segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Problema de expressão

Aviso desde já os leitores mais sensíveis para o conteúdo explícito deste texto. Qualquer pessoa que nunca tenha insultado um adversário com palavrões inexistentes, que nunca tenha desejado uma doença sem cura a um jogador ou que nunca tenha imaginado os filhos de um árbitro perseguidos na escola, é melhor fechar já esta página. Ah, e se por acaso for familiar ou amigo do Fonseca, do Licá ou do Herrera, também. 


Tive a sorte de crescer numa família que me ensinou os pilares essenciais da vida em sociedade, como o respeito pelos outros, a boa educação, a igualdade, a liberdade e a solidariedade. Confesso mesmo que me tenho em boa conta em relação a estes valores. Sou uma pessoa calma, não me meto em confusões e espero contribuir para um mundo melhor.

Dito isto, vamos à bola. Eu tenho um problema. Parece que admiti-lo é o primeiro passo para o curar, mas neste caso acredito que será mesmo difícil eu algum dia mudar. Acreditem que até me custa escrevê-lo porque, como já referi, eu considero-me uma pessoa extremamente normal fora do futebol. E agora, que já passaram umas horas desde o sportem-FCPorto, custa-me recordar as coisas que eu sou capaz de dizer durante 90 minutos.

Quando eu sou uma pessoa normal, não insulto ninguém, a não ser os automobilistas que fazem rotundas inteiras pela faixa mais à direita, mas acho esta uma excepção perfeitamente tolerável. A ver um jogo do meu clube, ninguém é poupado. O adepto verde é um filho da puta, claro, porque o amor da minha vida nem é um adepto adversário nem nada. O árbitro é um grande cabrão, obviamente, mas não é nada pessoal, porque qualquer ser humano vestido de amarelo ou de preto num jogo de futebol o é. O jogador deles é corno, porque aparentemente naquela altura eu acredito que ser enganado pela mulher é motivo de gozo, mas atenção que um dos meus jogadores também o pode ser quando falha um passe. O treinador deles é um madeirense do caralho - e notem que eu não tenho nada contra a Madeira, até sou descendente de um madeirense -, mas o meu treinador já é um burro do caralho, o que é muito pior.

Quando eu sou uma pessoa normal, não tolero sentimentos racistas ou homofóbicos. No entanto, no futebol há expressões que se enraizaram nos adeptos e que me envergonham sempre que ganho consciência do que acabei de dizer. Ontem, por exemplo, quando o melhor médio do mundo e arredores William Carvalho entrou a matar ao Varela (o cabrão do árbitro só deu amarelo, agora digam que eu não tenho razão ao insultá-lo logo à partida) eu pedi cartão vermelho para “o preto de merda”. E esta é uma frase que não só me dá nojo, como tem a sua piada, porque acho que o Varela é bem mais negro do que o rapaz. Outra vez, quando o Capel veio ao nosso canto, chamei-lhe “paneleiro”. Eu não faço ideia qual é a orientação sexual dele, mas notem que isso não tem nada a ver com o assunto. Ele é do sportem e está ali perto de mim, tenho que dizer-lhe alguma coisa. E logo eu, que não só não tenho nada contra os homossexuais, como luto todos os dias para que não sejam discriminados. Só que nem é uma coisa que eu só chame a um adversário, porque digam lá: quando o Herrera entrega a 20ª bola a um adversário, ele não merece ser um “paneleiro do caralho”?

Quando eu sou uma pessoa normal, abomino a violência. Não faço mal a uma mosca, nem desejo que alguém o faça, a não ser que a mosca tenha alguma vez votado Cavaco. O Adrien, no entanto, merece partir uma perna de cada vez que se atira para o chão. E o Cedric, se levasse um murro nos dentes de cada vez que fica indignado porque o cabrão do árbitro lhe marca uma falta evidente, não lhe faria nada mal. É óbvio que, em consciência, eu não desejo nada de mal aos meninos, mas em consciência eu também não acho que o Licá merece ir “para a puta que o pariu” de cada vez que… bem, de cada vez que entra em campo com a camisola do meu clube.

Enfim, desculpem-me por estas coisas. Na verdade acho que só o faço porque sei que eles não me ouvem, embora as pessoas que não me conhecem e ficam ao meu lado possam ficar convencidas que eu sou uma selvagem. Não sou. Eu não sinto nada disto, não penso nada disto. Nenhum ser humano é melhor ou pior por ser adepto de um clube, por ser árbitro, por ser jogador ou treinador. Aliás, muitos destes seres humanos que ontem foram estas coisas horríveis que eu lhes chamo e desejo, amanhã podem marcar um golo e passam logo a ser o “Varelinha do meu coração”, podem fazer uma boa exibição e viram “Licázinho, meu amor” e podem ainda ser contratados pelo meu clube e deixar de ser automaticamente o “anão, pigmeu e etc” para entrarem na minha vida como “Moutinho, meu filho”.

Se é justo, racional, se me orgulho disto? Claro que não. Mas isto é futebol, não é para ser levado muito a sério. A não ser quando os filhos da puta dos verdes aplaudem o preto de merda do William Carvalho, a seguir a este não ter sido expulso pelo cabrão do árbitro quando quase matava o estúpido do Varela, que falhou tantos cruzamentos como o paneleiro do Licá, que não tem culpa porque o burro do caralho do nosso treinador não teve tomates para jogar à Porto e calar aquele presidente deles que havia de apanhar uma doença sem cura qualquer.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Nunca mais acaba 2013?

24 de Dezembro de 2013, 11.30h da manhã, comboio para Faro

Acordo de repente e quase grito no meio da carruagem. Tinha acabado de sonhar que abria o site do Manchester City e via Matic, satisfeito e de óculos escuros, a sorrir com o contrato assinado. E eu desesperado, acordei a pensar como seria o jogo com o Porto dia 12 de Janeiro sem ele. Acordo assustado. Matic afinal (ainda) não saiu. Mas esta amargura está-me entranhada, agarrada ao espírito. São muitos empates com o Arouca em casa na pele. 

13 de Janeiro de 2013, Estádio da Luz

Cardozo isola-se, Mangala falha o fora-de-jogo. Tacuara remata, mas Helton faz uma super-defesa. Lembro-me de pensar que tinha ido um campeonato ao ar naquele lance. Só me lembrei disso hoje outra vez. A memória, mesmo que nos minta de vez em quando, tem uma capacidade fenomenal para nos ferir.

11 de Abril de 2013, Hospital de Santa Maria

O Newcastle aperta o cerco e o 2-0 está na cabeça de toda a gente. Estou no gabinete 2 a ver doentes e a olhar sempre para o canto do olho para o telemóvel. Nada acontece e as meias-finais estão ali mesmo. Meço a tensão a uma senhora e espreito o livescore. Nada. 1-0. Quanto tempo faltará? A senhora sai do gabinete e dou a mim mesmo uma pausa para ver os últimos 5 minutos. Golo do Salvio e grito no meio do banco. Faço o banco feliz, descontraído, a ver doentes sem parar, alegre. Não quero saber se vou estar a noite toda acordado, se tenho de ir a pé até ao fim do mundo. O Benfica caminha para um sonho europeu e eu, ao fim de 29 anos de vida, sinto-me realizado, capaz de entender o sentido da vida, como se o Benfica a ganhar fosse toda a metafísica do mundo.

1 de Janeiro de 2013, 00.01, cá em casa

Estou doente, tenho febre e estou sozinho em casa com a C., que é a melhor pessoa do mundo e ficou em casa comigo. Não me lembro ao certo do que pedi para 2013, mas sei ao certo o que queria. Tive saúde, amor e muitos amigos. Mas aquilo que peço todos os anos primeiro não tive. Não sei se foi da febre, se me esqueci mesmo (não que isso realmente interesse, porque peço todos os anos Benfica Campeão, com ou sem passas e não tem resultado). Se pudesse voltar atrás dizia a mim mesmo para voltar para a cama e para me preparar.

4 de Dezembro de 2013, 02.00h (?) Lisboa

Telefonema cá para casa, nasceu o J., o nosso terceiro sobrinho. Eu e a C. sorrimos, desejamos-lhe tudo de bom e passamos um bom bocado de tempo a discutir o clube de uma criança com minutos de vida. Isto pode parecer estúpido, mas tendo em conta Maio de 2013 e a dicotomia que se viveu cá em casa, essa decisão pode ser das mais importantes da vida do J. Se o J. viver o futebol como os tios, a decisão do clube dele marcar-lhe-á a vida e o tempo. Os anos e as épocas serão melhores ou piores consoante o clube. Jogadores serão heróis ou vilões. Bolas ao poste, azares monstruosos ou um bocadinho de sorte. Mas, mais do que isso, o J. será uma pessoa diferente consoante o clube que tiver. É só perguntar-lhe, daqui a 20 anos, e se fosses do .... ? e ver a reacção dele, se ele não sente que lhe estão a perguntar se queria ser outra pessoa, com outra noção da vida e do tempo.

