terça-feira, 15 de outubro de 2013

À espera dos "grandes sportinguistas"

É comum eu ou o M. sermos apresentados a outra pessoa como “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”. É claro que nós temos outras características que nos podem distinguir da restante sociedade, mas os outros, como nós, que sabem a importância de ligar de imediato uma pessoa a um clube, desvalorizam-nas.

Eu podia ser “a C., jornalista”, “a C., que gosta de viajar” ou “a C., que enquanto esteve de baixa se viciou de tal forma nos comics de Walking Dead que agora não percebe o que há para fazer no mundo enquanto não sai um novo”. Mas não, sou sempre “a C., uma grande portista”. E sou-o com muito orgulho. Não vejo nenhum problema nisso. Talvez outras pessoas que não percebam esta nossa doença prefiram ser conhecidas por “a S., que toca muito bem pandeireta” ou “o T., que um dia salvou a vida a uma idosa com uma criança ao colo”. Mas para nós não há melhor forma de nos reconhecerem do que por sermos adeptos.

Suponho que por esta altura já estejam a pensar que nós nunca fizemos nada de marcante nas nossas vidas e que seja por isso que os outros apenas nos vêem como maluquinhos que gostam de ir para as bancadas gritar, saltar e insultar os outros que são exactamente iguais a nós. Mas não é verdade. Se um dia eu tiver um filho, não se sintam obrigados a tratar-me por "C., a mãe do Jorge Nuno". Se o M. ganhar um Nobel, escusam de se sentir orgulhosos por serem amigos do "M., que ganhou um Nobel". Nós queremos mesmo continuar a ser "a C., uma grande portista”, ou “o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”.

Para dar um exemplo: eu era a melhor aluna da turma e hoje, quando encontro antigos colegas, eles não me perguntam: “Então, continuas a ter tudo 5 no final do 3º período?”. Normalmente, sai-lhes um: “Então, o que é que achas deste Paulo Fonseca?”. O que diz muito não só de mim, que já na escola era conhecida por ser adepta, mas também deles, que se preocupam com coisas mais importantes do que o sucesso da minha vida profissional.

Eu ganhei provas de natação e torneios de ténis e o M. tem dezenas de taças do xadrez (desculpa, meu amor, por revelar ao mundo que eras um grande totó). Com 10 anos, éramos daqueles putos estranhos que, em vez de brinquedos, pediam livros no Natal, o que faz com que tenhamos livros nossos espalhados por três casas diferentes e mesmo assim estejamos a ficar sem espaço. Ambos conseguimos alcançar a profissão que desejávamos desde muito novos, embora no meu caso tenha sido uma grande desilusão para a minha mãe, que me via como futura juíza-presidente do Tribunal Constitucional (agora percebo que, em vez de escrever sobre os cortes do Passos e do Portas, podia estar a travá-los com um sorriso. Moral da história: façam sempre o que a vossa mãe vos aconselha). Temos a sorte de poder viajar muito e de partilhar o mundo que vamos conhecendo com quem não pode. O M. salva vidas todos os dias e eu um dia salvei uma menina de se afogar numa piscina. Fogo, se isto não chega para vos convencer que há mais neste casal do que o futebol, então vocês é que são mesmo doentes.

No entanto, continuamos a chegar a uma noite de convívio com os amigos e a sermos apresentados a desconhecidos como “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”. Chegamos ao nosso local de trabalho e falam-nos de futebol. Visitamos a família e perguntam-nos se, em vez de irmos passear todos juntos, temos um jogo para ver.

E nada disto nos incomoda quando do outro lado está alguém como nós. Se a um “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão” se segue um “Olá, eu sou o J., e acho que os vossos clubes são uma merda porque sou do sportem”, gostamos imediatamente dessa pessoa. Não interessa o clube, desde que seja alguém capaz de criticar o preço dos bilhetes nos estádios, de recordar visitas históricas a Guimarães e de apoiar o seu clube, esteja em que situação estiver.

Os que não suportamos são os adeptos de ocasião. Detesto quando alguém me é apresentado como “um grande portista” e a seguir noto que não sabe com quem jogamos para a semana. Ninguém é “um grande portista” se não me conseguir dizer o 11 esperado para o próximo jogo. Não considero “um grande portista” alguém que passa o ano a assobiar e depois vai para a varanda do Dragão festejar mais um título. Quando conheço alguém assim, sei bem que vai continuar por cá enquanto o Porto ganhar, mas que vou deixar de ver esse “grande portista” quando as coisas correrem mal. Por isso, não lhe dou valor.

Sei bem quem são os “grandes portistas”. Conheço-os há muitos anos. Conhecemo-nos de grandes tardes nas Antas, de chuvadas em Alverca, de cargas policiais em Alvalade, de invasões em Penafiel. Mas também conheço os “grandes benfiquistas”, os “grandes sportinguistas” ou os “grandes boavisteiros”. São todos iguais e, na hora de os apresentar a alguém, não tenho vergonha em dizer “Este é o meu amigo D., um grande benfiquista”, porque o meu amigo D. não desapareceu quando o benfica perdeu tudo, não deixou de entrar no local de trabalho e ouvir umas bocas porque é conhecido como o “grande benfiquista” da zona, nem abandonou a sua equipa até ao momento em que voltar a ganhar e, aí sim, aparecerem todos os milhões que não são “grandes benfiquistas” como ele.

