quinta-feira, 28 de novembro de 2013

M. e Vítor Paneira na Benfica TV

Foi um almoço maravilhoso, com uma prenda para a vida. Muito obrigado ao João, que me encontrou no facebook e à Ivone, que chamou a Benfica TV para registar o momento. E, sobretudo, a Vítor Paneira. Por tudo.

Escusas de levantar os braços, Goetze

Quando, no passado sábado, Goetze marcou ao Borussia e levantou os braços a pedir desculpa, foi-me impossível não pensar no Verão quente de 1993, quando o T. me anunciou que Paulo Sousa tinha saído do Benfica e emigrado para os verdes. Mario Goetze, talentoso e virtuoso médio alemão, estava no Borussia desde os 9 anos e, aos 21, escolheu rumar ao rival Bayern, em vésperas de uma final da Liga dos Campeões entre os dois clubes. Não sei se se chateou com alguém, não sei se foi ganhar muito mais, mas não vejo qualquer justificação válida. Goetze não merece um aperto de mão, nem sequer que lhe olhem nos olhos. Goetze merece ser um pária até ao fim dos seus dias.



Sentei-me no degrau cor de tijolo e, acompanhado pelo T., de cotovelos nos joelhos e mãos nos queixos, passei uma tarde de sol farense a tentar imaginar como seria o meio-campo do Benfica nesse ano, se Kulkov seria suficientemente consistente ou não para a posição e, pior, se o Sporting não nos ia cilindrar e comprar todo o nosso plantel. Talvez o discurso fosse mais simples na minha cabeça - eu tinha 9 anos - mas recordo-me bem do vazio, do sentimento de traição, de não querer ir brincar, de não querer ir jogar à bola como jogávamos sempre. 

Talvez Mario Goetze e a nata futebolística passem demasiado tempo fechados em casa, sem qualquer contacto com a realidade. Entre playstations, plasmas de dimensões surreais e penteados que envergonham qualquer pessoa com o mínimo de sentido estético, o mundo dos futebolistas parece uma coisa desligada da realidade, do mundo real onde vivem os adeptos, as pessoas normais que trabalham durante toda a semana e que ao fim-de-semana riem e choram, festejam e fumam cigarro de desespero. A Goetze e à trupe de futebolistas que se acha acima de tudo, fazia falta passarem tempo nos cafés onde se discute futebol, nas roulottes depois do jogo, onde se nota um silêncio gélido depois das derrotas e onde a cerveja sabe melhor quando se ganha. Faz-lhes falta irem ver miúdos a jogar, a gritarem que querem ser como eles e que ficam loucos de felicidade quando vestem uma camisola que, para esses miúdos, é mágica e que para os Goetzes é um emprego.




Quinze anos depois daquele degrau cor de tijolo, mais crescido e com maior capacidade de encaixe face às amarguras do futebol, numa tarde algarvia fui à praia com a C. e amigos. Depois do sol, do mar, das bolas de Berlim, fomos para o carro e eu vi-o. “Está ali o Paulo Sousa.” Não conseguimos chegar com o carro suficientemente perto dele e, por momentos, achámos que o tínhamos perdido. No carro, eu e dois amigos benfiquistas falámos do que sentimos naquele dia das nossas infâncias, quando Sousa, que tinha chegado ao Benfica com 13 anos, desertou. A mágoa e raiva eram tais que até a C. concordava e anuía. Para nossa surpresa, uns metros depois, vimos Sousa na berma da estrada, a arrumar qualquer coisa na mala. F. pôs a cabeça de fora e gritou-lhe, raivoso: TRAIDOR! Não sei se Sousa, um número seis absolutamente fabuloso, chegou a olhar para mim. Se tivesse olhado, veria o desprezo que lhe nutro desde que, naquela tarde, me deixou sem vontade de brincar.

É muito difícil explicar a ligação de um adepto a um clube sem recorrer à metáfora do amor. Talvez (de certeza?) o amor nem seja uma metáfora, mas sim a expressão a usar. Somos incondicionais, irracionais, apaixonados. Sofremos com coisas pequenas, fazemos birras com jogadores, quilómetros para ver finais ou jogos do campeonato. Passamos dias, tardes, noites a pensar nisto. Vamos ao café e defendemos o nosso clube contra amigos ou contra aquele senhor irritante do clube rival. Abraçamos desconhecidos na bancada, trocamos opiniões tácticas com o senhor do bar do trabalho. Estamos preparados para tudo. Choramos sem vergonha nas derrotas, cumprimos promessas absurdas nas vitórias.  Às vezes passamos por tanta coisa num jogo de futebol que parece que passou uma vida. Tudo pelo amor. Pelo amor à camisola. Pela lealdade. A lealdade que Sousa e Goetze não respeitaram. Nem todos os jogadores têm de ser Francesco Totti, Paolo Maldini, Paneira, Baía. Gente que se confunde com a camisola. Esses são os excepcionais. O que nós pedimos aos outros é que tenham o mínimo de decência, a consideração mínima por tudo o que nós vivemos, que é não nos trair para ir jogar no rival.



Quando isso não é respeitado, quando jogadores que sempre foram nossos deixam de o ser, pouco podemos fazer. Não temos milhões para os convencer a ficar (e não devíamos oferecer um euro que fosse a quem quer ir jogar para um rival) e eles vão voltar para os seus mundos, com plasmas do tamanho de ecrãs de cinema e penteados bizarros. Lá, fechados, vão achar tudo normal, que não fizeram nada de mal.
Cabe-nos, sempre que eles se dignam a vir ao mundo real, ao mundo das pessoas que vão às roulottes, das pessoas que choram e riem com os seus clubes, lembrar-lhes que não os perdoamos. Que não esquecemos. Que nos tiraram a vontade de brincar numa tarde.