6 de Novembro, 19.00h, Hospital da Luz, Lisboa

A C. faz anos e está internada. A mesma pessoa que em Maio tinha os olhos a brilhar, que chorou  no Porto Canal a lembrar-se do telefonema do FCP a perguntar-lhe porque não renovara o cativo em 2009, junta as poucas forças que tem para insultar o seu treinador e a defesa que, com a sua absurda segurança, conquistou o título de 2012/2013. Lembrei-me daquele trava-línguas: "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo é que o tempo tem" para chamar nomes às mães dos jogadores que há uns meses eram os melhores do mundo. É extraordinária a capacidade de regeneração dos adeptos de futebol. A capacidade de esquecer e de, ao mesmo tempo, nunca esquecer. É como se tivéssemos uma linha temporal só nossa, que medimos em épocas e torna estas semanas sem campeonato um vazio sem nada que o preencha e aquelas semanas decisivas de Maio uma tempestade de emoções em que mil coisas acontecem num segundo. Dou-lhe a mão e calo o meu contentamento com mais uma asneira da defesa deles. Afinal, ela faz anos.

2 de Maio de 2013, 22.00h

O Benfica joga uma meia-final europeia e eu estou em Viena num congresso. Senti o golo do Cardozo como marcado por mim. Estou num conto de fadas. A solidão permite-me, pelo menos, chorar um bocadinho de alegria sem ninguém me ver. Parece-me que isto se passou noutra vida, há mais de mil anos, como se fosse uma lenda, uma história de encantar para adormecer. 
Já não acredito em contos de fadas.

22 de Julho de 2013, Mondim de Basto

Basta-me a C. para ser feliz. Não preciso do futebol para nada.

9 de Novembro de 2013, Estádio da Luz

Sou visto a descer lugares no Estádio da Luz a gritar "AMO-TE, TACUARA! AMO-TE!" quando Cardozo fuzilou Rui Patrício no terceiro golo. Nem por uma fracção de segundo me lembrei daquele falhanço contra Helton, 10 meses antes. Pareceu-me que, pela primeira vez em mesmo muito tempo, o futebol podia fazer-me feliz.

15 de Maio de 2013, Amesterdão

A vida não faz sentido absolutamente nenhum. 

29 de Dezembro, 2013, cá em casa.

C. : "2013 está a acabar. Como é que achas que correu o ano?"
M. : "Uma merda, perdemos tudo em Maio."
C. : "Mas também casámos."
M. : "Ah, pois foi."
C: "E tivemos um sobrinho."
M. : "Pois foi. Mas foi uma merda de ano na mesma"

E abraçamo-nos, prontos para mais um ano.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Tonta de Porto

Ando triste. O M. vai andar longe por uns tempos, vou estar a trabalhar no Natal e parece que não há nada que me anime nos últimos tempos. Acho que, em parte, a culpa é do Futebol Clube do Porto. Bem, na verdade suspeito que até é por causa do Porto que eu estou assim. Pronto, vá, admito: ando triste com o meu clube.

O futebol tem este dom ao mesmo tempo maravilhoso e assustador de controlar a nossa felicidade. Os fins-de-semana podem ser bons ou maus consoante vou a casa ou fico a trabalhar, mas influenciam realmente o meu estado de espírito durante toda a semana consoante o Porto ganha ou perde. E, ultimamente, sabemos qual das duas hipóteses tem acontecido recorrentemente (pode ser chocante para adeptos de outros clubes mas para nós, portistas, empatar é perder). É inacreditável como ainda há uns meses eu pensava que era impossível estar mais contente enquanto o M. batia com a cabeça na parede e agora está tudo trocado.

É que nem consigo disfarçar. O M. - que tenta controlar-se não só porque me ama, mas sobretudo porque sabe que dá azar cantar de galo - bem tenta puxar-me para as nuvens, que é onde ele anda. Enche-me de chocolates, que normalmente resolvem todos os meus problemas. Repete que fico gira com o cabelo mais curto, e até notou logo quando o cortei, que é o sonho de muitas mulheres. Abraça-me com mais força, que pode ser mesmo verdade porque ele tem saudades minhas ou então é a minha cabeça a imaginar que os braços dele ficam mais fortes consoante o benfica ganha ou perde.

É muito giro isto de eu ser do Porto e ele do benfica, mas depois acontecem estas coisas. Eu chego a casa e só quero comer chocolates e ir dormir; ele quer ir passear, jantar fora, aproveitar a vida. Eu de vez em quando deixo de falar porque estou a pensar que mal fiz eu para merecer ir ver aquele jogo em Coimbra; ele fala, fala, fala, e de repente está a falar de como foi espectacular ir a Vila do Conde, como se eu quisesse saber. Eu durmo mal, viro-me na cama tantas vezes como o Paulo Fonseca muda o meio-campo e tenho sonhos tão maus que envolvem o Josué, o Licá e o Ricardo na mesma equipa; ele adormece em segundos, ressona de prazer e sou capaz de jurar que às vezes, mesmo no escuro, o vejo a sorrir e o ouço a chamar "Cardozo".

Claro que estamos conscientes que vai ser sempre assim: nós nunca estaremos igualmente felizes ao mesmo tempo. Pronto, eu sei que isto parece exagero, porque é óbvio que há momentos em que estamos felizes ao mesmo tempo. No entanto, os nossos clubes definem quem está mais e quem está menos. E isso é determinante. Não imaginam as vezes que já pensámos que, se um filho nosso nascer em Maio, vai ter o azar de ter uma mãe ou um pai bastante triste a segurá-lo, com um sorriso mais ou menos sincero para a fotografia que captará o momento eternamente. E, sempre que olharmos para essa imagem, dois ou 20 anos depois, um de nós lembrará o outro: “Olha C./M., estavas com aquela cara porque o Porto/benfica tinha perdido o campeonato!”. Ou, pior, estaremos ambos miseravelmente infelizes se um filho nosso tiver um daqueles raros e enormes azares de nascer em ano de sportem campeão (porra, futuro filho, isso tem quase a mesma probabilidade de um dia o Maxi Pereira se tornar escuteiro, por isso vê lá se te orientas e não nos desiludes logo à partida).

Estou triste e, como não estou habituada a isto, não sei o que fazer. Como é que se ultrapassa isto? Como é que se deixa de pensar no que correu mal? Como é que paro de ouvir na minha cabeça aquele “e se...” que me atormenta? Como é que se dorme bem enquanto o Quaresma está a caminho? Como é que se deixa de sonhar com o negócio Ghilas? Tentei as tochas e nada. Tentei a solução racional, aquela lengalenga de “isto é só futebol e não se pode ganhar sempre” e só fico ainda mais irritada (isto não é só futebol, nunca é só futebol e já não era pouco se fosse só futebol). Tentei tudo, até ver um jogo de andebol com o M. porque grande parte do que sei desta modalidade é que o Porto é melhor do que o benfica, e até isso falhou (fomos roubados, claro, mas vocês percebem o sentido).

Tem dó de mim, Porto. Pára de me fazer mal. Pára, já chega, não dá mais. Imagina como me sinto, como se sentem tantos portistas que dependem de ti para andarem felizes. Nem sabes o quanto nos magoa quando desapareces e nem chegas a entrar em campo para tentar ganhar. É um desespero olhar para ti e não te reconhecer. Nós não estamos habituados a isto, nós não queremos isto. Precisamos tanto e mesmo de ti. Estamos tristes, estamos tontos de falta de Porto. 

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

M. e Vítor Paneira na Benfica TV

Foi um almoço maravilhoso, com uma prenda para a vida. Muito obrigado ao João, que me encontrou no facebook e à Ivone, que chamou a Benfica TV para registar o momento. E, sobretudo, a Vítor Paneira. Por tudo.

Escusas de levantar os braços, Goetze

Quando, no passado sábado, Goetze marcou ao Borussia e levantou os braços a pedir desculpa, foi-me impossível não pensar no Verão quente de 1993, quando o T. me anunciou que Paulo Sousa tinha saído do Benfica e emigrado para os verdes. Mario Goetze, talentoso e virtuoso médio alemão, estava no Borussia desde os 9 anos e, aos 21, escolheu rumar ao rival Bayern, em vésperas de uma final da Liga dos Campeões entre os dois clubes. Não sei se se chateou com alguém, não sei se foi ganhar muito mais, mas não vejo qualquer justificação válida. Goetze não merece um aperto de mão, nem sequer que lhe olhem nos olhos. Goetze merece ser um pária até ao fim dos seus dias.



Sentei-me no degrau cor de tijolo e, acompanhado pelo T., de cotovelos nos joelhos e mãos nos queixos, passei uma tarde de sol farense a tentar imaginar como seria o meio-campo do Benfica nesse ano, se Kulkov seria suficientemente consistente ou não para a posição e, pior, se o Sporting não nos ia cilindrar e comprar todo o nosso plantel. Talvez o discurso fosse mais simples na minha cabeça - eu tinha 9 anos - mas recordo-me bem do vazio, do sentimento de traição, de não querer ir brincar, de não querer ir jogar à bola como jogávamos sempre. 

Talvez Mario Goetze e a nata futebolística passem demasiado tempo fechados em casa, sem qualquer contacto com a realidade. Entre playstations, plasmas de dimensões surreais e penteados que envergonham qualquer pessoa com o mínimo de sentido estético, o mundo dos futebolistas parece uma coisa desligada da realidade, do mundo real onde vivem os adeptos, as pessoas normais que trabalham durante toda a semana e que ao fim-de-semana riem e choram, festejam e fumam cigarro de desespero. A Goetze e à trupe de futebolistas que se acha acima de tudo, fazia falta passarem tempo nos cafés onde se discute futebol, nas roulottes depois do jogo, onde se nota um silêncio gélido depois das derrotas e onde a cerveja sabe melhor quando se ganha. Faz-lhes falta irem ver miúdos a jogar, a gritarem que querem ser como eles e que ficam loucos de felicidade quando vestem uma camisola que, para esses miúdos, é mágica e que para os Goetzes é um emprego.




