sábado, 28 de setembro de 2013

Ir ao estádio

Há muitas coisas em que a nossa relação está afectada pelo facto de sermos fanáticos de clubes diferentes. Eu, por exemplo, sou obrigado a suportar coisas enfadonhas e miseráveis como um Áustria de Viena - FCP em vez de ver Messi a brilhar contra o Ajax porque a C. está a ver o detestável clube dela. Obrigamo-nos um ao outro a situações que só o amor permite suportar: fins-de-semana que somos obrigados a interromper para chegarmos a tempo do futebol, coisas dessas. Por exemplo: neste momento escrevo este texto enquanto a C. está a ver, no Porto Canal, a inauguração do museu do seu clube, que me está a dar tanta vontade de vomitar como o "penalty" que ontem Proença ofereceu.

Mas escrevo hoje porque outra coisa que é muito chata na nossa relação é que nem sempre se torna possível irmos os dois à bola. Eu hoje vou à Luz, mas a C. ontem não pôde ir ao Dragão por motivos de saúde (não tão graves como os do Proença). E, nessas alturas, eu vejo os olhos da C. cheios de saudades de estar naquele estádio, no meio dos seus, a ver aquelas roubalheiras pornográficas. E tenho uma genuína pena que ela não possa ir. Falo a sério: a C. é a pessoa mais do Porto que eu conheço, a mais doente, a mais cega, a mais apaixonada. Tanto diz "coitadinho" quando vê um dos dela no chão, como se indigna com o facto da inauguração do museu estar vedada aos adeptos como ela, ficando reservada a uma duvidosa elite que nem em sonhos sente tanto o clube como ela.
No Dragão, como na Luz, um assustador número de cadeiras está vazio e outro número ainda mais impressionante está com gente que não sente o clube: clientes que vestem a camisola, que não percebem o amor e a dedicação que loucos como nós nutrimos. Pessoas que vão comer pipocas, tirar fotografias em vez de pedirem penalty, que acham normal confraternizar com alguém sem saberem primeiro o onze que vai alinhar, que às vezes estão a sorrir com o resultado desfavorável. Gente que não merece aquele lugar.

A primeira vez que eu fui ao futebol fui ligeiramente enganado. O Benfica ia a Faro e o meu pai convenceu-me que eu podia jogar. Todos os dias chegava a casa e o meu pai fingia estar ao telefone com o Eriksson, dizendo-lhe que eu estava em forma, que podia alinhar. Passei a véspera do jogo ansioso, não com o jogo em si, mas com a possibilidade de ficar com os cordões desapertados, o que levou a minha mãe a dizer-me que teria que pedir ao árbitro para me ajudar. O segundo problema seria assoar-me, coisa em que eu também costumava pedir ajuda materna. Fora isso, estava convencido que ia correr bem. Fui equipado da cabeça aos pés e passei o jogo, para divertimento da bancada, a perguntar ao meu pai quando ia entrar. Acabei, tristemente, por não o fazer. Mas o bichinho do estádio nasceu aí.
Mais tarde, já com alguma idade, espantava-me sobretudo ver os meus ídolos ali tão perto. Perceber que Kulkov, com aquele insolência, com a camisola fora dos calções, estava na minha cidade (como se houvesse a mais remota hipótese de eu me cruzar com ele). Para um benfiquista que cresceu fora de Lisboa, ver o meu clube ao vivo era mágico, eram momentos inesquecíveis e guardo todos eles na memória. 
Com a chegada a Lisboa, com o cativo, a bola tornou-se um hábito. Já não estranho ver os craques ali tão perto, já não me emociono com isso. Sabe-me melhor o ritual de reconhecer as mesmas caras no estádio, nas roullotes, no caminho do metro. Fico muito mais sentido quando percebo na cara de um miúdo que é a primeira vez que lá vai do que propriamente com o facto de Cardozo estar só a uns metros de mim.

