domingo, 28 de abril de 2013

Benfiquista de Faro

No infantário e na primária eu tinha que me defender do J. e do T., dizendo-lhes que, apesar de viver em Faro, eu tinha nascido em Lisboa, e que portanto podia ser do Benfica à vontade. O J. simpatiza com os lagartos, mas é do Farense. O T., companheiro de carteira, é do Benfica, mas só muito depois de ser do Farense. Nenhum hesitava quando o seu “2º clube” ia lá jogar : eram farenses, eram do Farense.
Serve isto para mostrar, como diz o hino, “do que a gente de Faro é capaz”: era-me permitido ser do Benfica, não por o Benfica ser o Benfica, mas porque eu tinha nascido em Lisboa (mesmo que, aos 4 anos, Lisboa representasse para mim a casa dos meus avós – que era em Oeiras – e o Jardim Zoológico, que eu tinha visitado uma vez). 

Com os anos comecei, também, a ir ao São Luís e torcia pelo Farense contra todos – com especial fervor contra Porto e Sporting – menos, claro, contra o meu Benfica. Cresci com o Hajry, Serôdio, Mané, Pitico, Rufai, Hassan, Hugo e, claro, Paco Fortes. Não gostava do verde alternativo, mas simpatizava com o ambiente, com as tardes de sol, e com o facto de quase ninguém lá ganhar.
Lembro-me dos Farenses – Porto de 92/93 e 93/94, 1-0, com golos de Hugo e Stefanovic, respectivamente. No primeiro, não fossem Dino e os irmãos Calheiros, tinha sido a oferta de um campeonato para o Benfica, e o segundo, de noite, custou o cargo a Ivic. Era-me, portanto, difícil não simpatizar com o clube. Apesar de também o Benfica passar mal no S. Luís (eu estava lá, quando levámos 4-1), o clube tinha uma identidade, um fervor ao qual era impossível ser indiferente. O Farense era o único clube que tinha um treinador há não sei quanto tempo e as tardes de última jornada, com o estádio cheio e a precisar de uma vitória para não descer davam-lhe uma aura que os diferenciava da restante classe média-baixa do futebol português.



Quando vim para Lisboa abateu-se a desgraça sobre o Farense. De clube praticamente invencível em casa, passou às distritais, a ser forçado a jogar com os juniores porque não podia inscrever os seniores. Como Salgueiros, Boavista e Estrela da Amadora, o Farense parecia condenado. Hoje provou-o que não.
Hoje regressei ao S. Luís e tive pena que o T., cuja crise o obrigou a emigrar para longe, não pudesse ver o estádio onde tantas e tantas tardes passámos juntos à pinha, novamente local de romaria de uma terra. Um estádio com camisolas de muitas épocas, onde várias gerações (como a minha) foram recordar os tempos do S. Luís cheio, impossível para os adversários, como na vitória por 4-0 ao Marítimo em 95, que acabou com o estádio a cantar o “bailinho da Madeira”. 

Foi uma tarde à antiga, num estádio onde se pode beber cerveja, onde há tochas, fumos e bandeiras. Onde os miúdos invadem o campo para jogar à bola no intervalo. Isto, obviamente, é a minha visão de Benfiquista, que foi passar uma tarde porreira, antes de se enervar de morte com o jogo na Madeira amanhã. Mas foi uma tarde para recuperar outras memórias (”o futebol é o nosso regresso semanal à infância”) e para me lembrar de que, além do Benfica, gosto do jogo. Das suas gentes, dos seus surrealismos, dos rituais.