Quinze anos depois daquele degrau cor de tijolo, mais crescido e com maior capacidade de encaixe face às amarguras do futebol, numa tarde algarvia fui à praia com a C. e amigos. Depois do sol, do mar, das bolas de Berlim, fomos para o carro e eu vi-o. “Está ali o Paulo Sousa.” Não conseguimos chegar com o carro suficientemente perto dele e, por momentos, achámos que o tínhamos perdido. No carro, eu e dois amigos benfiquistas falámos do que sentimos naquele dia das nossas infâncias, quando Sousa, que tinha chegado ao Benfica com 13 anos, desertou. A mágoa e raiva eram tais que até a C. concordava e anuía. Para nossa surpresa, uns metros depois, vimos Sousa na berma da estrada, a arrumar qualquer coisa na mala. F. pôs a cabeça de fora e gritou-lhe, raivoso: TRAIDOR! Não sei se Sousa, um número seis absolutamente fabuloso, chegou a olhar para mim. Se tivesse olhado, veria o desprezo que lhe nutro desde que, naquela tarde, me deixou sem vontade de brincar.

É muito difícil explicar a ligação de um adepto a um clube sem recorrer à metáfora do amor. Talvez (de certeza?) o amor nem seja uma metáfora, mas sim a expressão a usar. Somos incondicionais, irracionais, apaixonados. Sofremos com coisas pequenas, fazemos birras com jogadores, quilómetros para ver finais ou jogos do campeonato. Passamos dias, tardes, noites a pensar nisto. Vamos ao café e defendemos o nosso clube contra amigos ou contra aquele senhor irritante do clube rival. Abraçamos desconhecidos na bancada, trocamos opiniões tácticas com o senhor do bar do trabalho. Estamos preparados para tudo. Choramos sem vergonha nas derrotas, cumprimos promessas absurdas nas vitórias.  Às vezes passamos por tanta coisa num jogo de futebol que parece que passou uma vida. Tudo pelo amor. Pelo amor à camisola. Pela lealdade. A lealdade que Sousa e Goetze não respeitaram. Nem todos os jogadores têm de ser Francesco Totti, Paolo Maldini, Paneira, Baía. Gente que se confunde com a camisola. Esses são os excepcionais. O que nós pedimos aos outros é que tenham o mínimo de decência, a consideração mínima por tudo o que nós vivemos, que é não nos trair para ir jogar no rival.



Quando isso não é respeitado, quando jogadores que sempre foram nossos deixam de o ser, pouco podemos fazer. Não temos milhões para os convencer a ficar (e não devíamos oferecer um euro que fosse a quem quer ir jogar para um rival) e eles vão voltar para os seus mundos, com plasmas do tamanho de ecrãs de cinema e penteados bizarros. Lá, fechados, vão achar tudo normal, que não fizeram nada de mal.
Cabe-nos, sempre que eles se dignam a vir ao mundo real, ao mundo das pessoas que vão às roulottes, das pessoas que choram e riem com os seus clubes, lembrar-lhes que não os perdoamos. Que não esquecemos. Que nos tiraram a vontade de brincar numa tarde.

Goetze terá tudo, terá um ordenado muito maior do que o meu, uma casa gigante, um ecrã que nem cabia no nosso T1. Mas nunca terá o nosso respeito. Talvez em várias circunstâncias o perceba. Quando for filmar um anúncio milionário, talvez estranhe a raiva nos olhos do cameraman. Quando for ao quiosque comprar um jornal para comemorar um título do Bayern, talvez tenha o azar do senhor do quiosque lhe mandar os trocos para o chão. Se um dia for à praia, um grupo de jovens pode gritar-lhe umas barbaridades. Sempre que desceres à terra, vamos lembrar-te que não te queremos cá.


Escusas de levantar os braços, Goetze. Ainda perdes as tuas trinta moedas, Judas.




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os sofredores

Às vezes penso como seria se o M. e eu fôssemos do mesmo clube. Imagino-nos a ir de mão dada para o estádio comigo a reclamar que o cachecol e a camisola dele não combinam, enquanto ele me pergunta se devemos jogar com um ou dois médios defensivos. Vejo-nos ao lado um do outro, de pé nas cadeiras e a gritar insultos para os adeptos do outro lado. Crio diálogos na minha cabeça sobre o que pensaríamos do treinador, que substituição faríamos e qual o jogador que ambos iríamos venerar. É um sonho bonito, confesso, mas rapidamente me lembro que não faz qualquer sentido.

Apesar de partilharmos uma vida e de o futebol fazer bastante parte dela, há coisas que nunca iremos partilhar. Há pessoas que eu abracei quando o Porto foi campeão na luz que eu desconheço totalmente. Podem ser as piores pessoas do mundo - homicidas, violadores, eleitores de direita – mas, como partilhamos a bancada, eu sinto que elas são as pessoas mais importantes da minha vida durante aqueles 90 minutos. E, no entanto, nunca abracei o meu marido para festejar um golo (uma vez, num Man. United-Porto, agarrei-lhe a perna num golo nosso e ele disse-me, num tom maquiavélico, “não voltes a fazer isso”. E eu não voltei).

Há, ainda assim, muito que nos une no futebol. Ainda no passado fim-de-semana a vida colocou-nos o desafio de vermos o benfica-braga e o Porto-nacional no mesmo local, e de seguida. Já sabem quais são as regras nestes momentos: eu estou calada durante o primeiro jogo, ele cala-se no segundo e tudo corre bem. Só que eu fico sempre surpreendida pela maneira como o M. vê um jogo do benfica. Para quem está de fora (e, M., na verdade tenho de admitir que eu não estava bem “de fora” porque me sentia do braga desde pequenina. Não sei se reparaste quando mandei aquele chuto no ar a acompanhar o remate do Rafa à barra. Não, não foi um espasmo, eu vi-a lá dentro), o M. é um sofredor.

Os adeptos sofredores são aquele tipo de adepto que leva tão a sério um jogo de futebol ao ponto de nunca se divertir. Não há sorrisos, não há brincadeiras, mas sempre uma enorme concentração. E, quando estou “de fora”, o M. e o pai parecem-me os adeptos mais sofredores do mundo. Durante 90 minutos, aquelas duas pessoas que eu adoro tornam-se irracionais ao ponto de, a cada ataque do adversário, partirem logo do princípio que vai ser golo e, portanto, sofrerem como se o mundo fosse acabar em dois segundos. São incontáveis as vezes que eu os ouço dizer que é óbvio que o benfica vai perder, que o árbitro os está a roubar, que o braga nunca jogou tão bem, que a vida não faz sentido. Eles sofrem, estão sempre a sofrer e, depois, é golo do benfica e eles ficam aliviados durante o tempo em que se levantam e grunhem e abraçam-se e beijam-se e dizem “foda-se” e “caralho”, como se estivesse a acontecer uma coisa má (e estava, mas para mim, não para eles. Eu é que estava a pensar muitos "foda-se" e "caralhos"!).

E depois sentam-se e ficam logo outra vez com a cara fechada, de guerreiros, e gritam que é preciso defender porque é óbvio que o braga vai marcar, e o árbitro vai roubar, e o benfica vai perder, e vem aí um meteorito que vai acabar com o planeta. E o tempo não passa, porque o tempo está contra o benfica, e vai tudo correr mal, e eles não aguentam, e isto é sofrimento a mais. E eu, que estou calada desde o início do jogo, furiosa porque o benfica não jogou nada mas vai ganhar com uma sorte descomunal, paro para olhar para ambos.

De repente, há duas pessoas numa sala algarvia à espera que um jogo de futebol termine para acabar aquele sofrimento. Essas pessoas estão a ganhar e estão com um ar desolado, porque estão fartas de sofrer. Querem ouvir aquele apito, aquele alívio, para poderem voltar às suas vidas normais, com saúde, com família, com amigos, com cultura, com emprego, essas coisas fúteis. E, ao mesmo tempo, desloco o meu olhar para a televisão e é filmado um conjunto de adeptos no estádio da luz. O jogo ainda não tinha terminado (e aquela gente já devia saber o que pode acontecer nos descontos...) mas eles estão de pé, sorriem para a câmara enquanto cantam sabe-se lá o quê e estão... esperem... felizes! O benfica está a ganhar e eles têm o desplante de estarem felizes. Há inclusive um deles que tem um enorme sombrero na cabeça. Porra, como eu gostava de ser aquele adepto. Ser feliz com aquele aspecto deve ser do caraças!


(este frame é do momento do golo porque ainda não consegui arranjar o do momento exacto que menciono no texto)

Não resisti e disse-lhes: “Reparem na diferença entre as vossas caras e a do senhor do sombrero”. A comparação foi hilariante. O M. ainda sorriu, mas só depois do fim do jogo conseguiu chorar a rir com aquela imagem. O meu sogro nem pestanejou, porque naqueles últimos segundos não era hora de fraquejar. O jogo acabou, acabou o sofrimento deles e, imagine-se, começou o meu. Suponho que tenha feito as mesmas caras, que tenha dito as mesmas coisas, que me tenha levantado da mesma poltrona até à televisão para mostrar ao Jackson como se finaliza. Eu também sofro, sofro muito, sobretudo quando não ganho, como foi o caso. E, se fôssemos do mesmo clube, talvez se tornasse perigoso não haver alguém para nos acalmar durante estes jogos: “M., não dês esses pontapés na mesa senão ela parte-se”, “C., vou distrair a nossa sobrinha de seis anos porque ela está com medo de ti”.

