terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Dá azar

Um jogo de futebol nem sempre se resolve com um remate certeiro, uma finta de estrela ou um golpe de génio. Às vezes, é a bola que bate num defesa e deixa um adversário isolado, é a excepcional defesa do guarda-redes que vai parar ao sítio errado, é o canto a nosso favor que termina num contra-ataque mortífero dos outros. A bola é assim. Teimosa. E isto é de deixar louco qualquer um de nós.

Num mundo ideal, seria possível eu antever e evitar cada surpresa destas. Por exemplo, antes de sair de casa, eu iria buscar o cachecol que dá sorte, colocá-lo-ia na posição que dá sorte e nem o tiraria no decorrer do hino, porque assim é que dá sorte. E pensam vocês: bem, Catarina, que grande chanfrada que tu és. Mas se há coisa que eu sei, caros leitores, é que se ainda estão aqui é porque são tão doentes quanto nós, por isso sabemos todos muito bem como a escolha de um cachecol pode ser determinante para uma vitória.

Antes de chegar ao estádio, porém, ainda há muito a fazer. Por exemplo, aqui há uns anos, eu e a L. descobrimos que não podíamos trocar sequer uma SMS em dia de jogo. E nós nessa altura trocávamos muitas, porque éramos jovens com imensas preocupações, por isso imaginem o enorme esforço. Caímos nesse erro uma ou duas vezes (que, como toda a gente sabe, é amostra suficiente para um adepto deixar de fazer algo) e o FCPorto não ganhou. Por nossa culpa.

Mas, infelizmente, há mais. Por exemplo, demorei a perceber que não posso gozar um adversário quando ele entra. Isto é, imaginem uma substituição da outra equipa, vocês vêem o manco a deixar de aquecer e a correr para o banco e dizem, com ar sobranceiro: - Olha, vai entrar o manco, que sorte a nossa! Errado, errado, errado. É certinho que o manco vai marcar. Acreditem, aconteceu-me uma ou duas vezes com o Mantorras e o Nuno Gomes e jurei para nunca mais.

É isso e os “olés”. Porra, quem inventou os olés não era doente por um clube de certeza. Nunca vi a minha equipa jogar melhor ou marcar mais golos por ouvir os nossos “olés” para os outros. Nunca. Pelo contrário, até parece que perdem a bola mais depressa, seja pelo peso da responsabilidade ou porque vem aí um adversário de perna esticada em modo kung-fu para acabar com aquela brincadeira. Os “olés” estragam tudo, a não ser que, vamos tentar imaginar, estejamos a dar 5-0 em casa ao benfica e eles nem se mexam. Aí sim, pronto, dou o braço a torcer, e grito uns “olés” só para os animar, coitados.

Ainda há outra coisa a não esquecer. Nunca, mas nunca, dizer que vamos ganhar de certeza, escrever isso em algum lado, provocar um adversário e prometer que vamos golear. Nunca, ouviram? Celebrar uma vitória por antecipação no futebol é tão estúpido como dizer que fomos contratados ainda antes de responder ao anúncio de emprego, e na economia actual! Pessoalmente, por exemplo, posso contar-vos que em todas as finais europeias que disse em voz alta que íamos perder as ganhámos (mais uma vez, a amostra é enorme, por isso trata-se de um dado científico). Por isso, não estranhem quando na próxima eu puser aquela minha cara triste, de quem já está a antever uma grande tragédia, e soltar um: - Já fomos… Deixem-me estar, alinhem na cena, façam bem de conta que estão convencidos. Todos juntos, seremos mais fortes.

Quando me distraio e não cumpro os habituais rituais de vitória, recorro à minha mãe. Garanto-vos que não há melhor barómetro. – Como é, vamos ganhar? Se a resposta for um “claro que sim, não tenho dúvida, estou super confiante”, então, meus caros, podemos começar todos a chorar, porque o FCPorto vai perder. No entanto, se a resposta for “estou cheia de medo, acho que eles nos vão comer, nem quero que o jogo comece”, podemos ir já para os Aliados. E não pensem que isto me descansa. Só muito raramente o pergunto, porque não tem piada saber os resultados dos jogos antes deles acontecerem.

