sexta-feira, 8 de março de 2013

Então, afinal, como é que isto está a correr?

Escrevo-vos dia 8 de Março, um dia depois de um Benfica-Bordéus que acabou 1-0 para o Glorioso, após pálida exibição, que foi coroada com uma assobiadela monumental no final do jogo. Isto numa altura onde se discute a renovação ou não de Jorge Jesus. Como é que as coisas estão, afinal, a correr?
Estamos em 1º, com 2 pontos de avanço sobre o Porto. E que significa isso? Bem, é óbvio que este campeonato está em contagem decrescente para o Porto-Benfica, jogo onde os azuis são, pela história recente e por muito que nos custe, favoritos. Se o Benfica lá chegar com 4 pontos de avanço, é campeão. Se chegar com 3 ou 1 ponto de avanço, pode empatar, o que - num jogo dessa natureza - nos confere aí uns 30-40% de hipóteses (é a minha opinião). E acho que, numa situação de ter que ganhar no Dragão para ser campeão, só um alinhamento planetário muito diferente dos que eu conheci nos últimos anos daria à equipa o estofo para o fazer. Que significam estes 2 pontos, então? Que convinha ganhar mais 2 nos próximos 7 jogos. A probabilidade disso acontecer? Não sei. 

Mas sejamos honestos e recuemos até ao fatídico dia em que o Zenit veio buscar Axel Witsel. Quantos de nós julgávamos possível estar em primeiro no mês de Março? Quantos de nós não imaginámos o campeonato a perder-se de forma bastante napoleónica, com a entrada do Inverno? Eu, confesso, nem conseguia fazer o onze do Benfica na minha cabeça sem Javi Garcia e Witsel. Se me dissessem que íamos a Alvalade jogar no meio campo com Matic e um tal de André Gomes, provavelmente tinham de me impedir de saltar da ponte 25 de Abril. O que é certo é que, entretanto, Enzo, dentro de um estilo que eu detesto para médio centro, fez o lugar. 
Mais: sobrevivemos a eleições fratricidas, com o culminar numa noite com violência, com sócios virados uns contra os outros, acusações, etc. E a equipa aguentou-se. Continuou a ganhar, não cedeu. Contra todas as expectativas. Não se apurou para os oitavos da Champions, mas está a caminho dos quartos na Liga Europa. Não é mais do que estávamos à espera naquela altura? 

O mérito, quanto a mim, é quase todo de Jorge Jesus. Eu tenho várias críticas a JJ: não gosto do nosso 4-4-2 (e este modelo até é mais equilibrado), não gosto que a equipa seja tão vertical - é mais provável os jogadores do Benfica lamberem todos o cotovelo ao mesmo tempo do que conseguirem gerir um jogo com posse de bola - e acho que a planificação do plantel no início da época é muitas vezes completamente ausente. No entanto, os resultados esta época vão-me desmentindo. 
O que é que isto significa? Imaginemos o seguinte (e isto vem a propósito de um texto do Ricardo, do Ontem Vi-te no Estádio da Luz): um jogador vai marcar um penalty. Mete mal o corpo, não chuta com muita força, não coloca muito a bola. É golo. Dizemos que foi mal marcado, que este gajo não sabe penalties e que, eventualmente, vai falhar mais do que acertar. A questão é que o sacana acaba por marcar 21 penalties e só falha 4. E ninguém marca mais, em 21. Então, afinal, o gajo é bom ou é mau? 
Eu também queria que JJ não fosse teimoso, que o Benfica tivesse sempre os jogos controlados e sem sofrimento, que jogássemos em 4-3-3, de preferência a trocar a bola maravilhosamente. Mas jogamos em 4-4-2, e às vezes fazemo-lo bastante bem, e até vamos em primeiro. Confusos? Eu também.

Mais enervante ainda: pedimos que a prioridade seja o campeonato e aí está essa prioridade bem marcada. Elementos fulcrais como Matic, Enzo, Lima e Salvio, neste ciclo de 6 semanas com 2 jogos por semana, têm jogado 90 minutos + 30. Maxi joga 90. Melgarejo também já foi poupado. Cardozo joga 70 minutos e ainda teve descanso forçado com a AAC. E, mesmo no meio destas poupanças, podemos chegar aos quartos da Liga Europa e com o plantel bem rodado. Confesso-vos que acho difícil fazer melhor. Também pode acontecer não ganharmos nada. Mas até culparei mais a má gestão inicial do que a gestão com o que sobrou (houve ainda o erro de deixar sair Bruno César e Nolito - não tínhamos que andar a jogar com o Roderick...).

