segunda-feira, 4 de março de 2013

Não ganhar

Os adeptos que saem do sofá sabem que os melhores jogos do ano são na casa dos rivais. O que, em teoria, se torna mais difícil dentro do campo, é compensado largamente pela bancada. Há uma razão que o explica sucintamente: quem vai a estes jogos está mais predisposto a apoiar a equipa. Do outro lado, e apesar de em maioria, estão os adeptos que gostam de sentar o rabo na cadeira, de gesticular contra o árbitro e de se manifestar apenas e só quando é golo.

Quando jogamos fora, sentimo-nos mais unidos. Estamos todos juntos, muitas vezes literalmente em cima uns dos outros, e sentimos a força da nossa voz. No FCP-sportem cantam as claques, assobia-se de vez em quando o árbitro, há uns insultos soltos aqui e acolá. No sportem-FCP cantamos todos, assobiamos todos e insultamos todos.

Nestes jogos há ainda outro aliciante. É que ao lado dos nossos 2 ou 3 mil adeptos, estão os outros. E eu sinto uma certa admiração pelas pessoas cujo lugar está ao lado da bancada dos visitantes. Sinceramente, nunca consegui perceber como é que aguentam. Espero mesmo que sejam figurantes pagos para fazer de conta que são daquele clube, porque nenhum adepto normal suportaria tal tarefa. Ora bem, imaginando que damos 5-0 a um rival em casa, eu percebo que estas pessoas até se divirtam, porque vêem os outros. Mas isso compensa mesmo todos os outros minutos a ouvi-los, a levar com insultos constantes e, às vezes, credo, até a vê-los festejar? Não me acredito.

É que nós, quando vamos ao estádio de um rival, passamos muito tempo virados para os lados. É um vício terrível: apoiar, gritar, cantar, insultar, festejar, mas para o lado. Olhar para a cara de um rival enquanto beijamos um escudo de campeão imaginário é uma coisa inexplicável de tão boa. E o jogo do último sábado, embora o adversário fosse o 11º classificado, não foi excepção.

No entanto, do outro lado estavam uma espécie de adeptos-fantasma. Não quero assim criticar quem ainda consegue ir ver jogos do 11º classificado sem ser obrigado ou pago para isso, juro, até sou daquelas pessoas que reconhece muito mérito aos adeptos das equipas pequenas. Só que nunca tinha tido a sensação de estar a provocar uma parede. Nós cantávamos que iam para a segunda, que o sportem é merda até morrer, que a juve leo coiso, e nada. Nadinha. Nenhuma reacção.

Também é verdade que entrámos demasiado cedo, quando no estádio ainda estava apenas um funcionário do sportem a fazer joguinhos com meia dúzia de pessoas que penso reconhecer daquelas imagens de adeptos a chorar com a saída do Liedson. «Quem é quem?» - é assim que se chama o jogo que basicamente consiste em desfocar uma fotografia de um jogador do sportem e tentar que os adeptos adivinhem quem é. Quem acertar, e conforme o grau de desconfiguração do dito jogador, recebe prémios como camisolas autografadas por todos os jogadores e um lugar grátis para todos os jogos em casa até ao fim do campeonato. Prémios que, em qualquer clube decente, são coisas que não se oferecem, porque os adeptos querem-nos tanto que até os compram, imaginem.

É tão deprimente, a sério... A excitação do funcionário do sportem contrasta tanto com o desânimo dos adeptos... E depois, ainda por cima, estávamos lá nós. E apareceu um jogador mulato desfocado e nós, mauzinhos: “É o Liedson! É o Liedson!”. E depois um jogador desconfigurado mas claramente muito baixinho: “É o Moutinho! Só pode ser o Moutinho!” Que horror, que sentido de humor macabro. E o senhor lá continuava, a distribuir game boxes como quem atira moedas de cinco cêntimos para as bancadas de gente rica. E os adeptos lá aceitavam, coitados, conformados a terem de ver os jogos todos até ao fim da época.

