terça-feira, 19 de março de 2013

O bom aluno

É agora. Estamos naquela altura da época em que já fizemos as asneiras todas e só nos resta aquela imensa vontade de ser campeão. É aqui. Nestes momentos em que o mundo parece que vai acabar, em que lembramos todas as contratações mal feitas ou por fazer, em que notamos todas as teimosias do treinador e da sua “ideia de jogo”, em que criticamos cada penalty falhado pelo nosso melhor marcador e grande revelação do campeonato, em que parece que nos faltam as forças perante a inércia, a apatia, a palidez de onze homens vestidos, mas pouco sentidos, de azul. Está na hora de acordar.

Podia fazer aqui um desabafo sentimental, apelar à união da equipa, desancar o lateral-direito que não corre e pedir-lhes, mais uma vez, que sejam campeões por nós. Mas, confesso, estou farta disso. Já não posso ouvir o “Somos Porto” e aquele discurso do “temos de acreditar até ao fim” porque “é nos momentos maus que se vêem os verdadeiros portistas”. Porra, que Somos Porto já toda a gente sabe. Ninguém se esquece do que é ser Porto só porque fomos eliminados da Liga dos Campeões e comprometemos o campeonato. Sim, sim, porque o Porto é o único clube que nas alturas más sabe unir-se e lutar contra as adversidades como ninguém, claro que sim. E claro que vamos acreditar sempre, até os lagartos ainda acreditam na Europa! Os verdadeiros portistas não precisam destas lições de moral, precisam é de gajos a correr no relvado com pelo menos metade da nossa dedicação.

Estamos em desvantagem e temos muito pouco tempo para recuperar. Jogamos mal, temos muitos jogadores cansados e lesionados e parece que aquele brilhante jogo em Guimarães foi há mil anos. Compreendo que andemos a carpir mágoas e que corram para o aeroporto para os pressionar, mas não aceito que se esqueçam outros factores que tanta influência têm tido no campeonato.

O F. C. Porto cresceu tanto nos últimos 30 anos que um adepto que acabe o jogo em Málaga a insultar o árbitro parece um maluquinho. Somos tão superiores, tão exigentes, que nos esquecemos da matreirice que é preciso ter em certas alturas. Como é possível que, perante os primeiros minutos e a distribuição de cartões amarelos pela nossa equipa, os jogadores do Porto não tenham rodeado o árbitro em cada entrada dura dos outros (e foram tantas, meu deus!)? Onde é que anda o capitão quando o Jackson é varrido por trás e é preciso lembrar o árbitro que, se expulsou o Defour, não pode ter contemplações com um tal de Iturra, que conseguiu acabar a partida sem um amarelo sequer? Terei sido a única a desejar que o Porto entrasse naquela onda e até que os jogadores caíssem mais, não só para exigir amarelos, mas também para perder tempo, porque a eliminatória estava do nosso lado? Isto não é ser Porto, claro que não, nós queremos é a equipa a jogar bem e a passar ao lado de tudo o que é feio. Pois eu queria era ter passado.

Não consigo precisar como nem quando, mas tornámo-nos o bom aluno. Vamos a todas as aulas, sentamo-nos na fila da frente e não falamos com ninguém para não aborrecer o professor. Portamo-nos muito bem e nem sequer nos divertimos, porque a escola é o nosso dever e nada mais do que isso. Durante algum tempo, achámos que isso seria suficiente para passar. E foi, e até pode continuar a ser se voltarmos a estudar para ter boas notas, mas até os melhores alunos do mundo têm dificuldades em alguma matéria. E é agora, é aqui, está na hora de acordar e assumir que não estamos a conseguir ser melhores do que o mau aluno da Amadora, que passa as aulas a mascar chiclete tão alto que não se ouve o professor, que nos atira papéis à cabeça para nos distrair do essencial e que copia nos testes para conseguir passar. Estou farta, não aguento mais calar-me e aceitar isto.