Parece-me óbvio: nós somos sofredores. Invejamos os adeptos de sombrero na cabeça, os felizes, os que se divertem. Mas não somos malucos. Em Maio, passei 92 minutos a sofrer mas depois rebentei de alegria. Fui mais feliz em poucos segundos do que muitos numa vida. Se me dissessem que, para passar pelo mesmo, iria ter de voltar a sofrer um campeonato inteiro, assinava logo por baixo. Sofrer é bom, sofrer faz parte, sofrer é ser adepto.

Eu e o M. vamos ser sempre de clubes diferentes, mas somos cada vez mais parecidos como adeptos. Vamos perder as idas juntos ao estádio, as cadeiras lado a lado, as longas conversas sobre tácticas, compras e vendas e substituições. Mas vamos ser sempre sofredores, porque queremos muito ganhar. E eu, que juntando a isso sou do FCPorto, exijo ganhar.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

De Dortmund a Coimbra

No fim-de-semana jogou-se um Dortmund-Bayern em que Klopp foi derrotado por Guardiola por 3-0. No final, os adeptos do Borussia fizeram isto:



Não sei se sou eu que sou muito fácil (eu choro com os livros de Nicholas Sparks e com aqueles episódios da Anatomia de Grey em que morre alguém muito especial), mas isto emociona-me. Há qualquer coisa neste vídeo que me deixa arrepiada, sem palavras, com vontade de ir a correr para ali.

Ora bem, situemo-nos. A equipa destes adeptos acaba de levar três secos do rival em casa, rival esse que ainda há uns meses os derrotou na final da Liga dos Campeões. Portanto, estamos a falar de uma das maiores humilhações de sempre. Qualquer adepto, dado a escolher entre isto ou uma queda do Everest sem qualquer equipamento de protecção, prefere a segunda, sem hesitações. Mas os adeptos do Dortmund não puderam escolher e aconteceu-lhes o pior. No entanto, no fim, fizeram isto à sua equipa.

Posso ser eu que sou muito violenta (eu torcia para que o Harry Potter fizesse feitiços Avada Kedavra a todos os Devoradores da Morte que o atacavam, mas ele era um menino e ficava-se pelo Expelliarmus. Explicando isto para muggles como o M., significa que há um grupo de pessoas muito más que vos está a tentar matar e tudo o que vocês fazem é tirar-lhes a varinha mágica da mão... Não ajudou muito à credibilidade do meu texto eu falar em varinha mágica e feitiços e mostrar que ainda penso nisto, pois não? Enfim, adiante), mas se um dia me acontecesse semelhante desastre (vade retro Voldemort!) tenho a certeza que no fim não faria isto. Poderia imolar-me pelo fogo para tentar apagar qualquer vestígio de tal resultado, mas isto não.

Mas os adeptos do Dortmund não o fizeram por serem uns totós como o Harry Potter. Os alemães não são propriamente conhecidos pelo seu lado doce e sentimental, capaz de perdoar a dívida de países em ruínas. O que aqueles adeptos sentiram, aquela gratidão mesmo perante um resultado tão mau, foi que aqueles jogadores fizeram o melhor que podiam. Não ganharam porque os outros foram superiores. Mas jogaram muito bem, correram, suaram, tentaram, nunca desistiram. Não ganharam porque isto é futebol. E quem tem visto estas duas equipas a jogar sabe do que se trata: do melhor futebol do mundo. Que mais pode um adepto pedir?

Espero que tal vídeo sirva não só para nos questionarmos enquanto adeptos (quantos não irão a Coimbra no sábado porque estamos a jogar mal, porque está frio, porque é de noite, porque a Terra é redonda, enfim?), mas sobretudo para que a nossa equipa se questione enquanto Porto.

Da nossa parte, peço-vos que notem que estamos em primeiro e que, apesar da confusão, da falta de consistência depois da meia hora, das vantagens que nunca conseguimos segurar e de mais uns assuntos que não vou abordar para isto não se tornar uma palestra à Paulo Fonseca e vocês adormecerem, estamos a jogar melhor – ou menos mal, para ser exacta. Os últimos dois empates foram fruto de erros individuais gravíssimos (e não falo só dos defesas, porque um ponta-de-lança de categoria também não pode falhar um lance isolado no último minuto) e nem toda a gente pode ganhar jogos levando duas bolas na barra e marcando através de um falhanço do adversário.

Não quero pintar um cenário cor-de-rosa. É óbvio que isto está a correr mal e que, se continuar assim, vamos ter problemas. Mas os que só querem sangue – o treinador na rua, a contratação devolvida, o extremo crucificado, o central esventrado – esses são sempre os mesmos. Já o ano passado e há dois anos e há três e há dez o queriam. E não iam a Coimbra na mesma, mas acabavam a festejar os títulos.

À equipa, peço-vos que joguem o vosso melhor, que corram, que suem, que tentem, que nunca desistam. Só assim, fazendo a vossa parte, me terão na bancada como os adeptos do Dortmund: com a certeza de que não se pode ganhar sempre, mas grata por terem feito o melhor que podiam. Não é o caso, meus caros, e espero que isso acabe já no sábado. Lá estaremos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ronaldo: és um Diogo Valente!

Num já distante fim de tarde de 2005 (caramba, estou a ficar velho), eu vi o Sport Lisboa e Benfica a bater por 2-1 o Manchester United, apesar da equipa do Benfica ter alinhado com Quim, Alcides a defesa direito, Anderson, Luisão, Leo, Nelson a médio direito, Nuno Assis à esquerda, Beto e Petit no meio e, na frente, Nuno Gomes atrás de Geovanni a ponta-de-lança. Ganhámos 2-1 contra todas as probabilidades e eu, ainda longe, muito longe, de saber o fenómeno que viria a ser Cristiano Ronaldo, jurei-me seu inimigo futebolístico para sempre. Ronaldo, afectado pela pressão do público que não esqueceu (e nunca devia esquecer) a sua ascendência verde-ranho e branca, fez-nos um sinal com o dedo que mostrava bem que nunca gostou do meu clube. Nesse dia, a partir desse momento, percebi que eu e Ronaldo estaremos sempre em campos opostos.



Eu não perdoo o anti-benfiquismo. Quando um jogador, ou um dirigente, ou uma claque de outro clube, quando qualquer interveniente no jogo mostra ser anti-benfiquista, eu registo e não esqueço. É imperdoável. E essas manifestações podem ser várias e bem mais subtis do que a de Ronaldo. Por exemplo, sente-se no olhar do Diogo Valente que ele é um andrade. E, só por isso, só por eu, com o meu olho clínico, ter detectado anti-benfiquismo no olhar desse cepo, sempre que ele vai à Luz dedico-lhe todos os insultos. Digo-lhe que ele não vale um saco de merda, que nunca há-de ser ninguém, que é tão atrasado mental que trocou as botas, que nunca vai passar da Académica ou do Leixões ou de qualquer clube em que ele jogue, grito-lhe que ele é um andrade filho da..., pronto acho que vocês percebem a ideia. Reparem: eu nem sei se ele é andrade ou não. Mas parece! Isso chega.



Colocado o nome na lista negra, rogo todas as pragas, insulto do pior na Luz  e torço sempre, sempre, sempre contra os anti-benfiquistas. Em qualquer jogo em que o Diogo Valente aparece, eu torço contra o gajo e rio-me de cada centro que acaba no Mondego. E, desde que Ronaldo mostrou à Luz o seu dedo do meio, eu torço sempre contra ele. Sempre. É óbvio que é mais fácil torcer contra o Diogo Valente do que contra o Cristiano Ronaldo: torna as probabilidades de vitória maiores. Mas é uma questão de princípio. Isto mostra que, pelo menos, na hora de escolher inimigos, eu não sou cobarde nenhum. Mas parece-me lógico que, se um gajo formado nos lagartos que fez um pirete à Luz está de um lado, eu vou estar do outro. Quero lá saber se o gajo marca três golos por jogo e está numa forma inacreditável. Não torço a favor desse gajo. É biológico, é-me impossível, nunca na vida. Não quero saber se é português, se é muito humilde e trabalhou muito. Insultou o Benfica? Então, puta que te pariu. Meus caros: não consigo. Um jogador que não gosta, ostensivamente, do Glorioso, merece todo o meu desprezo. Se, para ajudar à festa, foi formado no Sétimo Clube de Portugal, então, meus amigos, sinto que este texto é uma redundância. 
Vocês vão jantar fora com quem insulta a vossa família? Vocês dão prenda de Natal àquele colega cabrãozinho que não faz nada e vos está sempre a lixar a vida no trabalho? Então por que é que eu hei-de torcer por um gajo que insultou o meu clube? Não é isto mais grave? E a seguir? Tenho que torcer pelo Mossoró? Ora que porra.

Pode um benfiquista admirar as capacidades futebolísticas de Ronaldo? Bem, é impossível não o fazer. Ronaldo é um atleta fenomenal (praticamente sobrenatural) que escolheu jogar futebol. É uma besta de força, tem um sprint de corredor de 100 metros, salta mais alto do que toda a gente, chuta brutalmente com os dois pés. Agora, posso eu, como benfiquista torcer por este gajo? Não. Nenhum golo apaga aquele gesto (e aquelas boquinhas de querer o Braga campeão... Eu não esqueço, Ronaldo, eu não esqueço...). É que, para mim, não há atenuantes para o anti-benfiquismo. É um crime que não prescreve, é o pecado futebolístico capital. Se não gostas do meu clube, eu não gosto de ti. Nunca.