A C., ao contrário, com a vinda para Lisboa, perdeu esses caminhos, esses vícios. Não ficou menos do Porto, mas emociona-se muito mais agora quando diz que vai ao Dragão, fica muito mais triste quando vê o estádio dela na televisão. Eu, como marido e como adepto, tenho pena por ela. Adeptos como a C. deviam estar sempre no estádio, deviam poder interromper o trabalho e não ter entraves financeiros ou familiares que impedissem isso. Mais doloroso ainda: há quem possa ir ao estádio e que não vai e há quem lá vá e não tenha a paixão que nós temos. Isso, para mim, é o mesmo que ter a melhor biblioteca do mundo em casa e ser analfabeto. É como poder ver a Mona Lisa a ser pintada e preferir ir dormir uma sesta. Para nós, fanáticos, o estádio é o centro do mundo, o centro da vida. O local onde tudo de mágico e verdadeiramente importante acontece. 
Havia uma lenda no Villamarin em que se dizia que um pai, antes de morrer, obrigou o filho a renovar-lhe o cativo mesmo depois de morto, não deixando ninguém lá sentar-se. O lugar era dele e só dele, só ele podia sentir aquilo e mais ninguém e não aguentava que outro betico - com toda a certeza menos fanático - se pudesse ali sentar.

Eu acho que a C. merece um lugar desses, no Dragão, para sempre, como eu mereço um na Luz. Infelizmente não pode ser e fica só o desabafo. O que eu gostava é que quem vai ao estádio tivesse a decência de sentir que se senta num lugar que podia ser de alguém que chora por não lá estar e que quem não vai, sem desculpas para tal (chuva, frio, aniversários de familiares, casamentos, nascimento de filhos, sei lá, coisas insignificantes como estas), pudesse ser marcado para a vida, carregando a desonra para o mundo inteiro ver. Eu vou sair agora para a Luz, o centro do mundo.

(para que não fiquem com a ideia errada sobre mim, o que eu desejo mesmo é que o FCP acabe, que o Dragão seja incendiado e deitado abaixo, construindo-se depois lá um parque infantil. Enquanto isso não acontece - esperemos que esteja para breve - gostava que a C. pudesse lá ir o máximo de vezes possível.)


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Novo ciclo

Ao contrário do M., eu não passo o dia a pensar em como melhorar o FCPorto. Ao contrário do clube do M., no meu há tanta gente a pensar nisso que posso aproveitar o meu tempo de outra maneira. Talvez seja por isso que, quando eu sinto dificuldade em passar na cozinha devido ao amontoamento de lixo, eu perceba logo que está na altura de o deitar fora, enquanto o M. é capaz de viver semanas no meio do caos. Enquanto eu vejo lixo a mais, o M. está a pensar em como domar o Jesus. É compreensível.

No entanto, isto não quer dizer que eu não me preocupe com a minha equipa, principalmente quando ela perde dois jogadores cruciais e inicia um novo ciclo com outro treinador. Desde que começaram os jogos a sério que tenho confessado ao M. as minhas inseguranças. São todas normais em início de época, mas convém ultrapassá-las o mais rápido possível. E até as devia ter escrito antes de perdermos os primeiros pontos, mas a minha saúde não o permitiu e portanto vou parecer menos racional porque pelo meio vou lembrar-me do quanto nos roubou o cabrão do árbitro.

Dizia eu que tenho inseguranças. A principal é que ainda não percebi o que o treinador quer. Por momentos pensei que íamos ter um Porto de avalanche atacante (não que eu o deseje, a última coisa que eu queria que acontecesse na Terra era que a minha equipa ficasse à Jesus), mas depois vi o duplo pivô no meio-campo e baralhei-me. Achei então que os jogadores da frente iam ter mais liberdade para explorar a sua técnica, mas depois vi que o Fernando foi escolhido para construir jogo. Pareceu-me óbvio que se havia coisa que não iria preocupar-me era a solidez da defesa, porque os jogadores são os mesmos, mas depois vi o Otamendi e o Mangala constantemente aos papéis. Confiei que íamos abdicar da sonolência da equipa de Vítor Pereira, mas nunca imaginei que fôssemos desperdiçar a sua organização.

