quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Polémica Blatter

Não tenho por hábito dar importância a declarações dessa pessoa, uma vez que não lhe atribuo qualquer credibilidade no mundo do futebol. Admito que devesse estar mais preocupado com um Mundial num Brasil com a revolta nas ruas, ou numa Rússia que não deixa homossexuais entrar, ou ainda num Qatar com temperaturas à volta dos 50 graus, que podem justificar muita entrada de dinheiro na FIFA, mas que ainda está difícil fazer com que um ser humano as aguente enquanto joga à bola. Mas a pessoa em causa foi questionada sobre o duelo Messi-Ronaldo, num ambiente descontraído, e achou normal esquecer-se de quem é para dar um espectáculo que me incomoda, sinceramente, pela vergonha alheia de ver alguém a tentar ter piada sem ter.

Também já não tenho paciência para a pergunta sobre Messi ou Ronaldo. Ainda no fim-de-semana vimos todos um clássico espanhol onde nem um nem outro pareceram ter estado por lá. Vimos Neymar, vimos um chapéu de Alexis, vimos um ou dois passes que só Iniesta consegue fazer (perdoem-me a visão direccionada, mas sim, sou um bocadinho do Barça). Se isso se repercutiu num futebol menos bonito? Claro que sim. Eles são os dois melhores do mundo e qualquer adepto devia querer ver os dois melhores do mundo sempre em boa forma. A não ser contra o nosso clube, claro.

Eu, como sabem, prefiro Messi. Por razões futebolísticas, claro, nem vou entrar por aí porque acho a diferença mesmo enorme, mas também humanas. Farto-me de dizer que os jogadores de futebol têm de ter noção que nos recreios da escola os putos podem querer ser como eles. Ronaldo é um jogador do caraças, um exemplo de trabalho, de rigor, de vontade de fazer sempre melhor. Se se ficasse por aqui, não teria qualquer problema em que um filho meu quisesse ser como ele (estou a exagerar, claro que tinha, um filho meu nunca há de inspirar-se num lagarto que um dia nos eliminou da Liga dos Campeões, embora à distância isso me pareça atenuado pelo gesto que fez em plena Luz e eu esteja preparada para explicar que isso não é mau ao meu tal filho).

Mas não concordo com Blatter: Ronaldo não parece um comandante em campo. Se há coisa que Portugal pode lamentar é precisamente isso, que ele não tenha a força de carácter exigida a um grande capitão. Ronaldo é ele, ele e só ele, o seu corpo, a sua cara, o seu cabelo que muda ao intervalo quando a Selecção está a perder, a sua ambição, o seu projecto, a sua vontade de ganhar a tal Bola. E dizem-me: mas ele é tão bom que pode ser assim. Admito que tenham razão, porque um homem que ganha o que ele ganha realmente não deve ter de se preocupar com nada. Mas voltamos à tal questão do exemplo: há por aí muito adolescente borbulhento que quer ser o Ronaldo. E, como não tem o talento dele, faz só figura de estúpido ao andar mal vestido, com penteados horríveis e, muito pior do que tudo isso, com uma atitude perante o mundo de “eu sou assim e ou me amam ou me odeiam”. E eu odeio-vos, putos.

Tenho pena que a filosofia de Ronaldo esteja a inspirar outros. Mas, ao contrário de Blatter, não sei bem qual é a filosofia de Messi. Parece-me que ele não está sequer preocupado com isso. O M. tem a teoria que ele é autista e que, se de um lado se torna mais anti-social, do outro compensa com uma capacidade fora do normal para uma actividade – neste caso, e com muita sorte nossa, o futebol. Mas, sinceramente, não quero saber. Não sei quem é a mulher dele, nunca lhe vi os pais, lembro-me que foi pai mas nem sequer sei o nome da criança (se é menino ou menina...). O único anúncio que me lembro dele recentemente é o de um videojogo de futebol. Nunca o ouvi a dizer “oleosidade”, pelo que a comparação é difícil de ser feita. Não sei que opinião ele tem sobre a independência da Catalunha ou os cortes na saúde e na educação. Eu quero é ver Messi a ser Messi, no campo.