Na primeira volta, o F. C. Porto empatou três vezes. Com o gil vicente, na primeira jornada, em que o árbitro Duarte Gomes se esqueceu de marcar um penalty sobre o Kléber. Logo na quinta jornada, o árbitro Bruno Esteves copiou a ideia e esqueceu-se também de marcar um penalty sobre o Kléber, terminando o jogo com o rio ave empatado a 2. E na jornada 14, com o benfica na luz, o mesmo resultado e a dupla pode-ser-o-João e Godinho a inventar três foras-de-jogo, dois dos quais com jogadores isolados, e a não expulsar dois rapazitos de camisola vermelha.

Seis pontos perdidos em 15 jornadas não parecem nada e a equipa continuou a ir às aulas, a sentar-se na fila da frente e a não falar com ninguém para não aborrecer o professor. Até arrancou para um mês fantástico, ofereceu goleadas fáceis, jogou como poucas vezes terei visto uma equipa do Porto jogar e tudo parecia encaminhado para continuarmos a portar-nos bem, mas sem nos divertirmos muito, porque ganhar é o nosso dever e nada mais do que isso.

O empate com o olhanense, aliás, só ajudou a fortalecer a teoria do bom aluno. Após um empate do rival, o F. C. Porto perdeu dois pontos por culpa própria, com um penalty falhado que, juntamente com o de domingo, poderão vir a ser decisivos no fim do campeonato. Portanto, os adeptos começaram a desconfiar. Será que, apesar de se portar bem, o Porto não está assim tão forte? Será que, com a lesão de Moutinho, não conseguimos ter boas notas? Três vitórias seguras no campeonato (beira mar, rio ave e estoril) e uma grande exibição com o Málaga em casa adormeceram as nossas preocupações. É preciso ter calma porque basta ao Porto estudar um bocadinho e isto melhora. Mas, porra, alguém duvida que o jogo em alvalade era para ganhar? Se aquilo não foi uma enorme negativa num teste, então não percebo nada disto.

E, enquanto o bom aluno se preocupava apenas consigo, o mau aluno foi passando. Sem uma ideia, sem sequer estar no seu melhor, a ser assobiado por adeptos que aplaudiram quando o Porto foi campeão na luz. O mau aluno não tem perdoado, nem que para isso, como no teste contra a académica, tenha de ter copiado aquele penalty que tanto jeito deu no último minuto.


E nós calados. Calados, mesmo quando o golo do marítimo é marcado após um fora-de-jogo que se esqueceram de assinalar.


Caladinhos, mesmo quando, aos 91 minutos, há uma mão na grande área do marítimo e a Sporttv nem repetição mostrou (obrigada a quem mostrou o lance claríssimo). E distraídos no mesmo dia por um 0-4, com dois golos em fora-de-jogo e mais umas histórias para contar, entre elas a do Cardozo, o homem que puxa árbitros. É que eu um dia vi o Costinha a ser castigado por ter celebrado em Guimarães agarrado às suas partes íntimas. Provocação aos adeptos, foi assim que lhe chamaram. Coisa que o Cardozo certamente não fez.

Enfim, claro que eu também estou furiosa com o Porto por não querer ganhar isto. Claro que também eu os insulto e critico por não estarem à altura do nosso clube. Claro que não estaria a escrever isto se o Jackson tivesse marcado aqueles dois penalties. Claro que a equipa precisa de estudar para tirar boas notas. Agora não me peçam é para continuar a ouvir o outro mascar chicletes e a levar com papéis na cabeça sem dizer nada.

17 comentários:

  1. Gostei das críticas à arbitragem de Málaga. E ainda se esqueceu de referir o golo limpinho que foi anulado ao fcp e que dava a passagem :)

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    1. ...esqueceu-se também do golo limpinho anulado ao Málaga ou do golo "limpinho" (à porto) marcado pelo Montinho no dragão :)

      Falar-se de arbitragem nesta eliminatória só mesmo para "maluquinhos".

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  2. Gosto tanto de ver portistas irritados, é bom sinal. Carrega Benfica!