E, quando tudo o resta nos falha, quando não há cachecol, SMS, contenção de gozo, antevisão cautelosa ou mãe-adivinha que nos safe antes de um jogo, todos sabemos muito bem qual é a única coisa a fazer: mudar de lugar no estádio. Ah pois é, não façam esse ar de surpreendidos, como se nunca tivessem trocado de lugar disfarçadamente, sem dizer nada, com alguma vergonha até, só porque aos 20 ou 30 minutos de jogo já perceberam no que vai dar o lugar onde estão. Se nunca o fizeram, então nem imaginam a dose de culpa que têm nas derrotas do vosso clube. Mudar de lugar para dar sorte devia ser o mandamento número 1 de qualquer adepto. Mais: espero não ser a única que anda a decorar cadeiras dos estádios adversários que dão sorte, procurando-as quando lá regresso, porque caso contrário o FCPorto já me deve uma estátua ou algo assim discreto como forma de agradecimento. E pensam vocês: então como é que, com tão dedicada adepta, a equipa da Catarina não ganha os jogos todos fora? E a resposta é óbvia: porque eu tenho uma memória horrível e às vezes troco as cadeiras. Desculpa-me, Porto, desculpa-me.

Só não acabem como a minha mãe, naquele terceiro ano consecutivo em que o FCPorto não foi campeão. Desesperada, sem saber o que fazer, rezou ao deus do futebol e prometeu-lhe que, se ainda fôssemos campeões, comprava um daqueles chapéus enormes que imitam um dragão e ia a todos os jogos com ele. Só deus do futebol sabe a humilhação suprema que isso seria e ainda hoje lamento que tenhamos perdido esse título, não só porque quero que o meu clube ganhe sempre, mas também porque adoraria ver a minha mãe a fazer aquela figurinha. A conclusão a tirar é que deus, mesmo o do futebol, não existe, por isso não vale a pena recorrer a ele.

Cá em casa, existem estas e outras regras no que à sorte diz respeito. Algumas, com o tempo, vão sendo contornadas porque o outro descobre um contra-feitiço fortíssimo. Como os boxers do M., por exemplo. O M. tem uns boxers do benfica. E eu podia terminar o texto aqui que vocês já iam gozá-lo o suficiente. Mas não, há mais. O M. convenceu-se que, usando aqueles boxers nos jogos, o benfica era invencível. Daí concluo que, quando ele morava com os amigos, só a preguiça em lavar a roupa não fez do benfica hexacampeão nacional e vencedor consecutivo da Liga dos Campeões. Para mal dos seus pecados, o M. veio morar comigo e, surpresa das surpresas, sou eu que trato da roupa. Curiosamente, os boxers começaram por não estar lavados nos dias de jogo e agora, sinceramente, já nem sei onde eles andam. Podem ter ido parar ao fundo do Tejo, podem ter sido queimados numa tarde de magia negra, enfim, quem pode saber?

Podem chamar-lhe superstições, manias, loucuras, o que quiserem. O que eu sei, e qualquer adepto sabe, é que funcionam. É por isso que, quando o FCPorto empatou em casa com o olhanense, eu soube logo que a culpa foi minha e de todos os que, terminado o jogo anterior, decidiram gozar o adversário. Tivéssemos ficado todos calados durante mais 90 minutos e a porcaria da bola tinha entrado.

