No infantário e na primária eu tinha que me defender do J. e
do T., dizendo-lhes que, apesar de viver em Faro, eu tinha nascido em Lisboa, e
que portanto podia ser do Benfica à vontade. O J. simpatiza com os lagartos,
mas é do Farense. O T., companheiro de carteira, é do Benfica, mas só muito depois de ser do
Farense. Nenhum hesitava quando o seu “2º clube” ia lá jogar : eram farenses,
eram do Farense.
Serve isto para mostrar, como diz o hino, “do que a gente de
Faro é capaz”: era-me permitido ser do Benfica, não por o Benfica ser o
Benfica, mas porque eu tinha nascido em Lisboa (mesmo que, aos 4 anos, Lisboa
representasse para mim a casa dos meus avós – que era em Oeiras – e o Jardim
Zoológico, que eu tinha visitado uma vez).
Com os anos comecei, também, a ir ao São Luís e torcia pelo Farense
contra todos – com especial fervor contra Porto e Sporting – menos, claro,
contra o meu Benfica. Cresci com o Hajry, Serôdio, Mané, Pitico, Rufai, Hassan,
Hugo e, claro, Paco Fortes. Não gostava do verde alternativo, mas simpatizava
com o ambiente, com as tardes de sol, e com o facto de quase ninguém lá ganhar.
Lembro-me dos Farenses – Porto de 92/93 e 93/94, 1-0, com
golos de Hugo e Stefanovic, respectivamente. No primeiro, não fossem Dino e os
irmãos Calheiros, tinha sido a oferta de um campeonato para o Benfica, e o
segundo, de noite, custou o cargo a Ivic. Era-me, portanto, difícil não
simpatizar com o clube. Apesar de também o Benfica passar mal no S. Luís (eu
estava lá, quando levámos 4-1), o clube tinha uma identidade, um fervor ao
qual era impossível ser indiferente. O Farense era o único clube que tinha um
treinador há não sei quanto tempo e as tardes de última jornada, com o estádio
cheio e a precisar de uma vitória para não descer davam-lhe uma aura que os
diferenciava da restante classe média-baixa do futebol português.
Quando vim para Lisboa abateu-se a desgraça sobre o Farense.
De clube praticamente invencível em casa, passou às distritais, a ser forçado a jogar
com os juniores porque não podia inscrever os seniores. Como Salgueiros, Boavista
e Estrela da Amadora, o Farense parecia condenado. Hoje provou-o que não.
Hoje regressei ao S. Luís e tive pena que o T., cuja crise o
obrigou a emigrar para longe, não pudesse ver o estádio onde tantas e tantas
tardes passámos juntos à pinha, novamente local de romaria de uma terra. Um estádio com camisolas de muitas épocas, onde
várias gerações (como a minha) foram recordar os tempos do S. Luís cheio,
impossível para os adversários, como na vitória por 4-0 ao Marítimo em 95, que
acabou com o estádio a cantar o “bailinho da Madeira”.
Foi uma tarde à antiga, num estádio onde se pode beber
cerveja, onde há tochas, fumos e bandeiras. Onde os miúdos invadem o campo para
jogar à bola no intervalo. Isto, obviamente, é a minha visão de Benfiquista,
que foi passar uma tarde porreira, antes de se enervar de morte com o jogo na
Madeira amanhã. Mas foi uma tarde para recuperar outras memórias (”o futebol é
o nosso regresso semanal à infância”) e para me lembrar de que, além do
Benfica, gosto do jogo. Das suas gentes, dos seus surrealismos, dos rituais.
O Farense ganhou num jogo com duas bolas ao poste, com 3
golos anulados por fora de jogo (no terceiro um adepto despejou uma cerveja
para cima do fiscal de linha. Imperdível.) e com um penalty sacado pelo estádio.
A invasão de campo final, com o mítico hino do Farense a passar nos megafones
envelhecidos, foi o corolário de anos de sofrimento. A vitória do Farense
fez-me sorrir, mas deve ter feito chorar todos os que sofreram a bom sofrer
todos estes anos.
O J., percebo pelo facebook, estava lá. O T., no Brasil,
deve ter recebido mensagens de loucura. Vou dar-lhes agora os parabéns. Estes
anos todos, talvez já não pegue a desculpa de ser do Benfica por ter nascido em
Lisboa. Mas acho que, passado tanto tempo, e com a felicidade da subida, nenhum
dos dois me vai chatear com isso hoje.

Não cresceste com o Eugénio? :)
ResponderEliminarExcelente. Por alguma estranha razão que não sei explicar (visto que não tenho nenhuma ligação a Faro, nem ao clube), sempre foi o meu segundo emblema também. Lembro-me de escutar os relatos na rádio só por causa do Farense.
ResponderEliminarSempre que podia, ia vê-los quando visitavam a Luz, e também me dirigi a Campomaior, para poder ver o Farense também.
Espermos que não volte a cair deste patamar!
Foi bonita a festa,pá.Treze mil pagantes,para ver um jogo de subida na segunda B,é o corolário de um numero,cada vez maior de apoiantes,que voltam a acreditar no clube.
ResponderEliminarNuno
Lembro me perfeitamente dessas equipas do Farense. Chegaram a ir a uma final da taça, que não me lembro se ganharam ou se perderam pro Estrela.
ResponderEliminarJá agora é também o regresso do grande Académico de Viseu, que juntamente com o Chaves fizeram que acontecessem 3 belos regressos ás competições profissionais.
perderam na finalíssima por 1-0 depois do empate no jogo da final. eu também sou benfiquista mas adepto do farense do tempo de outros jogadores - bukovac, fortes (como jogador), jorge andrade, spassov, vitor santos, pereirinha (sim o pai do actual), carlos pereira, vitor duarte ...
EliminarMas os mais antigos que me lembro, ainda antes da chegada do fortes é do skoda, do vilaça e do sanhá. sei que faziam equipa com o alhinho e o cajuda, mas não tenho recordação de ver estes 2 últimos a jogar ao contrário dos outros - o skoda era o pivot da equipa, o nr10, e o vilaça era o lateral raçudo e o sanhá um guineense alto com pouco jeito mas que ia marcando os seus golos num estilo muito peculiar mas em voga naquela época, seria um amido baldé do final dos anos 70. lembro-me de ver as ré-épocas no são luís e depois de os ir ver ao barreiro, aliás ao lavradio, à tapadinha e a outros campos perto de lisboa
EliminarSe esse Alhinho for o Carlos Alhinho, é também um dos maiores mitos do Académico. :)...Mas só me lembro dele como treinador do Académico, julgo ter sido ele o treinador na nossa ultima aparição na 1a divisão 89/90. Foi também a 1ºa vez que vi o Benfica ao vivo, colado ás redes tal foi a enchente. O unico grande a vencer em Viseu nessa época, golo de Magnusson no ultimo minuto. Amaral, ala direito, campeão do mundo sub20 era o mais famoso :)
EliminarOlá turma do Lá em casa mando eu,
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Como não consegui encontrar nenhuma área para contato, poderiam me enviar um email para afiliados [arroba] apostasonline.com para darmos continuidade a negociação?
Grande abraço