E é aqui que me tenho chateado nas últimas horas. Parte da multidão admiradora de Ronaldo (nada contra, atenção) achou por bem reagir às palavras idiotas de Blatter com ataques a Messi. Que é mais feio que Ronaldo, que não tem tão bom cabelo, que é um anão, que é favorecido pela FIFA, que é isto e mais aquilo. Gente: vocês estão a falar do Messi. Um jogador como nunca verão igual. Golos, títulos e Bolas de Ouro à parte, um dia, quando vocês tirarem esses óculos vendidos pelo Jorge Mendes, vão perceber que estão a perder a oportunidade de admirar um daqueles jogadores que aparece uma vez por século.

Onde é que está escrito que para se gostar de um tem de se detestar o outro? Imaginem o quão estúpido seria alguém detestar o Maradona (muitos parabéns Deus!) só porque adorava o van Basten. Eu, por acaso, não gosto do Ronaldo, mas isso até começou antes de Messi ser Messi. O Ronaldo foi do sportem e eu, como não nutro qualquer sentimento pela Selecção, não o perdoei por isso. Aliás, quando vejo um portista louco por ele lembro-me sempre da patetice que é um lagarto que adora o Mourinho ou um lampião que admira o Falcao. Mas eu não me atiro ao Ronaldo para defender o Messi. Atiro-me quando diz coisas parvas, mas não é isso que ele quer com o “eu sou assim e ou me amam ou me odeiam”? Ainda assim, não lhe digo que, à beira de um ET do futebol, ele é demasiado humano. Messi não precisa dessa minha ajuda.

E chegamos ao ponto crucial. O país a ajudar Ronaldo. O país indignado, excitado, quase pronto a invadir o Parlamento, não para travar o Orçamento do Estado para 2014, mas para exigir a cabeça de Blatter. O país que nem quis ler bem a resposta muito baixa de Ronaldo (aquela do “muitos anos de vida”, enfim, já vi ameaças de morte em westerns onde os cowboys foram mais subtis). Exactamente o mesmo país que ignorou os ataques de Platini ao FCPorto. Pois é, senhores, eu não me esqueço que o mais alto responsável da UEFA nos quis ver fora das competições europeias e veio criticar os nossos jogadores estrangeiros. Uma ironia do caraças, uma vez que falamos de um ex-jogador francês que passou o auge da sua carreira em Itália e logo no clube arrasado por um escândalo de corrupção. Platini teria sido, então, um alvo fácil para este país revoltado. Mas não, não foi. De que interessa o FCPorto ser o melhor clube português e que tem conquistado os únicos títulos internacionais para este país condenado a perder finais em casa? De que interessa se Ronaldo nunca ganhar nada por Portugal? A diferença é que, enquanto Blatter se meteu com o melhor jogador português, Platini meteu-se com a aldeia. E eles lá na aldeia que se arranjem, não é?

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Take a walk on the wild side

Tinha saudades de um clássico a sério entre o FCPorto e o sportem. O fosso entre os dois clubes tem aumentado tanto que nos últimos anos temos perdido este momento de rivalidade para um mero desejo de vitória, como se de um qualquer jogo com um rio ave ou um paços de ferreira se tratasse. Não me confundam: eu não quero um sportem mais forte para ter mais dois momentos de adrenalina por época. O que eu quero é sentir que um dos meus rivais está vivo o suficiente para eu lhe ganhar e gozar mais com isso do que com qualquer outra vitória no campeonato. E isso, infelizmente, não tem acontecido com os verdes.

