terça-feira, 15 de janeiro de 2013

En garde!

O futebol português está transformado num duelo. Durante semanas, afiam-se as espadas, prepara-se o jogo de cintura e estuda-se atentamente o rival. Tudo se resume a este momento, principalmente ali, naquele palco onde somos tradicionalmente felizes e onde eles já não aguentam mais humilhação. O benfica-Porto é o jogo do ano, e que pena que já passou.

Vítor Pereira VS Jesus

Antes do apito inicial, o benfica era favorito para a maioria, na qual vergonhosamente me incluo. A verdade é que todos conseguimos ver como lhes tem sido mais fácil ultrapassar os adversários. E o Porto, apesar de apresentar esta época uma solidez incrível, não é propriamente uma fábrica de avançados goleadores e médios criativos - as posições que nós, os ignorantes da bola, valorizamos mais.

Além disso, estava à espera de um grito de revolta, de quem não aguenta mais perder para o Porto, e até com um impulso gratuito de última hora: a conferência de imprensa de antevisão de Vítor Pereira, por si só, chegava e sobrava para motivar os vermelhos a entrarem em campo que nem cães (Maxi, levaste muito à letra esta expressão). Confesso que também eu caí na armadilha do nosso mister. Ao vê-lo tão confiante, pensei que estaria a dar-lhes trunfos. Mas não, ele é que sabia o que vinha aí.

Mesmo sem James (provavelmente, o melhor jogador da Liga até ao momento) e mesmo com um banco vergonhoso para o nível do FCPorto, Vítor Pereira tinha a lição mais do que estudada e deu o chamado banho de bola. Não foi um futebol espectacular durante 90 minutos, nem mereceu entrar no campo da “nota artística” do outro, mas até a mim, portista mais descrente e temerosa do mundo, me convenceu em pouco tempo que estava tudo controlado.

Vítor Pereira arrasou, mais uma vez, Jorge Jesus. Já o tinha feito no ano passado e pelos vistos não bastou. Tenho muita pena que continuem a existir os portistas que o criticam, sem tentarem sequer perceber o gigantesco trabalho que o treinador campeão tem feito. Não fiquei surpreendida, portanto, de ver o nosso mister tão nervoso durante e depois do jogo. O problema de Vítor Pereira não era só o estar em casa do rival com o “pode vir o João” a estragar-lhe o que tanto pensou e treinou; o problema de Vítor Pereira é também este estado contínuo de ansiedade que a massa assobiativa provoca, como se a qualquer empate pudessem rejubilar com o seu falhanço. E por favor não me venham com a conversa da “exigência” dos adeptos do FCPorto. Da exigência à estupidez vai um longo caminho.

Caro mister: na época passada, eu disse que a vitória no salão de festas era toda sua. Bem, este ano quero agradecer-lhe o ter tentado repetir a dose. Só peço que se acalme, porque nós estamos consigo e estamos a gostar mesmo muito do que a equipa joga. Não vale a pena andarmos chateados com isto.

Jackson VS Cardozo

No dia do jogo, as três capas dos jornais desportivos destacavam os goleadores das duas equipas. Não é caso para menos. Cardozo tem disparado golos a torto e a direito nos últimos jogos e Jackson, bem, sobre Jackson já disse tudo o que sinto. E a vitória neste duelo foi clara.

Jackson foi soberbo! Quando por vezes se diz que há jogadores que são capazes de vir atrás, receber a bola, segurá-la, passá-la, distribuir jogo, fintar, cruzar e ainda ir a tempo de estar no local certo lá na frente para criar perigo, pelos vistos é porque se está a falar de Jackson Martinez, que neste jogo também foi um bocadinho de James e até de Varela, quando este já não tinha pernas para mais. Ainda por cima marcou um golo, aquele golo, que tanto gozo me deu.

Houve até um lance da segunda parte em que Jackson me deu vontade de apagar qualquer registo deste jogo, porque ele recebeu uma bola do lado esquerdo do campo e, calmamente, com ar de quem até nem está para perder muito tempo a pensar no que vai fazer, arranca um passe com o pé direito para o Varela que ainda hoje eu não percebi como é que aconteceu. Não viram? Ainda bem, pretendo apagar isto da memória de toda a gente, para que não venha rapidamente um milionário qualquer buscá-lo.

