domingo, 1 de setembro de 2013

The Doors of Perceptovic

* Nota prévia: esta época promete ser uma depressão muito grande e a minha tendência seria escrever o mesmo texto de maneiras diferentes. Felizmente, a minha mulher, que é mais inteligente do que eu em tudo (excepto na escolha do clube: o dela é odioso), previu rapidamente a situação e obrigou-me a evitá-lo. Até prova em contrário, todos os meus textos são uma segunda opção, porque tudo o que me apetece escrever é deprimente. 


Eu não vi a pré-época do Benfica, mas olhando apenas para os resumos consegui catalogar logo Bruno Cortez como um pino com cabelo esquisito, com dificuldades motoras ao nível das girafas bebé. Como pessimista vitalício, recusei-me a acreditar no que a minha análise dizia sobre Markovic. Markovic é impressionantemente rápido e simples a conduzir a bola, só tem olhos para a baliza e finaliza com classe. Markovic a driblar rivais é ouvir o refrão da "Good Vibrations" dos Beach Boys.




No meio da alucinação que é o Benfica, que ontem conseguiu a proeza de empatar um derby sem fazer uma jogada de futebol (e o derby foi, embora com algumas provas contra, de futebol), Markovic é a única maneira do meu coração bater mais rápido sem ser de aflição. Eu sei que isto é infantil, que o miúdo só tem 19 anos, que o FCP já deve ter pago a qualquer central do Paços para lhe limpar o sebo, que ele não provou nada, etc. Mas eu preciso de fé, eu preciso de alguma coisa. Num Benfica em que um lateral tem um ar de quem não consegue acertar a primeira pergunta do "Quem quer ser milionário?", em que o meio-campo é um buraco maior do que o vazio na cabeça desse lateral esquerdo, ver Markovic a jogar é uma maravilhosa trip de LSD. É ver cores e magia, é uma anestesia de rara beleza, como ouvir The Doors pela primeira vez - ao vivo, em 1968 - uma maneira de esquecer a guerra, o FMI, a crise na lateral esquerda do Benfica. Markovic em direcção aos defesas do Sporting, a desviar-se deles como quem toca guitarra é o Diamantino a partir o Venâncio todo no Jamor, Paneira a enganar o traidor de Viseu pela direita, são sonhos lindos, alucinações de coisas fantásticas que sabemos ser mentira ou passado ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Marko avança e dribla e mete a bola entre as pernas de Patrício com a calma que Aimar já o sentara - foi em 2010, mas parece que foi há centenas de anos, num tempo em que o Benfica era muito diferente (e não era). Markovic será um daqueles craques fugazes, alucinações como Miccoli e Ramires, que vêm cá como quem pára numa estação de serviço. Uma visão, como ver homens gigantes ou minúsculos, formidavelmente rápidos e hábeis, capazes de tardes de magia como aquele jogo do Miccoli contra o Lille (estava em Berlim. Já foi há tanto tempo) que nos fazem duvidar da nossa memória: terá sido um jogo assim tão bom? Era Miccoli assim tão bom jogador? E é como se, vítimas de um feitiço qualquer, sentíssemos o vazio disso tudo. Que interessam Ramires, Miccoli, Coentrão e até Cardozo se o Benfica não nos faz felizes?

Mas aí vai ele, Markovic, embalado com a bola, doce acorde que nos toca no coração, simbolizando como o Benfica é e deve ser mais rápido, mais forte, com mais classe, mas ao mesmo tempo tudo isto é estúpido porque foi a única jogada de futebol do Benfica em 90 minutos, e foi só feita por um jogador - mas é futebol na mesma! - e vai Markovic!, e vais marcar e fazer entrar a bola do Cardozo na primeira parte o ano passado contra os tripeiros! E eu imagino isso e grito golo e alucino outra vez que voltaremos a ser Benfica, voltaremos a ser o Benfica, o Benfica dos meus sonhos, das minhas alucinações.



Markovic é a valsa quase anti-depressiva, ironia no meio do caos, droga para esquecer a merda em que chafurdamos sabe-se lá desde quando. Já não consigo mais. É como se só aumentando a dose pudesse esquecer isto, como se precisasse de uma distracção. Como se precisasse de futebol para me distrair do futebol, de um delírio colorido para esquecer as dores de heroinómano. Markovic será LSD, será o whisky bar dos Doors, mas o Benfica... o Benfica é uma bad trip.



Fica aqui a minha homenagem a Aldous Huxley e ao seu The Doors of Perception, onde relata as suas experiências com alucinogénicos. O livro viria a servir para o nome da mítica banda de Jim Morrison.

2 comentários:

  1. Pois... É pena que este será como Ramires, espero que eles nos dê algumas alegrias porque o futuro não se apresenta muito risonho....

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  2. Jà me tinha esquecido da vossa existência! De vez em quando vinha aqui ler os vossos textos sem deixar nenhum comentàrio, e agora, ao ler-te novamente, não consigo compreender como me esqueci de vocês!

    Partilho da tua visão, excepto numa coisa : para se ter direito a responder à primeira pergunta no Quem quer ser milionàrio é necessario passar por uma pré-selecção onde, para ganhar, é necessario responder à pergunta e ser o mais rapido de todos ao fazê-lo. Ora o Cortez jà provou que nem sabe o que anda a fazer e sobretudo, ao fazê-lo, fà-lo lentamente.

    P.S.: Nem imagino como isso deve ter sido em casa quando o Kel... marcou!

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