É que a rivalidade é das coisas mais bonitas do futebol. Talvez alguns não percebam o sentido disto, mas eu não me imagino tão portista se o benfica e o sportem não existissem. Não significa que eu não adore o meu clube por si só, que eu não torça por ele contra qualquer belenenses ou estoril, ou sequer que o meu fanatismo seja toldado pelo ódio aos outros. É simplesmente uma coisa que o futebol criou e que eu não tenho vergonha de fomentar. Eu adoro o Porto e detesto os meus rivais. Eu sou dos bons e torço sempre contra os maus. É natural, vive cá dentro, é selvagem do lado mais positivo que possam imaginar. Percebem? Se são adeptos, claro que sim.

Eu já não penso no Barcelona sem o Real Madrid, não imagino a Roma sem a Lazio, nem quero ver este Bayern sem este Borussia. Estas equipas podem mudar muito: entram craques, saem estrelas, mudam de treinadores e de patrocinadores, há obras nos estádios e os preços dos bilhetes oscilam, as televisões trocam de campeonato preferido consoante o telintar das libras, dos euros ou, quem sabe até um dia, dos rublos. Só os adeptos é que são sempre os mesmos e esses não se esquecem das histórias para contar sobre essa rivalidade. Eu, que tanto admiro ao longe um chapéu de Alexis como uma coreografia no Olímpico ou um cântico insultuoso em alemão, também não. O futebol é bonito pelo 4x3x3, pelo golo de calcanhar ou pela reviravolta nos últimos minutos. Mas porra, o futebol é uma coisa do outro mundo quando isso acontece entre rivais.

No entanto, se pensam que a rivalidade entre FCPorto e sportem esteve adormecida devido aos fracos resultados da lagartagem, estão errados. Dois rivais não deixam de ser rivais pelos resultados. Lembrem-se do Betis a fazer de propósito para perder um jogo em casa para o Sevilha descer, com os adeptos a gritar golo do adversário:


Ou da descida do River assim comemorada pelos adeptos do Boca:


Um rival pode até descer de divisão que não deixa de ser rival. E o sportem, embora não tivesse andado longe, não desceu de divisão (lamentavelmente). O que aconteceu à rivalidade entre FCPorto e sportem explica-se, no meu entender, pela conjugação de dois factores: por um lado, porque Porto e benfica andaram demasiado ocupados um com o outro; por outro, porque sucessivas direcções do sportem desvalorizaram essa mesma rivalidade. E este é o meu elogio à actual direcção daquele clube: perceber que o Porto é um alvo a abater é meio caminho andado para pelo menos chamar a atenção.

O problema, para eles e não para mim, é que o resto do caminho que falta ao sportem ainda está muito longe. De pouco adianta andar um mês a motivar as hostilidades se depois se chega à aldeia com o rabo entre as pernas. Aqui, aliás, o sportem até nem está sozinho. Nos últimos anos, os nossos rivais de Lisboa não só nos deixaram escapar em termos de títulos, como se amedrontaram perante nós. Talvez se tenham apercebido do óbvio: que durante os últimos 30 anos, enquanto eles nos tentaram diminuir das mais variadas formas, nós unimo-nos. E é por isso que, mesmo quando não jogamos tão bem (e não estamos a jogar nada bem, mister, não estamos mesmo), somos mais fortes.

Daí que tenha gostado muito de voltar a sentir aquele friozinho na barriga que precede um clássico (nos livros dizem que isto se sente quando uma pessoa se apaixona, mas não é verdade. Só um adepto sabe o que isto é). Lamento que este sentimento transforme alguns em genuínos selvagens, mas para nós, os que lá vamos pelos clubes, um FCPorto-sportem destes tem mesmo muito mais piada.