E este domingo, quando os lampiões celebraram aquela vitória no último minuto com aquele penalty que não iremos esquecer, ficaram a pensar que devem os três pontos ao árbitro, ao Gaitan, ao defesa da académica, ao Lima, à estrelinha de campeão, sei lá. Mas não, é a mim que me devem aquela merda. É que eu, que tenho como regra não ver ou não estar atenta aos jogos do benfica, este ano vinha a notar a coincidência entre os momentos em que eu olhava para o ecrã e os golos deles. Aliás, no benfica-FCPorto, eu só estive atenta em dois lances de ataque deles e acabaram os dois em golo (depois aprendi e corrigi isso, desviando o olhar no resto do jogo e evitando mais golos… e ainda houve quem dissesse que foi a equipa do Porto a corrigir a defesa e não sei quê, em vez de me atribuírem logo essa glória suprema). Portanto, e depois de no nacional-benfica ter estado “desatenta”, decidi não ver o benfica-académica. E não vi mesmo. Nada, nadinha.

Só que isto de ser adepto não é fácil e, mesmo quando sabemos que aquele resultado só depende de nós, caímos na tentação de ver um bocadinho. Quando eu carreguei nos números “2” e “0” do comando, o Gaitan ainda estava a agarrar também o defesa da académica. Seguiu-se o apito, a confusão, o golo. Eu mudei de canal. Não vi mais nada. Ainda hoje não sei o que se passou, como foi o jogo, quem fez o quê. Naquela noite, vi apenas o suficiente para ter a certeza de uma coisa: a culpa foi minha. Que azar.

P.S. Noto agora que estes dois textos seguidos nos fazem parecer um bocadinho malucos.

P.S.2 Se decidirem internar-nos, por favor, garantam pelo menos que o manicómio tem Sporttv.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um domingo cá em casa

Desenganem-se aqueles que verão neste texto uma coisa bonita e que imaginam alguma dose de bom senso no meio disto. Eu e a Catarina odiamos os casais que se beijam para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Muitas vezes nos perguntam como é que vivemos um com o outro. Como é possível haver tolerância entre pessoas que, além de gostarem mais dos seus clubes do que de qualquer outra coisa, odeiam o clube do outro. Não sei. Talvez este texto vos mostre. O que não quero é que achem que há aqui qualquer dose de bom senso ou de civismo. 

São 18h e estou sozinho em casa a ver o Nacional - Glorioso, a Catarina ainda não chegou. Tive três enfartes em cinco minutos, indignei-me com as escolhas do Jesus (a prioridade tem de ser o campeonato. O c-a-m-p-e-o-n-a-to, percebeu, mister?) e quando a Catarina chegou estava 1-1 no marcador. 
Nunca vi nada no Urreta que me encantasse e não consigo perceber como é que um jogador que não entrava no plantel inicial (estando à disposição) passa a titular num jogo destes. Isto originou uma permanente pressão no nosso extremo, que, mal perdia uma bola, ouvia um bom palavrão português. Há jogadores que são nossos camaradas e puxamos por eles, a entoação do "Anda, Salvio!" como se fosse um amigo da tropa é diametralmente diferente da "Põe-te no sítio, Luisinho"  à laia de ameaça, mas o Urreta está longe disso e eu estava particularmente nervoso e verborreico.
A Catarina, como é regra da casa, vê os jogos do Benfica em silêncio, e sentou-se a fingir que estava interessada na internet (pensas que eu não te conheço, é o que é). De repente, há um livre e eu soltei um "Uuuuuurreeetaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa", com a voz fininha, meio em festa, meio em arrependimento, um misto de hooligan com rapariga adolescente a fazer as pazes com o namorado. 1-2, vamos lá segurar isto. A Catarina aproveitou a fraqueza e pediu-me para ir encher o depósito do carro entre o fim do Benfica e o início do Porto. Ainda a dizer, "Urreta, caralho, Urretaaaaatatatatatata!" disse que sim, claro. Tanso.

