terça-feira, 19 de março de 2013

O bom aluno

É agora. Estamos naquela altura da época em que já fizemos as asneiras todas e só nos resta aquela imensa vontade de ser campeão. É aqui. Nestes momentos em que o mundo parece que vai acabar, em que lembramos todas as contratações mal feitas ou por fazer, em que notamos todas as teimosias do treinador e da sua “ideia de jogo”, em que criticamos cada penalty falhado pelo nosso melhor marcador e grande revelação do campeonato, em que parece que nos faltam as forças perante a inércia, a apatia, a palidez de onze homens vestidos, mas pouco sentidos, de azul. Está na hora de acordar.

Podia fazer aqui um desabafo sentimental, apelar à união da equipa, desancar o lateral-direito que não corre e pedir-lhes, mais uma vez, que sejam campeões por nós. Mas, confesso, estou farta disso. Já não posso ouvir o “Somos Porto” e aquele discurso do “temos de acreditar até ao fim” porque “é nos momentos maus que se vêem os verdadeiros portistas”. Porra, que Somos Porto já toda a gente sabe. Ninguém se esquece do que é ser Porto só porque fomos eliminados da Liga dos Campeões e comprometemos o campeonato. Sim, sim, porque o Porto é o único clube que nas alturas más sabe unir-se e lutar contra as adversidades como ninguém, claro que sim. E claro que vamos acreditar sempre, até os lagartos ainda acreditam na Europa! Os verdadeiros portistas não precisam destas lições de moral, precisam é de gajos a correr no relvado com pelo menos metade da nossa dedicação.

Estamos em desvantagem e temos muito pouco tempo para recuperar. Jogamos mal, temos muitos jogadores cansados e lesionados e parece que aquele brilhante jogo em Guimarães foi há mil anos. Compreendo que andemos a carpir mágoas e que corram para o aeroporto para os pressionar, mas não aceito que se esqueçam outros factores que tanta influência têm tido no campeonato.

O F. C. Porto cresceu tanto nos últimos 30 anos que um adepto que acabe o jogo em Málaga a insultar o árbitro parece um maluquinho. Somos tão superiores, tão exigentes, que nos esquecemos da matreirice que é preciso ter em certas alturas. Como é possível que, perante os primeiros minutos e a distribuição de cartões amarelos pela nossa equipa, os jogadores do Porto não tenham rodeado o árbitro em cada entrada dura dos outros (e foram tantas, meu deus!)? Onde é que anda o capitão quando o Jackson é varrido por trás e é preciso lembrar o árbitro que, se expulsou o Defour, não pode ter contemplações com um tal de Iturra, que conseguiu acabar a partida sem um amarelo sequer? Terei sido a única a desejar que o Porto entrasse naquela onda e até que os jogadores caíssem mais, não só para exigir amarelos, mas também para perder tempo, porque a eliminatória estava do nosso lado? Isto não é ser Porto, claro que não, nós queremos é a equipa a jogar bem e a passar ao lado de tudo o que é feio. Pois eu queria era ter passado.

Não consigo precisar como nem quando, mas tornámo-nos o bom aluno. Vamos a todas as aulas, sentamo-nos na fila da frente e não falamos com ninguém para não aborrecer o professor. Portamo-nos muito bem e nem sequer nos divertimos, porque a escola é o nosso dever e nada mais do que isso. Durante algum tempo, achámos que isso seria suficiente para passar. E foi, e até pode continuar a ser se voltarmos a estudar para ter boas notas, mas até os melhores alunos do mundo têm dificuldades em alguma matéria. E é agora, é aqui, está na hora de acordar e assumir que não estamos a conseguir ser melhores do que o mau aluno da Amadora, que passa as aulas a mascar chiclete tão alto que não se ouve o professor, que nos atira papéis à cabeça para nos distrair do essencial e que copia nos testes para conseguir passar. Estou farta, não aguento mais calar-me e aceitar isto.

Na primeira volta, o F. C. Porto empatou três vezes. Com o gil vicente, na primeira jornada, em que o árbitro Duarte Gomes se esqueceu de marcar um penalty sobre o Kléber. Logo na quinta jornada, o árbitro Bruno Esteves copiou a ideia e esqueceu-se também de marcar um penalty sobre o Kléber, terminando o jogo com o rio ave empatado a 2. E na jornada 14, com o benfica na luz, o mesmo resultado e a dupla pode-ser-o-João e Godinho a inventar três foras-de-jogo, dois dos quais com jogadores isolados, e a não expulsar dois rapazitos de camisola vermelha.