Quanto a Cardozo, bem, eu sou daquelas que se ri quando ele é assobiado pelos próprios adeptos, que não compreendem a distância que vai de um Nuno Gomes ou de um Mantorras para este paraguaio com ar de atrasado mental que só sabe marcar golos (e agora cantos, pelos vistos, como se eu já não sofresse o suficiente com ele). Mas, deste jogo, guardo a classe com que as grandes revelações azuis e brancas (Otamendi e Mangala, que jogadores!) o conseguiram travar, à excepção daquele lance em que “Le Mur” demora um segundo a pensar e lá vai ele, lançado, sozinho, em frente ao guarda-redes e, graças a nosso senhor jesus cristo, falha.

Helton VS Artur

E, por falar nesse lance, fale-se do duelo das balizas, que o jornal “A Bola” tratou de ridicularizar na sua capa do dia seguinte ao jogo. O outro tem razão: o FCPorto nem sempre joga com um guarda-redes. Naquela noite, por exemplo, a defesa de Helton ao remate de Cardozo valeu por dois ou três.

Já do outro lado, o rei Artur esteve imparável. Já vi o lance do golo do Jackson umas 12 vezes e não consigo parar de achar piada. Melhor: já vi todas as fotos desse momento e registei na minha memória aquele olhar que é uma mistura entre “ai que já fiz merda” e um suplicar de ajuda em direcção ao fiscal-de-linha, à procura, sei lá, de um fora-de-jogo? De uma falta? De miminhos? Pobre Artur. Da maneira que a vida lhe corre, ainda vai acabar a pedir ao outro mais um ou dois guarda-redes para jogarem com ele.


Maxi Pereira VS o mundo

Sim, eu também sou daquelas que adora jogadores raçudos. Gosto dos que suam, dos que sentem a camisola, dos que vivem aquele jogo como o último das suas carreiras. E Maxi Pereira já foi assim, é um facto, compensando até alguma (e notória) falta de talento e de capacidade para se adaptar a uma posição. Só que os anos passam e, esta época, o alegado lateral direito do benfica não é mais do que um velho. Está sempre fora do sítio, é ultrapassado e enganado várias vezes pelos adversários mais fracos que possam imaginar e recorre ao último dos trunfos: a violência.

Ando há semanas a discutir com o M. sobre este assunto. Sempre que vejo um jogo do benfica, fico convencida que, com um árbitro decente (eles existem?), Maxi Pereira quase nunca acabava um jogo em campo. Contra o Porto, foi apenas mais um, e no seu melhor: completamente incompetente a defender, a chutar a bola para a frente e a distribuir paulada a quem aparecesse à frente.

Estava descansado, suponho, porque não é qualquer um que tem carta branca para isso. Mas o que me impressiona mais não é aquele golpe de kung fu aplicado ao Moutinho. É quando ele se levanta, com a mão no ar, certamente não a pedir desculpa mas antes a alegar que não foi nada – mas o quê, já não se pode espetar um pontapé noutro gajo? –, espera que o árbitro se concentre nos nossos protestos e depois, quando já sente, já sabe, que não vai ser expulso - e juro que nunca mais me vou esquecer deste momento -, ele sorri. Sorri, o grande cabrão. Maxi Pereira já não tem muito futebol para dar, mas eu só rezo para que tenha uma oportunidade de me despedir dele.

João Ferreira VS António Godinho

Muito renhido este duelo. Godinho (nome de génio) começou fortíssimo, com o fora-de-jogo assinalado ao Defour que é capaz de ir parar àqueles resumos hilariantes da Eurosport. Seguiu-se o do Alex Sandro, que está tão em linha que desconfio que o Godinho, com o jogador vermelho à frente, nem o viu, apenas levantou a bandeira porque estava uma ventania do caraças. Ainda pensei: “vá, Catarina, não sejas assim. O homem chama-se Godinho e isso é castigo que chegue nos dias de hoje. Às tantas o problema é o fumo que está no estádio, não te preocupes que ele a partir de agora vai ver tudo direitinho”. Mas não, depois ainda veio aquele do Varela, quando o céu já estava clarinho. Oh, santa ironia! Foram três foras-de-jogo, três, mas sem influência directa no resultado, claro, porque o Defour e o Varela isolados estão muito longe de contar sequer como oportunidade de golo. Ainda por cima, em nenhum dos dois lances o rei Artur chegaria a tempo de lhes passar a bola.

