Estava no 6º ano e, portanto, no auge da estupidez da
pré-adolescência, quando a professora de Educação Física decidiu organizar um
torneio de interturmas de basquetebol feminino. Não percebi a ideia dela:
juntar um desporto que claramente sai prejudicado com atletas que teriam uma
média de 1,40 metros, com miúdas cuja única competição de interesse era o duelo
Backstreet Boys VS Hanson. Às tantas, o facto de a escola só ter um bom campo
de basquetebol, quase sem buracos no chão e apenas com um dos cestos tortos,
influenciou a decisão.
A minha equipa era fortíssima. Eu, a D. e a S. éramos o
habitual trio titular, mas tínhamos três suplentes de qualidade, que faziam
todas as posições (não faço ideia quais): a J., a A.L. e a C.. Eu e a D. éramos
muito baixinhas e, portanto, a equipa adversária começava por ganhar confiança
só de olhar para nós. Mind games, se é que me entendem. A S., no entanto, tinha centímetros por todas.
Era a que conseguia ficar mais perto do cesto: saltando, só lhe faltava para aí
um metro.
O primeiro jogo foi o mais renhido. Não me lembro ao certo
do resultado, mas sei que andou perto de um 44-6. Um massacre. Não facilitámos nem um bocadinho. Sentimo-nos
uma equipa da NBA a jogar contra os infantis do Carcavelinhos. No final, a
professora avisou-nos que aquele ímpeto
todo não nos serviria de nada contra uma equipa que conseguisse fazer dois
passes seguidos. Era chata, a mulher.
O segundo jogo foi hilariante. 54-0. Estávamos num dia mau e
falhámos muitos cestos, mas as outras nem passavam do meio-campo. Recordo que
falamos de basquetebol, pelo que, provavelmente, esta foi a única partida de
sempre a terminar com uma das equipas a zero. E pensam vocês: mas qual foi a
piada de bater em ceguinhos (expressão que faz todo o sentido se as vissem a
tentar acertar no cesto)? É que a “estrela” da outra equipa era uma super-beta
irritante, que acabou a fingir um ataque de asma na iminência daquela que
espero ter sido a derrota mais humilhante da sua vida. A professora não gostou
da nossa atitude, porque devíamos ter mais calma, ser melhores desportistas,
enfim, coisas sem sentido para quem tinha acabado de espetar 54-0 às betinhas
que entravam em campo bem vestidas.
Apesar da nossa irreverência, a professora decidiu inscrever-nos
num torneio interescolar. Ela sabia que podíamos ir mais longe. Foi uma
excitação imensa, e lá fomos nós, as meninas de 1,40 m, de peito aberto. Sem
medo. Para cima delas. As adversárias eram a escola da Torrinha e, embora tenha
consciência que os anos as possam ter tornado maiores na minha cabeça, o trio
titular tinha ar de quem já devia andar na faculdade. Eram enormes, porra. Mas
força, temos de acreditar em nós, dizia a professora, tentem ter a bola o mais
possível e não falhem cestos. Era tudo muito bonito, mas a rapariga que me estava
a marcar tinha ar de quem podia ser minha mãe.
Perdemos, claro, mas em nossa defesa devo especificar que
fomos roubadíssimas. Levámos empurrões, cotoveladas, pisadelas e algumas de nós
até passaram pelo chão. Note-se, mais uma vez, que o desporto em causa ainda é
o basquetebol, onde praticamente não é suposto os atletas tocarem-se. Mas o
árbitro era o maior anormal da história e “deixava jogar” à Capela para que nós
nos divertíssemos. Como se houvesse alguma diversão em sentir um braço suado e
forte a ir contra a minha barriga, ou cara, ou mão.
Saímos do campo em lágrimas. Corremos para a professora em
busca de um ombro amigo e revoltado com tamanha injustiça. E ela, com toda a
calma do mundo, disse-nos apenas que tínhamos conseguido pontos suficientes
para sermos repescadas. Ok, não parece mau, mas é que logo a seguir soubemos que,
nas meias-finais, íamos enfrentar exactamente a mesma equipa. A sério, o mundo
é mesmo uma merda. Bem, restava-nos pedir que fosse outro árbitro a apitar a
partida. Mas a professora, mais interessada em ensinar-nos uma lição de vida do que em vencer
um torneio de basquetebol feminino do 6º ano - vá-se lá entender isso! -, recusou. Creio que este terá sido
o momento definidor da minha forma de estar no desporto: nunca mais quis saber
do fair-play, do desportivismo e dessas tretas todas; só quero mesmo é ganhar.
Naquela altura não percebi a professora , tal como não
percebi Vítor Pereira durante muito tempo. No primeiro ano, notou-se logo que havia uma certa ideia, mas confundia-me a aparente lentidão da equipa, o pensar 500 vezes antes de executar, a calma, a paciência, a falta de ímpeto. Não gostava também da aparente apatia fora do campo, da falta de garra e de palavras de incentivo ou que criassem receio nos adversários. Era chato, o homem. No jogo da luz comecei a perceber que estava errada. Nesta época, vi o meu Porto fazer jogos
impressionantes e, ainda mais importante do que isso, ganhámos outra vez e arrasámos o nosso rival. Com
uma ideia, com paciência, com lágrimas arrepiantes aos 92 minutos e um
treinador que foi uma peça fundamental no sucesso.

Hoje, mais distanciada da vergonha que foi chegar à escola e
dizer aos colegas que perdemos duas vezes com a mesma equipa, percebo que a
professora teve um enorme gesto no sentido de nos formar como pessoas. Hoje, ainda na euforia de três épocas
incríveis, quero agradecer a Vítor Pereira por ter aguentado todos os empurrões, cotoveladas e pisadelas e por ter conseguido não só levantar-se do chão, mas também levar este clube ainda mais longe.
Obrigada, mister. Por mim, é para ficar.
Faço minhas as tuas palavras.
ResponderEliminarPode ficar, com as minhas desculpas.
Por mim sai. Não tenho nada contra VP mas acho melhor que saia agora "em Alta" do que daqui a uns tempos pela porta pequena.
ResponderEliminarÉ bom treinador mas não é tão bom a motivar psicológicamente os jogadores, que entram em campo com a lição estudada mas sem vontade de a pôr em práctica.
Esta é a hora certa para uma mudança serena.
ResponderEliminarexcelente!, como sempre :D
beijinho
Miguel | Tomo II
"o 1º jogo foi o mais renhido; 44-6" Ehehehehh!!!
ResponderEliminarEm relação ao treinador, acho que é boa altura para mudar, mas trocar um treinador que em 60 jogos só perde 1(e foi como foi) é um bocado complicado e o próximo tem que ser melhor(o que não é muito fácil).
Independentemente de quem for o treinador, substituir o Moutinho no meio vai ser muito complicado!!!
Mas é para ganhar, começando pelo Vitória na supertaça!!!