segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A voz

Todos nós, maluquinhos, já teremos chegado - pelo menos uma vez na vida - àquele momento em que pensamos: "Talvez eu pudesse não ter visto este jogo ao vivo, em vez de...". Isto coloca-se, porque para nós, fanáticos, o clube está automaticamente à frente. Há um aniversário de um amigo, mas é um derby, portanto ele faz anos para o ano (já os derbies são só duas vezes por ano) e de certeza que ele vai compreender. Aliás, se não compreender é porque não nos conhece e não é mesmo nosso amigo.

O problema é que este tipo de decisão se torna mesmo automático e, com o passar dos anos, e já com muitos Benfica-Gil Vicente vistos - o suficiente para conseguir, apenas e só pelo momento do Benfica, praticamente adivinhar o que se vai passar em campo-, uma pessoa mantém o automatismo de preferir o clube, mas questiona-se mais vezes e mais facilmente.

Começo a escrever-vos assim porque eu no domingo obriguei a minha família a almoçar mais cedo, sacrifiquei uma tarde com a minha irmã, mãe, cunhado, irmão e sobrinha mais nova (que podia ser passada numa praia algarvia, é importante sublinhar) porque tinha que vir mais cedo para Lisboa. Porque estava de urgência? Porque tinha trabalhos para fazer? Porque vinha ver outros familiares ou amigos? Não, porque jogava o Benfica. Pior, esta decisão foi rapidamente apoiada pela C., não por minha causa, mas porque a seguir jogava o clube dela (aquele de riscas, que devia acabar).

Assim, em pleno Estádio da Luz, perto dos 85 minutos, com a iminente segunda derrota consecutiva a chegar e um nihilismo suicida a tomar conta de mim, uma voz - tímida, mas nítida - ousou dizer no meu cérebro: "Talvez tivesse sido melhor ter ficado em Faro", enquanto a minha cabeça batia devagar e repetidamente na cadeira da frente. Era uma voz que, apesar de clara pela primeira vez, era minha conhecida. 

Foi ela que eu já ouvi, vezes sem conta, mas muito ao fundo e com muito ruído à volta (BENFICA! BENFICA! BENFICA!) quando disse já mais vezes do que consigo contar à minha mãe que não ia visitá-la e à família porque "este fim-de-semana jogamos sábado e é importante" (como se alguma vez não fosse). Foi essa voz que eu ouvi quando acordava às cinco da manhã para estudar só para não ter problemas de consciência em ir à bola com uma oral no dia a seguir. Era essa voz que me devia ter impedido de dizer ao meu pai: "Então tu marcas o jantar dos teus 50 anos para um sábado em que o Benfica joga?", passando por cima do facto de toda a família e amigos terem viajado nesse dia só para jantar connosco. Era essa voz que me devia recordar que a 16 de Março de 2005 tive uma noite épica de copos com irmãos, primos e amigos e não que foi a noite em que ganhámos 0-2 ao Setúbal, golos do Simão e Manuel Fernandes, vitória fundamental para o título.

A maior discussão que tive assim, dentro de mim, foi quando a C. foi operada. O Benfica recebia o Zenit, nos oitavos-de-final da Champions, depois de ter perdido 3-2 fora. A C. ia ser operada - cúmulo das provocações! - no Hospital da Luz. Ora, segundo a hora da operação - do interesse do próprio cirurgião e anestesista, que acabaram por ir à Luz (grandes!)-, tudo estava cronometrado ao segundo para eu ver a C. sair do bloco, perguntar se tudo tinha corrido bem, telefonar a toda a gente e correr para o meu lugar (comprei bilhete e tudo), ver o Benfica e depois voltar para ver finalmente a C. sem estar zonza da anestesia. 

Tudo isto estava a correr bem, até que eu, pela primeira vez, vacilei e não consegui deixá-la. Confesso que tenho algum orgulho nisto - foi a primeira vez que a humanidade ganhou ao hooligan - mas também admito que não foi uma vitória limpa, porque vi o jogo ao lado dela, mas um bocado lixado por ela nem sequer estar acordada e a dizer: "TU ÉS O MELHOR NAMORADO DO MUNDO" a cada dois segundos, que era o que eu merecia (a única vez que ela acordou foi para perguntar: "Quanto está o Zenit?" Nem Benfica disse, porra).