Concluo: é mais difícil analisar antes dos resultados do que depois deles, como é óbvio. Quer o Benfica seja campeão, ganhe a Liga Europa e Taça ou não, parece-me indesmentível que a época foi mal planeada (faltam-nos médios centro) e isso é culpa da direcção. Qualquer Vítor do Paços Ferreira seria, hoje, uma incrível mais valia na alta rotação de jogos a que estamos sujeitos. No entanto, e porque naquele dia de fecho de mercado tudo parecia tão negro que nem festejámos esta notícia: os mesmos nabos que não compraram um médio foram os génios que foram buscar o Lima.
Quanto a futebol, apesar de todos os defeitos que lhe aponto, dou o meu braço a torcer a JJ: tem feito (quase) tudo bem (faltou jogar em 4-3-3 contra o Porto, com Gaitan nas costas de Lima, lição que só aprenderia após o Natal). A equipa tem jogado bem, o plantel tem rodado com prioridade no campeonato e têm-se evitado as lesões tão comuns nesta fase da época (jogadores a fazerem 6, 7 jogos em 20 dias, sem tempo de recuperação muscular). 
Em relação à renovação de JJ: por muitos defeitos que tenha - e tem-nos, evidentes - deparo-me com uma dificuldade muito grande quando penso no seu despedimento: há alguém melhor? E, quando digo melhor, estou a falar de alguém que me garantam que, de certeza, às 21ª jornada limpou pelo menos 17 jogos. Não quero cair na esparrela que às vezes o discurso de JJ tem, que faz parecer que o Benfica acabaria sem ele. Mas, não vindo Mourinho nem Klopp, quem chegar à Luz tem uma herança mais pesada do que parece.

Quero com isto dizer que me manterei crítico de uma direcção liderada por um não-Benfiquista, que não cultiva o Benfiquismo. No entanto, mantenho-me ao lado de uma equipa que me parecia morta antes de sequer ter nascido. Criticarei aqui, criticarei no final da época se for preciso. Mas não há razões para histerias, para a Luz cair em cima da equipa num jogo miserável, mas que até ganhou. Nem falo da assobiadela final (acho que no fim os adeptos que apoiam também têm direito a assobiar), falo sobretudo da impaciência brutal em que viveu o estádio todo o jogo, assobiando cada passe falhado. Não é tempo para contar espingardas, muito menos enquanto joga o Benfica. No fim, fazemos as contas. Cá estaremos para os balanços finais, como cá estivemos para as previsões. É que, afinal, isto até está a correr bem.

5 comentários:

  1. Não se pode dizer que esteja a correr mal. A gestão de plantel parece-me correcta (com as armas que temos, talvez um Miguel Rosa ainda fizesse uns minutos). O que preocupa é a atitude. Esta gestão é muito parecida com a feita na época do Villas-Boas mas de forma invertida, ou seja, jogava o Luis Filipe na liga, e a equipa principal perdeu de tal maneira o ritmo que o Braga nos elimina numa meia-final. A questão é que JJ parece confundir gestão de plantel com falta de atitude e é isso que parece incutir na equipa (Liga joga-se a sério, Liga Europa não se cansem muito). Felizmente temos jogadores como André Almeida ou Melgarejo que jogam com raça até na Taça da Liga e é por isso que a coisa até tem corrido bem. O FCP tem 1 ou 2 suplentes que se aproveitam. O nosso banco é muito superior. Tudo o que se pede é Atitude, daí os assobios.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Sem dúvida que atitude é a causa dos assobios. Que aconteceu à equipa que ia jogar o dobro?
      Neste último jogo houve mais um problema que tem (ou pode vir a ter) muito a ver com o jogo de Guimarães.
      Ganhamos por 1 o que parece (e é) uma vantagem. Se o Bourdeus conseguir marcar relativamente cedo, empatando assim a eliminatória, vai colocar extra pressão na nossa equipa não só para marcar mas também para não sofrer. Todos nós sabemos das dificuldades que por vezes há de a bola não entrar e podemos com toda a naturalidade ter de ir a prolongamento e nessa altura já será com 3 elementos chave (no mínimo) que provavelmente irão jogar em Guimarães.
      Mas há mais - um pequeno pormenor chamado lesões, que têm a mania de aparecer quando menos falta fazem, já para não dizer a asneira de poderem estar ligadas a pressão.
      Conclusão aquele segundo e/ou terceiro golito que parecia estar perfeitamente ao nosso alcance e que por ventura não se concretizaram por falta de atitude, podem muito facilmente vir a atrapalhar os planos de ganhar o campeonato. Foi por isso que houve assobios e os jogadores têm de se convencer que não são os adeptos que colocam a bola dentro da baliza. Tenho poucas dúvidas que quem os assobiou teriam sido bastante generosos nos aplausos se tivessem demonstrado outra atitude. Andam cansados! Que deve fazer o empregado fabril ou quem trabalha no campo que todos os dias tem de dar o litro para receber o ordenado mínimo e com este sobreviver com a sua família e ainda sobrar algum para se deslocar 300 km para testemunhar exibições destas? Aplaudir sempre e nunca assobiar dizem os verdadeiros Benfiquistas o que é ainda pior que comer e calar. Sim é verdade o assobio desmotiva, mas deixo a questão - preferem que quem assobia o faça quando não vê atitude e volte ou fique calado e até aplaudam uma última vez porque não mais vão voltar nem para aplaudir nem para assobiar. É assim que o Benfica vai continuar a ser grande?
      Ganhar por poucos ou até perder e exigir aplausos só quando tudo foi feito para ganhar por muitos.