Mister Fonseca, como é? Queremos saber o que quer. É muito simpático nas conferências de imprensa, mas ainda não nos explicou isto. E isto, num clube estável e ganhador como o FCPorto, é essencial. Faça as experiências que precisar (não abuse mais, meter o segundo ponta-de-lança aos 90 minutos num jogo que está empatado já é um grande abuso), mas faça-nos compreendê-las (como em Viena, com substituições nada evidentes mas certeiras). Posso ser eu que não percebo nada de futebol, mas como é que o Izmailov passa de peça crucial para segurar o jogo na Áustria para não convocado? E o Herrera, que entrou sempre bem, merece mesmo estar atrás do Defour e do Josué nas suas preferências? Enfim, mas isto sou eu, que ainda não percebi qual é a sua ideia.

Acho que até não sou a única. É que eu olho para a equipa e nem sequer me posso queixar que os jogadores não correm, ou que não querem, ou que estão cansados. Não, pelo contrário. É-me até bastante difícil criticar algum deles. E é por isso que isto é tão preocupante: é que de repente parece que eles não sabem. Ou seja, também eles ainda não o perceberam. Eu sei que ter Licá e Defour não é bem a mesma coisa que ter James e Moutinho, mas, se o mister foi capaz de levar à Champions uma equipa com o Filipe Anunciação, a malta passou a acreditar em milagres!

Mas pior do que tudo isto é ver aqueles portistas que preferiam morrer de forma muito dolorosa a ter de aguentar mais uma época com Vítor Pereira a virem agora dizer que mais valia que tivesse ficado. É que é preciso uma lata, deixa-me doente. Amigos, o anterior já foi e agora é com este que temos de nos preocupar. Parem com essas manias antes que daqui a meia dúzia de jogos estejam todos a assobiar e a torcer para que o Porto perca para poderem dizer que têm toda a razão. Já não há paciência para este novo-portismo que acha que paga bilhete para ir ver ópera ao Dragão.

Por último, os rivais. O sportem este ano tem treinador e um bom treinador em Portugal é o suficiente para se ficar acima do sétimo classificado. Tem ainda um entertainer a presidente, que dá muito jeito para quem gosta de circo. Muito cuidado com eles, nos últimos anos tiraram-nos muitos pontos e até taças porque os desvalorizámos. E agora até estão em guerra connosco, porque aparentemente ainda há meninos que aparecem no futebol de um dia para o outro e acham que hostilizar o Porto é a solução para todos os males. Ainda não repararam que as últimas décadas nos mostraram que estes são os primeiros a desaparecer de cena e quase sempre pela porta do cavalo.

E o benfica, sempre o benfica, que manteve as estrelas do plantel (um dia iremos perceber a que custo) e ainda colmatou falhas (Jesus só demorou quatro anos a perceber que Javi ou Matic sozinhos não chegavam para compensar os desequilíbrios da equipa). É claro que aquilo está uma confusão maior do que a nossa cozinha cheia de lixo, mas, se alguém se lembra de o deitar fora antes de nós nos compormos, podemos ter problemas. A única coisa que me deixa mais relaxada é saber que ainda existem adeptos deste clube que perdoam tudo ao treinador desde que este bata num polícia. Melhor só se o presidente viesse a público prometer uma Liga dos Campeões com o melhor plantel dos últimos 30 anos. Ai isso aconteceu mesmo? Que bom, adoro novos ciclos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O dedo partido

Há uma velha anedota médica em que um doente se vira para o médico e diz: "Doutor: eu devo ter qualquer coisa de muito grave. Toco na mão esquerda e dói-me. Toco na perna e dói-me. Toco na barriga e dói-me. Toco na cabeça e dói-me." Ao que o médico lhe responde: "O senhor tem o dedo partido."

