sábado, 28 de setembro de 2013

Ir ao estádio

Há muitas coisas em que a nossa relação está afectada pelo facto de sermos fanáticos de clubes diferentes. Eu, por exemplo, sou obrigado a suportar coisas enfadonhas e miseráveis como um Áustria de Viena - FCP em vez de ver Messi a brilhar contra o Ajax porque a C. está a ver o detestável clube dela. Obrigamo-nos um ao outro a situações que só o amor permite suportar: fins-de-semana que somos obrigados a interromper para chegarmos a tempo do futebol, coisas dessas. Por exemplo: neste momento escrevo este texto enquanto a C. está a ver, no Porto Canal, a inauguração do museu do seu clube, que me está a dar tanta vontade de vomitar como o "penalty" que ontem Proença ofereceu.

Mas escrevo hoje porque outra coisa que é muito chata na nossa relação é que nem sempre se torna possível irmos os dois à bola. Eu hoje vou à Luz, mas a C. ontem não pôde ir ao Dragão por motivos de saúde (não tão graves como os do Proença). E, nessas alturas, eu vejo os olhos da C. cheios de saudades de estar naquele estádio, no meio dos seus, a ver aquelas roubalheiras pornográficas. E tenho uma genuína pena que ela não possa ir. Falo a sério: a C. é a pessoa mais do Porto que eu conheço, a mais doente, a mais cega, a mais apaixonada. Tanto diz "coitadinho" quando vê um dos dela no chão, como se indigna com o facto da inauguração do museu estar vedada aos adeptos como ela, ficando reservada a uma duvidosa elite que nem em sonhos sente tanto o clube como ela.
No Dragão, como na Luz, um assustador número de cadeiras está vazio e outro número ainda mais impressionante está com gente que não sente o clube: clientes que vestem a camisola, que não percebem o amor e a dedicação que loucos como nós nutrimos. Pessoas que vão comer pipocas, tirar fotografias em vez de pedirem penalty, que acham normal confraternizar com alguém sem saberem primeiro o onze que vai alinhar, que às vezes estão a sorrir com o resultado desfavorável. Gente que não merece aquele lugar.

A primeira vez que eu fui ao futebol fui ligeiramente enganado. O Benfica ia a Faro e o meu pai convenceu-me que eu podia jogar. Todos os dias chegava a casa e o meu pai fingia estar ao telefone com o Eriksson, dizendo-lhe que eu estava em forma, que podia alinhar. Passei a véspera do jogo ansioso, não com o jogo em si, mas com a possibilidade de ficar com os cordões desapertados, o que levou a minha mãe a dizer-me que teria que pedir ao árbitro para me ajudar. O segundo problema seria assoar-me, coisa em que eu também costumava pedir ajuda materna. Fora isso, estava convencido que ia correr bem. Fui equipado da cabeça aos pés e passei o jogo, para divertimento da bancada, a perguntar ao meu pai quando ia entrar. Acabei, tristemente, por não o fazer. Mas o bichinho do estádio nasceu aí.
Mais tarde, já com alguma idade, espantava-me sobretudo ver os meus ídolos ali tão perto. Perceber que Kulkov, com aquele insolência, com a camisola fora dos calções, estava na minha cidade (como se houvesse a mais remota hipótese de eu me cruzar com ele). Para um benfiquista que cresceu fora de Lisboa, ver o meu clube ao vivo era mágico, eram momentos inesquecíveis e guardo todos eles na memória. 
Com a chegada a Lisboa, com o cativo, a bola tornou-se um hábito. Já não estranho ver os craques ali tão perto, já não me emociono com isso. Sabe-me melhor o ritual de reconhecer as mesmas caras no estádio, nas roullotes, no caminho do metro. Fico muito mais sentido quando percebo na cara de um miúdo que é a primeira vez que lá vai do que propriamente com o facto de Cardozo estar só a uns metros de mim.

A C., ao contrário, com a vinda para Lisboa, perdeu esses caminhos, esses vícios. Não ficou menos do Porto, mas emociona-se muito mais agora quando diz que vai ao Dragão, fica muito mais triste quando vê o estádio dela na televisão. Eu, como marido e como adepto, tenho pena por ela. Adeptos como a C. deviam estar sempre no estádio, deviam poder interromper o trabalho e não ter entraves financeiros ou familiares que impedissem isso. Mais doloroso ainda: há quem possa ir ao estádio e que não vai e há quem lá vá e não tenha a paixão que nós temos. Isso, para mim, é o mesmo que ter a melhor biblioteca do mundo em casa e ser analfabeto. É como poder ver a Mona Lisa a ser pintada e preferir ir dormir uma sesta. Para nós, fanáticos, o estádio é o centro do mundo, o centro da vida. O local onde tudo de mágico e verdadeiramente importante acontece. 
Havia uma lenda no Villamarin em que se dizia que um pai, antes de morrer, obrigou o filho a renovar-lhe o cativo mesmo depois de morto, não deixando ninguém lá sentar-se. O lugar era dele e só dele, só ele podia sentir aquilo e mais ninguém e não aguentava que outro betico - com toda a certeza menos fanático - se pudesse ali sentar.

Eu acho que a C. merece um lugar desses, no Dragão, para sempre, como eu mereço um na Luz. Infelizmente não pode ser e fica só o desabafo. O que eu gostava é que quem vai ao estádio tivesse a decência de sentir que se senta num lugar que podia ser de alguém que chora por não lá estar e que quem não vai, sem desculpas para tal (chuva, frio, aniversários de familiares, casamentos, nascimento de filhos, sei lá, coisas insignificantes como estas), pudesse ser marcado para a vida, carregando a desonra para o mundo inteiro ver. Eu vou sair agora para a Luz, o centro do mundo.

(para que não fiquem com a ideia errada sobre mim, o que eu desejo mesmo é que o FCP acabe, que o Dragão seja incendiado e deitado abaixo, construindo-se depois lá um parque infantil. Enquanto isso não acontece - esperemos que esteja para breve - gostava que a C. pudesse lá ir o máximo de vezes possível.)


1 comentário:

  1. como "alguém" disse , o GRANDE FCP é algo que daqui da aldeia JAMAIS LEVARÃO !!! DO NORTE NUNCA LEVARÃO !!!! só uns melões e umas bananas , pois as colheitas estão cada vez melhores ... Dragão incendiado espero que não como é óbvio , mas uma coisa garanto ao pessoal de Marrocos ( pois pelos vistos as transmissões televisivas e jornais desportivos não passam a mesma coisa, tal e qual mentira de pai ) o DRAGÃO ARDE TODOS OS ANOS COM CONQUISTAS , ALEGRIA , VITÓRIAS , AMOR ... TÍTULOS , e não não me refiro a títulos de portagem !!! Do início ao fim , dos 0' aos 92'
    Grande abraço e bom trabalho

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