O Farense ganhou num jogo com duas bolas ao poste, com 3 golos anulados por fora de jogo (no terceiro um adepto despejou uma cerveja para cima do fiscal de linha. Imperdível.) e com um penalty sacado pelo estádio. A invasão de campo final, com o mítico hino do Farense a passar nos megafones envelhecidos, foi o corolário de anos de sofrimento. A vitória do Farense fez-me sorrir, mas deve ter feito chorar todos os que sofreram a bom sofrer todos estes anos.
O J., percebo pelo facebook, estava lá. O T., no Brasil, deve ter recebido mensagens de loucura. Vou dar-lhes agora os parabéns. Estes anos todos, talvez já não pegue a desculpa de ser do Benfica por ter nascido em Lisboa. Mas acho que, passado tanto tempo, e com a felicidade da subida, nenhum dos dois me vai chatear com isso hoje.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para ti, lagarto do pano

Quando, numa noite de Dezembro (Dezembro?) de 2001, no velhinho estádio da Luz, Mário Jardel se deixou cair, sacando um penalty decisivo no caminho do título do Sporting (ganhando esse derby, o Benfica passaria para primeiro lugar), eu estava lá. Foi um jogo mágico, onde Beto defendeu um remate em cima da linha e viu amarelo, JVP agrediu um jogador do Benfica e manteve-se em campo, enfim, foi uma coisa maravilhosa. A verdade é que o Sporting tinha melhor equipa: JVP, Jardel, André Cruz, Paulo Bento, Viana, etc, enquanto nós acreditávamos no Mantorras.

Foram tempos duros, em que fui gozado que nem um cão. Que nem um cão. Ir para o liceu era um inferno, ver jogar o Benfica era um pesadelo, aturá-los era horrível. Para cúmulo, o Benfica ganhou 2-1 ao Boavista (num jogo péssimo, péssimo) e eles foram campeões. Quando cheguei ao liceu no dia seguinte, depois de dormir a ouvir buzinas lá fora, estava um pano colado no portão "OBRIGADO, 4º CLASSIFICADO". 
Foda-se, aquele pano magoou-me. Eu admito a fraqueza, aquilo chateou-me. Um tipo supera e ignora várias provocações, tenta até ser um vencido digno e de cabeça levantada, capaz de manter diálogo com amigos do inimigo, mas há limites. Claro que se comentou rapidamente no liceu quem tinha sido o artista. Era primo de uma amiga minha e andava a passear aquela camisola (horrorosa, uma coisa impressionante) com um sorriso que hoje, na minha memória, ficaria melhor num cavalo. Chateou todos os Benfiquistas que encontrou enquanto eu - que ele não conhecia - lhe dirigia insultos sentado a um canto do pátio de liceu, a fazer contas aos reforços que compraríamos com os 18 milhões de contos que íamos receber pelo Mantorras.

Eram, como vos digo, tempos duros. Serve isto para lembrar que está no ADN de um Benfiquista gozar o Sporting. Isto é uma coisa que os adeptos do Porto não percebem, mas há coisas que são genéticas, que estão enraizadas e que estão demasiado vincadas. Há uma história entre Benfica e Sporting, houve jogadores que foram roubados quando o Benfica nasce e, para a minha geração, houve o Verão de 1993, em que nos foi roubado Pacheco e o boi de Repeses (um rapaz que jogava a trinco e que quando chegou à Luz nem sabia o que eram talheres). 
Faz-me, então, confusão, que alguém tenha "pena" do Sporting. Que alguém diga que "faz falta um Sporting mais forte" e coisas dessas. Que é preciso distanciar o Sporting do Porto para fortalecer a posição estratégica do Benfica no futebol português, concordamos. Mas querer bem ao Sporting? Não me lixem.

Eu tenho grandes amigos do Sporting, pessoas de quem eu gosto e que admiro, que são sportinguistas doentes (com o desplante de acharem MESMO que ser do Sporting é bom), mas a quem desejo todas as maldades possíveis desportivamente. Agora, desejar-lhes bem? Não aproveitar para os pisar? Não gozar estar 37 pontos à frente? Não amar ver o Eduardo Barroso a estrabuchar? 
Eu, sempre que vejo um Rojo com a bola e sou assumado por um pingo de nostalgia futebolística e penso "Epá, eu já vi ali o Balakov" e até me lembro do antigo estádio de Alvalade, recordo-me daquela manhã de liceu, daquele gajo com ar de gozo, a chatear malta do Benfica. Lembro-me do inferno que era vê-los todos contentes na rua. Recordo-me também desse Verão de 1993, em que me senti adulto pela primeira vez, quando fiz, com o meu amigo T., um plano de meio campo para a época seguinte, sentados no chão cor de tijolo, à sombra, desprezando a futebolada ao sol que se jogava no infantário. Mas lembro-me, sobretudo, daquele pano. 