Seis pontos perdidos em 15 jornadas não parecem nada e a equipa continuou a ir às aulas, a sentar-se na fila da frente e a não falar com ninguém para não aborrecer o professor. Até arrancou para um mês fantástico, ofereceu goleadas fáceis, jogou como poucas vezes terei visto uma equipa do Porto jogar e tudo parecia encaminhado para continuarmos a portar-nos bem, mas sem nos divertirmos muito, porque ganhar é o nosso dever e nada mais do que isso.

O empate com o olhanense, aliás, só ajudou a fortalecer a teoria do bom aluno. Após um empate do rival, o F. C. Porto perdeu dois pontos por culpa própria, com um penalty falhado que, juntamente com o de domingo, poderão vir a ser decisivos no fim do campeonato. Portanto, os adeptos começaram a desconfiar. Será que, apesar de se portar bem, o Porto não está assim tão forte? Será que, com a lesão de Moutinho, não conseguimos ter boas notas? Três vitórias seguras no campeonato (beira mar, rio ave e estoril) e uma grande exibição com o Málaga em casa adormeceram as nossas preocupações. É preciso ter calma porque basta ao Porto estudar um bocadinho e isto melhora. Mas, porra, alguém duvida que o jogo em alvalade era para ganhar? Se aquilo não foi uma enorme negativa num teste, então não percebo nada disto.

E, enquanto o bom aluno se preocupava apenas consigo, o mau aluno foi passando. Sem uma ideia, sem sequer estar no seu melhor, a ser assobiado por adeptos que aplaudiram quando o Porto foi campeão na luz. O mau aluno não tem perdoado, nem que para isso, como no teste contra a académica, tenha de ter copiado aquele penalty que tanto jeito deu no último minuto.


E nós calados. Calados, mesmo quando o golo do marítimo é marcado após um fora-de-jogo que se esqueceram de assinalar.


Caladinhos, mesmo quando, aos 91 minutos, há uma mão na grande área do marítimo e a Sporttv nem repetição mostrou (obrigada a quem mostrou o lance claríssimo). E distraídos no mesmo dia por um 0-4, com dois golos em fora-de-jogo e mais umas histórias para contar, entre elas a do Cardozo, o homem que puxa árbitros. É que eu um dia vi o Costinha a ser castigado por ter celebrado em Guimarães agarrado às suas partes íntimas. Provocação aos adeptos, foi assim que lhe chamaram. Coisa que o Cardozo certamente não fez.

Enfim, claro que eu também estou furiosa com o Porto por não querer ganhar isto. Claro que também eu os insulto e critico por não estarem à altura do nosso clube. Claro que não estaria a escrever isto se o Jackson tivesse marcado aqueles dois penalties. Claro que a equipa precisa de estudar para tirar boas notas. Agora não me peçam é para continuar a ouvir o outro mascar chicletes e a levar com papéis na cabeça sem dizer nada.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Ida à Lua

Há muita gente que me diz que lê este blog mas nem gosta de futebol, nem liga muito ao clube ou até gosta de uma equipa mas sem as loucuras que nós aqui escrevemos. E é para vocês que eu vou escrever hoje.

Vocês, os que me vêem chegar depois de um mau resultado do Porto e até o lamentam só por mim, pelo meu ar triste e desinteressado da vida, mas que na realidade não percebem como é que eu me posso deixar abater assim.

Vocês, os que antes de um jogo do Porto me perguntam quanto acho que vai ficar com uma ligeireza de quem só pensou naquilo quando me viu passar e não compreende que a minha resposta já conta com muitas horas, muitos dias a pensar naquilo.

Vocês, os meus amigos, colegas, conhecidos ou desconhecidos, que se preocupam com a minha sanidade mental após a última quarta-feira. Eu não estou bem, é certo, mas também não me atirei da bancada do La Rosaleda abaixo, e vou tentar explicar-vos como é que nós, os adeptos, sobrevivemos àquilo.