Eu podia, de memória, escrever teses sobre os erros do Benfica nas últimas décadas. Os erros crassos de gestão futebolística, entre contratações e má gestão do plantel. A política interna de relações humanas bizarra (o caso Cardozo vai ser falado nos cursos de gestão durante anos, podendo haver cadeiras só sobre o mesmo), a péssima relação com os árbitros (no sentido de sermos sempre roubados e nunca conseguirmos reagir a isso, respondendo sempre tarde e a más horas e numa forma tão confrangedora que só me dá vergonha alheia e mais vontade aos árbitros de nos roubar) e com as outras equipas. Podíamos falar do caso Luisão, da misteriosa incapacidade em ter um defesa-esquerdo, a falta de respeito com os adeptos, enfim. Eram dias a escrever, a desabafar as minhas mágoas e a mostrar-vos o meu programa eleitoral para Presidente do Sport Lisboa e Benfica, função que eu cumpriria grátis, dedicando 10000% (dez mil por cento, leram bem) do meu tempo à causa. 

O que mais me custa, enquanto benfiquista doente, é o sentimento de impotência. Eu estou sempre a pensar no Benfica. Quando digo sempre, quer mesmo dizer sempre. Acordo e penso no Benfica, leio todos os jornais, todos os blogs que considero importantes, analiso a concorrência, estudo a forma do nosso plantel e faço a gestão não só dos problemas técnico-tácticos, como até emocionais (o meu discurso motivacional só para o Cardozo faria com o paraguaio batesse Messi e Ronaldo juntos em golos só na primeira volta). E, quando acabo de resolver mentalmente um destes problemas (como, sei lá, o explicar ao Djuricic que se deve posicionar atrás da primeira linha de pressão do adversário, exactamente entre o lateral e o central adversário, mas mais à frente, numa paralela ao trinco adversário, que o faça desviar da zona central onde o Cardozo depois pode aparecer), normalmente apercebo-me que todos os meus esforços foram em vão. E foram em vão porquê? Porque não só eu não trabalho no Benfica, mas sobretudo porque não há a menor possibilidade de alguém no Benfica pensar o mesmo.

E por que é que eu acho que ninguém no Benfica pensa assim? Porque no Benfica ninguém pensa. Não é no sentido literal: de certeza que as pessoas da direcção são seres pensantes. Mas pensam noutras coisas: na Benfica TV, nos dinheiros, nessas coisas que eu não percebo nada, nem quero perceber. Agora em futebol ninguém pensa. Repito: ninguém. Não é incompetência, tem que ser ausência de pensamento. Não há, quanto a mim, no Benfica, uma reunião de dez pessoas que, como eu, só pensem no Benfica e neste tipo de problemas (e que, já agora, não sejam médicas. Parecendo que não tira tempo para pensar no Benfica). No meu Benfica, no clube que eu imagino - e assim será quando eu for presidente - todas as manhãs haverá uma reunião onde dez pessoas completamente doentes e obstinadas analisam os problemas da equipa de futebol e que proponham soluções para os resolver. Por exemplo: o Enzo é um super jogador, mas é um gajo que perde a calma e claramente os adversários vão procurar expulsá-lo, sobretudo antes de jogos decisivos. Doente número 1 dos 10 no fim da reunião falava com o treinador e com o Enzo.