É por isso que desde que ganhámos ontem que me sinto maravilhosamente bem. Acordo bem disposto, o café da manhã sabe melhor, trocam-se olhares cúmplices com correlegionários pela rua. Leio os jornais, as crónicas, a imprensa nacional e internacional. Fico bem disposto. 
E lembro-me sempre daquela manhã de liceu, em que a minha adolescência ficou manchada e interrogo-me onde andará aquele lagarto. Deve andar pior que fodido. Imagino-lhe a dor, imagino-lhe a raiva e as fases todas do luto. E imagino-o a recordar-se daquela manhã de liceu, em que se sentiu o maior. E venho dizer-lhe, do alto dos meus 37 pontos de avanço, mais 41 golos marcados e menos 18 golos sofridos, que quem se ri agora é aquele puto sentado no canto do liceu e que há muito que as nossas vitórias já queimaram esse pano.

Agora, calma e concentração, que ainda falta muito.

PS: Desculpem a demora (estivemos sem computador uns tempos e dá azar escrever na semana prévia ao derby)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Aos portistas

Olá portista, como estás?

Zangado, frustrado e triste, presumo. Não estás a habituado a estar em segundo lugar, ainda que isso seja o resultado de dois penaltis falhados, arbitragens duvidosas e de um adversário que, convém ter noção disso, está a perder ainda menos pontos do que a tua equipa invencível.

Não vou, por isso, censurar-te pelos assobios que ouvi no Dragão na segunda-feira. Não me pareceram constantes, nem sequer suficientes para colocar em causa o apoio dado, e houve até uma altura em que um coro mais uníssono me pareceu útil para nos acordar a todos, dentro e fora do relvado. És muito exigente, portista, eu sei disso, pelo que também eu não percebi por que razão amuaram os jogadores, se por tantas outras vezes tu foste tão injusto e eles nem se incomodaram.

Eles, que tantas vezes não te agradecem quando fazes sacrifícios para os seguires, como se levantar as mãos no fim de um jogo para a tua bancada fosse equiparável ao que tu pagas em bilhetes, gasolina e portagens, aos aniversários e festas de amigos e familiares que tu perdes e às horas de trabalho que tens de compensar para o fazer.

Não é agora, portista, que tu vais mudar.  Pelo contrário: é agora, na iminência de um título do rival, que vais tornar-te mais insuportável. Vais querer perder pontos para dizeres lá no café que tens razão e que o treinador é mau. Vais assobiar aquela substituição do capitão por um puto de crista que tem a mania que é o Neymar. Vais fazer do Dragão um inferno para os vermelhos do sul, mas vais continuar a ser um mimo para quaisquer vermelhos do norte que por aqui apareçam.

E porquê, portista? Por que razão és este adepto? Como é que transformaste o Tribunal das Antas nesta Feira do Dragão? Como é possível que, aos 44 minutos de um jogo com o braga que tens mesmo de vencer, haja um livre perigoso para a tua equipa e tu te levantes da cadeira para ir à casa-de-banho ou comprar pipocas antes dos outros? O intervalo chama-se assim porque é isso mesmo: um intervalo naquilo que interessa. Nem um minuto antes, nem um minuto depois deve ser desperdiçado. Aqueles jogadores que tu assobias têm de aguentar o xixi e não podem ir para a fila da Coca-Cola, já reparaste? Se eles, que não são do F.C. Porto como tu, não podem perder um segundo daquilo, como é que tu achas que tens esse direito?