Então imaginem que o vosso sonho é ir à Lua. Tudo o que vocês querem na vida é arranjar maneira de ir à Lua. Sempre que vocês o dizem em voz alta, as pessoas à vossa volta acham-vos maluquinhos. Como é possível que alguém ache tão importante ir à Lua?, pensam essas pessoas, que não vos percebem. E vocês nem sequer pensam todos os dias nisso, claro, porque há outras coisas que, assim sozinhas, até parecem mais importantes do que ir à Lua: o amor, a saúde, a família. Mas porra, enquanto não chegarem à Lua sabem que não são totalmente felizes. E então, um dia, conseguem construir uma nave. Fazem uns testes e ela até funciona. Não sabem se vai ser suficientemente boa para chegar à Lua, mas pelo menos vocês sabem que vão ter de tentar.

Pronto, é mais ou menos isso. O F. C. Porto até já me levou à Lua umas quantas vezes, mas eu continuo a querer voltar lá. E quando, na primeira mão, vi futebol, vi equipa, vi jogadores e vi um adversário capazes de me levarem à Lua, mandei aquecer os motores da nave.

Para chegar mais perto da Lua, tinha de pagar um bilhete de 45 euros e fazer quase dois mil quilómetros de estrada. Estamos em crise, o dinheiro falta, o ânimo também, mas todos os sacrifícios são poucos quando se vai à Lua.

Acordar às 5.45 da manhã após ter trabalhado 9 dias seguidos para ter as folgas nos dias certos é fácil. Conduzir por estradas desconhecidas e apanhar uma multa de 100 euros de um conho espanhol é ultrapassável. Fazer contas às portagens, ao gasóleo e à comida é normal. Pela Lua, tudo.

E depois chegar lá e ver tantos rostos cansados, muitos sem dormir, roucos e exaustos, ouvir histórias de outros sacrifícios, lembrar os que não conseguem estar ali mesmo querendo tanto. Parece triste, mas quando os nossos rapazes entram para aquecer, é precisamente isso que nos motiva. Nós, os malucos pela Lua, não temos sono ou cansaço nenhum quando vemos aqueles 11 de azul (ou roxo, no caso). E saltamos, e cantamos, e acreditamos que, se nós fizemos tanto para ir à Lua, aqueles que são pagos para isso ainda vão fazer mais.

Não fizeram. Nada, mesmo. Muitos nem sequer tentaram. Outros foram desistindo. Eu vi-os, lá de cima, da bancada, a entregarem no relvado a nossa nave a outros tão menos capazes de lá chegar do que nós. Sem luta, sem chama, sem Porto. Em 90 minutos, tiraram-nos a nossa Lua.

Se o mundo fosse justo, aqueles rapazolas tinham ficado uma hora na bancada, entregues à tristeza, à frustração e ao frio de rachar, enquanto nós, que fizemos a nossa parte, íamos de avião para casa. Se o mundo fosse justo, aqueles rapazolas tinham que conduzir mais mil quilómetros sem dormir, e sempre a fazerem contas às portagens, ao gasóleo e à comida. Se o mundo for justo, aqueles rapazolas vão matar-se no domingo, vão correr e suar e comer a relva se for preciso, até eu me sentir compensada pela viagem de sonho que me roubaram.

E acreditem que, tal como numa daquelas manhãs a seguir a uma grande noitada em que a ressaca parece que vai durar para sempre, eu cheguei a pensar: “Nunca mais bebo”, “Nunca mais fumo”, “Nunca mais vou ver o Porto ao estrangeiro”, “Nunca mais me vou incomodar com isto do futebol”, “Nunca mais, nunca mais, nunca mais”. Mas sabemos que não será assim. Isto passa-me num instante porque no Porto estamos sempre a ganhar. No próximo domingo há mais. Há outra Lua para alcançar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Então, afinal, como é que isto está a correr?

Escrevo-vos dia 8 de Março, um dia depois de um Benfica-Bordéus que acabou 1-0 para o Glorioso, após pálida exibição, que foi coroada com uma assobiadela monumental no final do jogo. Isto numa altura onde se discute a renovação ou não de Jorge Jesus. Como é que as coisas estão, afinal, a correr?
Estamos em 1º, com 2 pontos de avanço sobre o Porto. E que significa isso? Bem, é óbvio que este campeonato está em contagem decrescente para o Porto-Benfica, jogo onde os azuis são, pela história recente e por muito que nos custe, favoritos. Se o Benfica lá chegar com 4 pontos de avanço, é campeão. Se chegar com 3 ou 1 ponto de avanço, pode empatar, o que - num jogo dessa natureza - nos confere aí uns 30-40% de hipóteses (é a minha opinião). E acho que, numa situação de ter que ganhar no Dragão para ser campeão, só um alinhamento planetário muito diferente dos que eu conheci nos últimos anos daria à equipa o estofo para o fazer. Que significam estes 2 pontos, então? Que convinha ganhar mais 2 nos próximos 7 jogos. A probabilidade disso acontecer? Não sei. 