Escrevo-vos isto hoje a propósito da cena de Jorge Jesus ontem com a polícia. Eu, como adepto que já vi a polícia fazer o que quer e o que lhe apetece aos adeptos, passando sempre impune e alegando a habitual "força necessária" enquanto espanca quem lhe aparece à frente, tenho a maior simpatia pelo acto de Jorge Jesus. Mas eu, antes de adepto, antes de ser contra a violência policial, penso no Benfica. E o Benfica vai ser penalizado com isto, com o castigo do seu treinador. E estas coisas acontecem porque não há ninguém que pense nisto, não há ninguém que só pense no Benfica, um alguém que já teria topado a pinta de Jorge Jesus e que tinha falado com ele a explicar-lhe que depois do jogo tinha que ir directamente para o túnel, onde alguém da direcção (dessa mesa de 10 gajos como eu) lhe diria exactamente o que dizer na flash-interview. Para quem ainda não percebeu, mesmo depois do espectáculo de notícias, de ataques via comunicado, de bocas do treinador rival, o Benfica está - quer queira ou não queira - numa guerra. E não há quem tome conta do nosso exército. Ninguém pensa nisto, não há uma reunião diária de generais. E os resultados estão à vista. A equipa há 3 anos que não ganha o título, a época começou de pernas para o ar, a militância dos adeptos é quase nula e não aprendemos nada com a peitada do Luisão.

Meus caros: dói-nos tudo? Tudo funciona mal? Se calhar é porque o dedo está partido. Ou, neste caso, a cabeça.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Falta é a tua tia, pá

Às vezes gosto de pensar em como é que os leitores que não nos conhecem nos imaginam. Eu, alta, magra e com uns olhos azuis tão saudáveis que não precisam de óculos à frente. O M., bronzeado, musculado e com a barba sempre no ponto. Um casal lindo de morrer, mas extremamente selvagem. A casa com uma fila de stewards ao meio a dividir-nos, a parede cheia de cachecóis azuis e vermelhos e nós constantemente a cantar contra o clube do outro. Seria uma vida espectacular, mas não é bem assim.

A verdade é que gostamos de pautar a nossa loucura por alguma racionalidade. Quando estamos sozinhos, sem ninguém a ver ou a ouvir, longe da pressão dos nossos pais - que nunca permitiriam estes momentos de fraqueza -, somos capazes de ter conversas decentes e sinceras sobre os nossos clubes. É nestas alturas, envergonhadas mas necessárias para nos tornarem um casal mais forte, entre mimos e beijinhos para disfarçar, que confessamos os erros de arbitragem a nosso favor.

Desculpem, caros leitores, se vos choco com a simples admissão que os erros de arbitragem a favor do nosso clube existem. Não são muitos, como é óbvio, porque errar é humano e os árbitros têm de decidir muito rapidamente e às vezes nem na televisão se vê bem. Eu por acaso até não me lembro de alguma vez isso ter acontecido ao Porto. Mas às vezes, muito raramente, lá aparece uma ou outra evidência marota. E nós somos muito bons a negá-la no estádio, na cantina do trabalho ou no café lá da rua, fazemos mesmo um ar sério de quem acredita realmente no que está a dizer, mas gostamos tanto um do outro que não conseguimos escondê-la entre nós.

Porque há coisas que, numa vida a dois, não faz sentido esconder. Por exemplo, se eu um dia trair o M. com o Brad Pitt (e há mesmo essa possibilidade porque – lembrem-se – na vossa imaginação eu sou alta, magra e tenho uns olhos azuis tão saudáveis que não precisam de óculos à frente), não vou poder contar-lhe isso, porque primeiro ele até pode ficar orgulhoso por eu ter sacado o Brad Pitt, mas depois é capaz de pedir o divórcio porque o senhor do registo civil frisou bem que isso agora é proibido. No entanto, se um árbitro por acaso, sem querer e sobretudo sem grandes consequências, errar a favor do meu clube, o M. é a única pessoa no mundo a quem o posso confessar.