Ora, no domingo, a depressão invadia-me a um nível tal que cheguei a achar possível que a razão - era dela, a voz - pudesse finalmente tomar conta de mim. Seria um passo para a vida adulta, para os comportamentos socialmente aceites. Finalmente saberia dizer, sem ter de ir ao google, que países fazem fronteira com a Alemanha, em vez de saber todos os estádios onde foram disputadas as finais da Liga dos Campeões de 2013 para 1984 de cor. Mas, felizmente, o Benfica salvou-me. Markovic e Lima impediram-me, aos 29 anos, de escolher o lado da normalidade. E, de braços abertos, berrando loucamente nem sei o quê, festejei mais uma tarde que não passei com as pessoas que eu mais adoro no mundo.

Este texto é para essas pessoas. As que adoro tanto, tanto, tanto, tanto, tanto, que, um dia, vou gostar tanto delas como do Benfica.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Quero o meu M. de volta

Estamos numa daquelas semanas em que um de nós tem horário de empregada de limpeza e o outro de guarda-nocturno, sendo que neste caso a empregada de limpeza é o M. e eu sou o guarda-nocturno, por isso talvez não devesse ter começado por aqui. O essencial a reter é que mal nos temos visto. Comunicamos por post-its do género “Tens sopa para o jantar no frigorífico” e, como já estamos juntos há muito tempo, já não perdemos tempo a escrever um termo carinhoso a seguir. Se o importante é a sopa que está no frigorífico e o outro já sabe que há aqui amor e tal, vamos directos ao assunto.

O problema é que, antigamente, durante estas semanas de horários inversos, entre as poucas palavras que trocávamos havia sempre espaço para o futebol. Por exemplo, num post-it meu para o M., a seguir a um “Deitaste o lixo fora?” podia vir perfeitamente um “Quando acordares vai ver a capa do Jogo para saberes o que o anormal do Jackson disse”. Por antigamente entenda-se o período da nossa relação pré-golo do Kelvin, tempos áureos e bonitos, em que conseguíamos equilibrar a doença que temos pelos nossos clubes com o nosso amor. Agora não é assim.

O M. não fala sobre futebol, a não ser para dizer que o Porto está muito forte e o benfica muito fraco. Não viu nenhum jogo da pré-época e vai dando apenas umas olhadelas às capas dos desportivos, mas só porque tem medo de tornar-se numa daquelas pessoas estranhas que nesta altura ainda não sabem os números na camisola dos reforços. O M. era aquele namorado que acordava às 7 da manhã, me dava um beijinho antes de ir trabalhar e ainda achava importante dizer-me, mesmo que eu me tivesse deitado às 5, que a Bola tinha na capa que o Malunivicovic estava confirmado no benfica. Para o M. pré-golo do Kelvin, era fundamental que eu interrompesse as minhas duas horas de sono para ouvir um nome que nunca iria recordar quando me levantasse às 2 da tarde, só porque era um possível reforço do benfica e eu não podia ficar nessa ignorância enquanto sonhava com sabe-se lá o quê, decerto menos importante do que isso.

Confesso que tenho saudades desse M.. Tenho saudades de levantar-me, ligar a televisão enquanto tomava o pequeno-almoço e ter de mudar de canal como um disparo do Lucky Luke, mais rápida do que a própria sombra, porque ela estava sintonizada na benfica TV (nós agora nem temos benfica TV, eu disse ao M. que me recusava a pagar e até agora ele nem a subscreveu às escondidas, consciente que iria provocar o nosso divórcio). Não era um acordar sereno, mas pelo menos ficava a saber que o meu M. tinha estado a ver um jogo dos infantis do hóquei e agora não faço a mínima ideia do que ele anda a fazer. Pode ser isso que de certeza que vocês estão a pensar: o M. pode ter uma amante porque quem fazia esse papel de o entreter enquanto eu não estava era o benfica.

Só que o benfica traiu-o, deixou-o de rastos e ele ainda não recuperou. Não sei o que posso fazer mais. Aliás, não sei o que posso fazer de todo, porque continuo a notar que quando ele olha para mim ainda me imagina com uma crista no cabelo e a marcar um golo aos 92 minutos. Eu devia estar contente, não só porque calha de eu ser do clube tricampeão que destruiu o clube dele, mas também porque, não havendo espaço para o benfica no coração do M., posso aproveitar para ganhar terreno. Só que não estou (quer dizer, até estou um bocadinho, porque futebolisticamente isto está a ser espectacular).