Quanto ao jogo, só ressalvou o que todos sabemos: o tal fosso entre os dois clubes não pára de crescer. Bruninho, enquanto nos tentares invadir mas acabares a chorar durante os festejos de uma derrota por 3-1 na minha casa, saberei que não estás preparado para este lado selvagem da nossa rivalidade.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

À espera dos "grandes sportinguistas"

É comum eu ou o M. sermos apresentados a outra pessoa como “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”. É claro que nós temos outras características que nos podem distinguir da restante sociedade, mas os outros, como nós, que sabem a importância de ligar de imediato uma pessoa a um clube, desvalorizam-nas.

Eu podia ser “a C., jornalista”, “a C., que gosta de viajar” ou “a C., que enquanto esteve de baixa se viciou de tal forma nos comics de Walking Dead que agora não percebe o que há para fazer no mundo enquanto não sai um novo”. Mas não, sou sempre “a C., uma grande portista”. E sou-o com muito orgulho. Não vejo nenhum problema nisso. Talvez outras pessoas que não percebam esta nossa doença prefiram ser conhecidas por “a S., que toca muito bem pandeireta” ou “o T., que um dia salvou a vida a uma idosa com uma criança ao colo”. Mas para nós não há melhor forma de nos reconhecerem do que por sermos adeptos.

Suponho que por esta altura já estejam a pensar que nós nunca fizemos nada de marcante nas nossas vidas e que seja por isso que os outros apenas nos vêem como maluquinhos que gostam de ir para as bancadas gritar, saltar e insultar os outros que são exactamente iguais a nós. Mas não é verdade. Se um dia eu tiver um filho, não se sintam obrigados a tratar-me por "C., a mãe do Jorge Nuno". Se o M. ganhar um Nobel, escusam de se sentir orgulhosos por serem amigos do "M., que ganhou um Nobel". Nós queremos mesmo continuar a ser "a C., uma grande portista”, ou “o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”.

Para dar um exemplo: eu era a melhor aluna da turma e hoje, quando encontro antigos colegas, eles não me perguntam: “Então, continuas a ter tudo 5 no final do 3º período?”. Normalmente, sai-lhes um: “Então, o que é que achas deste Paulo Fonseca?”. O que diz muito não só de mim, que já na escola era conhecida por ser adepta, mas também deles, que se preocupam com coisas mais importantes do que o sucesso da minha vida profissional.

Eu ganhei provas de natação e torneios de ténis e o M. tem dezenas de taças do xadrez (desculpa, meu amor, por revelar ao mundo que eras um grande totó). Com 10 anos, éramos daqueles putos estranhos que, em vez de brinquedos, pediam livros no Natal, o que faz com que tenhamos livros nossos espalhados por três casas diferentes e mesmo assim estejamos a ficar sem espaço. Ambos conseguimos alcançar a profissão que desejávamos desde muito novos, embora no meu caso tenha sido uma grande desilusão para a minha mãe, que me via como futura juíza-presidente do Tribunal Constitucional (agora percebo que, em vez de escrever sobre os cortes do Passos e do Portas, podia estar a travá-los com um sorriso. Moral da história: façam sempre o que a vossa mãe vos aconselha). Temos a sorte de poder viajar muito e de partilhar o mundo que vamos conhecendo com quem não pode. O M. salva vidas todos os dias e eu um dia salvei uma menina de se afogar numa piscina. Fogo, se isto não chega para vos convencer que há mais neste casal do que o futebol, então vocês é que são mesmo doentes.

No entanto, continuamos a chegar a uma noite de convívio com os amigos e a sermos apresentados a desconhecidos como “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão”. Chegamos ao nosso local de trabalho e falam-nos de futebol. Visitamos a família e perguntam-nos se, em vez de irmos passear todos juntos, temos um jogo para ver.

E nada disto nos incomoda quando do outro lado está alguém como nós. Se a um “Esta é a C., uma grande portista”, ou “Este é o M., que quase não sobreviveu ao Kelvin e a Amesterdão” se segue um “Olá, eu sou o J., e acho que os vossos clubes são uma merda porque sou do sportem”, gostamos imediatamente dessa pessoa. Não interessa o clube, desde que seja alguém capaz de criticar o preço dos bilhetes nos estádios, de recordar visitas históricas a Guimarães e de apoiar o seu clube, esteja em que situação estiver.