Claro que, sendo ele do benfica, acontece quase diariamente ele admitir-me que o árbitro errou a favor do clube dele. Às vezes até me chateia que ele esteja sempre a dizer a mesma coisa. Já percebi, M., os árbitros roubam de caraças para o benfica, escusas de estar sempre a bater na mesma tecla. Mas enfim, este fim-de-semana eu lá tive de admitir que o benfica foi prejudicado em alvalade (e só escrevo isto porque, estando o sportem à frente do benfica na classificação, eu no fundo só estou a afirmar que o Porto foi mais uma vez roubado). Fi-lo com uma decência exemplar, sem rodeios, com um porte incrível, parecia o Quintero a chutar à baliza.

No entanto, no dia seguinte, no final do jogo em Felgueiras, ainda estava eu a sair da bancada aos saltos e a cantar, com sinais evidentes de desidratação mas celebrando uma daquelas vitórias que sabemos que são mesmo, mesmo importantes, e recebi a seguinte SMS: “Golo em falta”. Porra, golo em falta. E se é o M. a dizer, é porque é mesmo. Ele não me mente, ele não me engana, ele a mim diz sempre o que pensa. Avisei o meu pai e outros que, tal como nós, ainda saíam do estádio aos saltos e a cantar. Ninguém me ligou. Vi e revi o golo na minha cabeça e não percebia o que se tinha passado, mas eu – surpresa! - como não sou alta não via bem no meio daquela multidão e ainda por cima – dupla surpresa! - estava tanto sol que eu não consegui meter os óculos com os quais vejo bem.

Estava eu nestes dramas até que cheguei a casa e vi o lance. Fiquei furiosa. Bem, na verdade primeiro fiquei aliviada. Não foi falta nenhuma, o homem fica de pé e nem se queixa e é preciso ser-se muito mal intencionado para não ver que o rapaz de amarelo vinha lançado de rabo quando o Jacksonzinho (até à meia-noite de hoje vou tratar-te bem, para ver se ficas) teve de meter os braços à frente para não levar com o movimento mais mariconço da jornada. Só depois é que fiquei furiosa. Por que é que o M. disse aquilo? Que razão o levaria a enganar-me de forma tão leviana? Ficar a cinco pontos de distância em apenas três jornadas é chato, mas o nosso amor está acima dessas picardias, certo? Fogo, M., se nós aguentámos o golo do Kelvin, aguentamos tudo.

Ainda não descobri a resposta a estas perguntas. O M. continua a dizer, sem se rir, que há falta no golo do Jackson. Pela voz dele (ainda não o vi desde o derby, espero que ele ainda exista e eu não esteja a telefonar para uma gravação), nota-se até algum gozo, como se ele fosse o Nobel da Arbitragem e eu apenas uma adepta louca e cega que nunca iria admitir essa evidência.

Na verdade, não é a primeira vez que tal acontece. Às vezes, nem o nosso amor é capaz de superar certos lances. Nem nós, que gostamos muito um do outro, conseguimos ver o que o outro quer. O golo do Jackson será sempre irregular para o M. e será sempre limpinho para mim. Não se trata de amor, trata-se de futebol, que é uma coisa mais séria. E se ainda hoje o M. é capaz de jurar que o Katsouranis não fez falta sobre o Anderson (O HOMEM PARTIU UMA PERNA, VALHA-ME DEUS, M., ÉS O ADEPTO MAIS LOUCO E CEGO QUE EU CONHEÇO!!!), acho que posso estar à vontade.

domingo, 1 de setembro de 2013

The Doors of Perceptovic

* Nota prévia: esta época promete ser uma depressão muito grande e a minha tendência seria escrever o mesmo texto de maneiras diferentes. Felizmente, a minha mulher, que é mais inteligente do que eu em tudo (excepto na escolha do clube: o dela é odioso), previu rapidamente a situação e obrigou-me a evitá-lo. Até prova em contrário, todos os meus textos são uma segunda opção, porque tudo o que me apetece escrever é deprimente. 


