sábado, 9 de novembro de 2013

Mi casa es tu casa

Roberto,

Tenho muitas saudades tuas. O pouco tempo que passámos juntos deixou-me marcas profundas. Foi como um amor de Verão: curto, mas muito bem aproveitado. Confesso que ao início tive muitas dúvidas em relação a ti - um gigante vindo de outro gigante parece assustador. Mas depois vi a tua estreia num jogo de pré-época, quando sais da baliza desamparado, a bola bate à tua frente e entra em chapéu. Lembro-me que o M. parou uns segundos para processar e que depois disse: “Esta jabulani é lixada”. Coitado, nem te deu valor nenhum. O problema para ele era a bola. Mas eu vi logo: tu, Roberto, eras a minha solução.

A verdade é que uma pessoa passa anos a torcer para que o guarda-redes do rival seja como tu. Eu tinha o Baía, mas tinha de aturar o Preud’homme. Ainda levei com o Schmeichel, mas os deuses compensaram-me com o Ricardo. E, quando eu já sentia falta de um alvo fácil, apareceste tu. Tu, Roberto, com aquele ar de menino órfão que sofre de bullying nos relvados, provavelmente estás no top 10 de coisas boas que o futebol me deu. Por isso não penses que estou a gozar – o que sinto por ti ainda hoje é sincero.

Eu sei que nós não te facilitámos a vida no Dragão, cheio daqueles cartazes com o objectivo de te desconcentrar, e com aquele frango solto no relvado a demonstrar várias semelhanças contigo. Mas para mim, Roberto, tu foste um herói nessa noite – em cinco golos que sofreste, não tiveste culpa em nenhum!



Essa fabulosa época deu-me muitas histórias para contar mais tarde. Na nossa sala, chegámos a ter uma foto tua que saiu num jornal desportivo, quando, no jogo contra o Nacional, a bola vai tão devagar na tua direcção que até já se vê o Cardozo a correr para a frente à espera do contra-ataque. Mas era nesses momentos que tu te superavas: ficaste a olhar e a bola entrou. Foi lindo.

O culminar da nossa paixão deu-se na Luz. É verdade que o Porto era tão superior que poderia marcar em qualquer altura, de qualquer forma. Mas tu não resististe a despedir-te desse campeonato sem qualquer emoção: aquele meio remate, meio cruzamento do Guarin entrou tão elegantemente na tua baliza que soube ali que te iria ficar eternamente grata.

O problema, Roberto, é que o teu regresso à Luz trouxe-me um amargo de boca. Estava mesmo a contar que, por uma vez, cedesses à tentação de chamar a atenção e que passasses ao lado da partida mais entediante que vi este ano (e eu fui ao Restelo ver aquela merda, por isso imagina). Fiquei com aquela sensação de ser traída, por estares a dar prazer a outros que não eu. Não era justo, logo a mim que sempre te aclamei.

Mas a nossa história não podia acabar ali, tu tinhas de provar-me que ainda havia uma réstia de esperança para nós os dois. E lá, em Antenas (Jorge Jesus dixit), tu revelaste um novo Roberto que já não me deu tantas gargalhadas, é verdade, mas cujo resultado final me deixou tão satisfeita como naquelas derrotas do benfica com a tua marca.

Por isso, Roberto, quero que saibas que tens aqui uma fã. Estou-te sinceramente muito agradecida pelo que fizeste por mim e sinto que nunca te vou conseguir retribuir tamanha bondade. Se algum dia te faltar alguma coisa - um abraço, um incentivo, uma palavra querida - é só bateres à minha porta. Mi casa es tu casa. Tenta só aparecer quando o M. estiver a trabalhar porque ele está capaz de te matar. E ambos sabemos que tu não ias conseguir agarrá-lo a tempo.

13 comentários:

  1. Adorei. Também eu tenho imensas saudades do Roberto e é uma pena vê-lo perdido por Antenas quando estava tão bem no galinheiro.

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  2. Uma texto de merda ou uma merda de texto de um filho da puta paneleiro!

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  3. Este anónimo das 12:08 deve ser estrangeiro de Antenas ou de Cinfães:-)

    Por isso não conhece o M e a C , que escrevem com bom gosto, humor e picardias em alto nível.

    Penso que é a primeira vez nos comentários neste blog que vejo "tamanha educação", "tamanha erudição literária" e "tamanho conhecimento da lingua portuguesa" para escrever um texto desta qualidade que o anonimo do meio-dia escreveu sozinho sem a ajuda de ninguém.:-)

    Voltando ao grande roberto, o benfica deverá fazer bom dinheiro com ele após a exibição em Antenas, mas...peraí!!!Ele já não foi vendido 2 vezes?:-)

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  4. Excelente texto!!
    "E ambos sabemos que tu não ias conseguir agarrá-lo a tempo." - Está espetacular!!!!

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    1. "e que mais vem lá? Espetacular sr.presidente, espetacular..." in Escutas télés

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  5. Como o capitão já se tinha ajoelhado no Dragão, treinador não quis ficar atrás e passado 2 anos também fez o mesmo!!!

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  6. Excelente post (mais um). Após o apito final em Antenas também passei a gostar muito mais do Roberto. :)

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  7. Como portista prefiro, claramente, os textos da C., mas há alturas em que não resisto a ler os do M., porque acho que no alto das vossas picardias conseguem fazê-lo com inteligência e dá gosto ler-vos. Têm humor e sabem argumentar o vosso ponto de vista de forma brilhante.
    Gostei muito da reportagem no Porto Canal. Quando o livro sair será um gosto adquiri-lo (e fica a promessa de não queimar os textos do M. :p)
    Quanto a este texto: fantástico, como sempre. E esse última frase foi mesmo a cereja no topo do bolo.

    Parabéns pelo excelente trabalho!
    Beijinhos*

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  8. Sou portista mesmo antes de ter nascido. A ideia de mim já era portista. A C. e o Jorge do Porta 19, são os AA. de blogues que mais prazer me dão ler. Mas tenho que dizer que também me rio com os textos do M. Além do mais, a solidariedade masculina também tem o seu papel: imaginar o coitado do M. a sofrer às mãos da C., como qualquer homem sofre às mãos de sua mulher, mas depois imaginar a tortura a que ano após ano está sujeito por o seu clube ser repetidamente massacrado pelo clube da C., pelo nosso clube, leva a que a culpa judaico-cristã que nos é inculcada desde meninos venha "ao de cima", e por breves momentos sinto pena do M. Nada que uma ida ao youtube para ver pela enésima vez os 5-0, não cure. Por isso, obrigado à C. e ao M. E obrigado ao Roberto também. Ainda me estou a rir com a última frase do post.

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    1. Muito obrigada pelo comentário, todo ele cheio de humor, mas também porque eu sou uma fã da escrita do Jorge. Quanto à solidariedade masculina, olhe que há momentos em que tenho de pôr a secar camisolas do benfica no estendal por isso pense antes na tortura a que eu sou sujeita :) cumprimentos azuis e brancos

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    2. Sim, o irritante cachecol do benfica que anda por aqui em casa - da minha fantástica mulher { ei, não se pode ter tudo } - demonstra-me sempre que estou a fazer a minha via sacra para a Sublimação do meu Azul e Branco Ser. :)

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  9. @ C.

    a punchline final é qualquer coisa... assim como uma qualquer defesa do Roberto, na passada Terça-feira, em «Antenas».

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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  10. Este post é das coisinhas mais geniais que já li na blogosfera.

    Muitos parabéns.

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