Mas não pensem que o Godinho se ficou a rir. O João-pode-vir tinha de fazer jus ao prémio carreira que foi apitar este clássico. O João-pode-ser não podia despedir-se do benfica num amigável (e logo ele que é chamado a apitar todos na luz). O João tinha de sair pela porta grande. 

Do Maxi já falei e só mesmo o João é que podia soltar aquele amarelo, mas a expulsão perdoada ao Matic chega a ser fofinha. O ar do rapaz – a pensar “pronto, já fui, dei demasiado nas vistas, é impossível que esta panada por trás a cortar um lance de contra-ataque não resulte em cartão” – e o pode-vir-o-João a chegar lá, com calma, a abrir o peito e a abanar a cabeça aos jogadores do FCPorto, atónitos, porque estava tudo controlado e afinal o Matic nem precisava de se preocupar. Que classe, João, que classe. Vais deixar tantas saudades naquele estádio...

Portistas VS lampionagem

Acho engraçado que, no ano passado, os jornais tenham feito capa com o golo do Maicon (esquecendo, na altura, o voleibol do Cardozo) e os telejornais tenham aberto com as imagens desse lance, mas este ano eu tenha tido imensa dificuldade em ver estes cinco lances (tive de ver aqueles programas com três comentadores e tenho vergonha disso). Nada de novo para nós, esta súbita falta de atenção mediática.

Mas do que eu quero mesmo falar é do duelo nas bancadas. E chamo-lhe duelo porque, enfim, 50 e tal mil lampiões hão-de contar para alguma coisa, mesmo que calados ou, na maior parte dos casos, com medo.

Medo, é isso. Eles têm medo de nós. Estão traumatizados, coitados. Queriam um 15-0, uma coisa histórica para se redimirem das constantes vergonhas. Esperavam por um hattrick do Cardozo, um poker do Lima e ainda um ou outro golo do Rodrigo da bancada. Meu deus, tanta confiança.

Não, não era confiança. Era esperança, que é muito diferente. Porque o apito inicial ouviu-se e eles calaram-se. Nem piaram. Ouviram-nos, lá ao longe, na jaula, a mostrar que não é só em campo que o FCPorto gosta de ser superior na luz. Foi maravilhoso, mais uma vez, e só tenho pena de aqueles três mil não serem sempre os mesmos, em todos os estádios, até no Dragão.



Foi um bom duelo, vistas as coisas. Nós ganhámos confiança, eles não perderam os habituais pontos para nós. Saí de lá convencida que temos equipa, que somos capazes de ser campeões e ainda fazer uma gracinha lá fora. Claro que somos, ninguém pode ter dúvidas. Mas calma, muita calma, porque o plantel é curto e a cabeça não se pode perder em desejos de outro mundo. Eles estão mais espertos, já o vimos, e não vão dizer o tradicional “touché” tão facilmente como estamos habituados.

7 comentários:

  1. A mim o que me parece, e digo-o com sinceridade, é que o publico da Luz, continua benfiquista e bem benfiquista, mas grande parte começa já a olhar com respeito para a camisola azul e branca.
    Não o ódio já não é o mesmo, do lado deles, sente-se até na jaula...

    ResponderEliminar
  2. este blog é mesmo bipolar, tem textos belíssimos e depois estas zurrapas mal-amanhadas de um facciosisimo desmedido. parabéns, pois o M. deve amar-te mesmo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. b cool

      não gostas, não lês. simples. prático. directo. salutar.

