domingo, 23 de junho de 2013

Cardozo, o anti-herói

Não tenho vontade de escrever por razões óbvias. O defeso arrasta-se com comunicados absurdos do Benfica e com a procura de jogadores sérvios e argentinos dos quais nunca ouvi falar (já lá vão, há muito, os meus tempos de jogador de Manager, conhecedor das profundezas da segunda divisão espanhola e afins) o que, sinceramente, não me atrai. É preciso que comece rapidamente o futebol a sério e que o Benfica comece bem a época para eu conseguir voltar a portar-me como uma pessoa normal, o que quer dizer deixar de estudar e trabalhar tanto e deixar de ler os policiais fabulosos que tenho lido para voltar a ficar a pensar na evolução do Ola John como jogador num campeonato onde se defende e outros assuntos de maior nomeada.

A única razão que me leva a espreitar, com terror, os jornais desportivos todas as manhãs é a novela sobre Oscar Cardozo. É uma altura da vida do Benfica muito estranha. Por exemplo: Luisão, o nosso capitão, com dez anos de casa, não sabia que a última vitória europeia do Glorioso tinha sido em Amesterdão. Numa altura assim, com tão poucas vitórias, é muito difícil ter heróis. É difícil ter um nome na camisola quando todos nos lembram recordações amargas e em nenhum sentimos uma identificação plena e convincente com o nosso clube. (Não entendam com isto que sou dos que querem mais portugueses no plantel só por que sim: eu quero bons jogadores. Portugueses como o Roderick que fiquem longe.) 
No entanto, neste tempo sem heróis, e enquanto nos distraímos com centrais com nomes menos agradáveis e não conseguimos comprar nenhum médio centro ou pelo menos comprar um avançado que por acaso tenha um irmão que jogue a médio centro (ou a lateral, já agora), podemos ver partir o melhor marcador estrangeiro da história do Sport Lisboa e Benfica.

Eu vou repetir, para o caso de alguém não ter percebido: o melhor marcador estrangeiro da instituição secular Sport Lisboa Benfica, que aceita jogadores estrangeiros desde 1979/1980, pode estar de saída. Num tempo sem heróis, sem ídolos para a vida, pode estar de saída um homem cujo nome já ficou gravado para sempre na nossa memória. Já lhe agradeci, noutro texto, e acho que os argumentos a favor de Tacuara são de sobra. Lixa-me a vida pensar que para o ano, a olhar para os onze rapazes que vestem o manto sagrado, não só não me identifique com nenhum, como não possa ver aquele matulão desengonçado que me fez gritar como um louco o terceiro golo nas meias finais da Liga Europa num hotel em Viena e que parta assim, sem honra nem glória, parte da história do Benfica. 

Gosto de policiais, sobretudo dos que acabam mal porque me parecem histórias sempre mais reais. Gosto dos anti-heróis porque são sempre as personagens mais ricas, com defeitos deliciosos. Gosto de Pepe Carvalho, o detective de Montalban, que queima livros para pensar e cuja namorada é puta em Barcelona. Tenho saudades de George Smiley, de John Le Carré, que é gordo, está sempre a suar, não tem sentido de humor e cuja mulher o traiu com a toupeira russa nos serviços secretos britânicos. Admiro Bernie Gunther, de Philip Kerr, um detective privado anti-nazi em pleno III Reich. Deliro com Sam Spade e Philip Marlowe, ambos representados por Bogart, detectives de gabardina e cigarro. Mas gosto, sobretudo, de Oscar Tacuara Cardozo. Sem grande coordenação motora, sem pé direito, sem velocidade. O anti-herói Benfiquista, com um número histórico nas costas e outro, de golos, nas botas. Safou-nos, como estas personagens, inúmeras vezes. Fartou-se de marcar golos. Em casa, fora, aos verdes, aos azuis. Lá fora e em casa. No meu tempo de vida, nunca festejei tantos golos com um jogador. 
Falhou o golo isolado frente a Helton na primeira volta, cicatriz que partilha connosco. Portou-se mal com Jesus na final da Taça, mas quantas vezes não se embebedou Marlowe?

Numa época sem heróis, leio todos os dias os jornais desportivos com medo que este policial acabe mal. 



PS: E como se isto não bastasse, o meu pai ganhou um campeonato de columbofilia este fim de semana. O nome do pombo que pontuou para a vitória? Tacuara.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Guerra dos Tronos

O FCPorto é um clube estável há 30 anos. Ganhamos mais do que os outros porque somos melhores e porque os outros teimam, felizmente, em não aprender com os erros. Somos mais unidos, mais ambiciosos e mais exigentes. Temos altos e baixos como todos, mas, na hora da verdade, seja na última jornada ou ao minuto 92, olhamos nos olhos dos rivais e sentimos que somos mais fortes.

benfica e sportem mudaram muito em 30 anos. De presidentes, treinadores e equipas, de adeptos que, sem antecedentes familiares, passaram a usar tons de azul, de objectivos e conquistas diminuídos e também de mentalidade. Hoje, ambos têm uma certeza: o alvo a abater somos nós.

