segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um domingo cá em casa

Desenganem-se aqueles que verão neste texto uma coisa bonita e que imaginam alguma dose de bom senso no meio disto. Eu e a Catarina odiamos os casais que se beijam para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Muitas vezes nos perguntam como é que vivemos um com o outro. Como é possível haver tolerância entre pessoas que, além de gostarem mais dos seus clubes do que de qualquer outra coisa, odeiam o clube do outro. Não sei. Talvez este texto vos mostre. O que não quero é que achem que há aqui qualquer dose de bom senso ou de civismo. 

São 18h e estou sozinho em casa a ver o Nacional - Glorioso, a Catarina ainda não chegou. Tive três enfartes em cinco minutos, indignei-me com as escolhas do Jesus (a prioridade tem de ser o campeonato. O c-a-m-p-e-o-n-a-to, percebeu, mister?) e quando a Catarina chegou estava 1-1 no marcador. 
Nunca vi nada no Urreta que me encantasse e não consigo perceber como é que um jogador que não entrava no plantel inicial (estando à disposição) passa a titular num jogo destes. Isto originou uma permanente pressão no nosso extremo, que, mal perdia uma bola, ouvia um bom palavrão português. Há jogadores que são nossos camaradas e puxamos por eles, a entoação do "Anda, Salvio!" como se fosse um amigo da tropa é diametralmente diferente da "Põe-te no sítio, Luisinho"  à laia de ameaça, mas o Urreta está longe disso e eu estava particularmente nervoso e verborreico.
A Catarina, como é regra da casa, vê os jogos do Benfica em silêncio, e sentou-se a fingir que estava interessada na internet (pensas que eu não te conheço, é o que é). De repente, há um livre e eu soltei um "Uuuuuurreeetaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa", com a voz fininha, meio em festa, meio em arrependimento, um misto de hooligan com rapariga adolescente a fazer as pazes com o namorado. 1-2, vamos lá segurar isto. A Catarina aproveitou a fraqueza e pediu-me para ir encher o depósito do carro entre o fim do Benfica e o início do Porto. Ainda a dizer, "Urreta, caralho, Urretaaaaatatatatatata!" disse que sim, claro. Tanso.

Ao intervalo, a Catarina, só para dar azar, diz "Vamos apostar quantos é que o Benfica hoje dá?". E eu, tanso, em vez de fazer um contra feitiço, disse só "Estás a dizer isso ao adepto certo, ao optimista por excelência...". Estúpido, Manel, estúpido.
Segunda parte e os rapazes de vermelho não tiveram o killer instinct (esta foi para si, Mr. Robson) de fazer o 1-3 e, às tantas, a Catarina, que às vezes diz assim umas alarvidades que eu até fico com vergonha (fico com vergonha de te apresentar aos meus amigos, Catarina. Imagina que estava o Eusébio cá em casa ou assim, já imaginaste a vergonha?) e diz: "Não percebo como é que tu gostas deste clube." Eu até tenho vergonha de vir escrever isto, mas pode ser que assim ganhes decência. 
Depois deu-se uma daquelas coisas inacreditáveis que é sofrermos o 2-2 em contra-ataque quando estamos a ganhar, com um frango à mistura. Não tenho tolerância a coisas destas.

A partir daqui foi uma corrente de palavrões, de insultos, com o coração aos saltos, cheio de angústia. Eu entro em desespero. A minha cabeça começa a andar à roda, a vida não faz sentido e é a puta da bola que não entra e há sempre um filho de um cabrão de um guarda redes que se lembra que é hoje que vai fazer a exibição da miserável vida dele e depois, claro, há o factor Proença, que enfim. Eu não posso dizer o que desejo ao Proença porque não violava só o Juramento de Hipócrates, mas também a Convenção de Genebra. A não ser que a Amnistia Internacional estivesse muito distraída, acho que não passava impune partir-se a boca toda a um gajo e enfiar-lhe os dentes, um a um, pela uretra. O relógio andava a mil à hora, um escândalo.

No meio de todo o meu desespero, há o enésimo centro mal medido do Salvio e eu, já esquecido da camaradagem, gritei tão alto que se deve ter ouvido na Madeira: "FODA-SE, SALVIO, MORRE!" Isto agora, lido assim, parece que eu sou maluquinho. Mas qualquer Benfiquista que viu o jogo sabe que foi uma frase assertiva, bem medida e, até, ponderada. Olhos muito arregalados, algo vermelhos, o coração aos saltos, e a Catarina a olhar para mim com ar sério, diz: "Tu sofres demais, Manel, há limites". Se isto fosse uma série, aparecia no ecrã a legenda "uma hora e tal depois..." e veríamos a Catarina deitada no chão a dar uma cabeçada no chão. Mas isto não é uma série, portanto continuemos.

Às 19.50, findo o jogo, o mundo não fazia sentido. A vida não fazia sentido. Porque é que estamos neste planeta se o Benfica não ganhou? Vesti o casaco e fui-me embora. Antes de sair, a Catarina virou-se e disse-me duas frases moralistas, do género: "Sem gozar, Manel, tu não podes sofrer assim. Faz-te mal." A verdade é que faz. A verdade é que eu nem devia ter pegado no carro depois do Benfica empatar (passou-me pela cabeça mandar-me contra a bomba de gasolina só para a explosão foder a casa do Porto em Lisboa, ali tão perto). Mas eu não consigo tolerar uma não-vitória do Benfica no campeonato, sobretudo com tantos erros próprios. 
Antes de chegar a casa, uma mensagem: "Golo do Olhanense". "Vão dar 5", pensei eu.

