quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A história vos agradecerá

No último fim-de-semana, eu, a C., os meus sogros e o meu pai (via telefónica) deleitámo-nos com mais um show do Barça, desta vez até sem Messi. A C. dizia "Se o Porto jogasse 10 minutos destes nós enlouquecíamos" e o meu pai repetia o "Foda-se, é demais", como se não lhe coubesse noutra expressão a alegria comovente de ver esta equipa. Eu contorço-me de prazer. De prazer. Levo as mãos à cara nas recepções mais impossíveis, fico espantado (ainda hoje) com a velocidade com que recuperam a bola e fico encantado com o ar absolutamente sério que Xavi mantém, estes anos todos depois, sem sequer sorrir. Sempre imaginei que ele, o grande maestro e torturador dos adversários (é ele quem faz girar toda a gente), um dia se rendesse, como nós, aos palavrões, e largasse um Joder! depois de mais uma assistência fabulosa. Iniesta dança e cansa os rivais, que ainda não perceberam que tirar-lhe a bola é quase tão impossível como ele falhar um passe. 

Imagino Camp Nou daqui a 25 anos, estádio meio vazio, meio cheio, e um extremo centra sem critério à procura da cabeça de um latagão qualquer que está na área. Mais que um sócio do Barça meterá as mãos na cabeça, insultado por futebol tão primata, e vários adeptos pelo mundo - eu incluído - suspiraremos pelas vezes em que Xavi, Iniesta, Busquets e Messi pararam o carrossel e voltaram para trás, bola rente à relva e junto ao pé.
Tenho pena e às vezes sinto-me até insultado pelo facto de não ser unânime que este Barça está no Olimpo com o Brasil de 70 e 82, com o Benfica dos anos 60, com o Ajax dos anos 70, com o Milan de Sacchi, com o grande Liverpool e Flamengo de Souness e Zico. No mundo que eu sonho, não havia escola, trabalho, casamentos ou baptizados em dias que jogasse este Barça. Pararíamos todos, sentados, com boa música a tocar e talvez um bom vinho, a apreciar. Ver aqueles toques de calcanhar contra a Real Sociedad devia ser recordado como ver o homem na Lua. Devíamos saber onde estávamos, o que tínhamos feito nesse dia, com quem vimos esse lance.


Admito que já não é igual. Com Pep a coisa parecia ainda mais pura, ainda mais requintada. Mas Pep é um tipo que parece levitar e não andar e tenho sempre a sensação que terá opiniões tão profundas e fundamentadas sobre todos os assuntos que apetece mais convidá-lo para jantar do que vê-lo a treinar uma equipa de futebol. Talvez por isso, por não ter Pep, já não seja igual. Mas esta ideia, esta técnica e inteligência toda, continua lá. É um deleite contínuo, um assombro extraordinário que se tornou quotidiano de tantas vezes repetido, mas que não deixou de ser extraordinário.

Irrita-me que haja quem não perceba, que haja quem diga que "que dá sono", que é o mesmo que dizer que a Mona Lisa tem poucas cores. É como achar que um tipo é porreiro, que pode ser nosso amigo e depois descobrimos que ele não gosta de Pink Floyd, que acha que ler é uma estupidez e não percebe a grandeza do Benfica.
Nunca se viu nada assim: em anos e anos, com centenas de equipas, com múltiplos intérpretes geniais, alguns lado a lado com os grandes génios da humanidade (Maradona, Cruyff), aconteceu, em futebol - a maior arte do mundo - uma equipa formada quase toda na própria casa, com o melhor jogador do mundo de sempre e cujo estilo de pé para pé premeia os mais pequenos e com mais técnica contra os altos e fortes, como uma fábula. Essa equipa, todos os fins-de-semana e às vezes a meio da semana, joga nos nossos dias. 

Eu sou de uma geração que não teve os melhores anos musicais, que teve grandes escritores, mas poucos ao nível de Jorge Amado, Aldous Huxley ou Fernando Pessoa. Eu sou de uma geração sem revoluções (excepto a árabe), a geração a quem disseram que a história tinha acabado. Mas eu sou da geração deste Barça. Daqui a muitos anos, em Camp Nou e não só, quando um centro sem critério for aliviado da área, mais do que uma pessoa mais nova do que eu vai ter pena de não ter visto esta equipa. A história vos agradecerá. 

4 comentários:

  1. Excelente. Não conseguiria escrever de forma tão desapaixonada, porque tenho um gosto muito especial pelo blaugrana. Concordo plenamente com o texto.

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  2. Bom post, as usual.
    Quando puderes, dá uma vista de olhos:
    http://omeuslbenfica.blogspot.pt/2012/10/ver-em-primeira-linha-o-tiki-taka.html
    http://omeuslbenfica.blogspot.pt/2013/01/uma-das-razoes-do-sucesso-do-barcelona.html

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  3. muito bom. Mas melhor foi ter visto o MaraMessi pedir a camisola do Pablo "César" Aimar da última vez que visitou a nossa Luz.

    Só não concordo que sejamos de uma geração sem os melhores anos musicais. Apesar de também achar que os 60 foram absolutamente brutais, os anos 00 estão a provar que a música é infindável e de qualidade acima da média. sem esquecer os anos 80, e até os 90 com a revolução chamada Nirvana e Pearl Jam e depois a revolução inglesa.

    E também não concordo que sejamos de uma geração sem revoluções, mesmo nada ! A propósito do tema escrevi isto:

    http://noparalelo23.blogspot.pt/2011/04/fight-club.html

    um abraço

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  4. Fantástico. Resume bem o sentimento dum apaixonado pelo jogo do Barça!

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