Quando, no passado sábado, Goetze marcou ao Borussia e levantou os
braços a pedir desculpa, foi-me impossível não pensar no Verão quente de 1993,
quando o T. me anunciou que Paulo Sousa tinha saído do Benfica e emigrado para os
verdes. Mario Goetze, talentoso e virtuoso médio alemão, estava no Borussia
desde os 9 anos e, aos 21, escolheu rumar ao rival Bayern, em vésperas de uma
final da Liga dos Campeões entre os dois clubes. Não sei se se chateou com alguém,
não sei se foi ganhar muito mais, mas não vejo qualquer justificação válida.
Goetze não merece um aperto de mão, nem sequer que lhe olhem nos olhos. Goetze
merece ser um pária até ao fim dos seus dias.
Sentei-me no degrau cor de tijolo e, acompanhado pelo T., de cotovelos
nos joelhos e mãos nos queixos, passei uma tarde de sol farense a tentar
imaginar como seria o meio-campo do Benfica nesse ano, se Kulkov seria
suficientemente consistente ou não para a posição e, pior, se o Sporting não
nos ia cilindrar e comprar todo o nosso plantel. Talvez o discurso fosse mais
simples na minha cabeça - eu tinha 9 anos - mas recordo-me bem do vazio, do
sentimento de traição, de não querer ir brincar, de não querer ir jogar à bola
como jogávamos sempre.
Talvez Mario Goetze e a nata futebolística passem demasiado tempo
fechados em casa, sem qualquer contacto com a realidade. Entre playstations,
plasmas de dimensões surreais e penteados que envergonham qualquer pessoa com o
mínimo de sentido estético, o mundo dos futebolistas parece uma coisa desligada
da realidade, do mundo real onde vivem os adeptos, as pessoas normais que trabalham
durante toda a semana e que ao fim-de-semana riem e
choram, festejam e fumam cigarro de desespero. A Goetze e à trupe de futebolistas
que se acha acima de tudo, fazia falta passarem tempo nos cafés onde se discute
futebol, nas roulottes depois do jogo, onde se nota um silêncio gélido depois
das derrotas e onde a cerveja sabe melhor quando se ganha. Faz-lhes falta irem
ver miúdos a jogar, a gritarem que querem ser como eles e que ficam loucos de
felicidade quando vestem uma camisola que, para esses miúdos, é mágica e que
para os Goetzes é um emprego.
Quinze anos depois daquele degrau cor de tijolo, mais crescido e
com maior capacidade de encaixe face às amarguras do futebol, numa tarde
algarvia fui à praia com a C. e amigos. Depois do sol, do mar, das bolas de
Berlim, fomos para o carro e eu vi-o. “Está ali o Paulo Sousa.” Não conseguimos
chegar com o carro suficientemente perto dele e, por momentos, achámos que o
tínhamos perdido. No carro, eu e dois amigos benfiquistas falámos do que sentimos naquele
dia das nossas infâncias, quando Sousa, que tinha chegado ao Benfica com 13
anos, desertou. A mágoa e raiva eram tais que até a C. concordava e anuía. Para
nossa surpresa, uns metros depois, vimos Sousa na berma da estrada, a arrumar
qualquer coisa na mala. F. pôs a cabeça de fora e gritou-lhe, raivoso: TRAIDOR!
Não sei se Sousa, um número seis absolutamente fabuloso, chegou a olhar para
mim. Se tivesse olhado, veria o desprezo que lhe nutro desde que, naquela
tarde, me deixou sem vontade de brincar.
É muito difícil explicar a ligação de um adepto a um clube
sem recorrer à metáfora do amor. Talvez (de certeza?) o amor nem seja uma
metáfora, mas sim a expressão a usar. Somos incondicionais, irracionais,
apaixonados. Sofremos com coisas pequenas, fazemos birras com jogadores,
quilómetros para ver finais ou jogos do campeonato. Passamos dias, tardes,
noites a pensar nisto. Vamos ao café e defendemos o nosso clube contra amigos
ou contra aquele senhor irritante do clube rival. Abraçamos desconhecidos na
bancada, trocamos opiniões tácticas com o senhor do bar do trabalho. Estamos
preparados para tudo. Choramos sem vergonha nas derrotas, cumprimos promessas
absurdas nas vitórias. Às vezes passamos
por tanta coisa num jogo de futebol que parece que passou uma vida. Tudo pelo
amor. Pelo amor à camisola. Pela lealdade. A lealdade que Sousa e Goetze não
respeitaram. Nem todos os jogadores têm de ser Francesco Totti, Paolo Maldini,
Paneira, Baía. Gente que se confunde com a camisola. Esses são os excepcionais.
