luís Filipe Vieira tem experiência nisso.



Vieira a ministro da Defesa

Aqueles vândalos do Norte já fizeram tudo: deram cinco no Dragão, foram campeões na luz e deram a volta a uma desvantagem de cinco pontos no campeonato. Se votarem em Vieira, é difícil serem mais atacados do que isto.

Vieira a ministro da Agricultura

Estamos a semear um futuro melhor. As modalidades já ganham títulos e a águia continua a ajudar ao bom ambiente na luz. Não fosse o Porto e aquela coisa chamada futebol, e o mundo era lindo.

Vieira a ministro da Segurança Social

O buraco é grande, já se sabe, mas Vieira e os seus negócios esquisitos com Madrid e Angola prometem tapá-lo, dê por onde der.



Se isto não for suficiente para vos convencer (como é possível, seus ingratos?), então têm sempre a opção de votar no outro candidato, aquele que eu nem sabia que era lampião até há uma semana atrás.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

1-0, o empate

Não há paciência para este sportem. Acho que é a primeira vez que digo isto na vida e custa-me, porque o sportem já me deu muitas alegrias e eu não gosto de ser ingrata. Mas a minha relação com o sportem está a passar uma fase muito difícil: a indiferença.

Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.

Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.

Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.

O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.

Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.

Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.

Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.

Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.

E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.

O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.

Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.

Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.

O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O amante ingénuo e sentimental

Gosto muito de futebol. Tenho respeito pelo jogo, pela sua história e pelas suas histórias. Vejo jogos antigos, procuro coisas que não conheço, sobretudo, claro, sobre o meu clube.
Acho que a única metáfora válida para isto é, lamentavelmente, a do amor. A Catarina já escreveu sobre isso acerca da saída do Villas-Boas. Talvez não qualifique como metáfora e seja isso o que é: amor. Parece duro e inconcebível: pode alguém amar um clube, um jogo? Para mim, sim.

Enervei-me há uns dias com o inacreditável Marselha-Benfica, a primeira mão, de onde saímos vivos com 2-1, depois de levarmos três lindas bolas aos ferros e tirarmos duas em cima da linha, permitindo-nos chegar vivos à Luz contra uma equipa que tinha Papin, Mozer e Waddle. E, já agora, o príncipe Francescoli. Francescoli, que tem um ar de escritor sul-americano, e jogava com a melancolia do Coronel Aureliano Buendía. Procurei esse jogo e emocionei-me como se encontrasse um álbum velho de fotografias da família. Sorri com equipamentos, como quem sorri com os velhos penteados dos anos 80. Revi caras em quem estou sempre a pensar, mas com quem não falo todos os dias, mas devia. Quando o vídeo acabou, foi como fechar o álbum e voltar a arrumá-lo. Voltar à realidade nunca é fácil depois de revisitar uma infância feliz, cheia de amor.

Vi, com o meu pai, que é a pessoa que me ensinou a ver futebol e com quem falo dez, vinte vezes por dia de futebol e dia sim dia não sobre os outros assuntos, o Benfica-Barcelona. Vimos, juntos, a melhor equipa de todos os tempos. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol, Busquets. Só foi pena que Pep estivesse longe (tinha jantado com Woody Allen nessa semana. Como se ser treinador da melhor equipa de sempre não chegasse, Pep decidiu juntar a isso preencher-se. Incrível.), mas aquela ideia, aquele conceito que trespassará o tempo, que será visto daqui a 50, 100 anos por outro Manel, em vídeos distantes e históricos, passou no meu relvado, na minha Luz. Claro que o meu amor ao Benfica é superior ao amor ao futebol. Fico lixado de termos perdido, mas corrói-me mais perder 2 pontos largados no campeonato do que aquilo. E acho que quem gosta do Benfica e quer que o Benfica volte a ser grande como já o foi, devia observar  a dimensão deste Barça, o que ali se passa. O facto de serem extraordinários semanalmente tira-nos a capacidade de admirar uma equipa de que todos teremos saudades quando acabar. E essa dimensão do Barça explana-se no respeito ao jogo. Que Messi, que é, para mim, o melhor da história, tenha sorrido como uma criança para pedir a Pablo Aimar a sua camisola, a mim, emociona-me. E emociona-me porque aquele monstro, aquele génio, aquele homem que vai superar o tempo, parecia um miúdo com 10 anos à porta do estádio, à espera que acabasse o treino do seu ídolo. E Aimar, que é um gentleman e que talvez tenha até recusado o jantar com Guardiola e Allen, sorriu também. Mais uma fotografia para o álbum. E nós com consciência disso.