Os que não suportamos são os adeptos de ocasião. Detesto quando alguém me é apresentado como “um grande portista” e a seguir noto que não sabe com quem jogamos para a semana. Ninguém é “um grande portista” se não me conseguir dizer o 11 esperado para o próximo jogo. Não considero “um grande portista” alguém que passa o ano a assobiar e depois vai para a varanda do Dragão festejar mais um título. Quando conheço alguém assim, sei bem que vai continuar por cá enquanto o Porto ganhar, mas que vou deixar de ver esse “grande portista” quando as coisas correrem mal. Por isso, não lhe dou valor.

Sei bem quem são os “grandes portistas”. Conheço-os há muitos anos. Conhecemo-nos de grandes tardes nas Antas, de chuvadas em Alverca, de cargas policiais em Alvalade, de invasões em Penafiel. Mas também conheço os “grandes benfiquistas”, os “grandes sportinguistas” ou os “grandes boavisteiros”. São todos iguais e, na hora de os apresentar a alguém, não tenho vergonha em dizer “Este é o meu amigo D., um grande benfiquista”, porque o meu amigo D. não desapareceu quando o benfica perdeu tudo, não deixou de entrar no local de trabalho e ouvir umas bocas porque é conhecido como o “grande benfiquista” da zona, nem abandonou a sua equipa até ao momento em que voltar a ganhar e, aí sim, aparecerem todos os milhões que não são “grandes benfiquistas” como ele.

Lembrei-me de escrever isto assim que me apercebi que, afinal, conheço muitos mais lagartos do que sabia. Alvalade, as redes sociais e os jornais inundam-se de falsos “grandes sportinguistas”, crentes numa equipa que voltou a respirar. E até vêm ter comigo, que conto pelos dedos de uma mão os verdadeiros “grandes sportinguistas” que conheço, e chateiam-me, e provocam-me, e prometem que vão ao Dragão para me humilhar. Não tenho paciência para esta gente que o ano passado andava mais interessada em fauna africana e artes circenses do que em futebol. E julgo até poder falar em nome dos “grandes sportinguistas” que eu conheço quando digo que não é justo que essas pessoas possam festejar tanto um golo em fora-de-jogo do Montero como os que nunca abandonaram uma equipa que tinha o Boulahrouz.

Espero, portanto, que os “grandes sportinguistas” venham em força ao Dragão. Não vou esconder que preferia encontrar-vos quando estavam a lutar pela manutenção e não pelo título, mas acreditem que até já tinha saudades de vos tratar como um grande. Quanto aos outros, que apareceram agora, da minha parte podem esperar toda a hostilidade que desejam.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A história vos agradecerá

No último fim-de-semana, eu, a C., os meus sogros e o meu pai (via telefónica) deleitámo-nos com mais um show do Barça, desta vez até sem Messi. A C. dizia "Se o Porto jogasse 10 minutos destes nós enlouquecíamos" e o meu pai repetia o "Foda-se, é demais", como se não lhe coubesse noutra expressão a alegria comovente de ver esta equipa. Eu contorço-me de prazer. De prazer. Levo as mãos à cara nas recepções mais impossíveis, fico espantado (ainda hoje) com a velocidade com que recuperam a bola e fico encantado com o ar absolutamente sério que Xavi mantém, estes anos todos depois, sem sequer sorrir. Sempre imaginei que ele, o grande maestro e torturador dos adversários (é ele quem faz girar toda a gente), um dia se rendesse, como nós, aos palavrões, e largasse um Joder! depois de mais uma assistência fabulosa. Iniesta dança e cansa os rivais, que ainda não perceberam que tirar-lhe a bola é quase tão impossível como ele falhar um passe. 