Mas sejamos honestos e recuemos até ao fatídico dia em que o Zenit veio buscar Axel Witsel. Quantos de nós julgávamos possível estar em primeiro no mês de Março? Quantos de nós não imaginámos o campeonato a perder-se de forma bastante napoleónica, com a entrada do Inverno? Eu, confesso, nem conseguia fazer o onze do Benfica na minha cabeça sem Javi Garcia e Witsel. Se me dissessem que íamos a Alvalade jogar no meio campo com Matic e um tal de André Gomes, provavelmente tinham de me impedir de saltar da ponte 25 de Abril. O que é certo é que, entretanto, Enzo, dentro de um estilo que eu detesto para médio centro, fez o lugar. 
Mais: sobrevivemos a eleições fratricidas, com o culminar numa noite com violência, com sócios virados uns contra os outros, acusações, etc. E a equipa aguentou-se. Continuou a ganhar, não cedeu. Contra todas as expectativas. Não se apurou para os oitavos da Champions, mas está a caminho dos quartos na Liga Europa. Não é mais do que estávamos à espera naquela altura? 

O mérito, quanto a mim, é quase todo de Jorge Jesus. Eu tenho várias críticas a JJ: não gosto do nosso 4-4-2 (e este modelo até é mais equilibrado), não gosto que a equipa seja tão vertical - é mais provável os jogadores do Benfica lamberem todos o cotovelo ao mesmo tempo do que conseguirem gerir um jogo com posse de bola - e acho que a planificação do plantel no início da época é muitas vezes completamente ausente. No entanto, os resultados esta época vão-me desmentindo. 
O que é que isto significa? Imaginemos o seguinte (e isto vem a propósito de um texto do Ricardo, do Ontem Vi-te no Estádio da Luz): um jogador vai marcar um penalty. Mete mal o corpo, não chuta com muita força, não coloca muito a bola. É golo. Dizemos que foi mal marcado, que este gajo não sabe penalties e que, eventualmente, vai falhar mais do que acertar. A questão é que o sacana acaba por marcar 21 penalties e só falha 4. E ninguém marca mais, em 21. Então, afinal, o gajo é bom ou é mau? 
Eu também queria que JJ não fosse teimoso, que o Benfica tivesse sempre os jogos controlados e sem sofrimento, que jogássemos em 4-3-3, de preferência a trocar a bola maravilhosamente. Mas jogamos em 4-4-2, e às vezes fazemo-lo bastante bem, e até vamos em primeiro. Confusos? Eu também.

Mais enervante ainda: pedimos que a prioridade seja o campeonato e aí está essa prioridade bem marcada. Elementos fulcrais como Matic, Enzo, Lima e Salvio, neste ciclo de 6 semanas com 2 jogos por semana, têm jogado 90 minutos + 30. Maxi joga 90. Melgarejo também já foi poupado. Cardozo joga 70 minutos e ainda teve descanso forçado com a AAC. E, mesmo no meio destas poupanças, podemos chegar aos quartos da Liga Europa e com o plantel bem rodado. Confesso-vos que acho difícil fazer melhor. Também pode acontecer não ganharmos nada. Mas até culparei mais a má gestão inicial do que a gestão com o que sobrou (houve ainda o erro de deixar sair Bruno César e Nolito - não tínhamos que andar a jogar com o Roderick...).

