quinta-feira, 11 de julho de 2013

Bruma, o rapto

O problema arrastava-se há semanas. O jovem Bruma, promessa do futebol português, tinha brilhado no Mundial sub-20 e estava a ser aconselhado pelos seus empresários a deixar o sportem:

-“Bruma, eles não têm dinheiro para te pagar, nem sequer vão à Europa e estão sempre a ameaçar fazer uma época ainda pior do que a anterior. Isto não é clube para ti”
-“Mas foi lá que eu me formei, é lá que tenho os meus amigos… O que será de mim se deixar de treinar com o Rojo como adversário?”
-“Ok, admitimos que se tornava mais fácil brilhares no mesmo plantel do Viola e do Rubio. Mas está na hora de dares o salto, de quereres ganhar títulos”
-“Ganhar títulos? Oh chefe, podia ter dito logo é para ir para o Porto. O que é que tenho de fazer então?”

A estratégia estava montada. Iriam alegar que o contrato terminou agora e que, portanto, Bruma é um jogador livre. No entanto, do outro lado estava Bruno de Carvalho , um negociador implacável, com dias de experiência na matéria:

-“O Bruma é do sportem. Não tanto como eu, que sou o maior sportinguista do mundo, mas é. Nada a fazer”
-“Mas, presidente, o contrato acabou…”
-“Desculpe, eu disse-lhe que podia falar? Convoco já uma conferência de imprensa com adeptos presentes para discutirmos o assunto de forma calma e ponderada”
-“Não, presidente, não faça isso… O Bruma gosta do sportem, não é por mal… Ele só quer ganhar títulos”
-“Títulos? Então que não se queixe, este ano fomos campeões de futsal. Não me viu nas capas dos jornais a festejar?”
-“Vi, sim… Estava muito bem…”
-“Poças, bem fiquei eu com o novo equipamento do sportem. Viu? Que espectáculo!”
-“Sim, sim… Mas estamos a desviar-nos do assunto…”

A conversa durou dias, semanas até, porque Bruno foi enumerando as suas provas de amor ao sportem. Numa tarde, os empresários de Bruma descaíram-se:

-“Já percebemos que o presidente é o maior sportinguista do mundo, já aceitámos as garrafas de água e as bolas que nos foi atirando com carinho e até já comprámos uma camisola com o número 12 e o seu nome nas costas… Mas ainda não nos disse que vai pagar um salário decente ao Bruma e que esta equipa vai ganhar títulos. Assim sendo, vamos tentar encaminhá-lo para o Porto”
-“PORTO?? VOCÊ DISSE PORTO? Eu estou de relações cortadas com essa gente!”
-“Está você, mas não estamos nós. E o Bruma gosta da ideia de ganhar alguma coisa…”
-“Essa é a prova que ele não é do sportem como eu! No sportem já nos habituámos à ideia de não ganhar nada!”

Os empresários foram expulsos do gabinete e fugiram a correr de alvalade, enquanto viam o Rinaudo e o Schaars a ficar para trás, como tantas vezes acontece. Quando perceberam que estavam em segurança, ligaram à única pessoa no mundo capaz de salvar um jogador do sportem: Jorge Nuno Pinto da Costa.
Enquanto isso, Bruno de Carvalho fazia uma chamada para a bancada Sul:

“-Amigos, preciso de ajuda. O Bruma, que não é do sportem como eu, não aceita ficar cá a ajudar-nos a lutar pela manutenção. Temos de agir”
-“Não se preocupe, presidente, nós tratamos disso”.

Já era de noite quando chegaram à porta da casa do Bruma. Ao longe, avistaram um vulto de costas. Tinha vestida a camisola do sportem, com o número e nome que o presidente exigia.

-“É ele. Vamos raptá-lo”.

O vulto nem resistiu. Foi atacado por trás e pelos lados e não teve tempo de rematar. Quando deu por si, estava com um saco na cabeça, a ser transportado numa carrinha onde tocava religiosamente o CD “só eu sei…”. De repente, o veículo parou e tiraram-no da mala. Sentiu que lhe encostavam um telemóvel ao ouvido e, do outro lado, ouviu a voz rouca de Bruno de Carvalho. Decidiu na hora:

“-Presidente, eu aceito assinar pelo esportingue. Mande-os soltarem-me por favor”
“-Mas, Bruma, por que é que estás a falar brasileiro?”
“-Não sou o Bruma, não… Meu nome é Kléber. Pinto da Costa me vestiu com aquela camisola e mandou-me estar calado até falar directamente com você. Mas eu quero mesmo o esportingue, quero muito, é o clube ideal para mim!”

A 300 quilómetros dali, Bruma era apresentado no Estádio do Dragão e já falava à campeão. No seu gabinete, Bruno de Carvalho discava o número do presidente do FCPorto:

-“Olá, presidente. Tenho de admitir: ganhou mais uma vez. Diga-me lá quanto quer pelo Kléber…”

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Medicina e futebol

Gosto de ser médico porque gosto de ver doentes. E não escrevo isto para me armar, para parecer mais humanista ou uma treta deste género. Ver doentes dá-me gozo: dá luta, faz-me pensar. Gosto das histórias dos doentes, dos seus dramas, das vitórias. Gosto do meu serviço, gosto dos meus doentes e  confirmarão ou não as pessoas que trabalham comigo e que são leitores do blog - acho que os doentes gostam de mim.