Sinceramente vos digo que tenho ainda a ilusão, o sonho, de um dia conseguir falar com uma destas pessoas. Falar com um destes, que amam o jogo. Sentar-me um dia, a jantar, e contar a Maradona, ou a Aimar, ou a Valdano, ou a Pep, aquilo que eu sinto quando vejo um Marselha-Benfica. Gostava de poder conversar, com uma cerveja à frente, sobre estas coisas que se me ocorrem e que me fazem vir para aqui escrever quando vejo futebol. Gostava de lhes falar de Mozer e das fotografias do meu tio João. E sinto, e não vos sei explicar porquê, que aqueles em quem identifico este amor pelo jogo, me perceberiam. 

Quando ontem ouvi o discurso de Marcelo Bielsa, treinador do Athletic de Bilbao, após a derrota contra o Barcelona na Taça do Rei, apeteceu-me convidar o senhor para jantar cá em casa. Contar-lhe que, durante o Sporting-Athletic de Bilbao, houve uma imagem sua, de cócoras, a pensar. E que a Catarina, sorrindo, disse: "Gostava de ser assim. Saber aquilo tudo de futebol. Na cabeça daquele homem está a passar montes de futebol, agora.". Gostava de partilhar isso com o senhor Bielsa e gostava de lhe servir um copo de vinho e agradecer. Um homem que, à frente do seu plantel, os acusa de serem "milionários prematuros", de não terem "feridas nem cicatrizes" percebe que os seus jogadores desrespeitaram quem ama futebol. Pior, desrespeitaram os seus adeptos, que qualifica como "ingénuos" e "extraordinários". E é bonito que Bielsa fale dos adeptos num balneário, sem ser aquele discurso politicamente correcto numa conferência de imprensa, com patrocínios atrás e só para os aplausos. Não, Bielsa falou do povo basco dentro do balneário já sem nada a ganhar. Falou por respeito. Falou por amor. Sentiu que tinha que lhes dizer aquilo.

Esta grandeza, esta humanidade toda, eu só a consigo verdadeiramente sentir no futebol. E partilho isso todos os dias com o meu pai e com a Catarina, partilho isso tantas vezes que me sinto chato, porque sei que falo disto muitas vezes, mas isto para mim é uma coisa pungente, é uma coisa forte e tenho que a dizer, tenho que a escrever.

Gostava, um dia, de poder receber o senhor Bielsa, de jantar com ele e dizer-lhe que eu, se fosse jogador de futebol, principalmente se fosse jogador de futebol do Benfica, não me permitiria rir se perdesse uma final. E teria respeito por esse povo ingénuo e extraordinário que sofre pelas cores de uma camisola. Gostava, mesmo, de um dia jantar com Guardiola ou Bielsa e ouvi-los falar. Mas, mais do que isso, mais do que beber uma cerveja com o Maradona, gostava que o meu Benfica recuperasse esta imensa dimensão humana, esta grandeza, este respeito. Gostava que houvesse no Benfica discursos destes, capazes de me prender a fala. Gostava que houvesse alguém no Benfica que nos representasse a nós, os amantes ingénuos e sentimentais. 
Brindo a isso. Com amor.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O FCPorto de Bruxelas

A questão impôs-se às primeiras horas em Bruxelas.

- Onde é que se pode ver o Porto?

A resposta foi imediata.

- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.



Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.

As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:

- É portista?

À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.

O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.

Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.

Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.

O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.

Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.