Já sei: sou um fanático, devia apreciar o futebolista brutal que ele é, os argumentos patrióticos, e o gajo é humilde e mais não sei o quê. Amigos: até podia ganhar um Nobel da Química, descobrir a cura para o cancro e escrever obras literárias melhor do que Saramago. Podia marcar ainda mais golos, fazê-lo com o Hugo Almeida às cavalitas ou jogar descalço. Insultou o Benfica, não insultou? Então ficamos por aqui. 

Para mim, Ronaldo, tu estás no saco dos anti-benfiquistas. E não há sprint ou golo teu que me faça esquecer isso. Não há maneira de eu te perdoar aquele gesto, não há maneira de eu esquecer o teu berço verde-pus e branco, não há maneira de eu, sempre que olho para o teu focinho quando marcas um golo, me esquecer que eu sou do Benfica e tu não. Tu, para mim, és só um Diogo Valente.


PS: desculpem, houve uma vez que festejei um golo dele. E muito.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Nós e os árbitros

Quando, no Benfica-Porto do ano passado, cheguei a casa e a C. e os comentadores nacionais concordavam que Maxi Pereira merecia o cartão vermelho por uma entrada (?) sobre João Moutinho, eu, sem ver repetições, achei aquilo muito estranho. Em pleno estádio da Luz, quando esse lance aconteceu, pedi não só cartão amarelo para João Moutinho: "Nem te tocou, seu grande filho da puta! Levanta-te, cabrão!" e depois pedi cartão vermelho para Vítor Pereira e todo o banco do Porto: "Vejam-me só como é que aqueles animais falam com o árbitro! E nem cartão levam! Que filhos da puta!". Hoje, olhando para as imagens, concedo que talvez haja motivo para falta e que Vítor Pereira talvez não merecesse o vermelho, mas pelo menos o amarelo ficou por mostrar. Penso que as imagens são esclarecedoras:




E hoje venho falar sobre árbitros porque, pelo meu facebook, vejo éne amigos lagartos a partilharem vídeos e montagens sobre Duarte Gomes, numa correria de insultos e de argumentos que levam a milhares de comentários, a discussões que acabam normalmente em foras-de-jogo não assinalados em 1978 e a referências às vezes demasiado obscuras (vocês sabem do que eu estou a falar), sem qualquer lógica, mas sempre com uma convicção brutal. 
Amigos lagartos: eu percebo por que é que vocês partilham isso. Eu também ainda partilho o penalty do Jardel assinalado pelo mesmo árbitro (e só tenho pena que não haja uma montagem que mostre que nesse mesmo jogo Beto, Viana e JVP tenham ficado por expulsar) e montagens com o roubo em Alvalade neste campeonato. Sabem porquê? Porque achamos todos o mesmo, porque somos todos assim. Temos todos mil argumentos guardados, repetidos e treinados, temos todos contas a ajustar e razões para desconfiar de todos os árbitros. 

Isto tem a sua graça cá em casa porque para mim o Porto é o clube mais beneficiado que já existiu e desconfio que se jogasse contra a Casa Branca ia conseguir saber que árbitro era nomeado antes do Obama, mesmo com isto das escutas. Quando conheci a C. achei, do alto do meu benfiquismo militante e fanático, que ela, sendo desse clube odioso e tão escandalosamente beneficiado, ao menos teria a decência de ficar calada sobre árbitros. Mas não, também odeia todos os árbitros, sabe nomes de fiscais-de-linha e ainda fala de um jogo com o Campomaiorense que, suponho, foi a única vez que o Porto não foi beneficiado desde a invenção da regra do fora-de-jogo. Para o lado dela, as coisas são mais ou menos o mesmo. A minha sogra, mesmo já me conhecendo este tempo todo, depois de ler um texto meu, perguntou à C. "Ele diz isto do Benfica ser sempre roubado a brincar, não é?" porque achava que eu, como benfiquista, devia ter consciência que o Benfica é sempre beneficiado (o que é praticamente uma impossibilidade matemática, cara sogrinha, ainda para mais contra o seu clube. Acho que uma vez tive um lançamento mal assinalado no Dragão, mas ainda no meio-campo do Benfica). 

Eu não escrevo isto numa de moralista, do género "deixem-se disso, que somos todos iguais e os erros acabam por se compensar". Para mim, o Benfica é roubado e perseguido todos os jogos e sei de cor todos os pontinhos que nos devem deste campeonato e de todos os campeonatos que me lembro.  Mas escrevo isto para nós, adeptos, não nos levarmos tão a sério. Não é que nenhum de nós um dia vá admitir que o seu clube foi beneficiado (eu não posso porque isso nunca acontece, estou a falar para vós, azuis e verdes), mas convinha, de vez em quando, que nos soubéssemos rir de nós, da loucura persecutória que temos todos, do facto de nenhum árbitro ser bem-vindo, dos posts com 187 comentários, dos vídeos completamente viciados que aparecem na net.

Uma vez, a falar com um ultra do Torino, caí no erro de elogiar a maneira como o Roberto Baggio batia livres. A resposta dele foi mortal: "Esse cabrão marcava mal. Tinha era tantos, tantos, que um havia de entrar". Eu na altura, em plena curva, não me pude rir e tive que concordar. Mas hoje esta história parece-me retratar em pleno aquilo que vos queria dizer. Nenhum adepto verdadeiro admite a derrota, a superioridade do rival. Nem sequer se admite que o Baggio marca bem livres. Essa intransigência, essa cegueira e luz que eu vejo na C. e em mim (e aqui a ordem de "cegueira" e "luz", "C." e "M." não foi despropositada) é uma maravilha.

Viva nós, adeptos cegos. 

PS: um grande abraço para Tacuara Cardozo, que lhe viu sonegado o poker quando Duarte Gomes não quis apitar o óbvio penalty sobre Luisão.

sábado, 9 de novembro de 2013

Mi casa es tu casa

Roberto,

Tenho muitas saudades tuas. O pouco tempo que passámos juntos deixou-me marcas profundas. Foi como um amor de Verão: curto, mas muito bem aproveitado. Confesso que ao início tive muitas dúvidas em relação a ti - um gigante vindo de outro gigante parece assustador. Mas depois vi a tua estreia num jogo de pré-época, quando sais da baliza desamparado, a bola bate à tua frente e entra em chapéu. Lembro-me que o M. parou uns segundos para processar e que depois disse: “Esta jabulani é lixada”. Coitado, nem te deu valor nenhum. O problema para ele era a bola. Mas eu vi logo: tu, Roberto, eras a minha solução.

A verdade é que uma pessoa passa anos a torcer para que o guarda-redes do rival seja como tu. Eu tinha o Baía, mas tinha de aturar o Preud’homme. Ainda levei com o Schmeichel, mas os deuses compensaram-me com o Ricardo. E, quando eu já sentia falta de um alvo fácil, apareceste tu. Tu, Roberto, com aquele ar de menino órfão que sofre de bullying nos relvados, provavelmente estás no top 10 de coisas boas que o futebol me deu. Por isso não penses que estou a gozar – o que sinto por ti ainda hoje é sincero.

Eu sei que nós não te facilitámos a vida no Dragão, cheio daqueles cartazes com o objectivo de te desconcentrar, e com aquele frango solto no relvado a demonstrar várias semelhanças contigo. Mas para mim, Roberto, tu foste um herói nessa noite – em cinco golos que sofreste, não tiveste culpa em nenhum!



Essa fabulosa época deu-me muitas histórias para contar mais tarde. Na nossa sala, chegámos a ter uma foto tua que saiu num jornal desportivo, quando, no jogo contra o Nacional, a bola vai tão devagar na tua direcção que até já se vê o Cardozo a correr para a frente à espera do contra-ataque. Mas era nesses momentos que tu te superavas: ficaste a olhar e a bola entrou. Foi lindo.

O culminar da nossa paixão deu-se na Luz. É verdade que o Porto era tão superior que poderia marcar em qualquer altura, de qualquer forma. Mas tu não resististe a despedir-te desse campeonato sem qualquer emoção: aquele meio remate, meio cruzamento do Guarin entrou tão elegantemente na tua baliza que soube ali que te iria ficar eternamente grata.

O problema, Roberto, é que o teu regresso à Luz trouxe-me um amargo de boca. Estava mesmo a contar que, por uma vez, cedesses à tentação de chamar a atenção e que passasses ao lado da partida mais entediante que vi este ano (e eu fui ao Restelo ver aquela merda, por isso imagina). Fiquei com aquela sensação de ser traída, por estares a dar prazer a outros que não eu. Não era justo, logo a mim que sempre te aclamei.

Mas a nossa história não podia acabar ali, tu tinhas de provar-me que ainda havia uma réstia de esperança para nós os dois. E lá, em Antenas (Jorge Jesus dixit), tu revelaste um novo Roberto que já não me deu tantas gargalhadas, é verdade, mas cujo resultado final me deixou tão satisfeita como naquelas derrotas do benfica com a tua marca.