Os doentes do meu serviço sabem que eu sou "o médico do Benfica". Não o médico do Benfica no sentido daquele médico que corre para o relvado depois de mais uma entrada assassina sobre um dos rapazes que veste de vermelho e branco, mas o médico que representa o Benfica no serviço. Nos hospitais, como nos cafés e como nos escritórios, as guerras futebolísticas, com as suas bocas e maldições, mantêm-se. Apesar da hospitalização ser uma altura particular da vida de uma pessoa internada, a pouco e pouco - a adaptação do ser humano é extraordinária - a vida normal volta a aparecer e, mesmo no meio dos medicamentos, das dores ou da melhoria, os doentes espreitam sempre a televisão em busca do futebol e, obviamente, falam disso.

Eu falo de futebol por tudo e por nada. E sobretudo por tudo. Se os doentes estão bem e perguntam se a medicação é para continuar digo-lhes que em equipa que ganha não se mexe. Se vejo um doente várias vezes na mesma manhã digo-lhes que estou a fazer pressão alta. E estes são os exemplos banais, que até qualquer pessoa que não viva futebol pode usar. O futebol é a maneira mais fácil de meter conversa, de partilhar qualquer coisa com os doentes, de mandar umas bocas que os animem, às vezes de os distrair. Digam lá: preferiam um médico caladinho, que só vos falasse da doença ou um que, além disso (sim, eu também faço histórias clínicas e prescrevo medicação, não estou sempre a pensar em futebol) vos perguntasse o clube? Nisso sou fatal: a pergunta mais importante da consulta é saber o clube dos doentes.

A partir daqui é o caos. Quando os doentes gostam de futebol e percebem que eu sou da tribo, as metáforas são disparadas ao ritmo de relato. Mal entro nos quartos há bocas a chover. Hoje trataram-me como Dr. Kelvin, só para verem o nível. Respondo-lhes logo que para lagartos e andrades não há anestesia nos procedimentos que estamos em época de crise e outras alarvidades do género. A beleza da coisa é que os doentes, regra geral, adoram. Já não estamos no hospital, estamos na bancada. E isso, nem que seja por uns segundos, é óptimo.
Quando estou a colocar um catéter aos doentes e acerto em pouco tempo, gosto de entrar a matar: "Porra, parecia o Cardozo! Foi ao ângulo!" e a partir daí, sobretudo aos doentes dos clubes adversários, só respondo pelo nome de Tacuara. Na pediatria, disse a um miúdo cujo avô tinha levado a uma visita a ao estádio dos azuis no fim de semana anterior que ele devia mudar para o clube do Pai Natal. De seguida, a medir-lhe a tensão arterial, disse-lhe que ia medir a força (como se mede no braço, os miúdos caem todos). "Diz lá que és do Porto" "Sou do Porto!" e carreguei no parar quando aquilo ainda estava medir e mostrei-lhe um 30. "Agora diz que és do Benfica!" "Sou do Benfica" e medi a tensão normalmente, e deu qualquer coisa entre 90 a 100. "Já viste a tua força quando tu és do Benfica?" Como é obvio, aquele avô poderá não ter gostado do que o neto lhe disse nesse dia. Mas a mãe, Benfiquista, que o levou à consulta, saiu felicíssima e ele também (pudera, com quase 100 de "força").

Sei o clube de todos os meus doentes (dos que gostam de bola, óbvio). E isso agrada-me. Mas mais ainda: todos os doentes sabem o meu. Percebi isso quando, após os terríveis acontecimentos do mês de Maio, ao entrar na consulta se fez um silêncio assombroso na sala de espera quando passei, como se eu fosse a pessoa em pior estado naquela sala.

Isto vem, como muitas outras coisas em mim, do meu pai, que também é médico e que até tem um doente do Wolverhampton que ficou insultadíssimo porque ele desconhecia a fabulosa equipa dos Wanderers, três vezes campeã na década de 50. Também ele foge do bar quando o Benfica perde, também ele chateia os doentes lagartos.
Ora, o meu pai, que tem um currículo  fabuloso e é um excelente médico, já agora, tem uma única mancha no currículo, que vos passo a contar, após autorização do mesmo: correu-lhe mal um procedimento (não fatal nem nada do género) ao Otto Glória. Lixado consigo mesmo, lá foi o meu pobre pai anunciar o seu erro ao mister Otto Glória, treinador de Eusébio, Coluna e dos restantes Magriços, com quem já tinha conversado tantas horas sobre medicina (porque Otto estava doente) e futebol (porque eram os dois doentes). Após o anúncio, Otto Glória virou-se para o meu pai e disse-lhe: "Dr. P.: a equipa médica achou que você era o melhor para marcar o penalty. Veio marcar e falhou. Deixe lá, acontece. Não se preocupe com isso."

Eu já ouvi esta história mais de mil vezes, mas continua a ser sempre como a primeira. É que a resposta de Otto Glória é de medicina e é de bola. Mais: é da vida. E não é essa, afinal, que se joga nos estádios e nos hospitais?