Eu, como é regra da casa, vejo os jogos do Porto em silêncio. Fui cozinhar e rever, mentalmente, os nossos erros. À medida que o arroz ficava pronto, notei que a Catarina passou de um "anda lá, Varela" para um "Foda-se, Varela" que escalou depois para "NEM UM CRUZAMENTO, SEU MONTE DE MERDA?", o que significava não só que o arroz estava no ponto, mas, também, que havia esperança e que, a não ser que tivesse mandado mesmo a casa do Porto em Lisboa para o inferno que merece qualquer pessoa que já lá tenha entrado, não valia a pena ter-me explodido contra a bomba de gasolina.
Na segunda parte sentei-me, a fingir que estava no twitter. No 1-1, com falta do Mangala (vejam a falta marcada ao Cardozo naquele que seria o 3-2 contra o Braga na primeira jornada e comparem), pensei: "já fomos". E lancei o contra-feitiço: "Dão 4 ou 5". E a Catarina, tansa, "Ya...." (a olhar desconfiada). Depois há penalty e a bomba de gasolina estava ali mesmo e eu, burro, não me tinha explodido e limpo a casa do Porto em Lisboa, mas o Jackson chuta por cima e há vida. E depois o jogo continua e aquela merda nunca mais acaba e os gajos estão sempre a cair na área e aos berros, e o tempo é tão, mas tão, mas tão lento. Um escândalo.

Nisto há um lance de perigo, Jackson remata, Bracalli defende, Danilo remata outra vez, Bracalli defende outra vez. E nisto, a Catarina, a Catarina do "Tu sofres demais, Manel, há limites", diz com voz baixa, solene, como quem promete: "Danilo: eu só quero que tu morras" em voz de filme de terror. Ao guarda redes do Olhanense foram prometidas coisas como "filhos a boiar no Douro". Enfim, tudo coisas razoáveis, de quem sabe, ao contrário de mim, ver bola.

Mesmo no fim, em mais um lance daquele jogo interminável (eu bem sei que o fuso horário no Porto é diferente, 15 minutos a mais, acho eu, mas não é preciso exagerar), a Catarina acaba deitada no chão e dá - leiam bem - uma cabeçada no chão e solta um "eu não acredito nesta merda". 
Lá pelas 22h, recuperei a vontade de viver. O amor da minha estava estendido no chão como se tivesse morrido alguém e eu sorria.

Foi mais um domingo cá em casa. Espero que isto vos explique, melhor ou pior, que, apesar da tolerância, cá em casa não vai haver beijinhos para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Há ameaças de morte, um ou outro palavrão e, sobretudo, limites.

17 comentários:

  1. Make up sex nessa casa deve melhor que nas outras.

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  2. "Lá pelas 22h, recuperei a vontade de viver. O amor da minha estava estendido no chão como se tivesse morrido alguém e eu sorria."

    Muito bom:)

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  3. Isto é muito, muito bom!
    Finalmente é corroborada a ideia de que desejar a morte de um jogador/árbitro, durante o jogo, é perfeitamente justificável!

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  4. Como eu vos compreendo...
    Texto lindo! Absolutamente LINDO!!!!

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  5. FANTASTICO :)

    "eu bem sei que o fuso horário no Porto é diferente, 15 minutos a mais, acho eu, mas não é preciso exagerar" HAHAHAHAHAH

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  6. Muito bom, como é hábito!

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  7. obrigado pelo texto, e se separares da Catarina eu compreendo

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  8. Também uma bonita declaração de amor, neste caso dois amores…

    Muito bom!

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  9. Congrats! O texto está de Génio, ás tantas cosniderei que podia ser plagio de algo que eu vivi...mas não consigo escrever tão bem! Grande discrição!
    Ps: O Salvio engana...e o Cardozo já nem enganar consegue! :/

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  10. Como se costuma dizer, o Amor é uma coisa linda!
    Tenho a sorte da minha mulher ser do mesmo clube que eu, mas garanto-te que há casais (neste caso, os homens) bem piores, mas muito piores que tu. Por exemplo, conheço casais (em que as mulheres não ligam à bola) que quando o clube deles está jogar, não deixam as mulheres entrar na sala. Dizem, entre outras coisas, que dão azar... Fdx, há com cada um. Pensando bem, eles são do Sporting, se calhar quer dizer qualquer coisa...

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  11. Percebo perfeitamente esse equilíbrio SLB FCP no casal. Até me custa ler um texto destes do quão bem percebo do assunto. E fico feliz por vocês. As diferenças dão força ao casal. O resto é, nas sábias palavras do POC, make up sex. Saudações de glória.

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  12. São Domingos destes que fortalecem uma relação! Abraço

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  13. Tive de mostrar este texto à minha mulher (que é uma Leixonense democrata) para ela finalmente perceber porque é que eu não falo com ela durante uma hora quando o Benfica não ganha. É uma espécie de purga mental que eu tenho de fazer para tentar encontrar de novo um motivo para não atirar a televisão pela janela.

    Obrigado.

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