domingo, 29 de dezembro de 2013

Nunca mais acaba 2013?

24 de Dezembro de 2013, 11.30h da manhã, comboio para Faro

Acordo de repente e quase grito no meio da carruagem. Tinha acabado de sonhar que abria o site do Manchester City e via Matic, satisfeito e de óculos escuros, a sorrir com o contrato assinado. E eu desesperado, acordei a pensar como seria o jogo com o Porto dia 12 de Janeiro sem ele. Acordo assustado. Matic afinal (ainda) não saiu. Mas esta amargura está-me entranhada, agarrada ao espírito. São muitos empates com o Arouca em casa na pele. 

13 de Janeiro de 2013, Estádio da Luz

Cardozo isola-se, Mangala falha o fora-de-jogo. Tacuara remata, mas Helton faz uma super-defesa. Lembro-me de pensar que tinha ido um campeonato ao ar naquele lance. Só me lembrei disso hoje outra vez. A memória, mesmo que nos minta de vez em quando, tem uma capacidade fenomenal para nos ferir.

11 de Abril de 2013, Hospital de Santa Maria

O Newcastle aperta o cerco e o 2-0 está na cabeça de toda a gente. Estou no gabinete 2 a ver doentes e a olhar sempre para o canto do olho para o telemóvel. Nada acontece e as meias-finais estão ali mesmo. Meço a tensão a uma senhora e espreito o livescore. Nada. 1-0. Quanto tempo faltará? A senhora sai do gabinete e dou a mim mesmo uma pausa para ver os últimos 5 minutos. Golo do Salvio e grito no meio do banco. Faço o banco feliz, descontraído, a ver doentes sem parar, alegre. Não quero saber se vou estar a noite toda acordado, se tenho de ir a pé até ao fim do mundo. O Benfica caminha para um sonho europeu e eu, ao fim de 29 anos de vida, sinto-me realizado, capaz de entender o sentido da vida, como se o Benfica a ganhar fosse toda a metafísica do mundo.

1 de Janeiro de 2013, 00.01, cá em casa

Estou doente, tenho febre e estou sozinho em casa com a C., que é a melhor pessoa do mundo e ficou em casa comigo. Não me lembro ao certo do que pedi para 2013, mas sei ao certo o que queria. Tive saúde, amor e muitos amigos. Mas aquilo que peço todos os anos primeiro não tive. Não sei se foi da febre, se me esqueci mesmo (não que isso realmente interesse, porque peço todos os anos Benfica Campeão, com ou sem passas e não tem resultado). Se pudesse voltar atrás dizia a mim mesmo para voltar para a cama e para me preparar.

4 de Dezembro de 2013, 02.00h (?) Lisboa

Telefonema cá para casa, nasceu o J., o nosso terceiro sobrinho. Eu e a C. sorrimos, desejamos-lhe tudo de bom e passamos um bom bocado de tempo a discutir o clube de uma criança com minutos de vida. Isto pode parecer estúpido, mas tendo em conta Maio de 2013 e a dicotomia que se viveu cá em casa, essa decisão pode ser das mais importantes da vida do J. Se o J. viver o futebol como os tios, a decisão do clube dele marcar-lhe-á a vida e o tempo. Os anos e as épocas serão melhores ou piores consoante o clube. Jogadores serão heróis ou vilões. Bolas ao poste, azares monstruosos ou um bocadinho de sorte. Mas, mais do que isso, o J. será uma pessoa diferente consoante o clube que tiver. É só perguntar-lhe, daqui a 20 anos, e se fosses do .... ? e ver a reacção dele, se ele não sente que lhe estão a perguntar se queria ser outra pessoa, com outra noção da vida e do tempo.

6 de Novembro, 19.00h, Hospital da Luz, Lisboa

A C. faz anos e está internada. A mesma pessoa que em Maio tinha os olhos a brilhar, que chorou  no Porto Canal a lembrar-se do telefonema do FCP a perguntar-lhe porque não renovara o cativo em 2009, junta as poucas forças que tem para insultar o seu treinador e a defesa que, com a sua absurda segurança, conquistou o título de 2012/2013. Lembrei-me daquele trava-línguas: "O tempo perguntou ao tempo quanto tempo é que o tempo tem" para chamar nomes às mães dos jogadores que há uns meses eram os melhores do mundo. É extraordinária a capacidade de regeneração dos adeptos de futebol. A capacidade de esquecer e de, ao mesmo tempo, nunca esquecer. É como se tivéssemos uma linha temporal só nossa, que medimos em épocas e torna estas semanas sem campeonato um vazio sem nada que o preencha e aquelas semanas decisivas de Maio uma tempestade de emoções em que mil coisas acontecem num segundo. Dou-lhe a mão e calo o meu contentamento com mais uma asneira da defesa deles. Afinal, ela faz anos.

2 de Maio de 2013, 22.00h

O Benfica joga uma meia-final europeia e eu estou em Viena num congresso. Senti o golo do Cardozo como marcado por mim. Estou num conto de fadas. A solidão permite-me, pelo menos, chorar um bocadinho de alegria sem ninguém me ver. Parece-me que isto se passou noutra vida, há mais de mil anos, como se fosse uma lenda, uma história de encantar para adormecer. 
Já não acredito em contos de fadas.

22 de Julho de 2013, Mondim de Basto

Basta-me a C. para ser feliz. Não preciso do futebol para nada.

9 de Novembro de 2013, Estádio da Luz

Sou visto a descer lugares no Estádio da Luz a gritar "AMO-TE, TACUARA! AMO-TE!" quando Cardozo fuzilou Rui Patrício no terceiro golo. Nem por uma fracção de segundo me lembrei daquele falhanço contra Helton, 10 meses antes. Pareceu-me que, pela primeira vez em mesmo muito tempo, o futebol podia fazer-me feliz.

15 de Maio de 2013, Amesterdão

A vida não faz sentido absolutamente nenhum. 

29 de Dezembro, 2013, cá em casa.

C. : "2013 está a acabar. Como é que achas que correu o ano?"
M. : "Uma merda, perdemos tudo em Maio."
C. : "Mas também casámos."
M. : "Ah, pois foi."
C: "E tivemos um sobrinho."
M. : "Pois foi. Mas foi uma merda de ano na mesma"

E abraçamo-nos, prontos para mais um ano.

3 comentários:

  1. ves M. como a vida pode ter coisas muito duras ? Deixa la esse novo ser escolher os de azul, os campeoes...

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  2. Eu sei q preferes esquecer a meia final contra o braga. aquele golo do custódio e as lágrimas do coentrão são inesquecíveis!

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