segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Problema de expressão

Aviso desde já os leitores mais sensíveis para o conteúdo explícito deste texto. Qualquer pessoa que nunca tenha insultado um adversário com palavrões inexistentes, que nunca tenha desejado uma doença sem cura a um jogador ou que nunca tenha imaginado os filhos de um árbitro perseguidos na escola, é melhor fechar já esta página. Ah, e se por acaso for familiar ou amigo do Fonseca, do Licá ou do Herrera, também. 


Tive a sorte de crescer numa família que me ensinou os pilares essenciais da vida em sociedade, como o respeito pelos outros, a boa educação, a igualdade, a liberdade e a solidariedade. Confesso mesmo que me tenho em boa conta em relação a estes valores. Sou uma pessoa calma, não me meto em confusões e espero contribuir para um mundo melhor.

Dito isto, vamos à bola. Eu tenho um problema. Parece que admiti-lo é o primeiro passo para o curar, mas neste caso acredito que será mesmo difícil eu algum dia mudar. Acreditem que até me custa escrevê-lo porque, como já referi, eu considero-me uma pessoa extremamente normal fora do futebol. E agora, que já passaram umas horas desde o sportem-FCPorto, custa-me recordar as coisas que eu sou capaz de dizer durante 90 minutos.

Quando eu sou uma pessoa normal, não insulto ninguém, a não ser os automobilistas que fazem rotundas inteiras pela faixa mais à direita, mas acho esta uma excepção perfeitamente tolerável. A ver um jogo do meu clube, ninguém é poupado. O adepto verde é um filho da puta, claro, porque o amor da minha vida nem é um adepto adversário nem nada. O árbitro é um grande cabrão, obviamente, mas não é nada pessoal, porque qualquer ser humano vestido de amarelo ou de preto num jogo de futebol o é. O jogador deles é corno, porque aparentemente naquela altura eu acredito que ser enganado pela mulher é motivo de gozo, mas atenção que um dos meus jogadores também o pode ser quando falha um passe. O treinador deles é um madeirense do caralho - e notem que eu não tenho nada contra a Madeira, até sou descendente de um madeirense -, mas o meu treinador já é um burro do caralho, o que é muito pior.

Quando eu sou uma pessoa normal, não tolero sentimentos racistas ou homofóbicos. No entanto, no futebol há expressões que se enraizaram nos adeptos e que me envergonham sempre que ganho consciência do que acabei de dizer. Ontem, por exemplo, quando o melhor médio do mundo e arredores William Carvalho entrou a matar ao Varela (o cabrão do árbitro só deu amarelo, agora digam que eu não tenho razão ao insultá-lo logo à partida) eu pedi cartão vermelho para “o preto de merda”. E esta é uma frase que não só me dá nojo, como tem a sua piada, porque acho que o Varela é bem mais negro do que o rapaz. Outra vez, quando o Capel veio ao nosso canto, chamei-lhe “paneleiro”. Eu não faço ideia qual é a orientação sexual dele, mas notem que isso não tem nada a ver com o assunto. Ele é do sportem e está ali perto de mim, tenho que dizer-lhe alguma coisa. E logo eu, que não só não tenho nada contra os homossexuais, como luto todos os dias para que não sejam discriminados. Só que nem é uma coisa que eu só chame a um adversário, porque digam lá: quando o Herrera entrega a 20ª bola a um adversário, ele não merece ser um “paneleiro do caralho”?

Quando eu sou uma pessoa normal, abomino a violência. Não faço mal a uma mosca, nem desejo que alguém o faça, a não ser que a mosca tenha alguma vez votado Cavaco. O Adrien, no entanto, merece partir uma perna de cada vez que se atira para o chão. E o Cedric, se levasse um murro nos dentes de cada vez que fica indignado porque o cabrão do árbitro lhe marca uma falta evidente, não lhe faria nada mal. É óbvio que, em consciência, eu não desejo nada de mal aos meninos, mas em consciência eu também não acho que o Licá merece ir “para a puta que o pariu” de cada vez que… bem, de cada vez que entra em campo com a camisola do meu clube.

Enfim, desculpem-me por estas coisas. Na verdade acho que só o faço porque sei que eles não me ouvem, embora as pessoas que não me conhecem e ficam ao meu lado possam ficar convencidas que eu sou uma selvagem. Não sou. Eu não sinto nada disto, não penso nada disto. Nenhum ser humano é melhor ou pior por ser adepto de um clube, por ser árbitro, por ser jogador ou treinador. Aliás, muitos destes seres humanos que ontem foram estas coisas horríveis que eu lhes chamo e desejo, amanhã podem marcar um golo e passam logo a ser o “Varelinha do meu coração”, podem fazer uma boa exibição e viram “Licázinho, meu amor” e podem ainda ser contratados pelo meu clube e deixar de ser automaticamente o “anão, pigmeu e etc” para entrarem na minha vida como “Moutinho, meu filho”.