Enquanto isso, há uns adeptos do sportem no relvado, não sei bem a fazer o quê, devem ter ganho um passatempo, que azar. E são filmados e deles se espera que gritem, que abanem o cachecol, que apoiem o sportem, sei lá, essas coisas que os malucos dos adeptos fazem. E eles sorriem para a câmara, meio com vergonha de estar ali, meio com vergonha de ser do sportem. Coitados, nunca mais participam de certeza.

Isto é mau, mas continua, porque no sportem há joguinhos para entreter os adeptos! Percebo que tenham de os fazer antes do jogo, porque durante e depois não costuma ser muito divertido. O segundo jogo chama-se qualquer coisa como «O preço certo» e consiste em mostrar imagens de produtos do sportem até os adeptos adivinharem o preço ou um deles se aproximar mais do que os outros. E então lá ouvimos nós mais uns adeptos a dizer “35 euros” por um casaco que custa 68 (amigos, isto é o sportem, acham mesmo que há artigos baratos numa loja de elite?), e pronto, lá vai um casaco grátis para alguém, como se essa pessoa não tivesse vergonha de o usar fora daquele estádio. E nós, maus, muito maus, a mandar piadas que o casaco ia para o Porto por troca com o Miguel Lopes.

Bem, mas o jogo lá começa e, agora sim, isto vai aquecer. Não, não vai. Eles nem olham para nós. Estão 20 e tal mil pessoas de verde a olhar para todos os lados menos para nós, alguns assobiam para o ar, a outros já lhes dói o pescoço. E nós cantamos pelo Moutinho, pelo Izmailov, pelo Varela, pelo Liedson. E nada, coitados, nada. Uns assobios, tímidos, mas nunca o temor que habitualmente uma casa do rival provoca.

E chega o intervalo e, com ele, mais uma cena super divertida! No relvado estão mais algumas dezenas de adeptos (há algum adepto do sportem que não tenha ido ao relvado? É obrigatório? Precisam disso para nos mostrar que ainda há adeptos do sportem?). Explica o funcionário que são os novos sócios do sportem. E nós pensamos: “Porra, mas quem é que se faz sócio do sportem? Bebés obrigados pelos pais? Mulheres obrigadas pelos maridos? Idosos com Alzheimer?” Não, não, aparentemente estão ali de livre vontade. E depois percebemos porquê.

A minha memória não é das melhores mas penso que a razão é qualquer coisa como isto: qualquer sócio do sportem que inscreva outra pessoa como sócia ganha dois bilhetes para qualquer jogo, tem três meses de quotas grátis e mais não sei o quê que não me lembro (deve ser uma camisola autografada, porque aparentemente ninguém quer recordar esta época comprando camisolas do Wolfswinkel). E o novo sócio tem a inscrição gratuita, mais dois bilhetes, um benefício qualquer na banca e seis meses de quotas grátis. A sério, eu ouvia isto e a certa altura pensei: bem, às tantas compensa eu ser sócia do sportem, porque o meu bilhete custou 25 euros. Muito convincentes os senhores. Ou desesperados, depende do ponto de vista.

Com a segunda parte e um Porto precipitado, irreconhecível e desajeitado, eles começaram a acordar. Não falo das críticas ao árbitro, porque em alvalade não morre a tradição de achar que qualquer lançamento para a outra equipa significa o roubo de um título, mas dos insultos para o nosso lado. Há um livre perigoso para o Porto e inútil do Danilo (pela 12423857489572456ª vez esta época) remata ao lado. E vira-se um lagarto para nós e beija o símbolo do sportem que tem na camisola, gritando insultos que naturalmente não consigo ouvir mas dá para imaginar. Ainda hoje não percebo a relação entre um livre falhado pelo meu clube (apenas mais um entre tantos) e o aparente orgulho no clube de outra pessoa. 