Concluo: é mais difícil analisar antes dos resultados do que depois deles, como é óbvio. Quer o Benfica seja campeão, ganhe a Liga Europa e Taça ou não, parece-me indesmentível que a época foi mal planeada (faltam-nos médios centro) e isso é culpa da direcção. Qualquer Vítor do Paços Ferreira seria, hoje, uma incrível mais valia na alta rotação de jogos a que estamos sujeitos. No entanto, e porque naquele dia de fecho de mercado tudo parecia tão negro que nem festejámos esta notícia: os mesmos nabos que não compraram um médio foram os génios que foram buscar o Lima.
Quanto a futebol, apesar de todos os defeitos que lhe aponto, dou o meu braço a torcer a JJ: tem feito (quase) tudo bem (faltou jogar em 4-3-3 contra o Porto, com Gaitan nas costas de Lima, lição que só aprenderia após o Natal). A equipa tem jogado bem, o plantel tem rodado com prioridade no campeonato e têm-se evitado as lesões tão comuns nesta fase da época (jogadores a fazerem 6, 7 jogos em 20 dias, sem tempo de recuperação muscular). 
Em relação à renovação de JJ: por muitos defeitos que tenha - e tem-nos, evidentes - deparo-me com uma dificuldade muito grande quando penso no seu despedimento: há alguém melhor? E, quando digo melhor, estou a falar de alguém que me garantam que, de certeza, às 21ª jornada limpou pelo menos 17 jogos. Não quero cair na esparrela que às vezes o discurso de JJ tem, que faz parecer que o Benfica acabaria sem ele. Mas, não vindo Mourinho nem Klopp, quem chegar à Luz tem uma herança mais pesada do que parece.

Quero com isto dizer que me manterei crítico de uma direcção liderada por um não-Benfiquista, que não cultiva o Benfiquismo. No entanto, mantenho-me ao lado de uma equipa que me parecia morta antes de sequer ter nascido. Criticarei aqui, criticarei no final da época se for preciso. Mas não há razões para histerias, para a Luz cair em cima da equipa num jogo miserável, mas que até ganhou. Nem falo da assobiadela final (acho que no fim os adeptos que apoiam também têm direito a assobiar), falo sobretudo da impaciência brutal em que viveu o estádio todo o jogo, assobiando cada passe falhado. Não é tempo para contar espingardas, muito menos enquanto joga o Benfica. No fim, fazemos as contas. Cá estaremos para os balanços finais, como cá estivemos para as previsões. É que, afinal, isto até está a correr bem.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Não ganhar

Os adeptos que saem do sofá sabem que os melhores jogos do ano são na casa dos rivais. O que, em teoria, se torna mais difícil dentro do campo, é compensado largamente pela bancada. Há uma razão que o explica sucintamente: quem vai a estes jogos está mais predisposto a apoiar a equipa. Do outro lado, e apesar de em maioria, estão os adeptos que gostam de sentar o rabo na cadeira, de gesticular contra o árbitro e de se manifestar apenas e só quando é golo.

Quando jogamos fora, sentimo-nos mais unidos. Estamos todos juntos, muitas vezes literalmente em cima uns dos outros, e sentimos a força da nossa voz. No FCP-sportem cantam as claques, assobia-se de vez em quando o árbitro, há uns insultos soltos aqui e acolá. No sportem-FCP cantamos todos, assobiamos todos e insultamos todos.

Nestes jogos há ainda outro aliciante. É que ao lado dos nossos 2 ou 3 mil adeptos, estão os outros. E eu sinto uma certa admiração pelas pessoas cujo lugar está ao lado da bancada dos visitantes. Sinceramente, nunca consegui perceber como é que aguentam. Espero mesmo que sejam figurantes pagos para fazer de conta que são daquele clube, porque nenhum adepto normal suportaria tal tarefa. Ora bem, imaginando que damos 5-0 a um rival em casa, eu percebo que estas pessoas até se divirtam, porque vêem os outros. Mas isso compensa mesmo todos os outros minutos a ouvi-los, a levar com insultos constantes e, às vezes, credo, até a vê-los festejar? Não me acredito.

É que nós, quando vamos ao estádio de um rival, passamos muito tempo virados para os lados. É um vício terrível: apoiar, gritar, cantar, insultar, festejar, mas para o lado. Olhar para a cara de um rival enquanto beijamos um escudo de campeão imaginário é uma coisa inexplicável de tão boa. E o jogo do último sábado, embora o adversário fosse o 11º classificado, não foi excepção.

No entanto, do outro lado estavam uma espécie de adeptos-fantasma. Não quero assim criticar quem ainda consegue ir ver jogos do 11º classificado sem ser obrigado ou pago para isso, juro, até sou daquelas pessoas que reconhece muito mérito aos adeptos das equipas pequenas. Só que nunca tinha tido a sensação de estar a provocar uma parede. Nós cantávamos que iam para a segunda, que o sportem é merda até morrer, que a juve leo coiso, e nada. Nadinha. Nenhuma reacção.