Ao intervalo, a Catarina, só para dar azar, diz "Vamos apostar quantos é que o Benfica hoje dá?". E eu, tanso, em vez de fazer um contra feitiço, disse só "Estás a dizer isso ao adepto certo, ao optimista por excelência...". Estúpido, Manel, estúpido.
Segunda parte e os rapazes de vermelho não tiveram o killer instinct (esta foi para si, Mr. Robson) de fazer o 1-3 e, às tantas, a Catarina, que às vezes diz assim umas alarvidades que eu até fico com vergonha (fico com vergonha de te apresentar aos meus amigos, Catarina. Imagina que estava o Eusébio cá em casa ou assim, já imaginaste a vergonha?) e diz: "Não percebo como é que tu gostas deste clube." Eu até tenho vergonha de vir escrever isto, mas pode ser que assim ganhes decência. 
Depois deu-se uma daquelas coisas inacreditáveis que é sofrermos o 2-2 em contra-ataque quando estamos a ganhar, com um frango à mistura. Não tenho tolerância a coisas destas.

A partir daqui foi uma corrente de palavrões, de insultos, com o coração aos saltos, cheio de angústia. Eu entro em desespero. A minha cabeça começa a andar à roda, a vida não faz sentido e é a puta da bola que não entra e há sempre um filho de um cabrão de um guarda redes que se lembra que é hoje que vai fazer a exibição da miserável vida dele e depois, claro, há o factor Proença, que enfim. Eu não posso dizer o que desejo ao Proença porque não violava só o Juramento de Hipócrates, mas também a Convenção de Genebra. A não ser que a Amnistia Internacional estivesse muito distraída, acho que não passava impune partir-se a boca toda a um gajo e enfiar-lhe os dentes, um a um, pela uretra. O relógio andava a mil à hora, um escândalo.

No meio de todo o meu desespero, há o enésimo centro mal medido do Salvio e eu, já esquecido da camaradagem, gritei tão alto que se deve ter ouvido na Madeira: "FODA-SE, SALVIO, MORRE!" Isto agora, lido assim, parece que eu sou maluquinho. Mas qualquer Benfiquista que viu o jogo sabe que foi uma frase assertiva, bem medida e, até, ponderada. Olhos muito arregalados, algo vermelhos, o coração aos saltos, e a Catarina a olhar para mim com ar sério, diz: "Tu sofres demais, Manel, há limites". Se isto fosse uma série, aparecia no ecrã a legenda "uma hora e tal depois..." e veríamos a Catarina deitada no chão a dar uma cabeçada no chão. Mas isto não é uma série, portanto continuemos.

Às 19.50, findo o jogo, o mundo não fazia sentido. A vida não fazia sentido. Porque é que estamos neste planeta se o Benfica não ganhou? Vesti o casaco e fui-me embora. Antes de sair, a Catarina virou-se e disse-me duas frases moralistas, do género: "Sem gozar, Manel, tu não podes sofrer assim. Faz-te mal." A verdade é que faz. A verdade é que eu nem devia ter pegado no carro depois do Benfica empatar (passou-me pela cabeça mandar-me contra a bomba de gasolina só para a explosão foder a casa do Porto em Lisboa, ali tão perto). Mas eu não consigo tolerar uma não-vitória do Benfica no campeonato, sobretudo com tantos erros próprios. 
Antes de chegar a casa, uma mensagem: "Golo do Olhanense". "Vão dar 5", pensei eu.