Por isso, Roberto, quero que saibas que tens aqui uma fã. Estou-te sinceramente muito agradecida pelo que fizeste por mim e sinto que nunca te vou conseguir retribuir tamanha bondade. Se algum dia te faltar alguma coisa - um abraço, um incentivo, uma palavra querida - é só bateres à minha porta. Mi casa es tu casa. Tenta só aparecer quando o M. estiver a trabalhar porque ele está capaz de te matar. E ambos sabemos que tu não ias conseguir agarrá-lo a tempo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Temos de crescer, Benfica

Tenho quase 30 anos. É uma sensação agridoce de contente pelas coisas que tenho (mulher de sonho, emprego que sempre quis, família perfeita) e aquela vontade de se ser sempre pequeno. Nada nos faz lembrar mais Peter Pan do que ter de ir tratar de uma burocracia qualquer à Loja do Cidadão. Gosto de ser médico, marido e tio, mas odeio o ter que tratar de uma casa, de documentos, de impostos. 

Ganhámos ontem em Coimbra, 0-3. Parece que foi fácil, mas não foi. A equipa anda cabisbaixa, de birra, mãos nos bolsos, ombros caídos e a olhar para o chão como se o mundo estivesse contra ela. Como um adolescente a quem mandaram arrumar o quarto e vê nisso uma conspiração mundial. O Benfica não cresce, não ganha maturidade, não consegue arrumar o quarto sem se enervar e enervar toda a gente, quanto mais tomar conta de uma casa, arranjar mulher, tratar dos documentos da segurança social.

Sempre achei que os adultos eram super-heróis. A minha mãe sabe sempre o que fazer, o meu pai tem resposta para tudo. Achei que chegaria a uma idade em que ficaria assim, de um dia para o outro, a saber o que fazer. Não é assim, mas vai ter de ser. Tenho que tratar de coisas, de burocracias que odeio, de coisas que me tiram tempo para fazer o que gosto. Sou um péssimo adulto, mas tenho de o ser. 

O Benfica ainda é mais adolescente do que eu. Deixa-se levar por qualquer moda que apareça (isto do Ivan Cavaleiro passar a titular é uma coisa que me mata, não lhe reconheço qualidade nenhuma para ser titular no Benfica), entra em casa de phones sem cumprimentar ninguém e põe-se a pensar na vida dele em vez de fazer os TPC. Vitimiza-se, entra em depressão por tudo e por nada, excita-se com qualquer vitória como aqueles adolescentes que lêem uma coisa e acham imediatamente que aquilo é a melhor coisa que já foi escrita no mundo e passam a vangloriar-se disso e a falar vezes sem conta dessa vitória. É de uma instabilidade que não dá confiança a ninguém.

Eu também sou terrível nestas coisas e a C. passa a vida a chatear-me (e cheia de razão) porque eu não pago logo as contas e me meto a estudar primeiro, porque eu demorei meses/anos para tratar da via verde, mas que demorei só uns dias a assinar a revista Panenka depois de ler o primeiro exemplar que me chegou à mão. A C. tem razão. Mas, sabes, Benfica, eu pelo menos sou bom médico e bom marido (a própria C. o reconhece), faltando-me só este último obstáculo - a capacidade para perceber que um assunto chato tem de ser resolvido e fazê-lo o mais depressa possível - para atingir o grau de adulto e a C. deixará de ter medo que eu venha a ser um daqueles pais que se esquece dos filhos na escola (não, a C. não está grávida, calma). Se calhar este último obstáculo é grande, admito, mas caramba, já não falta tudo, percebes, Benfica? 

É que o Benfica não consegue encarar a mínima tarefa decentemente. O jogo em Cinfães eram favas contadas, como quem diz "estive com atenção nas aulas, não preciso de estudar" e pelos vistos foi péssimo. Com o Estoril acabámos com o credo na boca, a fazer uma directa a arrumar o quarto antes dos pais chegarem de fim-de-semana. Com o Olympiakos foi chegar a um teste sem estudar e ele foi adiado uma semana e, pelos vistos, continuamos sem estudar. No entanto, com o golo do Markovic ontem, já temos com que nos entreter para uma semana, como um adolescente que começa a ler Eça de Queiroz e deixa de estudar para o teste de Matemática ou como eu, que me esqueço sempre de deixar comida a descongelar ou que quando ponho comida a descongelar acabo a deixá-la lá sem a cozinhar.

Benfica: temos de crescer. Temos mesmo. Eu já estou quase nos 30, não estou totalmente fora de controlo, mas às vezes ainda deixo a C. à beira de um ataque de nervos. Agora tu, meu querido e amado clube, passas a vida a lixar-me a cabeça. Não há jogo que não seja uma carga de nervos, não vejo a mínima entrega, a mínima concentração. Pior, com quase 30 anos a ver-te, não te reconheço a mínima maturidade. Não sabes esconder a bola, não sabes ser menos vertical, não sabes encarar o jogo com a calma e concentração necessárias para ganhar, mas sem a sofreguidão e loucura de quem não sabe dosear nada. Tudo é difícil contigo, Benfica. Ainda és pior do que eu. 
Preciso muito que tu cresças porque não há a mínima hipótese de nos separarmos, mas gostava de, um dia, conseguir ver um jogo confiante que tu vais resolvê-lo como um adulto, calma e serenamente, como quem espera numa fila da Loja do Cidadão e depois resolve tudo educadamente e tem os papéis prontos e todos certinhos, percebes? Contigo falta sempre um papel, Benfica. Falta sempre um carimbo, ou chegas com a loja quase a fechar e acabas sempre a ser multado e eu lixado contigo, aos berros.

Vá, Benfica, temos de crescer. Os dois. Mas tu mais do que eu. Vou começar por pagar a renda da casa (estás a ler, C.? Não pagues também.). Vê se ganhas na Grécia e na Luz, contra aqueles gajos. Tens de crescer, Benfica, tens de crescer.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Reportagem no Porto Canal

Reportagem "Azul e Branco" com o Lá em casa mando eu a partir dos 9.50

M. na Liga dos Campeões

A partir dos 73 minutos:

http://www.tvi.iol.pt/videos/13996812

Com uma pequena e adorável referência ao blog no programa Maisfutebol da TVI24. Obrigada!


quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Polémica Blatter

Não tenho por hábito dar importância a declarações dessa pessoa, uma vez que não lhe atribuo qualquer credibilidade no mundo do futebol. Admito que devesse estar mais preocupado com um Mundial num Brasil com a revolta nas ruas, ou numa Rússia que não deixa homossexuais entrar, ou ainda num Qatar com temperaturas à volta dos 50 graus, que podem justificar muita entrada de dinheiro na FIFA, mas que ainda está difícil fazer com que um ser humano as aguente enquanto joga à bola. Mas a pessoa em causa foi questionada sobre o duelo Messi-Ronaldo, num ambiente descontraído, e achou normal esquecer-se de quem é para dar um espectáculo que me incomoda, sinceramente, pela vergonha alheia de ver alguém a tentar ter piada sem ter.

Também já não tenho paciência para a pergunta sobre Messi ou Ronaldo. Ainda no fim-de-semana vimos todos um clássico espanhol onde nem um nem outro pareceram ter estado por lá. Vimos Neymar, vimos um chapéu de Alexis, vimos um ou dois passes que só Iniesta consegue fazer (perdoem-me a visão direccionada, mas sim, sou um bocadinho do Barça). Se isso se repercutiu num futebol menos bonito? Claro que sim. Eles são os dois melhores do mundo e qualquer adepto devia querer ver os dois melhores do mundo sempre em boa forma. A não ser contra o nosso clube, claro.

Eu, como sabem, prefiro Messi. Por razões futebolísticas, claro, nem vou entrar por aí porque acho a diferença mesmo enorme, mas também humanas. Farto-me de dizer que os jogadores de futebol têm de ter noção que nos recreios da escola os putos podem querer ser como eles. Ronaldo é um jogador do caraças, um exemplo de trabalho, de rigor, de vontade de fazer sempre melhor. Se se ficasse por aqui, não teria qualquer problema em que um filho meu quisesse ser como ele (estou a exagerar, claro que tinha, um filho meu nunca há de inspirar-se num lagarto que um dia nos eliminou da Liga dos Campeões, embora à distância isso me pareça atenuado pelo gesto que fez em plena Luz e eu esteja preparada para explicar que isso não é mau ao meu tal filho).

Mas não concordo com Blatter: Ronaldo não parece um comandante em campo. Se há coisa que Portugal pode lamentar é precisamente isso, que ele não tenha a força de carácter exigida a um grande capitão. Ronaldo é ele, ele e só ele, o seu corpo, a sua cara, o seu cabelo que muda ao intervalo quando a Selecção está a perder, a sua ambição, o seu projecto, a sua vontade de ganhar a tal Bola. E dizem-me: mas ele é tão bom que pode ser assim. Admito que tenham razão, porque um homem que ganha o que ele ganha realmente não deve ter de se preocupar com nada. Mas voltamos à tal questão do exemplo: há por aí muito adolescente borbulhento que quer ser o Ronaldo. E, como não tem o talento dele, faz só figura de estúpido ao andar mal vestido, com penteados horríveis e, muito pior do que tudo isso, com uma atitude perante o mundo de “eu sou assim e ou me amam ou me odeiam”. E eu odeio-vos, putos.