Também é verdade que entrámos demasiado cedo, quando no estádio ainda estava apenas um funcionário do sportem a fazer joguinhos com meia dúzia de pessoas que penso reconhecer daquelas imagens de adeptos a chorar com a saída do Liedson. «Quem é quem?» - é assim que se chama o jogo que basicamente consiste em desfocar uma fotografia de um jogador do sportem e tentar que os adeptos adivinhem quem é. Quem acertar, e conforme o grau de desconfiguração do dito jogador, recebe prémios como camisolas autografadas por todos os jogadores e um lugar grátis para todos os jogos em casa até ao fim do campeonato. Prémios que, em qualquer clube decente, são coisas que não se oferecem, porque os adeptos querem-nos tanto que até os compram, imaginem.

É tão deprimente, a sério... A excitação do funcionário do sportem contrasta tanto com o desânimo dos adeptos... E depois, ainda por cima, estávamos lá nós. E apareceu um jogador mulato desfocado e nós, mauzinhos: “É o Liedson! É o Liedson!”. E depois um jogador desconfigurado mas claramente muito baixinho: “É o Moutinho! Só pode ser o Moutinho!” Que horror, que sentido de humor macabro. E o senhor lá continuava, a distribuir game boxes como quem atira moedas de cinco cêntimos para as bancadas de gente rica. E os adeptos lá aceitavam, coitados, conformados a terem de ver os jogos todos até ao fim da época.

Enquanto isso, há uns adeptos do sportem no relvado, não sei bem a fazer o quê, devem ter ganho um passatempo, que azar. E são filmados e deles se espera que gritem, que abanem o cachecol, que apoiem o sportem, sei lá, essas coisas que os malucos dos adeptos fazem. E eles sorriem para a câmara, meio com vergonha de estar ali, meio com vergonha de ser do sportem. Coitados, nunca mais participam de certeza.

Isto é mau, mas continua, porque no sportem há joguinhos para entreter os adeptos! Percebo que tenham de os fazer antes do jogo, porque durante e depois não costuma ser muito divertido. O segundo jogo chama-se qualquer coisa como «O preço certo» e consiste em mostrar imagens de produtos do sportem até os adeptos adivinharem o preço ou um deles se aproximar mais do que os outros. E então lá ouvimos nós mais uns adeptos a dizer “35 euros” por um casaco que custa 68 (amigos, isto é o sportem, acham mesmo que há artigos baratos numa loja de elite?), e pronto, lá vai um casaco grátis para alguém, como se essa pessoa não tivesse vergonha de o usar fora daquele estádio. E nós, maus, muito maus, a mandar piadas que o casaco ia para o Porto por troca com o Miguel Lopes.

Bem, mas o jogo lá começa e, agora sim, isto vai aquecer. Não, não vai. Eles nem olham para nós. Estão 20 e tal mil pessoas de verde a olhar para todos os lados menos para nós, alguns assobiam para o ar, a outros já lhes dói o pescoço. E nós cantamos pelo Moutinho, pelo Izmailov, pelo Varela, pelo Liedson. E nada, coitados, nada. Uns assobios, tímidos, mas nunca o temor que habitualmente uma casa do rival provoca.

E chega o intervalo e, com ele, mais uma cena super divertida! No relvado estão mais algumas dezenas de adeptos (há algum adepto do sportem que não tenha ido ao relvado? É obrigatório? Precisam disso para nos mostrar que ainda há adeptos do sportem?). Explica o funcionário que são os novos sócios do sportem. E nós pensamos: “Porra, mas quem é que se faz sócio do sportem? Bebés obrigados pelos pais? Mulheres obrigadas pelos maridos? Idosos com Alzheimer?” Não, não, aparentemente estão ali de livre vontade. E depois percebemos porquê.

A minha memória não é das melhores mas penso que a razão é qualquer coisa como isto: qualquer sócio do sportem que inscreva outra pessoa como sócia ganha dois bilhetes para qualquer jogo, tem três meses de quotas grátis e mais não sei o quê que não me lembro (deve ser uma camisola autografada, porque aparentemente ninguém quer recordar esta época comprando camisolas do Wolfswinkel). E o novo sócio tem a inscrição gratuita, mais dois bilhetes, um benefício qualquer na banca e seis meses de quotas grátis. A sério, eu ouvia isto e a certa altura pensei: bem, às tantas compensa eu ser sócia do sportem, porque o meu bilhete custou 25 euros. Muito convincentes os senhores. Ou desesperados, depende do ponto de vista.