Eu preciso do M. normal, do M. que acha mais importante avisar-me que o Jesus não vai jogar com dois médios defensivos do que avisar-me que acabou a manteiga, do M. que me telefona para perguntar se já posso confirmar que o Malunivicovic é mesmo do benfica, porque na cabeça dele eu, como sou jornalista e trabalho a uns 20 metros de pessoas que fazem Desporto, sei tudo. Eu preciso do M. entusiasmado com o benfica, não um entusiasmado à parolo que acha o benfica o maior do mundo, mas entusiasmado como todos nós, os adeptos doentes, que estamos ansiosos que a época comece porque isto do sol e da praia é muito giro, mas não há nada como uma deslocação a Guimarães, ou à Madeira, ou a Setúbal, ou seja onde for.

Quero o meu M. de volta. Estou farta deste clima de paz, de não discutirmos a não ser quando ele arruma os panos da cozinha juntamente com os panos de limpar a casa-de-banho (são tudo panos, diz ele, porque aparentemente o cérebro masculino não percebe a enorme diferença). Estou farta de parecermos um casal normal, que faz férias sem pensar nos amigáveis, que vai jantar fora sem confirmar que o restaurante tem televisão, que fala de saúde, de política e de viagens como se não estivéssemos a pensar na adaptação do Cortez ou do Quintero.

Mas não, calma, eu não vou torcer pelo benfica para bem do M.. Ainda que esteja consciente que fui eu que criei esta espiral de humilhação e dor, espero sinceramente que ela continue. E, quando estou precisamente a escrever isto, recebo um telefonema:

- Olá. Então, estás melhor?
- Sim, já não me dói a cabeça.
- Ok, fixe. ("passemos ao que interessa", pareceu-me ouvir) Olha, finalmente consegui animar-me com o benfica (com voz de menino que recebeu uma prenda)
- Então? (por momentos imaginei que tivessem contratado o Messi, foi terrível)
- Li que podemos andar atrás do Osvaldo da Roma.
- Sim...
- ... E pode ser que eles precisem do Jackson para o substituir! Era só isto, vou trabalhar, beijinhos.          


Ufa, acho que o meu M. voltou.

sábado, 10 de agosto de 2013

Crónica de uma morte anunciada

Ainda não estou restabelecido do que aconteceu algures em Maio de 2013. Sinto que vou ter stress pós-traumático toda a minha vida e que posso num qualquer Benfica-Belenenses que estaremos a vencer por 4-0 (golos do Cardozo) atirar-me para o chão no minuto 92 e colocar-me em posição fetal.
Tentando, então, recuperar a minha sanidade mental, fiz uma coisa inovadora e pioneira na minha vida: não vi nem um jogo de pré-época do Benfica, à excepção dos primeiros 45 minutos contra o Étoile Carouge. O pior não é nem sequer ter visto os jogos, é mais grave: pela primeira vez na minha vida eu não quis, em consciência, ver o Benfica. Preferi sempre a praia, jantares e qualquer outra actividade.

Não é um corte com o Benfica porque isso me é impossível: o RedPass está renovado, as quotas continuam pagas, sigo todas as notícias e vejo os resumos dos amigáveis na internet. No entanto, é a preparação mental para a morte anunciada que será a época 2013/2014. Para suplantar o trauma do ano passado, mantendo o treinador, o Benfica tinha que fazer uma pré-época empolgante, que cortasse com a anterior época. Os problemas tinham que estar encerrados (Cardozo/Jesus, Melgarejo, a falta de um defesa esquerdo, de alternativas no meio, etc) e havia que aliviar a pressão. No entanto, por incompetência ou burrice (deixo à vossa escolha), a direcção do SL Benfica decidiu:

- arrastar a novela Cardozo tanto, tanto tempo, que parece que 2012/2013 ainda não acabou. À data que escrevo Cardozo treina fora do plantel, desvalorizando-se como negócio e não constituindo opção e, pelos vistos, foi contratado Funes Mori, que, segundo as minhas pesquisas na net, é mais odiado pelos adeptos do River Plate do que pelos rivais e marcou menos golos em quatro anos do que Cardozo na sua pior época.
- comprar a "Avenida Paulista" para defesa esquerdo. 45 minutos bastaram-me para perceber que aquela coisa que contratámos para a esquerda vai ser a delícia dos extremos adversários.
- ainda não ter vendido nenhum dos craques, o que deverá acontecer no período "Witsel/Javi Garcia", de maneira a que não haja substitutos à altura.
- comprar um médio centro (dava jeito) e colocá-lo no Dubai, esse campeonato de excelência.