Tenho pena que a filosofia de Ronaldo esteja a inspirar outros. Mas, ao contrário de Blatter, não sei bem qual é a filosofia de Messi. Parece-me que ele não está sequer preocupado com isso. O M. tem a teoria que ele é autista e que, se de um lado se torna mais anti-social, do outro compensa com uma capacidade fora do normal para uma actividade – neste caso, e com muita sorte nossa, o futebol. Mas, sinceramente, não quero saber. Não sei quem é a mulher dele, nunca lhe vi os pais, lembro-me que foi pai mas nem sequer sei o nome da criança (se é menino ou menina...). O único anúncio que me lembro dele recentemente é o de um videojogo de futebol. Nunca o ouvi a dizer “oleosidade”, pelo que a comparação é difícil de ser feita. Não sei que opinião ele tem sobre a independência da Catalunha ou os cortes na saúde e na educação. Eu quero é ver Messi a ser Messi, no campo.

E é aqui que me tenho chateado nas últimas horas. Parte da multidão admiradora de Ronaldo (nada contra, atenção) achou por bem reagir às palavras idiotas de Blatter com ataques a Messi. Que é mais feio que Ronaldo, que não tem tão bom cabelo, que é um anão, que é favorecido pela FIFA, que é isto e mais aquilo. Gente: vocês estão a falar do Messi. Um jogador como nunca verão igual. Golos, títulos e Bolas de Ouro à parte, um dia, quando vocês tirarem esses óculos vendidos pelo Jorge Mendes, vão perceber que estão a perder a oportunidade de admirar um daqueles jogadores que aparece uma vez por século.

Onde é que está escrito que para se gostar de um tem de se detestar o outro? Imaginem o quão estúpido seria alguém detestar o Maradona (muitos parabéns Deus!) só porque adorava o van Basten. Eu, por acaso, não gosto do Ronaldo, mas isso até começou antes de Messi ser Messi. O Ronaldo foi do sportem e eu, como não nutro qualquer sentimento pela Selecção, não o perdoei por isso. Aliás, quando vejo um portista louco por ele lembro-me sempre da patetice que é um lagarto que adora o Mourinho ou um lampião que admira o Falcao. Mas eu não me atiro ao Ronaldo para defender o Messi. Atiro-me quando diz coisas parvas, mas não é isso que ele quer com o “eu sou assim e ou me amam ou me odeiam”? Ainda assim, não lhe digo que, à beira de um ET do futebol, ele é demasiado humano. Messi não precisa dessa minha ajuda.

E chegamos ao ponto crucial. O país a ajudar Ronaldo. O país indignado, excitado, quase pronto a invadir o Parlamento, não para travar o Orçamento do Estado para 2014, mas para exigir a cabeça de Blatter. O país que nem quis ler bem a resposta muito baixa de Ronaldo (aquela do “muitos anos de vida”, enfim, já vi ameaças de morte em westerns onde os cowboys foram mais subtis). Exactamente o mesmo país que ignorou os ataques de Platini ao FCPorto. Pois é, senhores, eu não me esqueço que o mais alto responsável da UEFA nos quis ver fora das competições europeias e veio criticar os nossos jogadores estrangeiros. Uma ironia do caraças, uma vez que falamos de um ex-jogador francês que passou o auge da sua carreira em Itália e logo no clube arrasado por um escândalo de corrupção. Platini teria sido, então, um alvo fácil para este país revoltado. Mas não, não foi. De que interessa o FCPorto ser o melhor clube português e que tem conquistado os únicos títulos internacionais para este país condenado a perder finais em casa? De que interessa se Ronaldo nunca ganhar nada por Portugal? A diferença é que, enquanto Blatter se meteu com o melhor jogador português, Platini meteu-se com a aldeia. E eles lá na aldeia que se arranjem, não é?

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Take a walk on the wild side

Tinha saudades de um clássico a sério entre o FCPorto e o sportem. O fosso entre os dois clubes tem aumentado tanto que nos últimos anos temos perdido este momento de rivalidade para um mero desejo de vitória, como se de um qualquer jogo com um rio ave ou um paços de ferreira se tratasse. Não me confundam: eu não quero um sportem mais forte para ter mais dois momentos de adrenalina por época. O que eu quero é sentir que um dos meus rivais está vivo o suficiente para eu lhe ganhar e gozar mais com isso do que com qualquer outra vitória no campeonato. E isso, infelizmente, não tem acontecido com os verdes.

É que a rivalidade é das coisas mais bonitas do futebol. Talvez alguns não percebam o sentido disto, mas eu não me imagino tão portista se o benfica e o sportem não existissem. Não significa que eu não adore o meu clube por si só, que eu não torça por ele contra qualquer belenenses ou estoril, ou sequer que o meu fanatismo seja toldado pelo ódio aos outros. É simplesmente uma coisa que o futebol criou e que eu não tenho vergonha de fomentar. Eu adoro o Porto e detesto os meus rivais. Eu sou dos bons e torço sempre contra os maus. É natural, vive cá dentro, é selvagem do lado mais positivo que possam imaginar. Percebem? Se são adeptos, claro que sim.

Eu já não penso no Barcelona sem o Real Madrid, não imagino a Roma sem a Lazio, nem quero ver este Bayern sem este Borussia. Estas equipas podem mudar muito: entram craques, saem estrelas, mudam de treinadores e de patrocinadores, há obras nos estádios e os preços dos bilhetes oscilam, as televisões trocam de campeonato preferido consoante o telintar das libras, dos euros ou, quem sabe até um dia, dos rublos. Só os adeptos é que são sempre os mesmos e esses não se esquecem das histórias para contar sobre essa rivalidade. Eu, que tanto admiro ao longe um chapéu de Alexis como uma coreografia no Olímpico ou um cântico insultuoso em alemão, também não. O futebol é bonito pelo 4x3x3, pelo golo de calcanhar ou pela reviravolta nos últimos minutos. Mas porra, o futebol é uma coisa do outro mundo quando isso acontece entre rivais.

No entanto, se pensam que a rivalidade entre FCPorto e sportem esteve adormecida devido aos fracos resultados da lagartagem, estão errados. Dois rivais não deixam de ser rivais pelos resultados. Lembrem-se do Betis a fazer de propósito para perder um jogo em casa para o Sevilha descer, com os adeptos a gritar golo do adversário:


Ou da descida do River assim comemorada pelos adeptos do Boca:


Um rival pode até descer de divisão que não deixa de ser rival. E o sportem, embora não tivesse andado longe, não desceu de divisão (lamentavelmente). O que aconteceu à rivalidade entre FCPorto e sportem explica-se, no meu entender, pela conjugação de dois factores: por um lado, porque Porto e benfica andaram demasiado ocupados um com o outro; por outro, porque sucessivas direcções do sportem desvalorizaram essa mesma rivalidade. E este é o meu elogio à actual direcção daquele clube: perceber que o Porto é um alvo a abater é meio caminho andado para pelo menos chamar a atenção.

O problema, para eles e não para mim, é que o resto do caminho que falta ao sportem ainda está muito longe. De pouco adianta andar um mês a motivar as hostilidades se depois se chega à aldeia com o rabo entre as pernas. Aqui, aliás, o sportem até nem está sozinho. Nos últimos anos, os nossos rivais de Lisboa não só nos deixaram escapar em termos de títulos, como se amedrontaram perante nós. Talvez se tenham apercebido do óbvio: que durante os últimos 30 anos, enquanto eles nos tentaram diminuir das mais variadas formas, nós unimo-nos. E é por isso que, mesmo quando não jogamos tão bem (e não estamos a jogar nada bem, mister, não estamos mesmo), somos mais fortes.

Daí que tenha gostado muito de voltar a sentir aquele friozinho na barriga que precede um clássico (nos livros dizem que isto se sente quando uma pessoa se apaixona, mas não é verdade. Só um adepto sabe o que isto é). Lamento que este sentimento transforme alguns em genuínos selvagens, mas para nós, os que lá vamos pelos clubes, um FCPorto-sportem destes tem mesmo muito mais piada.

Quanto ao jogo, só ressalvou o que todos sabemos: o tal fosso entre os dois clubes não pára de crescer. Bruninho, enquanto nos tentares invadir mas acabares a chorar durante os festejos de uma derrota por 3-1 na minha casa, saberei que não estás preparado para este lado selvagem da nossa rivalidade.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

À espera dos "grandes sportinguistas"

É comum eu ou o M. sermos apresentados a outra pessoa como “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”. É claro que nós temos outras características que nos podem distinguir da restante sociedade, mas os outros, como nós, que sabem a importância de ligar de imediato uma pessoa a um clube, desvalorizam-nas.

Eu podia ser “a C., jornalista”, “a C., que gosta de viajar” ou “a C., que enquanto esteve de baixa se viciou de tal forma nos comics de Walking Dead que agora não percebe o que há para fazer no mundo enquanto não sai um novo”. Mas não, sou sempre “a C., uma grande portista”. E sou-o com muito orgulho. Não vejo nenhum problema nisso. Talvez outras pessoas que não percebam esta nossa doença prefiram ser conhecidas por “a S., que toca muito bem pandeireta” ou “o T., que um dia salvou a vida a uma idosa com uma criança ao colo”. Mas para nós não há melhor forma de nos reconhecerem do que por sermos adeptos.