Com a segunda parte e um Porto precipitado, irreconhecível e desajeitado, eles começaram a acordar. Não falo das críticas ao árbitro, porque em alvalade não morre a tradição de achar que qualquer lançamento para a outra equipa significa o roubo de um título, mas dos insultos para o nosso lado. Há um livre perigoso para o Porto e inútil do Danilo (pela 12423857489572456ª vez esta época) remata ao lado. E vira-se um lagarto para nós e beija o símbolo do sportem que tem na camisola, gritando insultos que naturalmente não consigo ouvir mas dá para imaginar. Ainda hoje não percebo a relação entre um livre falhado pelo meu clube (apenas mais um entre tantos) e o aparente orgulho no clube de outra pessoa. 

Mas os últimos 10 minutos foram passados assim, virados para nós. Cantavam, batiam palmas, insultavam-nos. Ressuscitaram, portanto. Eu, confesso, estava paralisada de tão incrédula. Olhava para o ecrã constantemente, com medo que eles tivessem marcado um golo e eu nem tivesse reparado. Estão a cantar porquê? Que tipo de vitória é esta que vale 1 ponto? Como é possível que tenham chegado a isto? E aí caiu-me a ficha: o sportem estava em 11º (hoje está num honroso 10º lugar) e bem se viu pela forma como jogaram que não estavam ali para ganhar, para lutar pela manutenção ou sequer para dar o campeonato ao benfica, como o avançado prometeu. Eles apenas quiseram mostrar que estão vivos.

Apesar de visivelmente frustrados com o resultado (vamos ser novamente das poucas equipas a não ganhar em alvalade este ano), respondemos de maneira fácil. Nunca tinha reparado, porque habitualmente não me pego com adeptos das equipas pequenas, mas explicar por gestos que eles estão cheios de medo (as duas mãos com os dedos todos esticados, a convergirem na mesma direcção) de ir parar (um dedo esticado a deslocar-se de cima para baixo) à segunda divisão (dois dedos de uma mão) é bastante perceptível à distância. 

Mesmo assim, saí de alvalade com a sensação que fui goleada, que perdi um campeonato e que o Porto nem sequer por lá passou. Nem se trata de não saber perder, trata-se mesmo de não saber não ganhar. Principalmente quando do outro lado estão bancadas repletas de fantasmas, ligados a uma qualquer máquina para conseguirem respirar ainda algum orgulho, e tão habituados a não ganhar que se contentam em não perder. 

P.S. Não gostei mesmo nada do Porto. Não admito que estejam a pensar noutras coisas e não aceito desculpas como as lesões. Já tiveram a vossa falha, agora não aceitamos mais.

P.S.2 O sportem está meio morto, mas nunca podemos tratá-los como se não fossem um rival. Ter pena dá nisto: facilitar e perder pontos.

P.S.3 Tenho tido imensa dificuldade em comentar as últimas vitórias do benfica. Queria poder dizer que foram beneficiados pelo árbitro x ou y, mas aparentemente agora a regra é nomear desconhecidos para os seus jogos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Força, 11º classificado!

Amanhã, as equipas às riscas vão jogar uma contra a outra e eu, como Benfiquista, consultando a classificação, tenho o dever de torcer contra o Porto, aqueles das riscas azuis verticais que parecem as barracas da praia de Carcavelos. Isto, trocado por miúdos, fará com que eu tenha de incentivar o Sporting, o que é, para mim, tão agradável e natural como falar bem do Relvas.
No entanto, porque o Benfiquismo a isso obriga, não nos resta senão tentar incentivar os nossos vizinhos. Em primeiro lugar, lagartos, nós sabemos que, se por um acaso do divino, os pontos que vocês roubarem amanhã ao Porto nos derem o campeonato, muitos de vós rasgarão os cartões de sócio e nunca vão conseguir digerir os nossos agradecimentos. Obviamente, que isto só nos dá mais razões para vos incentivar (talvez não seja a melhor forma de o fazer, admito): tirem-lhes lá pontos e receberão os nossos paternais e gozões obrigados.