Lembrei-me de escrever isto assim que me apercebi que, afinal, conheço muitos mais lagartos do que sabia. Alvalade, as redes sociais e os jornais inundam-se de falsos “grandes sportinguistas”, crentes numa equipa que voltou a respirar. E até vêm ter comigo, que conto pelos dedos de uma mão os verdadeiros “grandes sportinguistas” que conheço, e chateiam-me, e provocam-me, e prometem que vão ao Dragão para me humilhar. Não tenho paciência para esta gente que o ano passado andava mais interessada em fauna africana e artes circenses do que em futebol. E julgo até poder falar em nome dos “grandes sportinguistas” que eu conheço quando digo que não é justo que essas pessoas possam festejar tanto um golo em fora-de-jogo do Montero como os que nunca abandonaram uma equipa que tinha o Boulahrouz.

Espero, portanto, que os “grandes sportinguistas” venham em força ao Dragão. Não vou esconder que preferia encontrar-vos quando estavam a lutar pela manutenção e não pelo título, mas acreditem que até já tinha saudades de vos tratar como um grande. Quanto aos outros, que apareceram agora, da minha parte podem esperar toda a hostilidade que desejam.

3 comentários:

  1. Obrigado.
    Sou do Sporting, vou ao Dragão. Estava lá no 3-6, ou no golo do Acosta com desmarcação do Secretário. Quando o Sabry nos calou, faltava ao casamento de um primo direito para ver ao vivo. Estava na norte no dia do very light. Na bancada contra o CSKA e contra o Bayern. Também estava num 0-0 contra o Setúbal numa chuvosa tarde de Domingo, no velhinho estádio, o qual recordo como sendo o pior jogo de futebol de sempre. Mas também estava com o Jardel, e num Sporting-Famalicão, na décadad e 80, que ganhámos 3-0 e tive direito a uma bandeira por isso. Pena foi que o carro avariou na auto-estrada e tive de andar com a bandeira mais de 3 kms para sair dali.
    No ano passado faltei a um jogo em casa. Há dois anos o mesmo número. Este ano, como já faltei a um, já esgotei a quota de baldas.
    Detesto todos os clubes que não sejam o Sporting - Nacionais e estrangeiros. Tudo por igual. Há o Sporting e os outros. Nem sequer discuto bola com quem não seja do Sporting, porque, lamentavelmente, vocês não percebem o jogo, ou estariam pelos verdes.
    Mas o que mais detesto, são os Sportinguistas de ocasião... Os que não estão lá quando a coisa vai mal, e tem ido mal desde que nasci, mas aparecem cheios de basófia e sobranceria quando ganhamos um par de jogos. Os que picam os doentes das outras equipas, mas desaparecem, convenientemente, deixando-me a mim a aturar as provocações, logo que as coisas voltam ao estado normal dos últimos 30 anos...
    PQP com adeptos de ocasião. Deixem-me o estádio vazio, mas de malta que sofra, prefiro a audiência do ano passado no estádio do que ir em primeiro em número de adeptos. Adeptos do cachorro quente, das pipocas, das coca-colas na bancada. Enfim, há-os em todo lado...
    Obrigado pelo texto exemplarmente escrito, daqui a 11 dias lá estarei no cantinho para nos insultarmos mutuamente, com todo o respeito que a sua doença me merece.

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    1. Sou Benfiquista, doente. Detesto (não odeio, que é diferente) FCP e SCP. Não passo cartão a todos os outros clubes, sejam eles de onde forem. Quero que o Benfica vença sempre. Que FCP e SCP percam sempre. Quanto a todos os outros clubes, é-me indiferente. Se passarem lá pela minha taberna, vão constatar bem o calibre daquilo, e perceber o que vos digo... Ah, discutir bola, só com quem vai ao Estádio ver os jogos, sejam Benfica, FCP, SCP ou todos os outros. É assim a vida. Mas porquê?!
      Porque uma coisa vos quero dizer: a cor clubística, que é mais forte que tudo, prevalecerá sempre, mas é com adeptos que nunca abandonam a sua equipa, seja ela qual for, que estão sempre a apoiá-la, que eu me identifico e por quem tenho respeito.
      De acordo, nunca estaremos. Ainda para mais se formos de clubes diferentes. Mas falar de bola com pessoal que só aparece quando a sua equipa está a ganhar, ou com aquele pessoal adepto do clube rival que também só aparece para gozar com as derrotas do clube de um gajo (ou gaja)... eh pá, passem bem, obrigado, mas não! Podemos falar da apanha da castanha, que agora é a altura dela. Se quiserem.
      Quanto àqueles adeptos que atrás falei, os fiéis seguidores do clube do seu coração, nunca desapareçam, nunca desistam, nunca deixem de ser aquilo que vocês são. Porque vocês são uma das principais razões pela qual o futebol é o desporto mais lindo que existe na face da terra; porque vocês são umas das principais razões pela qual eu gosto tanto, mas tanto disto!

      E, posto isto, Viva o Benfica!

      :)

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