segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Take a walk on the wild side

Tinha saudades de um clássico a sério entre o FCPorto e o sportem. O fosso entre os dois clubes tem aumentado tanto que nos últimos anos temos perdido este momento de rivalidade para um mero desejo de vitória, como se de um qualquer jogo com um rio ave ou um paços de ferreira se tratasse. Não me confundam: eu não quero um sportem mais forte para ter mais dois momentos de adrenalina por época. O que eu quero é sentir que um dos meus rivais está vivo o suficiente para eu lhe ganhar e gozar mais com isso do que com qualquer outra vitória no campeonato. E isso, infelizmente, não tem acontecido com os verdes.

É que a rivalidade é das coisas mais bonitas do futebol. Talvez alguns não percebam o sentido disto, mas eu não me imagino tão portista se o benfica e o sportem não existissem. Não significa que eu não adore o meu clube por si só, que eu não torça por ele contra qualquer belenenses ou estoril, ou sequer que o meu fanatismo seja toldado pelo ódio aos outros. É simplesmente uma coisa que o futebol criou e que eu não tenho vergonha de fomentar. Eu adoro o Porto e detesto os meus rivais. Eu sou dos bons e torço sempre contra os maus. É natural, vive cá dentro, é selvagem do lado mais positivo que possam imaginar. Percebem? Se são adeptos, claro que sim.

Eu já não penso no Barcelona sem o Real Madrid, não imagino a Roma sem a Lazio, nem quero ver este Bayern sem este Borussia. Estas equipas podem mudar muito: entram craques, saem estrelas, mudam de treinadores e de patrocinadores, há obras nos estádios e os preços dos bilhetes oscilam, as televisões trocam de campeonato preferido consoante o telintar das libras, dos euros ou, quem sabe até um dia, dos rublos. Só os adeptos é que são sempre os mesmos e esses não se esquecem das histórias para contar sobre essa rivalidade. Eu, que tanto admiro ao longe um chapéu de Alexis como uma coreografia no Olímpico ou um cântico insultuoso em alemão, também não. O futebol é bonito pelo 4x3x3, pelo golo de calcanhar ou pela reviravolta nos últimos minutos. Mas porra, o futebol é uma coisa do outro mundo quando isso acontece entre rivais.

No entanto, se pensam que a rivalidade entre FCPorto e sportem esteve adormecida devido aos fracos resultados da lagartagem, estão errados. Dois rivais não deixam de ser rivais pelos resultados. Lembrem-se do Betis a fazer de propósito para perder um jogo em casa para o Sevilha descer, com os adeptos a gritar golo do adversário:


Ou da descida do River assim comemorada pelos adeptos do Boca:


Um rival pode até descer de divisão que não deixa de ser rival. E o sportem, embora não tivesse andado longe, não desceu de divisão (lamentavelmente). O que aconteceu à rivalidade entre FCPorto e sportem explica-se, no meu entender, pela conjugação de dois factores: por um lado, porque Porto e benfica andaram demasiado ocupados um com o outro; por outro, porque sucessivas direcções do sportem desvalorizaram essa mesma rivalidade. E este é o meu elogio à actual direcção daquele clube: perceber que o Porto é um alvo a abater é meio caminho andado para pelo menos chamar a atenção.

O problema, para eles e não para mim, é que o resto do caminho que falta ao sportem ainda está muito longe. De pouco adianta andar um mês a motivar as hostilidades se depois se chega à aldeia com o rabo entre as pernas. Aqui, aliás, o sportem até nem está sozinho. Nos últimos anos, os nossos rivais de Lisboa não só nos deixaram escapar em termos de títulos, como se amedrontaram perante nós. Talvez se tenham apercebido do óbvio: que durante os últimos 30 anos, enquanto eles nos tentaram diminuir das mais variadas formas, nós unimo-nos. E é por isso que, mesmo quando não jogamos tão bem (e não estamos a jogar nada bem, mister, não estamos mesmo), somos mais fortes.

Daí que tenha gostado muito de voltar a sentir aquele friozinho na barriga que precede um clássico (nos livros dizem que isto se sente quando uma pessoa se apaixona, mas não é verdade. Só um adepto sabe o que isto é). Lamento que este sentimento transforme alguns em genuínos selvagens, mas para nós, os que lá vamos pelos clubes, um FCPorto-sportem destes tem mesmo muito mais piada.

Quanto ao jogo, só ressalvou o que todos sabemos: o tal fosso entre os dois clubes não pára de crescer. Bruninho, enquanto nos tentares invadir mas acabares a chorar durante os festejos de uma derrota por 3-1 na minha casa, saberei que não estás preparado para este lado selvagem da nossa rivalidade.

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