Suponho que por esta altura já estejam a pensar que nós nunca fizemos nada de marcante nas nossas vidas e que seja por isso que os outros apenas nos vêem como maluquinhos que gostam de ir para as bancadas gritar, saltar e insultar os outros que são exactamente iguais a nós. Mas não é verdade. Se um dia eu tiver um filho, não se sintam obrigados a tratar-me por "C., a mãe do Jorge Nuno". Se o M. ganhar um Nobel, escusam de se sentir orgulhosos por serem amigos do "M., que ganhou um Nobel". Nós queremos mesmo continuar a ser "a C., uma grande portista”, ou “o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”.

Para dar um exemplo: eu era a melhor aluna da turma e hoje, quando encontro antigos colegas, eles não me perguntam: “Então, continuas a ter tudo 5 no final do 3º período?”. Normalmente, sai-lhes um: “Então, o que é que achas deste Paulo Fonseca?”. O que diz muito não só de mim, que já na escola era conhecida por ser adepta, mas também deles, que se preocupam com coisas mais importantes do que o sucesso da minha vida profissional.

Eu ganhei provas de natação e torneios de ténis e o M. tem dezenas de taças do xadrez (desculpa, meu amor, por revelar ao mundo que eras um grande totó). Com 10 anos, éramos daqueles putos estranhos que, em vez de brinquedos, pediam livros no Natal, o que faz com que tenhamos livros nossos espalhados por três casas diferentes e mesmo assim estejamos a ficar sem espaço. Ambos conseguimos alcançar a profissão que desejávamos desde muito novos, embora no meu caso tenha sido uma grande desilusão para a minha mãe, que me via como futura juíza-presidente do Tribunal Constitucional (agora percebo que, em vez de escrever sobre os cortes do Passos e do Portas, podia estar a travá-los com um sorriso. Moral da história: façam sempre o que a vossa mãe vos aconselha). Temos a sorte de poder viajar muito e de partilhar o mundo que vamos conhecendo com quem não pode. O M. salva vidas todos os dias e eu um dia salvei uma menina de se afogar numa piscina. Fogo, se isto não chega para vos convencer que há mais neste casal do que o futebol, então vocês é que são mesmo doentes.

No entanto, continuamos a chegar a uma noite de convívio com os amigos e a sermos apresentados a desconhecidos como “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”. Chegamos ao nosso local de trabalho e falam-nos de futebol. Visitamos a família e perguntam-nos se, em vez de irmos passear todos juntos, temos um jogo para ver.

E nada disto nos incomoda quando do outro lado está alguém como nós. Se a um “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão” se segue um “Olá, eu sou o J., e acho que os vossos clubes são uma merda porque sou do sportem”, gostamos imediatamente dessa pessoa. Não interessa o clube, desde que seja alguém capaz de criticar o preço dos bilhetes nos estádios, de recordar visitas históricas a Guimarães e de apoiar o seu clube, esteja em que situação estiver.

Os que não suportamos são os adeptos de ocasião. Detesto quando alguém me é apresentado como “um grande portista” e a seguir noto que não sabe com quem jogamos para a semana. Ninguém é “um grande portista” se não me conseguir dizer o 11 esperado para o próximo jogo. Não considero “um grande portista” alguém que passa o ano a assobiar e depois vai para a varanda do Dragão festejar mais um título. Quando conheço alguém assim, sei bem que vai continuar por cá enquanto o Porto ganhar, mas que vou deixar de ver esse “grande portista” quando as coisas correrem mal. Por isso, não lhe dou valor.

Sei bem quem são os “grandes portistas”. Conheço-os há muitos anos. Conhecemo-nos de grandes tardes nas Antas, de chuvadas em Alverca, de cargas policiais em Alvalade, de invasões em Penafiel. Mas também conheço os “grandes benfiquistas”, os “grandes sportinguistas” ou os “grandes boavisteiros”. São todos iguais e, na hora de os apresentar a alguém, não tenho vergonha em dizer “Este é o meu amigo D., um grande benfiquista”, porque o meu amigo D. não desapareceu quando o benfica perdeu tudo, não deixou de entrar no local de trabalho e ouvir umas bocas porque é conhecido como o “grande benfiquista” da zona, nem abandonou a sua equipa até ao momento em que voltar a ganhar e, aí sim, aparecerem todos os milhões que não são “grandes benfiquistas” como ele.

Lembrei-me de escrever isto assim que me apercebi que, afinal, conheço muitos mais lagartos do que sabia. Alvalade, as redes sociais e os jornais inundam-se de falsos “grandes sportinguistas”, crentes numa equipa que voltou a respirar. E até vêm ter comigo, que conto pelos dedos de uma mão os verdadeiros “grandes sportinguistas” que conheço, e chateiam-me, e provocam-me, e prometem que vão ao Dragão para me humilhar. Não tenho paciência para esta gente que o ano passado andava mais interessada em fauna africana e artes circenses do que em futebol. E julgo até poder falar em nome dos “grandes sportinguistas” que eu conheço quando digo que não é justo que essas pessoas possam festejar tanto um golo em fora-de-jogo do Montero como os que nunca abandonaram uma equipa que tinha o Boulahrouz.

Espero, portanto, que os “grandes sportinguistas” venham em força ao Dragão. Não vou esconder que preferia encontrar-vos quando estavam a lutar pela manutenção e não pelo título, mas acreditem que até já tinha saudades de vos tratar como um grande. Quanto aos outros, que apareceram agora, da minha parte podem esperar toda a hostilidade que desejam.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A história vos agradecerá

No último fim-de-semana, eu, a C., os meus sogros e o meu pai (via telefónica) deleitámo-nos com mais um show do Barça, desta vez até sem Messi. A C. dizia "Se o Porto jogasse 10 minutos destes nós enlouquecíamos" e o meu pai repetia o "Foda-se, é demais", como se não lhe coubesse noutra expressão a alegria comovente de ver esta equipa. Eu contorço-me de prazer. De prazer. Levo as mãos à cara nas recepções mais impossíveis, fico espantado (ainda hoje) com a velocidade com que recuperam a bola e fico encantado com o ar absolutamente sério que Xavi mantém, estes anos todos depois, sem sequer sorrir. Sempre imaginei que ele, o grande maestro e torturador dos adversários (é ele quem faz girar toda a gente), um dia se rendesse, como nós, aos palavrões, e largasse um Joder! depois de mais uma assistência fabulosa. Iniesta dança e cansa os rivais, que ainda não perceberam que tirar-lhe a bola é quase tão impossível como ele falhar um passe. 

Imagino Camp Nou daqui a 25 anos, estádio meio vazio, meio cheio, e um extremo centra sem critério à procura da cabeça de um latagão qualquer que está na área. Mais que um sócio do Barça meterá as mãos na cabeça, insultado por futebol tão primata, e vários adeptos pelo mundo - eu incluído - suspiraremos pelas vezes em que Xavi, Iniesta, Busquets e Messi pararam o carrossel e voltaram para trás, bola rente à relva e junto ao pé.
Tenho pena e às vezes sinto-me até insultado pelo facto de não ser unânime que este Barça está no Olimpo com o Brasil de 70 e 82, com o Benfica dos anos 60, com o Ajax dos anos 70, com o Milan de Sacchi, com o grande Liverpool e Flamengo de Souness e Zico. No mundo que eu sonho, não havia escola, trabalho, casamentos ou baptizados em dias que jogasse este Barça. Pararíamos todos, sentados, com boa música a tocar e talvez um bom vinho, a apreciar. Ver aqueles toques de calcanhar contra a Real Sociedad devia ser recordado como ver o homem na Lua. Devíamos saber onde estávamos, o que tínhamos feito nesse dia, com quem vimos esse lance.


Admito que já não é igual. Com Pep a coisa parecia ainda mais pura, ainda mais requintada. Mas Pep é um tipo que parece levitar e não andar e tenho sempre a sensação que terá opiniões tão profundas e fundamentadas sobre todos os assuntos que apetece mais convidá-lo para jantar do que vê-lo a treinar uma equipa de futebol. Talvez por isso, por não ter Pep, já não seja igual. Mas esta ideia, esta técnica e inteligência toda, continua lá. É um deleite contínuo, um assombro extraordinário que se tornou quotidiano de tantas vezes repetido, mas que não deixou de ser extraordinário.

Irrita-me que haja quem não perceba, que haja quem diga que "que dá sono", que é o mesmo que dizer que a Mona Lisa tem poucas cores. É como achar que um tipo é porreiro, que pode ser nosso amigo e depois descobrimos que ele não gosta de Pink Floyd, que acha que ler é uma estupidez e não percebe a grandeza do Benfica.
Nunca se viu nada assim: em anos e anos, com centenas de equipas, com múltiplos intérpretes geniais, alguns lado a lado com os grandes génios da humanidade (Maradona, Cruyff), aconteceu, em futebol - a maior arte do mundo - uma equipa formada quase toda na própria casa, com o melhor jogador do mundo de sempre e cujo estilo de pé para pé premeia os mais pequenos e com mais técnica contra os altos e fortes, como uma fábula. Essa equipa, todos os fins-de-semana e às vezes a meio da semana, joga nos nossos dias. 

Eu sou de uma geração que não teve os melhores anos musicais, que teve grandes escritores, mas poucos ao nível de Jorge Amado, Aldous Huxley ou Fernando Pessoa. Eu sou de uma geração sem revoluções (excepto a árabe), a geração a quem disseram que a história tinha acabado. Mas eu sou da geração deste Barça. Daqui a muitos anos, em Camp Nou e não só, quando um centro sem critério for aliviado da área, mais do que uma pessoa mais nova do que eu vai ter pena de não ter visto esta equipa. A história vos agradecerá.