sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Pelo senhor Augusto

“Eu deixava de ser eu não tendo o Porto por perto”.

Escusam de procurar mais por grandes citações de famosos filósofos do futebol. É isto, ser adepto é isto. É viver à volta de um clube, é precisar do clube para viver. Quando for grande, quero ser tão portista como quem disse isto.

Este adepto conta que, quando era pequeno, fugia da missa para ir à bola. E diz mesmo assim: “ir à bola”. Que é como os doentes dizem, como se sabe. Continua ele a contar que os seus dias giram “mais ou menos” à volta do futebol. O que, em linguagem de pessoas extremamente fanáticas, quer dizer que não pensa noutra coisa. 

Na época de 1986/1987, quando o FCPorto era apenas uma esperança de equipa europeia, este adepto fez uma aposta com um amigo. No primeiro jogo dessa edição da Taça dos Campeões Europeus, disse que íamos à final. O amigo, um portista descrente como eu, disse que com aquela equipa era impossível, que nem pensar, que até lhe pagava a viagem ao fim do mundo se o Porto fosse à final. Este adepto esteve em Viena. E de borla.

Este adepto foi a mais finais europeias e em todas elas o Porto venceu. Quando não foi, perdemos. Diz um amigo que ele tem de estar lá para ganharmos. E eu, que também estou convencida que o Porto precisa de mim, não só acredito, como proponho começarmos já a fazer uma vaquinha para ele ir à próxima. E por falar em superstições, este adepto tem uma. Quando acha que o jogo é mesmo, mesmo importante, leva um amuleto. Aos nossos olhos, é um chapéu branco, com vários símbolos do Porto e os autógrafos dos campeões europeus de 87. Mas, aos olhos dele, é aquele chapéu que marca o golo decisivo. E eu dou por mim a esperar encontrar aquele chapéu já no próximo domingo.

Este adepto é dos verdadeiros. Olho para ele durante o jogo e a cara é de sofrimento. Sempre, mesmo quando o Porto marca. Ele sofre. Não está a comer pipocas, nem a divertir-se com qualquer coisa que lhe contam. Está a sofrer, concentrado, sempre a olhar para o relvado e a comentar que o central está adaptado, que o ponta-de-lança já é melhor do que o outro que lá esteve antes e que o adversário é um palhaço que se atirou para o chão. Este adepto é, ao mesmo tempo, adepto, treinador, presidente e árbitro.

Este adepto trabalhou desde os 13 anos, e trabalhou muito, mas esta merda de país não o deixou subir na vida. Uma vez, em Sevilha, um escocês ofereceu-lhe 600 euros por um bilhete. Não aceitou, claro, porque “ir ver o FCPorto não se troca por nada”. Ir ver o Porto, para este adepto, é fundamental para ter a força para encarar as putas das dificuldades que cada vez mais nos surgem.

Este adepto tem um jornal guardado. É “A Bola” do dia seguinte à conquista da Taça Intercontinental em 1987. Diz ele que foi o único exemplar desse jornal que comprou na vida, e percebe-se bem porquê. O FCPorto preenche a capa, mas as letras são vermelhas e, na taça, o emblema que lá está não é o nosso. “A Bola” do dia 14 de Dezembro de 1987 colocou o emblema do benfica numa taça que o benfica nem sequer disputou, quanto mais venceu. Este adepto tem nas suas mãos tudo aquilo que nos faz odiar o nosso rival e, felizmente, guardou-o até agora para que nunca o esqueçamos.

Este adepto chama-se Augusto Ribeiro, tem 55 anos e está desempregado. Esta época, pela primeira vez, não tinha dinheiro para comprar o lugar anual no Estádio do Dragão. Por isso, os amigos juntaram-se e ofereceram-lho. Diz um deles que o Porto não pode viver sem o senhor Augusto. E é verdade. O Porto só é o Porto porque tem adeptos assim.

Por isso, rapazes, no domingo é para ganhar. Pelo senhor Augusto.

18 comentários:

  1. Conheço o senhor Augusto. Este amigo é efectivamente um apreciador de futebol no seu todo! A bola e a festa!
    Com qualidades reconhecidas entre os amigos "sempre pronto para servir"... o Augusto está sempre disponível e de sorriso aberto para ajudar! Um potente catalizador das celebrações da amizade no seu estado puro!

    É um verdadeiro privilégio contar com a sua amizade!

    Apanhado pelas partidas desta vida cinzenta... faço votos para que consiga encontrar trabalho em breve!

    C: Parabéns pelo texto!

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  2. Pois é!
    O Augusto é assim mesmo: Paixão; entrega; dedicação; abnegação.
    Conheço-o, também, de outros "campeonatos" e é assim mesmo, o Augusto: tal e qual o vimos.
    Apesar das agruras, sereno e confiante.
    Apesar das agruras, dedicado e abnegado.
    Apesar das agruras, é o Augusto de sempre.
    Capaz, até, de granjear amizades em terrenos improváveis.
    É um orgulho ser seu amigo.
    Ah! É portista como poucos.

