terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dá azar

Um jogo de futebol nem sempre se resolve com um remate certeiro, uma finta de estrela ou um golpe de génio. Às vezes, é a bola que bate num defesa e deixa um adversário isolado, é a excepcional defesa do guarda-redes que vai parar ao sítio errado, é o canto a nosso favor que termina num contra-ataque mortífero dos outros. A bola é assim. Teimosa. E isto é de deixar louco qualquer um de nós.

Num mundo ideal, seria possível eu antever e evitar cada surpresa destas. Por exemplo, antes de sair de casa, eu iria buscar o cachecol que dá sorte, colocá-lo-ia na posição que dá sorte e nem o tiraria no decorrer do hino, porque assim é que dá sorte. E pensam vocês: bem, Catarina, que grande chanfrada que tu és. Mas se há coisa que eu sei, caros leitores, é que se ainda estão aqui é porque são tão doentes quanto nós, por isso sabemos todos muito bem como a escolha de um cachecol pode ser determinante para uma vitória.

Antes de chegar ao estádio, porém, ainda há muito a fazer. Por exemplo, aqui há uns anos, eu e a L. descobrimos que não podíamos trocar sequer uma SMS em dia de jogo. E nós nessa altura trocávamos muitas, porque éramos jovens com imensas preocupações, por isso imaginem o enorme esforço. Caímos nesse erro uma ou duas vezes (que, como toda a gente sabe, é amostra suficiente para um adepto deixar de fazer algo) e o FCPorto não ganhou. Por nossa culpa.

Mas, infelizmente, há mais. Por exemplo, demorei a perceber que não posso gozar um adversário quando ele entra. Isto é, imaginem uma substituição da outra equipa, vocês vêem o manco a deixar de aquecer e a correr para o banco e dizem, com ar sobranceiro: - Olha, vai entrar o manco, que sorte a nossa! Errado, errado, errado. É certinho que o manco vai marcar. Acreditem, aconteceu-me uma ou duas vezes com o Mantorras e o Nuno Gomes e jurei para nunca mais.

É isso e os “olés”. Porra, quem inventou os olés não era doente por um clube de certeza. Nunca vi a minha equipa jogar melhor ou marcar mais golos por ouvir os nossos “olés” para os outros. Nunca. Pelo contrário, até parece que perdem a bola mais depressa, seja pelo peso da responsabilidade ou porque vem aí um adversário de perna esticada em modo kung-fu para acabar com aquela brincadeira. Os “olés” estragam tudo, a não ser que, vamos tentar imaginar, estejamos a dar 5-0 em casa ao benfica e eles nem se mexam. Aí sim, pronto, dou o braço a torcer, e grito uns “olés” só para os animar, coitados.

Ainda há outra coisa a não esquecer. Nunca, mas nunca, dizer que vamos ganhar de certeza, escrever isso em algum lado, provocar um adversário e prometer que vamos golear. Nunca, ouviram? Celebrar uma vitória por antecipação no futebol é tão estúpido como dizer que fomos contratados ainda antes de responder ao anúncio de emprego, e na economia actual! Pessoalmente, por exemplo, posso contar-vos que em todas as finais europeias que disse em voz alta que íamos perder as ganhámos (mais uma vez, a amostra é enorme, por isso trata-se de um dado científico). Por isso, não estranhem quando na próxima eu puser aquela minha cara triste, de quem já está a antever uma grande tragédia, e soltar um: - Já fomos… Deixem-me estar, alinhem na cena, façam bem de conta que estão convencidos. Todos juntos, seremos mais fortes.

Quando me distraio e não cumpro os habituais rituais de vitória, recorro à minha mãe. Garanto-vos que não há melhor barómetro. – Como é, vamos ganhar? Se a resposta for um “claro que sim, não tenho dúvida, estou super confiante”, então, meus caros, podemos começar todos a chorar, porque o FCPorto vai perder. No entanto, se a resposta for “estou cheia de medo, acho que eles nos vão comer, nem quero que o jogo comece”, podemos ir já para os Aliados. E não pensem que isto me descansa. Só muito raramente o pergunto, porque não tem piada saber os resultados dos jogos antes deles acontecerem.

