sexta-feira, 5 de julho de 2013

Medicina e futebol

Gosto de ser médico porque gosto de ver doentes. E não escrevo isto para me armar, para parecer mais humanista ou uma treta deste género. Ver doentes dá-me gozo: dá luta, faz-me pensar. Gosto das histórias dos doentes, dos seus dramas, das vitórias. Gosto do meu serviço, gosto dos meus doentes e  confirmarão ou não as pessoas que trabalham comigo e que são leitores do blog - acho que os doentes gostam de mim.

Os doentes do meu serviço sabem que eu sou "o médico do Benfica". Não o médico do Benfica no sentido daquele médico que corre para o relvado depois de mais uma entrada assassina sobre um dos rapazes que veste de vermelho e branco, mas o médico que representa o Benfica no serviço. Nos hospitais, como nos cafés e como nos escritórios, as guerras futebolísticas, com as suas bocas e maldições, mantêm-se. Apesar da hospitalização ser uma altura particular da vida de uma pessoa internada, a pouco e pouco - a adaptação do ser humano é extraordinária - a vida normal volta a aparecer e, mesmo no meio dos medicamentos, das dores ou da melhoria, os doentes espreitam sempre a televisão em busca do futebol e, obviamente, falam disso.

Eu falo de futebol por tudo e por nada. E sobretudo por tudo. Se os doentes estão bem e perguntam se a medicação é para continuar digo-lhes que em equipa que ganha não se mexe. Se vejo um doente várias vezes na mesma manhã digo-lhes que estou a fazer pressão alta. E estes são os exemplos banais, que até qualquer pessoa que não viva futebol pode usar. O futebol é a maneira mais fácil de meter conversa, de partilhar qualquer coisa com os doentes, de mandar umas bocas que os animem, às vezes de os distrair. Digam lá: preferiam um médico caladinho, que só vos falasse da doença ou um que, além disso (sim, eu também faço histórias clínicas e prescrevo medicação, não estou sempre a pensar em futebol) vos perguntasse o clube? Nisso sou fatal: a pergunta mais importante da consulta é saber o clube dos doentes.

A partir daqui é o caos. Quando os doentes gostam de futebol e percebem que eu sou da tribo, as metáforas são disparadas ao ritmo de relato. Mal entro nos quartos há bocas a chover. Hoje trataram-me como Dr. Kelvin, só para verem o nível. Respondo-lhes logo que para lagartos e andrades não há anestesia nos procedimentos que estamos em época de crise e outras alarvidades do género. A beleza da coisa é que os doentes, regra geral, adoram. Já não estamos no hospital, estamos na bancada. E isso, nem que seja por uns segundos, é óptimo.
Quando estou a colocar um catéter aos doentes e acerto em pouco tempo, gosto de entrar a matar: "Porra, parecia o Cardozo! Foi ao ângulo!" e a partir daí, sobretudo aos doentes dos clubes adversários, só respondo pelo nome de Tacuara. Na pediatria, disse a um miúdo cujo avô tinha levado a uma visita a ao estádio dos azuis no fim de semana anterior que ele devia mudar para o clube do Pai Natal. De seguida, a medir-lhe a tensão arterial, disse-lhe que ia medir a força (como se mede no braço, os miúdos caem todos). "Diz lá que és do Porto" "Sou do Porto!" e carreguei no parar quando aquilo ainda estava medir e mostrei-lhe um 30. "Agora diz que és do Benfica!" "Sou do Benfica" e medi a tensão normalmente, e deu qualquer coisa entre 90 a 100. "Já viste a tua força quando tu és do Benfica?" Como é obvio, aquele avô poderá não ter gostado do que o neto lhe disse nesse dia. Mas a mãe, Benfiquista, que o levou à consulta, saiu felicíssima e ele também (pudera, com quase 100 de "força").

Sei o clube de todos os meus doentes (dos que gostam de bola, óbvio). E isso agrada-me. Mas mais ainda: todos os doentes sabem o meu. Percebi isso quando, após os terríveis acontecimentos do mês de Maio, ao entrar na consulta se fez um silêncio assombroso na sala de espera quando passei, como se eu fosse a pessoa em pior estado naquela sala.

Isto vem, como muitas outras coisas em mim, do meu pai, que também é médico e que até tem um doente do Wolverhampton que ficou insultadíssimo porque ele desconhecia a fabulosa equipa dos Wanderers, três vezes campeã na década de 50. Também ele foge do bar quando o Benfica perde, também ele chateia os doentes lagartos.
Ora, o meu pai, que tem um currículo  fabuloso e é um excelente médico, já agora, tem uma única mancha no currículo, que vos passo a contar, após autorização do mesmo: correu-lhe mal um procedimento (não fatal nem nada do género) ao Otto Glória. Lixado consigo mesmo, lá foi o meu pobre pai anunciar o seu erro ao mister Otto Glória, treinador de Eusébio, Coluna e dos restantes Magriços, com quem já tinha conversado tantas horas sobre medicina (porque Otto estava doente) e futebol (porque eram os dois doentes). Após o anúncio, Otto Glória virou-se para o meu pai e disse-lhe: "Dr. P.: a equipa médica achou que você era o melhor para marcar o penalty. Veio marcar e falhou. Deixe lá, acontece. Não se preocupe com isso."

Eu já ouvi esta história mais de mil vezes, mas continua a ser sempre como a primeira. É que a resposta de Otto Glória é de medicina e é de bola. Mais: é da vida. E não é essa, afinal, que se joga nos estádios e nos hospitais?

9 comentários:

  1. O homem do Wolves tem razão.

    Isso de não conhecer o Stan Cullis e a mítica vitória sobre o Honved que permitiu criar uma taça que os clubes dessa casa ganharam duas vezes (isso sim, com diferentes tonalidades no aparelho) não se faz ;-)!

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  2. Apesar de eu estar a torcer para o Tetra, o texto está bom, mais uma vez!!

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  3. Caramba, seria muito mais feliz se tivesse um médico como tu M.!
    Poder partilhar com o nosso médico a nossa doença mais aguda (o Benfiquismo) não teria preço. Este fim de época então fez-me uma falta...

    P.S. - Essa história do puto é priceless!!!

    P.S.2 - Espero que sejas feliz porque mereces sê-lo

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  4. simplesmente d-e-l-i-c-i-o-s-o
    (e muito humano, também)

    ps:
    votos de muitas felicidades! para a próxima etapa nas vossas vidas.
    que seja um Futuro risonho

    abr@ços a «ambos os dois» :D
    Miguel | Tomo II

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  5. Ao lado deste post, o golo do Kelvin é quase insignificante. Só nos valeu um campeonato! Este post vale um abrir de olhos para o que importa. Obrigado Dr. pelas boas notícias e por desta vez ter concretizado da marca de grande penalidade! E já agora, aproveitando as palavras do amigo Miguel, felicidades para a nova época que se avizinha!

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  6. Sou portista e neste momento acho o SL e B um clube detestavel devido aos seus dirigentes ( e acho que vocês estarão no vice-versa!), mas jamais achei detestaveis aqueles adeptos que apesar de adorarem futebol, fazem do mesmo uma festa e não um campo de batalha!
    E já agora, dá-me muito mais gozo ver um penalti falhado que um concretizado...

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  7. Muito obrigado a todos. Muito mesmo :)

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  8. "Respondo-lhes logo que para lagartos e andrades não há anestesia nos procedimentos que estamos em época de crise e outras alarvidades do género" Q delícia:)

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