      Eliminar
  2. Tens razão em tudo o que dizes. Está tudo a correr bastante melhor do que o esperado no início de Setembro. Ninguém adivinharia que hoje o Benfica estaria como está nas competições em que (ainda) está e do modo como está (relativamente "tranquilo" em todas elas).

    A questão é existir uma espécie de medo colectivo entre os benfiquistas (eu incluído) inerente ao passado recente do clube. Jogar mal e acabar por ter resultados condizentes foi, infelizmente, um "hábito" durante demasiados anos. O seguimento de (maus) jogos iniciado na Madeira, com o Nacional, à excepção de Leverkusen (fora e meio-jogo em casa) e Paços de Ferreira em casa, apesar de, na sua maioria, terem trazido bons resultados, deixa aquela sensação de que, a qualquer momento tudo começará a desabar, bastando, no contexto actual do campeonato, uma derrota ou duas para isso acontecer (como se temeu com o 2-2 frente ao Nacional, "corrigido" com o empate do Porto na mesma jornada).

    Não sou contra nem a favor dos assobios no final do jogo mas que, na minha opinião, há muita coisa para mudar na entrega e na vontade de ganhar. O importante não é fazer serviços mínimos o jogo todo, é resolver o mais rápido possível e de forma inequívoca. Temos ganhado, é certo, mas os sofrimentos de Aveiro e agora com o Bordéus são inadmissíveis.

    Em termos de resultados, há a reter isto: "No fim, fazemos as contas. Cá estaremos para os balanços finais, como cá estivemos para as previsões. É que, afinal, isto até está a correr bem." E é isto que, no fundo, mais importa :)

    ResponderEliminar
  3. O motivo porque vamos à frente não é nada confuso: jogamos um futebol de ataque, sustentado no tal 4-4-2 que tu não gostas (e eu adoro, acho até que coincide com o ADN do Benfica), com 2 avançados, laterais subidos, 1 só trinco (e que sobe também, ainda por cima com a bola controlada), 1 ou 2 extremos desequilibrantes, mais um médio de apoio. Resultado: temos o melhor ataque da prova e disfarçámos as vendas de peças fundamentais (Javi e Witsel) e ainda disfarçamos falhas defensivas que nas últimas duas temporadas nos custaram muito caro.

    Gosto do JJ, sempre o defendi (mesmo nas duas épocas anteriores), a valorização de jogadores é notável. Não somos favoritos ao título: no Dragão perdemos sempre, nem que o Proença coloque pessoalmente a bola nas redes do Artur e depois vá dar um grande abraço ao bítor e ao Lucho. Há muitas coisas que critico em JJ (César Peixoto, Emerson, Urreta, Rodrigo Mora, David Luiz a lateral esquerdo, e agora pelos vistos Roderick Miranda). Mas está a fazer a melhor temporada de sempre - tendo em conta o contexto - e oxalá fique no clube muitos e muitos anos. Os Benfiquistas deveriam unir-se à volta da equipa, do treinador e do presidente. Para guerras fraticidas e cultura do protagonismo já basta o Alvalidl. O tal clube que em 6 jornadas na liga marcou os mesmos golos que o Benfica ontem ao Gil ... É mau, o JJ. Muito mau mesmo. Bom era um Jesualdo, um Quique ou um Fernando Santos.

    Abraço, saudações de glória

    PS - Passámos ou não passámos o Bayer? Clientes habituais, é o que é.

    ResponderEliminar
  4. Parabéns pelos artigos que escreve sobre o maior clube do MUNDO. Não perco nenhum artigo que escreve. Sinto muito, mas não gosto de ler os artigos da C. Considero-a com muito mau gosto no que se refere aos seus gostos clubísticos. No entanto reconheço que é muito criativa e que revela muita facilidade em escrever.
    Um abraço e muita sorte para o final da época do nosso clube.

    ResponderEliminar