Se é justo, racional, se me orgulho disto? Claro que não. Mas isto é futebol, não é para ser levado muito a sério. A não ser quando os filhos da puta dos verdes aplaudem o preto de merda do William Carvalho, a seguir a este não ter sido expulso pelo cabrão do árbitro quando quase matava o estúpido do Varela, que falhou tantos cruzamentos como o paneleiro do Licá, que não tem culpa porque o burro do caralho do nosso treinador não teve tomates para jogar à Porto e calar aquele presidente deles que havia de apanhar uma doença sem cura qualquer.

13 comentários:

  1. LOL :)

    Futebol é isto :) irracionalidade por 90 minutos depois.....

    Votos de um Feliz 2014 que seja um ano Vermelho !!!!

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  2. grande texto!
    este ano o FCP está a dar oportunidades aos outros clubes, assim o campeonato fica mais competitivo e interessante.
    quanto ao sporting, o sporting parace uma casal boss a subir a serra da estrela de gás topado e a berrar por todos os lados!não dá mais que aquilo mas faz muito barulho.
    o benfas e o FCP ainda têm muito para dar este campeonato.

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  3. lol

    Adoro o último paragrafo.

    Somos todos iguais, porra!

    Um feliz 2014

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  4. Lembro-me de ir ao futebol com o meu pai, uma das poucas vezes que fomos juntos. Era professor e uma das formas que encontrava de motivar os alunos de bairros complicados com negativas a sacar boa nota era levá-los no final do ano a ver um jogo nas Antas. Ainda era a época que os miudos podiam passar ao colo. Uma vez, um desses putos, virou-se para o Hassan do Farense - sim Manel, o grande Hassan - e disse algo como "preto da merda". O meu pai, no seu papel de educador, virou-se para o puto e disse...ó Helder, olha que o Aloisio está ali e é mais preto que o Hassan. Responde o puto a sorrir. Sim stor, mas é dos nossos!

    Tá tudo dito!

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  5. há razões (e sentimentos) no Futebol que a própria Razão desconhece.
    (assim como há sistemas tácticos para lá do 4-2-3-1 que o cabrão do paneleiro do morcão do caralho do cepo do Fonseca nem sabe da sua existência)

    abr@ços (e Feliz 2014) para «ambos os dois» :D
    Miguel | Tomo II

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  6. Muito bom! Finalmente gosto dum post da C. :P

    Compreendo perfeitamente que alguém use estes insultos sem sentir a carga do significado mas apenas a raiva momentânea do insulto, embora, da minha parte, apenas use "filho da puta", "cabrão" e "corno". Aboli o "paneleiro" à medida que comecei a notar que, embora sempre me tendo afirmado contra a homofobia, as constantes brincadeiras de gozo entre amigos sugerindo uma orientação homossexual e a utilização desse insulto recorrentemente acabavam por revestir em comportamentos homofóbicos que, por isso, aboli. Também compreendo que para uma mulher seja diferente, por não ser um insulto de que possam ser alvo, embora exista o equivalente feminino. Pelas mesmas razões mas nesse caso sempre, nunca utilizei o termo "preto de merda". No entanto admito que, estando perfeitamente à vontade com essas questões e com as pessoas à volta, bem como em contextos específicos eles possam ser usados, ou seja, não quero que esta opinião seja considerado um ataque.

    Quanto ao orgulho, compreendo que não te orgulhes, mas há bem mais e maiores coisas de que te não deves orgulhar no futebol e especificamente no teu clube ;)

    Um Bom Ano para todos

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  7. E olha que o Capel é mesmo paneleiro! Ele e o Jeffren! Toda a gente em Espanha o sabe! Mas, isso só é relevante quando estão lá dentro, como dizes!

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  8. Parabéns por este sentimento tao NOSSO...tao PORTISTA...e aqui escrito de uma forma magnifica.
    So acrescentaria uma coisa,
    "Não NOS FODAM A EPOCA...OU VAI TUDO COM O CARALHO!!!!"
    Uf
    Já esta !
    Bom Ano
    JNorton

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  9. Mais um texto que exprime na perfeição o que é ser adepto. O último parágrafo é brilhante. Aliás a C. tem uma característica que distingue um excelente escritor de um banal: termina os textos sempre em grande!

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