quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Quero o meu M. de volta

Estamos numa daquelas semanas em que um de nós tem horário de empregada de limpeza e o outro de guarda-nocturno, sendo que neste caso a empregada de limpeza é o M. e eu sou o guarda-nocturno, por isso talvez não devesse ter começado por aqui. O essencial a reter é que mal nos temos visto. Comunicamos por post-its do género “Tens sopa para o jantar no frigorífico” e, como já estamos juntos há muito tempo, já não perdemos tempo a escrever um termo carinhoso a seguir. Se o importante é a sopa que está no frigorífico e o outro já sabe que há aqui amor e tal, vamos directos ao assunto.

O problema é que, antigamente, durante estas semanas de horários inversos, entre as poucas palavras que trocávamos havia sempre espaço para o futebol. Por exemplo, num post-it meu para o M., a seguir a um “Deitaste o lixo fora?” podia vir perfeitamente um “Quando acordares vai ver a capa do Jogo para saberes o que o anormal do Jackson disse”. Por antigamente entenda-se o período da nossa relação pré-golo do Kelvin, tempos áureos e bonitos, em que conseguíamos equilibrar a doença que temos pelos nossos clubes com o nosso amor. Agora não é assim.

O M. não fala sobre futebol, a não ser para dizer que o Porto está muito forte e o benfica muito fraco. Não viu nenhum jogo da pré-época e vai dando apenas umas olhadelas às capas dos desportivos, mas só porque tem medo de tornar-se numa daquelas pessoas estranhas que nesta altura ainda não sabem os números na camisola dos reforços. O M. era aquele namorado que acordava às 7 da manhã, me dava um beijinho antes de ir trabalhar e ainda achava importante dizer-me, mesmo que eu me tivesse deitado às 5, que a Bola tinha na capa que o Malunivicovic estava confirmado no benfica. Para o M. pré-golo do Kelvin, era fundamental que eu interrompesse as minhas duas horas de sono para ouvir um nome que nunca iria recordar quando me levantasse às 2 da tarde, só porque era um possível reforço do benfica e eu não podia ficar nessa ignorância enquanto sonhava com sabe-se lá o quê, decerto menos importante do que isso.

Confesso que tenho saudades desse M.. Tenho saudades de levantar-me, ligar a televisão enquanto tomava o pequeno-almoço e ter de mudar de canal como um disparo do Lucky Luke, mais rápida do que a própria sombra, porque ela estava sintonizada na benfica TV (nós agora nem temos benfica TV, eu disse ao M. que me recusava a pagar e até agora ele nem a subscreveu às escondidas, consciente que iria provocar o nosso divórcio). Não era um acordar sereno, mas pelo menos ficava a saber que o meu M. tinha estado a ver um jogo dos infantis do hóquei e agora não faço a mínima ideia do que ele anda a fazer. Pode ser isso que de certeza que vocês estão a pensar: o M. pode ter uma amante porque quem fazia esse papel de o entreter enquanto eu não estava era o benfica.

Só que o benfica traiu-o, deixou-o de rastos e ele ainda não recuperou. Não sei o que posso fazer mais. Aliás, não sei o que posso fazer de todo, porque continuo a notar que quando ele olha para mim ainda me imagina com uma crista no cabelo e a marcar um golo aos 92 minutos. Eu devia estar contente, não só porque calha de eu ser do clube tricampeão que destruiu o clube dele, mas também porque, não havendo espaço para o benfica no coração do M., posso aproveitar para ganhar terreno. Só que não estou (quer dizer, até estou um bocadinho, porque futebolisticamente isto está a ser espectacular).

Eu preciso do M. normal, do M. que acha mais importante avisar-me que o Jesus não vai jogar com dois médios defensivos do que avisar-me que acabou a manteiga, do M. que me telefona para perguntar se já posso confirmar que o Malunivicovic é mesmo do benfica, porque na cabeça dele eu, como sou jornalista e trabalho a uns 20 metros de pessoas que fazem Desporto, sei tudo. Eu preciso do M. entusiasmado com o benfica, não um entusiasmado à parolo que acha o benfica o maior do mundo, mas entusiasmado como todos nós, os adeptos doentes, que estamos ansiosos que a época comece porque isto do sol e da praia é muito giro, mas não há nada como uma deslocação a Guimarães, ou à Madeira, ou a Setúbal, ou seja onde for.

Quero o meu M. de volta. Estou farta deste clima de paz, de não discutirmos a não ser quando ele arruma os panos da cozinha juntamente com os panos de limpar a casa-de-banho (são tudo panos, diz ele, porque aparentemente o cérebro masculino não percebe a enorme diferença). Estou farta de parecermos um casal normal, que faz férias sem pensar nos amigáveis, que vai jantar fora sem confirmar que o restaurante tem televisão, que fala de saúde, de política e de viagens como se não estivéssemos a pensar na adaptação do Cortez ou do Quintero.

Mas não, calma, eu não vou torcer pelo benfica para bem do M.. Ainda que esteja consciente que fui eu que criei esta espiral de humilhação e dor, espero sinceramente que ela continue. E, quando estou precisamente a escrever isto, recebo um telefonema:

- Olá. Então, estás melhor?
- Sim, já não me dói a cabeça.
- Ok, fixe. ("passemos ao que interessa", pareceu-me ouvir) Olha, finalmente consegui animar-me com o benfica (com voz de menino que recebeu uma prenda)
- Então? (por momentos imaginei que tivessem contratado o Messi, foi terrível)
- Li que podemos andar atrás do Osvaldo da Roma.
- Sim...
- ... E pode ser que eles precisem do Jackson para o substituir! Era só isto, vou trabalhar, beijinhos.          


Ufa, acho que o meu M. voltou.

6 comentários:

  1. GOLD.
    Parabéns aos dois.

    Bonita prosa, cara C.. Respect.

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  2. Magnífico post! Fez-me sentir invejoso, mesmo sendo encarnado.

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  3. Espera mais quinze dias, C.. Por essa altura ja' tera' acontecido a dupla de vendas de peso deste ano, provavelmente pontos perdidos, e o M. (e eu, e todos os da nossa especie) estara' de volta a esse estado pre-catatonico.

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  4. Parei de ler o texto da jornalista C., quando vi o nome próprio, Benfica, escrito em minúscula ...

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  5. só mesmo um benfiquista para prender a atenção de uma portista, vivo o mesmo em casa....

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  6. Ei...parti-me a rir...grande texto!Espero que ele não venha a esconder o comando.

    Cumprimentos,

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