Eu não vi a pré-época do Benfica, mas olhando apenas para os resumos consegui catalogar logo Bruno Cortez como um pino com cabelo esquisito, com dificuldades motoras ao nível das girafas bebé. Como pessimista vitalício, recusei-me a acreditar no que a minha análise dizia sobre Markovic. Markovic é impressionantemente rápido e simples a conduzir a bola, só tem olhos para a baliza e finaliza com classe. Markovic a driblar rivais é ouvir o refrão da "Good Vibrations" dos Beach Boys.




No meio da alucinação que é o Benfica, que ontem conseguiu a proeza de empatar um derby sem fazer uma jogada de futebol (e o derby foi, embora com algumas provas contra, de futebol), Markovic é a única maneira do meu coração bater mais rápido sem ser de aflição. Eu sei que isto é infantil, que o miúdo só tem 19 anos, que o FCP já deve ter pago a qualquer central do Paços para lhe limpar o sebo, que ele não provou nada, etc. Mas eu preciso de fé, eu preciso de alguma coisa. Num Benfica em que um lateral tem um ar de quem não consegue acertar a primeira pergunta do "Quem quer ser milionário?", em que o meio-campo é um buraco maior do que o vazio na cabeça desse lateral esquerdo, ver Markovic a jogar é uma maravilhosa trip de LSD. É ver cores e magia, é uma anestesia de rara beleza, como ouvir The Doors pela primeira vez - ao vivo, em 1968 - uma maneira de esquecer a guerra, o FMI, a crise na lateral esquerda do Benfica. Markovic em direcção aos defesas do Sporting, a desviar-se deles como quem toca guitarra é o Diamantino a partir o Venâncio todo no Jamor, Paneira a enganar o traidor de Viseu pela direita, são sonhos lindos, alucinações de coisas fantásticas que sabemos ser mentira ou passado ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Marko avança e dribla e mete a bola entre as pernas de Patrício com a calma que Aimar já o sentara - foi em 2010, mas parece que foi há centenas de anos, num tempo em que o Benfica era muito diferente (e não era). Markovic será um daqueles craques fugazes, alucinações como Miccoli e Ramires, que vêm cá como quem pára numa estação de serviço. Uma visão, como ver homens gigantes ou minúsculos, formidavelmente rápidos e hábeis, capazes de tardes de magia como aquele jogo do Miccoli contra o Lille (estava em Berlim. Já foi há tanto tempo) que nos fazem duvidar da nossa memória: terá sido um jogo assim tão bom? Era Miccoli assim tão bom jogador? E é como se, vítimas de um feitiço qualquer, sentíssemos o vazio disso tudo. Que interessam Ramires, Miccoli, Coentrão e até Cardozo se o Benfica não nos faz felizes?

Mas aí vai ele, Markovic, embalado com a bola, doce acorde que nos toca no coração, simbolizando como o Benfica é e deve ser mais rápido, mais forte, com mais classe, mas ao mesmo tempo tudo isto é estúpido porque foi a única jogada de futebol do Benfica em 90 minutos, e foi só feita por um jogador - mas é futebol na mesma! - e vai Markovic!, e vais marcar e fazer entrar a bola do Cardozo na primeira parte o ano passado contra os tripeiros! E eu imagino isso e grito golo e alucino outra vez que voltaremos a ser Benfica, voltaremos a ser o Benfica, o Benfica dos meus sonhos, das minhas alucinações.



Markovic é a valsa quase anti-depressiva, ironia no meio do caos, droga para esquecer a merda em que chafurdamos sabe-se lá desde quando. Já não consigo mais. É como se só aumentando a dose pudesse esquecer isto, como se precisasse de uma distracção. Como se precisasse de futebol para me distrair do futebol, de um delírio colorido para esquecer as dores de heroinómano. Markovic será LSD, será o whisky bar dos Doors, mas o Benfica... o Benfica é uma bad trip.



Fica aqui a minha homenagem a Aldous Huxley e ao seu The Doors of Perception, onde relata as suas experiências com alucinogénicos. O livro viria a servir para o nome da mítica banda de Jim Morrison.