Imagino Camp Nou daqui a 25 anos, estádio meio vazio, meio cheio, e um extremo centra sem critério à procura da cabeça de um latagão qualquer que está na área. Mais que um sócio do Barça meterá as mãos na cabeça, insultado por futebol tão primata, e vários adeptos pelo mundo - eu incluído - suspiraremos pelas vezes em que Xavi, Iniesta, Busquets e Messi pararam o carrossel e voltaram para trás, bola rente à relva e junto ao pé.
Tenho pena e às vezes sinto-me até insultado pelo facto de não ser unânime que este Barça está no Olimpo com o Brasil de 70 e 82, com o Benfica dos anos 60, com o Ajax dos anos 70, com o Milan de Sacchi, com o grande Liverpool e Flamengo de Souness e Zico. No mundo que eu sonho, não havia escola, trabalho, casamentos ou baptizados em dias que jogasse este Barça. Pararíamos todos, sentados, com boa música a tocar e talvez um bom vinho, a apreciar. Ver aqueles toques de calcanhar contra a Real Sociedad devia ser recordado como ver o homem na Lua. Devíamos saber onde estávamos, o que tínhamos feito nesse dia, com quem vimos esse lance.


Admito que já não é igual. Com Pep a coisa parecia ainda mais pura, ainda mais requintada. Mas Pep é um tipo que parece levitar e não andar e tenho sempre a sensação que terá opiniões tão profundas e fundamentadas sobre todos os assuntos que apetece mais convidá-lo para jantar do que vê-lo a treinar uma equipa de futebol. Talvez por isso, por não ter Pep, já não seja igual. Mas esta ideia, esta técnica e inteligência toda, continua lá. É um deleite contínuo, um assombro extraordinário que se tornou quotidiano de tantas vezes repetido, mas que não deixou de ser extraordinário.

Irrita-me que haja quem não perceba, que haja quem diga que "que dá sono", que é o mesmo que dizer que a Mona Lisa tem poucas cores. É como achar que um tipo é porreiro, que pode ser nosso amigo e depois descobrimos que ele não gosta de Pink Floyd, que acha que ler é uma estupidez e não percebe a grandeza do Benfica.
Nunca se viu nada assim: em anos e anos, com centenas de equipas, com múltiplos intérpretes geniais, alguns lado a lado com os grandes génios da humanidade (Maradona, Cruyff), aconteceu, em futebol - a maior arte do mundo - uma equipa formada quase toda na própria casa, com o melhor jogador do mundo de sempre e cujo estilo de pé para pé premeia os mais pequenos e com mais técnica contra os altos e fortes, como uma fábula. Essa equipa, todos os fins-de-semana e às vezes a meio da semana, joga nos nossos dias. 

Eu sou de uma geração que não teve os melhores anos musicais, que teve grandes escritores, mas poucos ao nível de Jorge Amado, Aldous Huxley ou Fernando Pessoa. Eu sou de uma geração sem revoluções (excepto a árabe), a geração a quem disseram que a história tinha acabado. Mas eu sou da geração deste Barça. Daqui a muitos anos, em Camp Nou e não só, quando um centro sem critério for aliviado da área, mais do que uma pessoa mais nova do que eu vai ter pena de não ter visto esta equipa. A história vos agradecerá. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Hora de apoiar


Nós, os adeptos, temos uma maneira muito especial de olhar para o nosso clube. Bastam-nos 30 bons minutos para ficarmos todos excitados, bastam-nos outros 60 maus para ficarmos indignados. Nos dois últimos anos ganhámos ao maior rival e adormecíamos nos restantes jogos, mas agora andamos todos com saudades disso. Não acho que sejamos estúpidos – somos é irracionais.