E, quando tudo o resta nos falha, quando não há cachecol, SMS, contenção de gozo, antevisão cautelosa ou mãe-adivinha que nos safe antes de um jogo, todos sabemos muito bem qual é a única coisa a fazer: mudar de lugar no estádio. Ah pois é, não façam esse ar de surpreendidos, como se nunca tivessem trocado de lugar disfarçadamente, sem dizer nada, com alguma vergonha até, só porque aos 20 ou 30 minutos de jogo já perceberam no que vai dar o lugar onde estão. Se nunca o fizeram, então nem imaginam a dose de culpa que têm nas derrotas do vosso clube. Mudar de lugar para dar sorte devia ser o mandamento número 1 de qualquer adepto. Mais: espero não ser a única que anda a decorar cadeiras dos estádios adversários que dão sorte, procurando-as quando lá regresso, porque caso contrário o FCPorto já me deve uma estátua ou algo assim discreto como forma de agradecimento. E pensam vocês: então como é que, com tão dedicada adepta, a equipa da Catarina não ganha os jogos todos fora? E a resposta é óbvia: porque eu tenho uma memória horrível e às vezes troco as cadeiras. Desculpa-me, Porto, desculpa-me.

Só não acabem como a minha mãe, naquele terceiro ano consecutivo em que o FCPorto não foi campeão. Desesperada, sem saber o que fazer, rezou ao deus do futebol e prometeu-lhe que, se ainda fôssemos campeões, comprava um daqueles chapéus enormes que imitam um dragão e ia a todos os jogos com ele. Só deus do futebol sabe a humilhação suprema que isso seria e ainda hoje lamento que tenhamos perdido esse título, não só porque quero que o meu clube ganhe sempre, mas também porque adoraria ver a minha mãe a fazer aquela figurinha. A conclusão a tirar é que deus, mesmo o do futebol, não existe, por isso não vale a pena recorrer a ele.

Cá em casa, existem estas e outras regras no que à sorte diz respeito. Algumas, com o tempo, vão sendo contornadas porque o outro descobre um contra-feitiço fortíssimo. Como os boxers do M., por exemplo. O M. tem uns boxers do benfica. E eu podia terminar o texto aqui que vocês já iam gozá-lo o suficiente. Mas não, há mais. O M. convenceu-se que, usando aqueles boxers nos jogos, o benfica era invencível. Daí concluo que, quando ele morava com os amigos, só a preguiça em lavar a roupa não fez do benfica hexacampeão nacional e vencedor consecutivo da Liga dos Campeões. Para mal dos seus pecados, o M. veio morar comigo e, surpresa das surpresas, sou eu que trato da roupa. Curiosamente, os boxers começaram por não estar lavados nos dias de jogo e agora, sinceramente, já nem sei onde eles andam. Podem ter ido parar ao fundo do Tejo, podem ter sido queimados numa tarde de magia negra, enfim, quem pode saber?

Podem chamar-lhe superstições, manias, loucuras, o que quiserem. O que eu sei, e qualquer adepto sabe, é que funcionam. É por isso que, quando o FCPorto empatou em casa com o olhanense, eu soube logo que a culpa foi minha e de todos os que, terminado o jogo anterior, decidiram gozar o adversário. Tivéssemos ficado todos calados durante mais 90 minutos e a porcaria da bola tinha entrado.

E este domingo, quando os lampiões celebraram aquela vitória no último minuto com aquele penalty que não iremos esquecer, ficaram a pensar que devem os três pontos ao árbitro, ao Gaitan, ao defesa da académica, ao Lima, à estrelinha de campeão, sei lá. Mas não, é a mim que me devem aquela merda. É que eu, que tenho como regra não ver ou não estar atenta aos jogos do benfica, este ano vinha a notar a coincidência entre os momentos em que eu olhava para o ecrã e os golos deles. Aliás, no benfica-FCPorto, eu só estive atenta em dois lances de ataque deles e acabaram os dois em golo (depois aprendi e corrigi isso, desviando o olhar no resto do jogo e evitando mais golos… e ainda houve quem dissesse que foi a equipa do Porto a corrigir a defesa e não sei quê, em vez de me atribuírem logo essa glória suprema). Portanto, e depois de no nacional-benfica ter estado “desatenta”, decidi não ver o benfica-académica. E não vi mesmo. Nada, nadinha.

