domingo, 26 de maio de 2013

Por mim, fica

Estava no 6º ano e, portanto, no auge da estupidez da pré-adolescência, quando a professora de Educação Física decidiu organizar um torneio de interturmas de basquetebol feminino. Não percebi a ideia dela: juntar um desporto que claramente sai prejudicado com atletas que teriam uma média de 1,40 metros, com miúdas cuja única competição de interesse era o duelo Backstreet Boys VS Hanson. Às tantas, o facto de a escola só ter um bom campo de basquetebol, quase sem buracos no chão e apenas com um dos cestos tortos, influenciou a decisão.

A minha equipa era fortíssima. Eu, a D. e a S. éramos o habitual trio titular, mas tínhamos três suplentes de qualidade, que faziam todas as posições (não faço ideia quais): a J., a A.L. e a C.. Eu e a D. éramos muito baixinhas e, portanto, a equipa adversária começava por ganhar confiança só de olhar para nós. Mind games, se é que me entendem. A S., no entanto, tinha centímetros por todas. Era a que conseguia ficar mais perto do cesto: saltando, só lhe faltava para aí um metro.

O primeiro jogo foi o mais renhido. Não me lembro ao certo do resultado, mas sei que andou perto de um 44-6. Um massacre.  Não facilitámos nem um bocadinho. Sentimo-nos uma equipa da NBA a jogar contra os infantis do Carcavelinhos. No final, a professora avisou-nos que aquele ímpeto todo não nos serviria de nada contra uma equipa que conseguisse fazer dois passes seguidos. Era chata, a mulher.

O segundo jogo foi hilariante. 54-0. Estávamos num dia mau e falhámos muitos cestos, mas as outras nem passavam do meio-campo. Recordo que falamos de basquetebol, pelo que, provavelmente, esta foi a única partida de sempre a terminar com uma das equipas a zero. E pensam vocês: mas qual foi a piada de bater em ceguinhos (expressão que faz todo o sentido se as vissem a tentar acertar no cesto)? É que a “estrela” da outra equipa era uma super-beta irritante, que acabou a fingir um ataque de asma na iminência daquela que espero ter sido a derrota mais humilhante da sua vida. A professora não gostou da nossa atitude, porque devíamos ter mais calma, ser melhores desportistas, enfim, coisas sem sentido para quem tinha acabado de espetar 54-0 às betinhas que entravam em campo bem vestidas.

Apesar da nossa irreverência, a professora decidiu inscrever-nos num torneio interescolar. Ela sabia que podíamos ir mais longe. Foi uma excitação imensa, e lá fomos nós, as meninas de 1,40 m, de peito aberto. Sem medo. Para cima delas. As adversárias eram a escola da Torrinha e, embora tenha consciência que os anos as possam ter tornado maiores na minha cabeça, o trio titular tinha ar de quem já devia andar na faculdade. Eram enormes, porra. Mas força, temos de acreditar em nós, dizia a professora, tentem ter a bola o mais possível e não falhem cestos. Era tudo muito bonito, mas a rapariga que me estava a marcar tinha ar de quem podia ser minha mãe.

Perdemos, claro, mas em nossa defesa devo especificar que fomos roubadíssimas. Levámos empurrões, cotoveladas, pisadelas e algumas de nós até passaram pelo chão. Note-se, mais uma vez, que o desporto em causa ainda é o basquetebol, onde praticamente não é suposto os atletas tocarem-se. Mas o árbitro era o maior anormal da história e “deixava jogar” à Capela para que nós nos divertíssemos. Como se houvesse alguma diversão em sentir um braço suado e forte a ir contra a minha barriga, ou cara, ou mão.

Saímos do campo em lágrimas. Corremos para a professora em busca de um ombro amigo e revoltado com tamanha injustiça. E ela, com toda a calma do mundo, disse-nos apenas que tínhamos conseguido pontos suficientes para sermos repescadas. Ok, não parece mau, mas é que logo a seguir soubemos que, nas meias-finais, íamos enfrentar exactamente a mesma equipa. A sério, o mundo é mesmo uma merda. Bem, restava-nos pedir que fosse outro árbitro a apitar a partida. Mas a professora, mais interessada em ensinar-nos uma lição de vida do que em vencer um torneio de basquetebol feminino do 6º ano - vá-se lá entender isso! -, recusou. Creio que este terá sido o momento definidor da minha forma de estar no desporto: nunca mais quis saber do fair-play, do desportivismo e dessas tretas todas; só quero mesmo é ganhar.

Naquela altura não percebi a professora , tal como não percebi Vítor Pereira durante muito tempo.  No primeiro ano, notou-se logo que havia uma certa ideia, mas confundia-me a aparente lentidão da equipa, o pensar 500 vezes antes de executar, a calma, a paciência, a falta de ímpeto. Não gostava também da aparente apatia fora do campo, da falta de garra e de palavras de incentivo ou que criassem receio nos adversários. Era chato, o homem. No jogo da luz comecei a perceber que estava errada. Nesta época, vi o meu Porto fazer jogos impressionantes e, ainda mais importante do que isso, ganhámos outra vez e arrasámos o nosso rival. Com uma ideia, com paciência, com lágrimas arrepiantes aos 92 minutos e um treinador que foi uma peça fundamental no sucesso.





Hoje, mais distanciada da vergonha que foi chegar à escola e dizer aos colegas que perdemos duas vezes com a mesma equipa, percebo que a professora teve um enorme gesto no sentido de nos formar como pessoas. Hoje, ainda na euforia de três épocas incríveis, quero agradecer a Vítor Pereira por ter aguentado todos os empurrões, cotoveladas e pisadelas e por ter conseguido não só levantar-se do chão, mas também levar este clube ainda mais longe.

Obrigada, mister. Por mim, é para ficar.

4 comentários:

  1. Faço minhas as tuas palavras.

    Pode ficar, com as minhas desculpas.

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  2. Por mim sai. Não tenho nada contra VP mas acho melhor que saia agora "em Alta" do que daqui a uns tempos pela porta pequena.

    É bom treinador mas não é tão bom a motivar psicológicamente os jogadores, que entram em campo com a lição estudada mas sem vontade de a pôr em práctica.

    Esta é a hora certa para uma mudança serena.

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  3. Mário - TriCampeão29 de maio de 2013 às 17:35

    "o 1º jogo foi o mais renhido; 44-6" Ehehehehh!!!

    Em relação ao treinador, acho que é boa altura para mudar, mas trocar um treinador que em 60 jogos só perde 1(e foi como foi) é um bocado complicado e o próximo tem que ser melhor(o que não é muito fácil).
    Independentemente de quem for o treinador, substituir o Moutinho no meio vai ser muito complicado!!!
    Mas é para ganhar, começando pelo Vitória na supertaça!!!

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