Daí que fique surpreendida quando um jogador está a perder em casa um jogo tão importante da Liga dos Campeões, ainda por cima sendo prejudicado pela arbitragem, e não tem qualquer reacção. Nada, nicles. Nem um espasmo de reacção. Não é que ele não queira ganhar, mas está cansado, não sabe o que fazer e não quer ter a responsabilidade de ter a bola no pé nas últimas oportunidades que temos. Se esse jogador fosse um adepto, nunca estaria cansado (a não ser que tivesse a minha preparação física, mas vocês percebem, estamos no plano emocional), saberia pelo menos que algo tinha que fazer e não teria qualquer problema em levar a bola sozinho desde que tivesse o mínimo de capacidades exigível para isso.

Mas o problema é esse: nós não sabemos, efectivamente, jogar como eles. Isto pode chocar-vos (principalmente a ti, M., que às segundas e quartas espalhas magia por esses pavilhões com os teus amigos), mas o Defour é mesmo melhor jogador do que nós todos juntos. E quando eu o vejo à nora claro que sou capaz de gritar que para estar ali aquele manco mais valia eu, mas não, não valia. E não o digo apenas pela habilidade técnica ou pela minha manifesta falta de preparação física, mas também porque a irracionalidade de um adepto raramente beneficia uma equipa.

É por isso que fiquei impressionada quando, no fim do jogo com o at. madrid, o nosso treinador foi tão calmo e ponderado na sua análise à derrota. Desde o primeiro golo deles que eu estava esbaforida, enervava-me com cada passe falhado, insultava todo e qualquer jogador que fizesse uma falta idiota (Josué e Mangala: caso não tenham percebido, esta foi para vocês), apetecia-me bater em alguém (como por exemplo um guarda-redes que sai àquela bola completamente fora de tempo), enfim, um sem número de palavras e acções das quais me iria arrepender em poucos minutos. Se me tivessem colocado um microfone à frente logo a seguir ao fim da partida, eu iria ser tão calma e ponderada como o Jesus com a polícia. Quase que posso arriscar que iria desancar a equipa, o treinador, os dirigentes, o árbitro, o roupeiro, o contabilista e a troika. Não é que não tivesse alguma razão, a questão aqui é que isso não seria benéfico para o clube. O treinador, que não tem de ser adepto e que trabalha todos os dias para aquilo, é que tem de ser racional e, felizmente para o Porto, o nosso foi e isso dá-me esperança que um dia ele possa perceber que NÃO É NORMAL ANDARMOS 60 MINUTOS SEM CONTROLAR A BOLA E A CHUTÁ-LA PARA A FRENTE SEM SENTIDO.

Os adeptos são uma parte essencial do futebol, mas só o são quando cumprem a sua tarefa: apoiar. Não quero assim defender que devemos ser todos inertes, que não podemos opinar, que não temos o direito de insultar um jogador que faz uma falta idiota. Claro que sim, também faz parte, e devemos ser sempre exigentes com quem representa temporariamente um clube que é nosso desde sempre e para sempre. Só que a dura realidade é que há sempre alguém que é pago para ter essas preocupações e resolver esses problemas e, no Futebol Clube do Porto, essas pessoas devem fazer isso muito bem, porque no final normalmente ganhamos nós.

Ok, já todos percebemos que 30 bons minutos não chegam, que é inadmissível que os outros 60 sejam tão maus, que não há outro Moutinho no mundo, que é preciso mexer melhor na equipa durante os jogos e que temos de conseguir tudo isto em pouco tempo para não estragar a época. Qualquer portista já reparou que é tempo de andar preocupado, de rezar para que o Herrera seja uma solução, de temer qualquer adversário que já tenha topado como contornar a nossa desorientação. O que qualquer adepto tem de tentar aceitar (e notem que só escrevo isto mais de 48 horas depois do fim do jogo porque até aqui continuava a só insultar toda a gente e com uma enorme vontade de bater em alguém) é que no domingo há mais e a nós só nos cabe aparecer lá para apoiar aqueles jogadores que fazem o nosso clube ganhar mais do que os outros.