O campeonato só poderá ser discutido se um dos nossos sérvios de dezanove anos se tornar, por obra e graça divina, um jogador capaz de estar a altíssimo nível num campeonato de 30 jogos onde vão ter um alvo marcado nas canelas. 
O amadorismo é tal, a falta de planeamento tão gritante e absurda, que o Benfica 2013/2014 é o primeiro Benfica em muitos anos a nascer sem, sequer, esperança. Ao primeiro mal sinal, a avalanche será inacreditável e rolarão cabeças. Lembro que jogamos nos Barreiros na 1ª jornada, Alvalade na 3ª, Guimarães na 5ª. O facto de ninguém no Benfica ter preparado a época de forma a termos um plantel pronto a enfrentar estes problemas sem termos que pôr uma velinha dá-me uma raiva e uma náusea que nem sequer sou capaz de descrever. É brincar com coisas sérias, é condenar-nos a mais um ano de merda, de frustrações, de dor, de gozo. 

Como não sou religioso e não acredito na sorte, acho que as probabilidades de sermos campeões são diminutas ou quase zero. Assim, de maneira a adiar e tentar minimizar o sofrimento inacreditável que vai ser esta época, tive que me afastar um bocadinho. Dia 18 de Agosto, começará a nossa provação. Sinto-me que, ainda em convalescença do ano passado, tenho de enfrentar um pelotão de fuzilamento. 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O melhor onze

O meu clube anda a pedir aos adeptos para votarem no melhor onze da sua história. À primeira vista, pode parecer fácil clicar em bonequinhos previamente definidos, mas, para nós, os doentes, escolher o melhor onze de sempre é uma responsabilidade enorme.

Às vezes espanta-me a facilidade com que os clubes se esquecem que os adeptos são aquilo que de mais importante têm. Por exemplo, este Verão, ninguém do FCPorto me perguntou quem é que eu achava capaz de ser um bom suplente para o Jackson (disse suplente, não substituto, se o deixam sair este ano mato-vos). É incrível, não é? Felizmente, eu também achava que o Ghilas era uma óptima opção, o que diminui a gravidade de não me consultarem para este tipo de decisões importantes, nas quais tanto tempo passo a pensar durante a pré-época.

Daí que pedirem-me para escolher o melhor onze de sempre me faça sentir finalmente importante. Eu, C., simples adepta, sócia apenas desde os 3 anos (um escândalo, eu sei), posso contribuir para que onze rapazes tenham o orgulho imenso de ser escolhidos. Mas não é fácil, admito.

Desde logo porque eu tenho 26 anos. Ora, num clube com 120 anos, isso torna-se um pouco redutor. O primeiro FCPorto da minha memória tinha Domingos e Kostadinov na frente. Tinha Baía, João Pinto e Aloísio lá atrás e tinha André e Rui Barros no meio. Já não tinha Fernando Gomes, Mlynarczyk, Frasco ou Futre. O FCPorto eu vi, que eu tanto apoiei, tinha o triângulo Costinha-Maniche-Deco e teve Jardel, Lisandro e Hulk. O FCPorto da minha geração é um clube com grandes jogadores, mas a maioria chega de longe, ganha durante algumas épocas e troca-nos por outro. São craques, mas dificilmente ficarão na nossa história.

Mas o meu FCPorto não sou só eu. O meu FCPorto é o meu avô a falar do Cubillas, é o meu pai a exemplificar os livres do Branco e a minha mãe a recordar o calcanhar de Madjer. O meu FCPorto são décadas de histórias, de muitas vitórias mas também muitas derrotas, de um Pavão que faleceu muito antes de eu nascer e de um Pedroto que eu nunca conheci. O meu FCPorto é muito mais do que eu, do que tu, do que Pinto da Costa, do que Robson ou Mourinho, do que Deco ou Falcao.

Por isso, escolhi estes, mas podia ter escolhido muitos outros:

Vítor Baía, o melhor guarda-redes português de sempre
João Pinto, pelas imagens com a taça nas mãos
Aloísio, pelo estilo
Fernando Couto, pela raça
Branco, pelos tais livres
André e Frasco, por todos os jogadores à Porto
Deco, com muita pena de não poder incluir também Rui Barros
Madjer e Futre, pelo início de uma grande era
Jardel, porque queria escolher Domingos mas o M. ficou escandalizado por eu deixar de fora o ponta-de-lança que mais o fez sofrer.

E vocês? Que onze escolheram?