Do benfica já sabemos o que esperar. Não precisamos de grande motivação para alimentar esta guerra. Esta rivalidade está entranhada nos nossos avós, que viram como nos faziam pequenos à beira deles, nos nossos pais, que aguentaram tantos anos sem ganhar, e em nós, que, apesar das grandes humilhações que lhes temos proporcionado, sabemos como é difícil lutar contra eles.

Com o sportem, no entanto, parece que precisamos que alguém nos lembre que a guerra não acaba quando o adversário está caído no chão, a definhar. Desta vez foi o novo presidente, rapaz de voz rouca e ego maior do que o buraco financeiro do clube, que anunciou o corte de relações com o FCPorto. Portanto, resumindo, o sétimo classificado do campeonato não quer nada com o primeiro.

A guerra dos tronos no futebol português é isto: enquanto nós continuamos a dominar, os outros insistem em tentar derrubar-nos. E, de vez em quando, lá aparece um «lord» qualquer a mostrar serviço aos seus seguidores, que exigem o ódio ao Porto como ponto de partida para «o novo ciclo» de batalhas que aí vêm. Vestem as armaduras, exibem os seus estandartes ao alto com orgulho e gritam que estão prontos.

Na ficção, uma música foi escrita para eternizar o fim da «casa» Reyne de Castamere. No fundo, serve de aviso para todos aqueles que declaram guerra aos mais fortes quando não estão notoriamente preparados para a travar. Na realidade, tentem não esquecer-se disto, lagartos:



And who are you, the proud lord said,
that I must bow so low?
Only a cat of a different coat,
that's all the truth I know.
In a coat of gold or a coat of red,
a lion still has claws,
And mine are long and sharp, my lord,
as long and sharp as yours.
And so he spoke, and so he spoke,
that lord of Castamere,
But now the rains weep o'er his hall,
with no one there to hear.
Yes now the rains weep o'er his hall,
and not a soul to hear.

domingo, 2 de junho de 2013

Vamos ao hóquei

Não percebo como é que alguém pode estar contente com o que se está a passar no hóquei em patins. Não sei se já repararam, mas parece estar a tornar-se um hábito que, além da época futebolística já de si cheia de episódios de clubite duvidosa, surjam depois as modalidades como braço armado da guerra comprada entre os nossos dois clubes.

Antes que eu pareça politicamente correcta, deixem-me lembrar-vos que eu odeio o benfica. Não sou grande fã de hóquei em patins mas, se o Porto puder ser campeão contra eles com um 7-3 humilhante, por mim tudo bem. Tudo óptimo, aliás. Admito ainda que, para um lampião, seja melhor nem comparecer a mais uma final. Mas isto que se está a passar não é nada disso: não é um clube a tentar derrotar o outro, não é rivalidade, não são as picardias normais entre adeptos. É uma vergonha. E para todos.

O que vos peço ao lerem este texto é para despirem a camisola por uns segundos, por muito horrível que isso possa soar. Se são do FCPorto, lembrem-se como nos sentimos quando, com os bilhetes na mão, nos impediram de passar as portagens de Alverca porque não nos garantiam a segurança no pavilhão da luz. Ficámos indignados, certo? Como era possível que a organização de um jogo (clube anfitrião e polícia) estivesse a admitir, à partida, que não era capaz de o fazer?  O que seria feito de uma modalidade cujos adeptos estavam proibidos de ir ver os jogos fora? Por que não se sentam todos à mesa e discutem como melhorar os pavilhões, a actuação da polícia e afins, para que isso não se repita? Se não aceitámos isso na altura, não podemos agora encher o peito e chamar-lhes mariquinhas (que eles até são, como está provado cientificamente, mas adiante).

Se são do benfica, lembrem-se que , antes de nos chamarem animais e selvagens, terão de enumerar mentalmente o autocarro incendiado, os jogadores agredidos, o very-light, etc, etc. Não gostaram que isso acontecesse, certo? Não passaram a achar o vosso clube diferente porque alguém com quem partilham uma bancada o fez, pois não? E, sobretudo, se além de serem do benfica andam nisto a sério e há muito tempo, não podem aceitar que os nossos clubes achem que há adeptos e polícias diferentes.

Porque não há. Lamento o choque, mas não há mesmo. Se, no meio destas guerrinhas de dirigentes, conseguirem perceber isso, então podemos ir ao que interessa e o que interessa é o que se passa no local para onde as bancadas olham. Aí, peço-vos desculpa pelo fim da imparcialidade, mas acredito que somos melhores. E é isso que eu ainda espero ver esta tarde: um jogo entre dois rivais, muita garra, muita vontade, mais alegrias para nós e mais tristezas para os outros e o meu Porto a ser campeão europeu de hóquei em patins. Força rapazes!