A que propósito é que até em Málaga, quando um golo dos teus rapazes bastaria para passar a eliminatória, decidiste sair mais cedo da bancada para não ficares retido? Viste ontem aquele jogaço em Dortmund? Sabes o que tinha acontecido no Dragão se o Eliseu tivesse marcado aos 85 minutos? Tu tinhas saído. Não aguentavas. Tinhas mais que fazer. No dia seguinte trabalhavas e ainda nem sequer tinhas jantado. Que vida horrível terias tu se fosses obrigado a ver aquilo até ao fim, não era? Tu podes decidir e decidias sair mais cedo porque a equipa estava a ser dominada, o treinador não era o que tu querias e tu não tinhas de ficar para ver aquela humilhação. Oh, que chatice, mas a tua equipa dava a volta nos descontos e tu não vias. Deixa lá, qual é o mal, quando a taça fosse tua ias para os Aliados gritar aos microfones das televisões que estiveste sempre lá, que sempre acreditaste, que sempre soubeste que ias ganhar, mesmo quando estavas a perder a cinco minutos do fim.

Pois é, portista, tu hoje és assim e nem notas. Faz hoje 10 anos que ganhaste à Lazio nas Antas, lembras-te? Chegaste ao estádio e havia um lençol gigante a pedir para te deixarem sonhar, porque estavas nas meias-finais da Taça UEFA e acreditavas que podias ir mais longe. Chovia imenso e eles marcaram primeiro. Mas tu nem por um momento duvidaste da tua equipa. Sentias, sabias, que aquela era a tua noite. E foi. Foi dos melhores jogos de sempre do F.C. Porto, uma reviravolta histórica que marcou um percurso maravilhoso pela Europa. Depois disso, estiveste em Sevilha e em Gelsenkirchen, repetiste o Mónaco, regressaste a Tóquio, visitaste Dublin e, nos intervalos disso, ganhaste tanta, tanta coisa.


Fogo, portista, tens uma sorte do caraças. Já imaginaste como seria a tua vida se fosses de outro clube? Se no dia 3 de Abril de 2010 tivesses batido palmas aos teus jogadores quando o rival foi campeão em tua casa? Se tivesses ido votar no Bruno de Carvalho na esperança de garantir a manutenção? Se achasses que eras grande só porque jogas bem durante uns anos mas não ganhas nada (pausa na narrativa para declarar ódio ao Peseiro, que tanto ataca e tanto quer jogar bonito, mas foi jogar ao Dragão sem ponta-de-lança e como uma equipa muito pequenina)? Coitados deles, não é?

O teu problema, portista, é ao mesmo tempo o teu grande orgulho: não sabes perder. Não percebes que a equipa esteja empatada mas mantenha a calma, porque os jogadores sabem que só com paciência chegam lá. Mas se tu estás tão nervoso como é que eles não passam os últimos 20 minutos só a chutar para a frente? Era o que tu farias, não era? Corrias imenso, suavas a camisola que tanto amas, comias a relva se fosse preciso. Podias não ter ganho, como eles ganharam, mas deixavas lá tudo. Mas podias não ter ganho, nota isso.

Não sabes, nem queres, aprender que as derrotas tornam as vitórias mais saborosas. Olha os outros, coitados, que andam há dois anos a ser humilhados das mais variadas maneiras e mesmo assim andam tão contentes. E aqueles, que festejam uma vitória em casa contra o moreirense treinado pelo amigo como se fosse o fim do mundo. Que pobres, que tristes. Mas se os outros forem campeões este ano vão festejar durante meses e vão fazer deste título uma garrafa de oxigénio capaz de aguentar mais uns tantos anos sem ganhar. E se os outros, imagina que isso acontece e até o vais festejar, forem sacar pontos à luz na próxima semana, esquecerão rapidamente uma das mais vergonhosas épocas da história de um grande.

Mas juro que não quero que percas para eu poder dizer que tenho razão. Acredito que ainda é possível que isto se componha nas próximas semanas e que no fim acabemos abraçados, a rir-nos daquele dia em que tu assobiaste os futuros tricampeões.  Espero sinceramente que tudo corra bem e que tu continues assim, habituado a ganhar sempre, sem paciência para as circunstâncias e os obstáculos do jogo. Não te quero conformado, nunca, porque no dia em que isso acontecer será sinal que o teu clube mudou.

Vamos a eles, portista, ainda há cinco jogos para mostrares o que vales.