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  3. São adeptos como este que dão força ao clube e torna todos à sua volta mais alegres e unidos. Termino com duas palavras: grande portista!

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  4. Cara C,
    “Eu deixava de ser eu não tendo o Porto por perto”.

    Grande frase e que grande exemplo de portista é o Senhor Augusto.

    Ah, o texto está fantástico...

    Cumprimentos

    Ana Andrade

    www.portistaacemporcento.blogspot.com
    www.artigosonlineanaandrade.blogspot.com

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  5. C.

    estou sem palavras porque tu já as utilizaste todas.

    parabéns! pelo texto
    (sobre uma reportagem que foi transmitida por um canal de televisão, afecto a um clube de futebol, que está a marcar a diferença pela positiva)

    beijo
    Miguel | Tomo II

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  6. Muito bom e grande solidariedade Portista

    Ps: Já a Abola nesse tempo não valia nem para papel higiénico.

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  7. ."Este adepto tem nas suas mãos tudo aquilo que nos faz odiar o nosso rival"

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=mkevoaZAa3E#!

    Go make a lap around the big pool table !

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    1. por momentos, até pensei que seria mais uma ligação às famigeradas escutas - não as publicadas pelo tripulha, mas as transcritas pelo primo dele.

      depois apercebi-me que se trata(va) de mais um vídeo promocional para motivar as massas - mormente aquela dos "oito milhões e meio... por Roberto".

      enfim...

      ps:
      why don't you go f*ck yourself?

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    2. Caro Penta
      Tu como eu, e todos de 75, temos escassas memórias a preto e branco, e nenhumas do futebol do "tempo da outra senhora". Mas sabemos bem o que se passava, para em 4 campeonatos, um ser do Sporting e os restantes do clube mais democrático de Portugal com agora parece que descobriram. Por isso, vídeos destes, além de serem contraditórios, ao mostrarem os calcanhares de Falcao ou as reviengas de Hulk a maltratarem o menino cabeludo adaptado a defesa esquerdo, só mostram a dor que lhes vai alma pelo facto de o discurso de serem os mais maiores grandes e arautos da verdade desportiva não corresponder à realidade.

      Caro Miguel, to the crazies we say allways yes

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    3. @ flama

      obrigado! pelo apoio, caríssimo :D

      (por um motivo que desconheço, este comentário não chegou a ser publicado em devido tempo)

      somos Porto!, car@go!
      «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

      abr@ço
      Miguel | Tomo II

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  8. Como tenho muito respeito pelo M, não vou responder ao adepto das 22.33. Quanto ao flama draculae, deixo-lhe uma pequena lição de gramática inglesa:

    CRAZY is an adjective and therefore has NO PLURAL form in English.

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    1. é pena também não teres o mesmo respeito pela C. - curiosamente a autora deste post.

      são factos que se registam...

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    2. soubesse eu que vinha a uma aula de inglês técnico e teria mais cuidado com a linguagem...assim vai em português... aos iludidos diz-se sempre que sim...

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    3. NÃO TERES ?

      Não me recordo de termos sido apresentados ?

      Já alguma vez estivemos sentados juntos à mesa ?

      Não lhe ensinaram em casa que é muita falta de chá tutear um desconhecido ?

      É minha presunção, que nem o vídeo e muito menos a tradução literal de uma frase tipicamente portuguesa possam menorizar a C !

      Daí que me despeço ...

      GO GIVE A BATH TO THE DOG !

      P.S. Saudaçoes desportivas para flama draculae !

      It's from very little, that the cucumber is twisted ..

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    4. Lamento se o ofendi....mas não o tinha como alguém tão sensível, depois do comentário que fez a um texto que descreve o sentimento genuíno por um clube. Se calhar esse sentimento é exclusivo da segunda circular poente..

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    5. Lamento se o ofendi....mas não o tinha como alguém tão sensível, depois do comentário que fez a um texto que descreve o sentimento genuíno por um clube. Se calhar esse sentimento é exclusivo da segunda circular poente..

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  9. Claro que não me ofendeu, porque só me ofende quem eu quero; daí que as saudações desportivas são um cumprimento e genuíno.

    Já o outro comentador entrou por ínvios caminhos, e só me limitei a colocá-lo no devido lugar.

    Respeito o sentimento genuíno pelo clube,só deploro que esse sentimento possa dar lugar a "tudo aquilo que nos faz odiar o nosso rival" daí o meu vídeo e o meu comentário.

    E agora que as coisas estaõ devidamente clarificadas, resta-me desejar-lhe uma excelente semana !

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