Mas os últimos 10 minutos foram passados assim, virados para nós. Cantavam, batiam palmas, insultavam-nos. Ressuscitaram, portanto. Eu, confesso, estava paralisada de tão incrédula. Olhava para o ecrã constantemente, com medo que eles tivessem marcado um golo e eu nem tivesse reparado. Estão a cantar porquê? Que tipo de vitória é esta que vale 1 ponto? Como é possível que tenham chegado a isto? E aí caiu-me a ficha: o sportem estava em 11º (hoje está num honroso 10º lugar) e bem se viu pela forma como jogaram que não estavam ali para ganhar, para lutar pela manutenção ou sequer para dar o campeonato ao benfica, como o avançado prometeu. Eles apenas quiseram mostrar que estão vivos.

Apesar de visivelmente frustrados com o resultado (vamos ser novamente das poucas equipas a não ganhar em alvalade este ano), respondemos de maneira fácil. Nunca tinha reparado, porque habitualmente não me pego com adeptos das equipas pequenas, mas explicar por gestos que eles estão cheios de medo (as duas mãos com os dedos todos esticados, a convergirem na mesma direcção) de ir parar (um dedo esticado a deslocar-se de cima para baixo) à segunda divisão (dois dedos de uma mão) é bastante perceptível à distância. 

Mesmo assim, saí de alvalade com a sensação que fui goleada, que perdi um campeonato e que o Porto nem sequer por lá passou. Nem se trata de não saber perder, trata-se mesmo de não saber não ganhar. Principalmente quando do outro lado estão bancadas repletas de fantasmas, ligados a uma qualquer máquina para conseguirem respirar ainda algum orgulho, e tão habituados a não ganhar que se contentam em não perder. 

P.S. Não gostei mesmo nada do Porto. Não admito que estejam a pensar noutras coisas e não aceito desculpas como as lesões. Já tiveram a vossa falha, agora não aceitamos mais.

P.S.2 O sportem está meio morto, mas nunca podemos tratá-los como se não fossem um rival. Ter pena dá nisto: facilitar e perder pontos.

P.S.3 Tenho tido imensa dificuldade em comentar as últimas vitórias do benfica. Queria poder dizer que foram beneficiados pelo árbitro x ou y, mas aparentemente agora a regra é nomear desconhecidos para os seus jogos.

5 comentários:

  1. http://portistasanonimos.blogspot.pt/2013/03/equipas-pequenas-com-um-estadio-grande.html

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  2. Então Catarina, qual foi (ou quais foram) os "mandamentos" do texto do Azar, que quebraste desta vez?

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  3. Mais um belo texto.

    O que eles queriam mesmo era mostrar que estavam vivos , o que mais me incomoda é a sensação de que a equipa do Porto não sabia disto, que pensavam que iam bater em mortos. Mas nestes jogos os mortos ressuscitam sempre, infelizmente desta vez o Porto deixou mais uma vez que isso acontecesse .

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  4. Lembro-me em Maio de 94 de estar no estádio e o speaker nessa altura começar a dizer quais os prémios que os marcadores dos golos do sportem ganhariam. Lembro-me que iam até ao 6º ou 7º golo.´Aquilo foi de rir, para mais que o balakov não me convidou para o jantar na pousada de ourem que ganhou com o 3º golo, marcado de penalty,,, Ridiculos...

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  5. C. boa noite.

    Peço desculpa pelo off-topic (pq não encontrei aqui qq referência a um qq endereço de email), não sem antes te parabernizar pelo teu (muito) gosto... vá-se lá saber o porquê?! ;)

    Sou o admin do blog BiBó PoRtO carago!! e tenho em mãos, a responsabilidade de te apresentar um assunto que julgo, (julgamos, a organização em questão), possa vir a ser do teu interesse.

    Se possível, gostaria que entrasses em contacto comigo via email, para o endereço blogdoblueboy@gmail.com.

    Aguardo pois o teu contacto.

    Cumprimentos e boa noite.

    ps - depois de lido este comment, pode ser obviamente "apagado", pq não tem propriamente a ver com o tema do teu post aqui em referência. Obg.

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