quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Tonta de Porto

Ando triste. O M. vai andar longe por uns tempos, vou estar a trabalhar no Natal e parece que não há nada que me anime nos últimos tempos. Acho que, em parte, a culpa é do Futebol Clube do Porto. Bem, na verdade suspeito que até é por causa do Porto que eu estou assim. Pronto, vá, admito: ando triste com o meu clube.

O futebol tem este dom ao mesmo tempo maravilhoso e assustador de controlar a nossa felicidade. Os fins-de-semana podem ser bons ou maus consoante vou a casa ou fico a trabalhar, mas influenciam realmente o meu estado de espírito durante toda a semana consoante o Porto ganha ou perde. E, ultimamente, sabemos qual das duas hipóteses tem acontecido recorrentemente (pode ser chocante para adeptos de outros clubes mas para nós, portistas, empatar é perder). É inacreditável como ainda há uns meses eu pensava que era impossível estar mais contente enquanto o M. batia com a cabeça na parede e agora está tudo trocado.

É que nem consigo disfarçar. O M. - que tenta controlar-se não só porque me ama, mas sobretudo porque sabe que dá azar cantar de galo - bem tenta puxar-me para as nuvens, que é onde ele anda. Enche-me de chocolates, que normalmente resolvem todos os meus problemas. Repete que fico gira com o cabelo mais curto, e até notou logo quando o cortei, que é o sonho de muitas mulheres. Abraça-me com mais força, que pode ser mesmo verdade porque ele tem saudades minhas ou então é a minha cabeça a imaginar que os braços dele ficam mais fortes consoante o benfica ganha ou perde.

É muito giro isto de eu ser do Porto e ele do benfica, mas depois acontecem estas coisas. Eu chego a casa e só quero comer chocolates e ir dormir; ele quer ir passear, jantar fora, aproveitar a vida. Eu de vez em quando deixo de falar porque estou a pensar que mal fiz eu para merecer ir ver aquele jogo em Coimbra; ele fala, fala, fala, e de repente está a falar de como foi espectacular ir a Vila do Conde, como se eu quisesse saber. Eu durmo mal, viro-me na cama tantas vezes como o Paulo Fonseca muda o meio-campo e tenho sonhos tão maus que envolvem o Josué, o Licá e o Ricardo na mesma equipa; ele adormece em segundos, ressona de prazer e sou capaz de jurar que às vezes, mesmo no escuro, o vejo a sorrir e o ouço a chamar "Cardozo".

Claro que estamos conscientes que vai ser sempre assim: nós nunca estaremos igualmente felizes ao mesmo tempo. Pronto, eu sei que isto parece exagero, porque é óbvio que há momentos em que estamos felizes ao mesmo tempo. No entanto, os nossos clubes definem quem está mais e quem está menos. E isso é determinante. Não imaginam as vezes que já pensámos que, se um filho nosso nascer em Maio, vai ter o azar de ter uma mãe ou um pai bastante triste a segurá-lo, com um sorriso mais ou menos sincero para a fotografia que captará o momento eternamente. E, sempre que olharmos para essa imagem, dois ou 20 anos depois, um de nós lembrará o outro: “Olha C./M., estavas com aquela cara porque o Porto/benfica tinha perdido o campeonato!”. Ou, pior, estaremos ambos miseravelmente infelizes se um filho nosso tiver um daqueles raros e enormes azares de nascer em ano de sportem campeão (porra, futuro filho, isso tem quase a mesma probabilidade de um dia o Maxi Pereira se tornar escuteiro, por isso vê lá se te orientas e não nos desiludes logo à partida).

Estou triste e, como não estou habituada a isto, não sei o que fazer. Como é que se ultrapassa isto? Como é que se deixa de pensar no que correu mal? Como é que paro de ouvir na minha cabeça aquele “e se...” que me atormenta? Como é que se dorme bem enquanto o Quaresma está a caminho? Como é que se deixa de sonhar com o negócio Ghilas? Tentei as tochas e nada. Tentei a solução racional, aquela lengalenga de “isto é só futebol e não se pode ganhar sempre” e só fico ainda mais irritada (isto não é só futebol, nunca é só futebol e já não era pouco se fosse só futebol). Tentei tudo, até ver um jogo de andebol com o M. porque grande parte do que sei desta modalidade é que o Porto é melhor do que o benfica, e até isso falhou (fomos roubados, claro, mas vocês percebem o sentido).

Tem dó de mim, Porto. Pára de me fazer mal. Pára, já chega, não dá mais. Imagina como me sinto, como se sentem tantos portistas que dependem de ti para andarem felizes. Nem sabes o quanto nos magoa quando desapareces e nem chegas a entrar em campo para tentar ganhar. É um desespero olhar para ti e não te reconhecer. Nós não estamos habituados a isto, nós não queremos isto. Precisamos tanto e mesmo de ti. Estamos tristes, estamos tontos de falta de Porto. 

7 comentários:

  1. o nosso Porto vai se levantar !!!!!

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  2. Ai desanimas? Então arranja outra coisa para te entreteres.. O futebol não é vida, estás mal habituado.

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  3. Como se costuma dizer, "aguenta e não chora!". Infelizmente, basta uma fracção de segundo, para constatar que sei muito bem o que é isso.
    Mas, vendo o desfecho dos dois últimos campeonatos, na tua situação estava tranquila... Estou habituado a que o Jorge Jesus e Vieira acabem a fazer merda.

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  4. Gostei muito do texto e do sentido de humor que nem as bolas na nossa baliza conseguiram vencer. ;)

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  5. Sou do Benfica mas compreendo perfeitamente este texto. Por mais que não queiramos, por mais que os outros dossiers da nossa vida corram bem (pessoal, profissional, económico, etc) o nosso clube do coração mexe sempre connosco. É uma ligação sentimental, emocional que quem não gosta de bola não compreende (e em compensação vai viver mais anos por causa disso). Boas festas, C. e M..

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  6. caríssimos C. e M., e caras(os) visitantes deste espaço de referência do maravilhoso mundo que é a bluegosfera,

    votos sinceros de Boas Festas! e de um Próspero 2014 (que bem precisamos :D)

    no fundamental:
    penso que estamos todas(os) a necessitar de um tempo extra com as nossas famílias, para o prolongamento do campeonato que se segue. é que o dia seguinte é já Amanhã :D

    somos Porto!, car@go!
    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs a todas(os) vós! :D
    Miguel | Tomo II

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