      Eliminar
  3. O QUE MAIS ME IMPRESSIONOU NEM FOI A JOGATANA QUE FIZEMOS, POIS ISSO JA É NORMAL, PARECE QUE JOGAMOS EM CASA:))))))) O QUE ME ARREPIOU FOI 5 MIL A FAZEREM OUVIR-SE E OS OUTROS 55 MIL A OUVIREM MOSCAS. :))))))))) MAIS UMA VEZ O VITOR MOSTROU O QUE VALE, TAL COMO O ANO PASSADO QUANDO TIROU UM CENTRAL E METEU UM AVANÇADO, APESAR DE SER O KLEBER, PARA GANHAR O JOGO.
    ASS: BG9
    PS:C. OBRIGADO PELO PRAZER DE LER OS TEUS TEXTOS, ASSIM COMO PARABENS AO M.PELOS TEXTOS DELE. ELE REALMENTE SÓ TEM UM DEFEITO, É LAMPIAO, POIS TAMBEM É UM ADEPTO COM A GRANDE, PENA NAO SER DOS NOSSOS. :)

    ResponderEliminar
  4. Foi realmente pena estarmos 2 vezes na frente do e não conseguirmos manter, os primeiros minutos foram bastante intensos. Quando ao Maxi Lavrador Pereira só digo que se fosse nosso era crucificado com o Bruno Alves foi.

    De realçar o nosso meio campo, o coração da equipa.

    Cumprimentos Portistas :)

    ResponderEliminar
  5. Está muito bem, são pontos de vista, embora cada um puxe a brasa...
    Sou Benfiquista, obviamente tive na Luz e, posso estar enganado, mas quem eu vi com um ar sorridente e aos abraços no final do jogo foi os jogadores do porto (não me leve a mal escrever com letra pequena) e não os do Benfica.
    Acho bem que continuem a confiar no vitor pereira (no treinador), mas gostarei de ver como vai ser a sua carreira num outro clube qualquer. É que além do ódio mais que evidente, aquele nervoso não engana ninguém.
    O banho de bola a que se referiu, em que o porto só teve duas oportunidades (parabéns, 100% eficácia), é muito giro, mas se o campo não tiver balizas. Aí talvez tivessem ganho.
    Na vida, mais vale quem quer do que quem pode. Se calhar sou ingénuo, mas acredito que sim. É que relativamente ao Maxi Pereira, que devia ter sido expulso, é verdade que é impetuoso, mas é exemplo de raça e entrega dentro do campo. Quanto ao seu anão de jardim (vulgo maça podre) Moutinho e o caceteiro do Fernando, devia ter acontecido o mesmo. Expulsão. Ao Matic, também...
    Mas, presumo que não tenha visto o penalti sobre o Garay, por se ter esquecido de o mencionar aqui. Pode verificar em http://magalhaes-sad-slb.blogs.sapo.pt/914839.html. Eu até compreendo aquilo que sentem sobre o "pode ser o João", afinal nós sentimos o mesmo sobre todos os outros, que vão ter conselhos matrimoniais na casa na Madalena: Proença, Soares Dias, Jorge Sousa, Cardinal, Benquerença, Duarte Gomes, Jorge "Super Dragão Sousa" e por ai adiante.
    Não me leve a mal não aceitar bem que adeptos do porto falem dos árbitros, com todo o vosso passado. Certamente que também acharia ridiculo ver um pedófilo queixar-se que tinha sido sodomizado...
    Medo?! De vocês, nunca! Embora compreenda que é normal que se tenha, vá lá, receio dos criminosos, daqueles que infringem a lei, pois o clube porto está cheio deles. Mas, se calhar, medo têm todos os adeptos azuis e brancos do dia em que aquele que vos preside se for. Aí, veremos o que vos irá acontecer. Entretanto, entretenham-se com os lagartos...

    Fora isto tudo, adoro este blog, adoro a Vossa "escrita" mas, vai-me perdoar e compreender, desejo tudo de bom desportivamente somente ao M.

    Continuem.
    NB

    ResponderEliminar
  6. Só digo que a partir do momento que existe uma "banheira spa" em 3 tamanhos diferentes comemorativa das duas taças de campeões europeus ganhas pelo benfica ha 50 anos atrás, a única coisa que tenho é vontade de rir.

    Parabéns C. Eu estive la, na Coca Cola, piso 0 com aquela massa associativa gigante por cima de mim e cantei o jogo todo, inclusive apareci nos ecrãs a dizer o meu nome que por acaso é o mesmo que o teu xD o entrevistador quis dar um cachecol do slb ao meu namorado para ver se ele me compunha mas eu mandei.o dar uma curva.
    Fui feliz ali. Sobrevivi a um benfica-Porto naquele sitio e ainda por cima a ver um Porto MUITO melhor.

    Saudações Portistas :)

    ResponderEliminar