O que nós pedimos aos outros é que tenham o mínimo de decência, a consideração
mínima por tudo o que nós vivemos, que é não nos trair para ir jogar no rival.
Quando isso não é respeitado, quando jogadores que sempre
foram nossos deixam de o ser, pouco podemos fazer. Não temos milhões para os
convencer a ficar (e não devíamos oferecer um euro que fosse a quem quer ir
jogar para um rival) e eles vão voltar para os seus mundos, com plasmas do
tamanho de ecrãs de cinema e penteados bizarros. Lá, fechados, vão achar tudo
normal, que não fizeram nada de mal.
Cabe-nos, sempre que eles se dignam a vir ao mundo real, ao
mundo das pessoas que vão às roulottes, das pessoas que choram e riem com os
seus clubes, lembrar-lhes que não os perdoamos. Que não esquecemos. Que nos
tiraram a vontade de brincar numa tarde.
Goetze terá tudo, terá um ordenado muito maior do que o meu,
uma casa gigante, um ecrã que nem cabia no nosso T1. Mas nunca terá o nosso
respeito. Talvez em várias circunstâncias o perceba. Quando for filmar um
anúncio milionário, talvez estranhe a raiva nos olhos do cameraman. Quando for
ao quiosque comprar um jornal para comemorar um título do Bayern, talvez tenha
o azar do senhor do quiosque lhe mandar os trocos para o chão. Se um dia for à
praia, um grupo de jovens pode gritar-lhe umas barbaridades. Sempre que
desceres à terra, vamos lembrar-te que não te queremos cá.
Escusas de levantar os braços, Goetze. Ainda perdes as tuas
trinta moedas, Judas.




Esqueceste do maior exemplo de todos, Matt Le Tissier.
ResponderEliminarComo adepto do Borussia obviamente que não gostei desta transferência, um dos nossos melhores jogadores passou para o grande rival. No entanto, quem escreveu esta peça não sabe, certamente, que o Gotze é bávaro e o seu clube de coração é o Bayern.
ResponderEliminarCaro M., caso não se lembre, os clubes são empresas, e como tal vivem de lucros. Isto do amor à camisola é muito bonito mas serve apenas para enganar e manter os adeptos tolinhos (eu sou um deles) que são quem realmente sustenta os clubes. Um clube é uma empresa e os jogadores são os seus trabalhadores, e como tal quando um trabalhador recebe uma proposta melhor, (financeiramente ou em termos de carreira) é natural que mude de empresa. E os clubes fazem o mesmo. Um jogador que não esteja a render o desejado é vendido ou cedido a equipas menores. Se o Goetze ou o Paulo Sousa baixassem de rendimento e fossem vendidos a equipas secundárias duvido que o M. estivesse aqui a criticar os clubes por tal opção. Não sejamos hipócritas...
ResponderEliminarJorge: não fazia ideia. Se assim for, o texto perde um bocado o sentido. Mas lembro-me dele a torcer pelo Dortmund na final da Champions. Não gosto disso, dessa incoerência. MAs não fazia ideia, obrigado pela informação.
ResponderEliminarLevi: é óbvio que dói mais quando é um craque. Dos Binos ninguém se lembra. Mas eu não vejo e recuso-me a ver os clubes como empresas. Nas empresas não há milhares de pessoas a cantarem o teu nome, a fazerem bandeiras por ti.
Excelente texto.
ResponderEliminarIndependentemente do que o Jorge disse, e eu também não fazia ideia, o texto não perde nem "um bocadinho" de sentido. Faz todo o sentido. Só o ponto de ignição para o texto é que deixa de fazer sentido, mas o post não, esse fará sempre sentido.
A foto do Figo é que me parece deslocada. O Figo estava em Espanha, não tem de mostrar amor por nenhum dos 2 clubes. Usou os Espanhois? Então eu aplaudo!
Abraço
M., subscrevo por baixo todo o texto, pois também me considero um "romântico" em relação à ética no futebol e, Paneiras ou Rui Costas não abundam, infelizmente. Sobre o Goetz, achei exatamente o mesmo e, penso que deveria ter tido mais estrutura mental, mas infelizmente hoje em dia, a industria espectaculo, suplanta a paixão das camisolas e dos clubes por detrás delas. E não o devia ser, mais que não fosse, pelo efeito que se dá - que tu aludes e muito bem - dos seus idolos em relação às crianças e jovens que os idolatram, mesmo que sejamuns escroques da sociedade. Como referiste: "Nas empresas não há milhares de pessoas a cantarem o teu nome, a fazerem bandeiras por ti"... exatamente! A criança que fomos ontem percebe bem o cerne da mensagem que é dada neste texto e, por tal, congratulo-te. Et Pluribus Unum. Luís C.
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