Só que isto de ser adepto não é fácil e, mesmo quando sabemos que aquele resultado só depende de nós, caímos na tentação de ver um bocadinho. Quando eu carreguei nos números “2” e “0” do comando, o Gaitan ainda estava a agarrar também o defesa da académica. Seguiu-se o apito, a confusão, o golo. Eu mudei de canal. Não vi mais nada. Ainda hoje não sei o que se passou, como foi o jogo, quem fez o quê. Naquela noite, vi apenas o suficiente para ter a certeza de uma coisa: a culpa foi minha. Que azar.

P.S. Noto agora que estes dois textos seguidos nos fazem parecer um bocadinho malucos.

P.S.2 Se decidirem internar-nos, por favor, garantam pelo menos que o manicómio tem Sporttv.

16 comentários:

  1. Catarina aconteceu-me a mesma coisa. Desatenta como sempre decidi ir espreitar e estava o Lima a preparar-se para marcar o penalty. A culpa foi nossa.

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  2. Não faço comentários que dá azar.......

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  3. Catarina, há coisas que não vos dão azar: o Pedro Proença por ex.Os Pratas, os Calheiros, etc, eram autêntico gatos pretos!

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    1. E quando temos/tínhamos o azar de nos calhar Calabotes e Joões(pode ser)Ferreiras? Há coisas do diacho!!

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    2. tiveram tanto azar com o calabote qu forqm campeões ... com arbitragem vergonhosa e tudo à mistura ... mais valia aprender um pouco de história para não andar a repetir mentiras ...

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    3. @ b cool

      «mais valia aprender um pouco de História para não andar a repetir mentiras»

      "fala" o roto do nu...

      ps:
      o facto de o FC Porto ter sido campeão em 1958/1959 só lhe/nos traz mais legitimidade para reclamar(mos) sobre um dos episódios mais vergonhosos da arbitragem nacional.

      e já agora, a propósito do «e tudo à mistura», o que se lhe apraz dissertar sobre a presença do treinador-adjunto do slb – o argentino Valdivielso – ter-se sentado no banco de suplentes do Torreense?
      mas pelas suas próprias palavras, ok?

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  4. As cuecas! As CUECAS!! Ahahahahahahahaha!!

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  5. pronto...

    "fala-se" em cuecas e lá tinha que aparecer o chato do "selo" e o respectivo mau cheiro...
    que sina...

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  6. Excelente, é tal e qual.

    Mas, Catarina, lamento informar-te, não foste tu que deste azar, fui eu que dei sorte. Aquela minha mudança de posição no sofá (do encostado da goleada para o sentado-na-beirinha-da-almofada do à rasquinha) foi determinante. Resulta sempre.

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    1. Não lamente, meu caro, porque tirou-me um peso de cima. Muito obrigada!

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    2. De nada, sempre ao serviço. Já agora aproveito para reclamar o desaire das vossas duas últimas vitórias. Sei perfeitamente (como diz no texto, são factos comprovados) que não posso ouvir os relatos da vossa equipa no carro. Mas ontem, tal como no fim de semana passado, não resisti e lá mudei para a tsf. Golo. Golo na sexta e golo ontem. Na mouche, eu não aprendo.

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  7. Boas!
    Cara C,
    Pois é, nós adeptos acreditamos em cada coisa ... mas a verdade é que parece mesmo resultar!

    Cumprimentos

    Ana Andrade

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  8. Como me revejo... Tive que desistir dos Boxers, salvo raras excepções (só não uso os contra vcs, seres inventados por pais para assustar criancinhas e contra os lagartos) , porque qq dia ia sem roupa interior para a bola :). Deixei também de por o relato dos jogos dos outros qd estou em viagem, pois normalmente dá golo, assim como deixei de ligar ao Filipe também em viagem durante os jogos dos lagartos, com a desculpa da companhia, mas era só para ele não ver o jogo, porque ganhavam sempre.
    Como te percebo!

    Tiago

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  9. O que me ri a ler isto!!lololol!!Fantástico!!!!!

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  10. A realidade de um adepto fervoroso foi posta a descoberto. Excelente crónica, Parabéns.
    Apesar de crer que, na realidade, o jogo jogado dita o resultado final, é, de facto, notável como estes sentimentos são transversais aos adeptos de futebol ;)


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