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  3. O minímo que esta equipa pode fazer é vencer todos os jogos até ao fim do campeonato e ver o que acontece...

    Então e as expulsões que os adversários do Benfica têm antes de os defrontar?! Já vão 15 jogos... E este fdsemana o Rio Ave viu-se privado de mais 2 jogadores e o adversário não é preciso sequer dizer...

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    1. É verdade, esqueci-me disso das expulsões, obrigada por lembrar. Tem sido uma coincidência incrível.

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  4. Um outro ótimo tratamento caseiro para azia é o xarope de erva doce com hortelã, embora não seja indicado para quem sofre com úlcera gástrica, este xarope consegue eliminar a azia em poucos minutos.

    Colocar também um calço de 10 cm na cabeceira da cama para evitar o refluxo durante a noite é recomendado para os indivíduos que costumam sofrer com a azia à noite.


    "Miguel Sousa Tavares, jornal A Bola, 19 de Março de 2013"

    Está lá tudo !

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    1. Obrigado Benfiquista Atento! Tem sido essa a sua receita estes anos todos?

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    2. Deve ser dos anos de experiência...
      Nós temos outro remédio para isso, chamam-se vitórias e títulos(da ultima vez que não fomos campeões no ano seguinte foram massacrados; pensem bem se querem levar mais 5).

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  5. sempre detestei alunos certinhos!

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  6. Quizz! Sabem qts jogadores do fcp já foram expulsos esta época na campeonato? Sabem qts penáltis foram assinalados contra o fcp? Um rebuçado a quem acertar.

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  7. Em alternativa ao tratamento para a azia, poderá optar sempre por utilizar a passiflora que também é conhecida como flor de maracujá, é sem dúvida nenhuma um dos melhores calmantes naturais, pois nela há propriedades medicinais que devolvem ao individuo o controle emocional.

    Esta planta medicinal serve para ansiedade, dificuldades de concentração, depressão, nervosismo, relaxamento muscular, hiperatividade infantil, sindrome pré-menstrual .

    "Só os burros falam de arbitragem" PdC dixit !

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    1. O sr Dr. diz-me pf o que devo tomar para os calos? Obg

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    2. Encha uma pêra de borracha (100 ml.)com sumo de limão e introduza no ânus. Faça durante 3 dias e espere os resultados; algumas vezes,há necessidade de repetir o tratamento mais vezes.
      Se sentir ardor, faça banho de assento gelado logo a seguir :-)))

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  8. Ai,ai Catarina... Essa memória seletiva é muito prejudicial ao "bom aluno" que quer ter "boas notas". Qual foi o mandamento do Azar que não cumpriste desta vez?

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  9. Honestamente gosto muito deste blog, mas penso que há claramente uma diferença substancial na qualidade dos posts. Não que a C. escreva mal, antes pelo contrário, mas tem constantemente no seu discurso um ódio ao Benfica, um mau perder e uma falta de imparcialidade que por vezes é indignante. O M. tem posts geniais, uma prosa fantástica. Faz sonhar não só os adeptos do seu clube mas os amantes do futebol em geral. Não dá insistentemente facadas onde pode (facadas essas que só doem de tão injustas que são (como no caso das escutas). Sabe perder embora o coração lhe doa (como eu o entendo), e sabe que o seu grande rival merece muitas vezes ganhar porque é de facto muitas vezes melhor. Mas também sabe como é que esse rival se tornou no que é. Mas não insiste. Os benfiquistas não querem ganhar a qualquer custo. A beleza do futebol para nós não é simplesmente ganhar, é ganhar de cabeça erguida.

    Espero que a C. não me leve a mal com estas palavras. Elogio o seu marido, um romântico do futebol.

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  10. Ora essa, caro leitor, esteja à vontade. Eu também acho que o M. escreve melhor, mas tente imaginar, por momentos, que só me considera assim porque não é do meu clube e é do dele. Parece magia, mas resulta, juro.

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