Depois, eu não sei vos já viram a classificação, mas (como é que eu hei-de escrever isto sem me rir?) a segunda divisão não está longe. Para a evitarem, convém somar pontos. Não é que eu queira muito que vocês fiquem na primeira divisão, mas do vosso ponto de vista (no qual nunca me coloquei na vida) talvez não fosse mau evitarem descer (do ponto de vista dos patrocínios, porque desportivamente acho que a Liga Vitalis está mais ao vosso alcance). Portanto evitem aquele espírito suicida de "Vamos perder para foder os lamps" e, se por alguma réstia de orgulho o quiserem fazer, imaginem-se a jogar às onze da manhã, no Inverno, com o Covilhã, que isso vos passa. 


De seguida, e isto é dirigido aos vossos jogadores, vejam o jogo de sábado como uma oportunidade. Vejam no outro lado, de azul, Ismaylov, Moutinho, Varela e Liedson e pensem: "eu posso estar ali!". Esqueçam as vossas fraquezas e acreditem! Vejam o jogo como um treino de captação. Marquem golos e corram para o banco do Porto e mostrem-lhes, de costas voltadas e polegares apontados, os vossos nomes e números da camisola. Uma boa exibição no sábado pode levar-vos a um clube que, ao contrário do vosso, paga salários. Pensem nisso: salários! 
Não quero com isto que vocês, cepos de verde e branco, se metam com fintinhas e que num individualismo estúpido tentem só fazer pelas vossas carreiras. Não, o "jogador à Porto" é um jogador com sentido colectivo, abnegado e até com algum doping (o qual aconselho muito para sábado. Exagerem nas doses, sem medos. Vocês nunca conseguirão ir para o Porto se não suportarem as doses cavalares que o Mangala come ao pequeno almoço. Portanto, já sabem, sábado quero 11 Armstrongs!). Quero com isto dizer que se devem esquecer, apenas no sábado, daquele discurso delirante do "Grande Sporting". Sejam sérios, olhem para a classificação: vocês estão em 11º lugar em 16 equipas. Deve um 11º classificado comportar-se como um "grande"? É óbvio que não. O que se vos pede é muito simples: todos lá atrás, porrada neles e chutão para a frente para o Capel e para o Carrillo. Nada de entusiasmos, até um pontinho já é bom. Mais ainda, atirem-se para o chão, percam tempo, façam todo o anti-jogo possível. 
Há que assumir a beleza quase poética da equipa de meio da tabela (pronto, ok, fundo da tabela): um guarda redes salvador (Patrício), um caceteiro no meio campo ao bom estilo do grande Filipe Anunciação (pode ser o Rinaudo) e um coxo lá à frente que até já marcou ao Benfica, um género de Dino do Beira-Mar, que neste caso é o Van qualquer coisa. Perfeito, perfeito é deixarem de jogar em Alvalade, que é muito grande e tem um relvado muito comprido para uma equipa pequena e tentarem transferir o jogo para Rio Maior, onde jogam os vossos Bs. Embebidos desta competitividade, deste espírito meio Jaime Pacheco, meio José Mota, grandes coisas podem acontecer no sábado. 


Se, por obra do acaso ou por ordem natural das coisas, algures à meia hora estiverem a levar 0-3, aí sim, lembrem-se que são o "Grande Sporting". Vão-se ficar? Eles levam-vos jogadores, estão sempre a gozar convosco, e vocês ficam-se? Lesionem quatro ou cinco deles, que é para eles aprenderem! O Jackson em primeiro lugar! Digo-vos mais: se estiverem a perder, o que seria mesmo digno da vossa parte era uma grande invasão de campo, à antiga, acabando o espectáculo com os jogadores do Porto todos atirados para aquele vosso bonito fosso e a serem apedrejados. Aí sim, tinham-se vingado do Futre, Moutinho, Liedson (não vou continuar para vocês não chorarem).

Eu, como Benfiquista, sei da inutilidade deste meu texto. Incitar os verdes contra os azuis é como pedir a um cão, mal tratado, mas fiel, que morda o dono. Para já, o pobre animal tem um aspecto esfomeado e miserável e não pára de latir, o que torna quase insuportável torcer por ele. Por outro, sabemos que o bicho é estúpido e que nunca vai morder o dono que lhe está sempre a dar biqueiros no focinho. Mas não custa tentar. Vá lá, lagartos, façam-se úteis!