sexta-feira, 15 de março de 2013

Ida à Lua

Há muita gente que me diz que lê este blog mas nem gosta de futebol, nem liga muito ao clube ou até gosta de uma equipa mas sem as loucuras que nós aqui escrevemos. E é para vocês que eu vou escrever hoje.

Vocês, os que me vêem chegar depois de um mau resultado do Porto e até o lamentam só por mim, pelo meu ar triste e desinteressado da vida, mas que na realidade não percebem como é que eu me posso deixar abater assim.

Vocês, os que antes de um jogo do Porto me perguntam quanto acho que vai ficar com uma ligeireza de quem só pensou naquilo quando me viu passar e não compreende que a minha resposta já conta com muitas horas, muitos dias a pensar naquilo.

Vocês, os meus amigos, colegas, conhecidos ou desconhecidos, que se preocupam com a minha sanidade mental após a última quarta-feira. Eu não estou bem, é certo, mas também não me atirei da bancada do La Rosaleda abaixo, e vou tentar explicar-vos como é que nós, os adeptos, sobrevivemos àquilo.

Então imaginem que o vosso sonho é ir à Lua. Tudo o que vocês querem na vida é arranjar maneira de ir à Lua. Sempre que vocês o dizem em voz alta, as pessoas à vossa volta acham-vos maluquinhos. Como é possível que alguém ache tão importante ir à Lua?, pensam essas pessoas, que não vos percebem. E vocês nem sequer pensam todos os dias nisso, claro, porque há outras coisas que, assim sozinhas, até parecem mais importantes do que ir à Lua: o amor, a saúde, a família. Mas porra, enquanto não chegarem à Lua sabem que não são totalmente felizes. E então, um dia, conseguem construir uma nave. Fazem uns testes e ela até funciona. Não sabem se vai ser suficientemente boa para chegar à Lua, mas pelo menos vocês sabem que vão ter de tentar.

Pronto, é mais ou menos isso. O F. C. Porto até já me levou à Lua umas quantas vezes, mas eu continuo a querer voltar lá. E quando, na primeira mão, vi futebol, vi equipa, vi jogadores e vi um adversário capazes de me levarem à Lua, mandei aquecer os motores da nave.

Para chegar mais perto da Lua, tinha de pagar um bilhete de 45 euros e fazer quase dois mil quilómetros de estrada. Estamos em crise, o dinheiro falta, o ânimo também, mas todos os sacrifícios são poucos quando se vai à Lua.

Acordar às 5.45 da manhã após ter trabalhado 9 dias seguidos para ter as folgas nos dias certos é fácil. Conduzir por estradas desconhecidas e apanhar uma multa de 100 euros de um conho espanhol é ultrapassável. Fazer contas às portagens, ao gasóleo e à comida é normal. Pela Lua, tudo.

E depois chegar lá e ver tantos rostos cansados, muitos sem dormir, roucos e exaustos, ouvir histórias de outros sacrifícios, lembrar os que não conseguem estar ali mesmo querendo tanto. Parece triste, mas quando os nossos rapazes entram para aquecer, é precisamente isso que nos motiva. Nós, os malucos pela Lua, não temos sono ou cansaço nenhum quando vemos aqueles 11 de azul (ou roxo, no caso). E saltamos, e cantamos, e acreditamos que, se nós fizemos tanto para ir à Lua, aqueles que são pagos para isso ainda vão fazer mais.

Não fizeram. Nada, mesmo. Muitos nem sequer tentaram. Outros foram desistindo. Eu vi-os, lá de cima, da bancada, a entregarem no relvado a nossa nave a outros tão menos capazes de lá chegar do que nós. Sem luta, sem chama, sem Porto. Em 90 minutos, tiraram-nos a nossa Lua.

Se o mundo fosse justo, aqueles rapazolas tinham ficado uma hora na bancada, entregues à tristeza, à frustração e ao frio de rachar, enquanto nós, que fizemos a nossa parte, íamos de avião para casa. Se o mundo fosse justo, aqueles rapazolas tinham que conduzir mais mil quilómetros sem dormir, e sempre a fazerem contas às portagens, ao gasóleo e à comida. Se o mundo for justo, aqueles rapazolas vão matar-se no domingo, vão correr e suar e comer a relva se for preciso, até eu me sentir compensada pela viagem de sonho que me roubaram.

E acreditem que, tal como numa daquelas manhãs a seguir a uma grande noitada em que a ressaca parece que vai durar para sempre, eu cheguei a pensar: “Nunca mais bebo”, “Nunca mais fumo”, “Nunca mais vou ver o Porto ao estrangeiro”, “Nunca mais me vou incomodar com isto do futebol”, “Nunca mais, nunca mais, nunca mais”. Mas sabemos que não será assim. Isto passa-me num instante porque no Porto estamos sempre a ganhar. No próximo domingo há mais. Há outra Lua para alcançar.

7 comentários:

  1. http://tortitamadrilena.blogspot.com.es/2013/03/malaga-e-o-adeus-europa.html.... A visão amadora! Beijinho profissional! Somos Porto!

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  2. Realmente, deve ser frustante fazer tantos sacrificios e depois vêr um espectaculo deprimente como aquele em La Rosaleda. Os jogadores deviam lêr estas coisas para se aperceberem do esforço dos adeptos.

    Ps: Os nossos parece que andam a precisar de mais uma carta da C....

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  3. Belo texto que reflete os sentimentos de todos nós Portistas.
    Foi uma equipa sem chama que nos deixou triste , mas faz parte do passado e tanta coisa temos ainda para ganhar no futuro .

    Uma coisa é certa os jogadores não pensam nos sacrificio que as pessoas fazem para os ir ver , eles estão preocupados com outras coisas , do interesse deles.

    Se eles deviam ler estes textos? deviam claro , era uma forma de melhor conhecer a mística do Porto , ou o que representa ser PORTO.
    Deviam ler se isso lhes provocasse qualquer tipo de reacção positiva e sentimento à PORTO, porque só merece ler estes textos quem consegue minimamente sentir o que está por detrás de cada palavra.

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  4. Faltou a amarelinha do druida povoix

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  5. é possível facultar o email de quem escreveu isto:
    http://laemcasamandoeu.blogspot.pt/2012/05/eu-quero-ser-o-vitor-paneira.html

    agradeço imenso

    desvairadamasproficiente@gmail.com

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