Eu, como é regra da casa, vejo os jogos do Porto em silêncio. Fui cozinhar e rever, mentalmente, os nossos erros. À medida que o arroz ficava pronto, notei que a Catarina passou de um "anda lá, Varela" para um "Foda-se, Varela" que escalou depois para "NEM UM CRUZAMENTO, SEU MONTE DE MERDA?", o que significava não só que o arroz estava no ponto, mas, também, que havia esperança e que, a não ser que tivesse mandado mesmo a casa do Porto em Lisboa para o inferno que merece qualquer pessoa que já lá tenha entrado, não valia a pena ter-me explodido contra a bomba de gasolina.
Na segunda parte sentei-me, a fingir que estava no twitter. No 1-1, com falta do Mangala (vejam a falta marcada ao Cardozo naquele que seria o 3-2 contra o Braga na primeira jornada e comparem), pensei: "já fomos". E lancei o contra-feitiço: "Dão 4 ou 5". E a Catarina, tansa, "Ya...." (a olhar desconfiada). Depois há penalty e a bomba de gasolina estava ali mesmo e eu, burro, não me tinha explodido e limpo a casa do Porto em Lisboa, mas o Jackson chuta por cima e há vida. E depois o jogo continua e aquela merda nunca mais acaba e os gajos estão sempre a cair na área e aos berros, e o tempo é tão, mas tão, mas tão lento. Um escândalo.

Nisto há um lance de perigo, Jackson remata, Bracalli defende, Danilo remata outra vez, Bracalli defende outra vez. E nisto, a Catarina, a Catarina do "Tu sofres demais, Manel, há limites", diz com voz baixa, solene, como quem promete: "Danilo: eu só quero que tu morras" em voz de filme de terror. Ao guarda redes do Olhanense foram prometidas coisas como "filhos a boiar no Douro". Enfim, tudo coisas razoáveis, de quem sabe, ao contrário de mim, ver bola.

Mesmo no fim, em mais um lance daquele jogo interminável (eu bem sei que o fuso horário no Porto é diferente, 15 minutos a mais, acho eu, mas não é preciso exagerar), a Catarina acaba deitada no chão e dá - leiam bem - uma cabeçada no chão e solta um "eu não acredito nesta merda". 
Lá pelas 22h, recuperei a vontade de viver. O amor da minha estava estendido no chão como se tivesse morrido alguém e eu sorria.

Foi mais um domingo cá em casa. Espero que isto vos explique, melhor ou pior, que, apesar da tolerância, cá em casa não vai haver beijinhos para a fotografia, cada um com o seu cachecol. Há ameaças de morte, um ou outro palavrão e, sobretudo, limites.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Regresso aos mercados

Estou convencida que o mercado de Inverno é apenas um teste do universo aos nossos fracos corações de adepto. De outra forma, não compreendo esta mania de, durante 31 dias, tornar possível que um craque da nossa equipa se vá embora a qualquer momento. Felizmente falamos do FCPorto, que nos habituou a não vender peças importantes do puzzle nesta altura e a aproveitar o mês de Janeiro para arrumar a casa.

No último mês, o FCPorto reforçou a minha convicção, apenas abalada por uma ou outra demonstração do poderio atacante do nosso rival: somos a melhor equipa. E andamos a jogar muito, mesmo! Tenho dado por mim a ir a todos os jogos, a voltar a fazer sacrifícios e loucuras só para os poder ver ali, no relvado, a mostrar coisas tão bonitas. O capitão do vitória (homem e clube perfeitamente insuspeitos) chama-nos o barça da Liga portuguesa. Eu não concordo, porque pelo barça eu não arriscava ir a guimarães dar 4 e ainda esperar sobreviver.

Estou apaixonada pelo nosso estilo de jogo e devo-o, claro, a Vítor Pereira. Não sei se isto é para continuar, tenho dúvidas que possa ser sempre tão perfeito e sei, de certeza, que a qualidade não ganha todos os jogos. Mas, para já, gosto de chegar a casa, sentar-me no sofá, colocar os pés em cima de alguma coisa, à lorde, esticar os braços por trás da cabeça e pensar: “Tenho um orgulho do caraças em ser portista”.

O plantel, já sabemos, é curto. Estamos sem James (que vinha a ser nada mais, nada menos, do que o melhor jogador da Liga) e olhar para o nosso banco faz tornar-me crente, rezando a todos os santos para que não seja preciso jogar ninguém. Mas, felizmente, continuamos a falar do FCPorto, que foi buscar dois reforços escolhidos a dedo.

Precisávamos de um ala/médio e de um avançado. Izmaylov e Liedson. Dirão alguns que estão velhos e cansados e lesionados e não sei o quê. Dirão outros que era preferível ir buscar dois jovens, que ganhassem menos, que pudessem crescer e ser vendidos depois. Bem, num mundo ideal, claro que iríamos buscar um James Rodriguez para cada posição. No entanto, estamos a meio da época e é preciso ser rápido, preciso e eficaz. E estou convencida que Izmaylov e Liedson são isso e apenas isso: duas garantias de qualidade para ajudar no que falta do campeonato.

Se me custa vê-los de azul? Na verdade, não me custa ver ninguém de azul, a não ser o Kléber e o Iturbe (paz às suas almas). O ex-Izmailov fez-nos mal quando estava de verde, mas nem sequer aprendeu a falar português para me chatear o suficiente. Já o outro, o ex-grande-palhaço-que-se-estava-sempre-a-atirar-para-o-chão-e-que-não-passava-de-uma-grande-merda, bem, a seguir ao Moutinho eu já estou como os lagartos: aguento tudo.

No meio disto, o FCPorto despachou três grandes inconvenientes: Rolando, Kléber e Iturbe (e nenhum deles para fazer trabalhos forçados na Sibéria, como seria normal). Quanto a Rolando, e porque a minha memória vai além de uma ou outra palhaçada, quero agradecer-lhe o que fez pela nossa equipa e avisá-lo que, se achou que aqui foi maltratado e pressionado, em Nápoles eles não são propriamente conhecidos por serem compreensivos e fofinhos.

Já Kléber e Iturbe são outra história. Não suporto meninos com a mania que são superiores ao FCPorto, quando na verdade (e pelo menos para já) não são NADA. Juro que dei o desconto ao primeiro, que me tentei sempre recordar como no marítimo me parecia um bom jogador e que tentei sempre ouvir aqueles que me diziam que ele se aplicava muito nos treinos e que nos jogos é que não se percebia o que se passava com ele. Kléber, quanto a paciência contigo e esperança que um dia te tornes num avançado decente, aliás, que te tornes em algo parecido com um jogador de futebol sequer, é como diz o outro: FUI! Do segundo já falei que chegue e até acho que pode vir a ter sucesso num continente qualquer, desde que seja longínquo.

Feitas as contas, saímos a ganhar do mercado de Inverno. O ano passado fomos buscar Janko e Lucho, fundamentais para a conquista do título. Espero poder dizer o mesmo de Izmaylov e Liedon daqui a uns meses. Se não disser, espero que seja porque este campeonato foi conquistado apenas à custa de uma equipa que joga muito à bola. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Carta ao nosso mister

Caro Jorge Jesus,

Venho por este meio dedicar-lhe algumas linhas, agora que sabemos que lê os blogs. Se realmente o  faz é porque é um homem inteligente. Perceber o que sentem os adeptos é muito saudável, mesmo que seja pela via tecnológica. Num futebol cada vez mais longe de quem verdadeiramente sente os clubes, se for verdade que vem saber o que nos abala os corações, ficamos contentes.

Estamos em primeiro empatados com o Porto e o mérito é muito seu, verdade seja dita. Com qualquer treinador menos apto, há muito que estaríamos a 10 ou mais pontos do Porto, já perdidos em guerras internas. Inventou bem Enzo Peréz a médio centro (não me agrada, mas é o que há), não deixou cair Ola John e fez de Matic um médio centro imperial, senhor do jogo, quando nos parecia um matulão louro meio copinho de leite. O mérito é seu. Mais: em Braga jogou, finalmente, com 3 médios centro, com Enzo a 8 e Gaitan a 10 e desbaratou a defesa bracarense, conseguindo, finalmente, ter algum controlo (pelo menos na primeira parte) num jogo difícil. Nota-se que o senhor aprendeu, que estudou. Reparou como fomos mais ofensivos com 3 médios e 1 avançado do que com 2 avançados lá à frente, sem a bola lhes conseguir chegar? É disso que falamos nos blogs e no Estádio da Luz.
Nota-se a diferença no discurso, que já não é tão fanfarrão e agradecemos isso. Notou-se algum assumir que é da casa, quando pediu a final no Jamor, coisa que nunca poderia fazer se treinasse o Porto. E, como é público que é dos listados horizontais, agradecemos esses pequenos gestos.

Eu não sou treinador de futebol e é vaidade minha isto de achar que me vai ler, mas se realmente lê os blogs, talvez encontre estes meus humildes conselhos. Em primeiro lugar, peço-lhe que pense quase exclusivamente no campeonato. As 14 vitórias em 17 jogos, o bom futebol, tudo isso se esquece se ficarmos em segundo. Interessa ser campeão e mais nada. Não queremos saber da Liga Europa, não queremos saber da Taça da Liga. A Taça de Portugal é, praticamente, uma obrigação e pouco chocará com as contas finais do campeonato. Mas os outros troféus podem ser uma maçada que nos distrairá do essencial. Lesões, cansaço, enfim, essas coisas. Abdique, sem vergonhas. O 11 titular é para o campeonato. Com o Leverkusen podíamos jogar com Artur (ou mesmo Paulo Lopes), Cancelo, Jardel, Miguel Vítor, Luisinho; André Almeida, André Gomes, Aimar; Urreta, Ola John e Rodrigo. Eu sei, eu sei, "olha-me para este que chega aqui, escreve no blog e já quer ditar o 11". É uma sugestão. O que lhe quero dizer, mister Jesus, é que poupe os melhores para o campeonato.

É que o campeonato está como a liga escocesa antigamente, em que o Celtic e o Rangers ficavam centenas de pontos à frente. Num campeonato assim, qualquer empate é um desastre. E com os 8 (oito!) jogos que significariam uma grande campanha na Liga Europa, seria praticamente inevitável que esses malfadados tropeços chegassem (lembra-se como chegámos o ano passado a Alvalade? De gatas.). E agora, sem Nolito e Bruno César (sim, eu sei que a culpa não é sua), torna-se tudo mais difícil e delicado de gerir. Antecipando que os azuis passam o Málaga e que a cabeça dos jogadores deles se desviará inevitavelmente para uma grande Champions (os jogadores sabem que é ali que se vendem), será nessa fase em que eles - provavelmente - poderão tropeçar. E eles não podem - é a Champions - meter os suplentes na Europa, percebe? Isso dá-nos uma vantagem. Faça-o. Descanse os nossos para o que interessa. 

Sinto a equipa cansada - e o mister referiu isso ontem. Eu sei que a nossa principal qualidade, especialmente neste campeonato, é a maneira como partimos os adversários com tanta gente na frente, com aquele frenesim todo. Mas era bom que a equipa estivesse mais trabalhada para a posse de bola. Não que seja esse o modelo, mas que usasse isso para descansar mais, para não se rasgar e para não correr tantos riscos. Somos muito verticais, percebe, mister? Eu sei que me percebe. Pense nisso, a sério. 

Mais uma coisa: quando jogamos com o Lima e o Rodrigo na frente, ponha o Rodrigo mais adiantado e o Lima mais atrás. O Rodrigo recebe e distribui mal naquela posição. Quando recebe a bola fica sempre longe do pé e normalmente nunca percebe se o extremo quer a bola no espaço ou no pé. O Lima é muito melhor nisso e o Rodrigo é muito melhor nas diagonais a rasgar a defesa, que serão mais frequentes se ele estiver mais adiantado.

Pronto, já o macei muito, deve ter outros blogs para ler e equipas adversárias para estudar. Um dia falamos sobre a sua renovação. Muito obrigado por passar por cá. Qualquer coisa, deixe um comentário. 

Um abraço, Manel