Goetze terá tudo, terá um ordenado muito maior do que o meu, uma casa gigante, um ecrã que nem cabia no nosso T1. Mas nunca terá o nosso respeito. Talvez em várias circunstâncias o perceba. Quando for filmar um anúncio milionário, talvez estranhe a raiva nos olhos do cameraman. Quando for ao quiosque comprar um jornal para comemorar um título do Bayern, talvez tenha o azar do senhor do quiosque lhe mandar os trocos para o chão. Se um dia for à praia, um grupo de jovens pode gritar-lhe umas barbaridades. Sempre que desceres à terra, vamos lembrar-te que não te queremos cá.


Escusas de levantar os braços, Goetze. Ainda perdes as tuas trinta moedas, Judas.




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os sofredores

Às vezes penso como seria se o M. e eu fôssemos do mesmo clube. Imagino-nos a ir de mão dada para o estádio comigo a reclamar que o cachecol e a camisola dele não combinam, enquanto ele me pergunta se devemos jogar com um ou dois médios defensivos. Vejo-nos ao lado um do outro, de pé nas cadeiras e a gritar insultos para os adeptos do outro lado. Crio diálogos na minha cabeça sobre o que pensaríamos do treinador, que substituição faríamos e qual o jogador que ambos iríamos venerar. É um sonho bonito, confesso, mas rapidamente me lembro que não faz qualquer sentido.

Apesar de partilharmos uma vida e de o futebol fazer bastante parte dela, há coisas que nunca iremos partilhar. Há pessoas que eu abracei quando o Porto foi campeão na luz que eu desconheço totalmente. Podem ser as piores pessoas do mundo - homicidas, violadores, eleitores de direita – mas, como partilhamos a bancada, eu sinto que elas são as pessoas mais importantes da minha vida durante aqueles 90 minutos. E, no entanto, nunca abracei o meu marido para festejar um golo (uma vez, num Man. United-Porto, agarrei-lhe a perna num golo nosso e ele disse-me, num tom maquiavélico, “não voltes a fazer isso”. E eu não voltei).

Há, ainda assim, muito que nos une no futebol. Ainda no passado fim-de-semana a vida colocou-nos o desafio de vermos o benfica-braga e o Porto-nacional no mesmo local, e de seguida. Já sabem quais são as regras nestes momentos: eu estou calada durante o primeiro jogo, ele cala-se no segundo e tudo corre bem. Só que eu fico sempre surpreendida pela maneira como o M. vê um jogo do benfica. Para quem está de fora (e, M., na verdade tenho de admitir que eu não estava bem “de fora” porque me sentia do braga desde pequenina. Não sei se reparaste quando mandei aquele chuto no ar a acompanhar o remate do Rafa à barra. Não, não foi um espasmo, eu vi-a lá dentro), o M. é um sofredor.

Os adeptos sofredores são aquele tipo de adepto que leva tão a sério um jogo de futebol ao ponto de nunca se divertir. Não há sorrisos, não há brincadeiras, mas sempre uma enorme concentração. E, quando estou “de fora”, o M. e o pai parecem-me os adeptos mais sofredores do mundo. Durante 90 minutos, aquelas duas pessoas que eu adoro tornam-se irracionais ao ponto de, a cada ataque do adversário, partirem logo do princípio que vai ser golo e, portanto, sofrerem como se o mundo fosse acabar em dois segundos. São incontáveis as vezes que eu os ouço dizer que é óbvio que o benfica vai perder, que o árbitro os está a roubar, que o braga nunca jogou tão bem, que a vida não faz sentido. Eles sofrem, estão sempre a sofrer e, depois, é golo do benfica e eles ficam aliviados durante o tempo em que se levantam e grunhem e abraçam-se e beijam-se e dizem “foda-se” e “caralho”, como se estivesse a acontecer uma coisa má (e estava, mas para mim, não para eles. Eu é que estava a pensar muitos "foda-se" e "caralhos"!).

E depois sentam-se e ficam logo outra vez com a cara fechada, de guerreiros, e gritam que é preciso defender porque é óbvio que o braga vai marcar, e o árbitro vai roubar, e o benfica vai perder, e vem aí um meteorito que vai acabar com o planeta. E o tempo não passa, porque o tempo está contra o benfica, e vai tudo correr mal, e eles não aguentam, e isto é sofrimento a mais. E eu, que estou calada desde o início do jogo, furiosa porque o benfica não jogou nada mas vai ganhar com uma sorte descomunal, paro para olhar para ambos.

De repente, há duas pessoas numa sala algarvia à espera que um jogo de futebol termine para acabar aquele sofrimento. Essas pessoas estão a ganhar e estão com um ar desolado, porque estão fartas de sofrer. Querem ouvir aquele apito, aquele alívio, para poderem voltar às suas vidas normais, com saúde, com família, com amigos, com cultura, com emprego, essas coisas fúteis. E, ao mesmo tempo, desloco o meu olhar para a televisão e é filmado um conjunto de adeptos no estádio da luz. O jogo ainda não tinha terminado (e aquela gente já devia saber o que pode acontecer nos descontos...) mas eles estão de pé, sorriem para a câmara enquanto cantam sabe-se lá o quê e estão... esperem... felizes! O benfica está a ganhar e eles têm o desplante de estarem felizes. Há inclusive um deles que tem um enorme sombrero na cabeça. Porra, como eu gostava de ser aquele adepto. Ser feliz com aquele aspecto deve ser do caraças!


(este frame é do momento do golo porque ainda não consegui arranjar o do momento exacto que menciono no texto)

Não resisti e disse-lhes: “Reparem na diferença entre as vossas caras e a do senhor do sombrero”. A comparação foi hilariante. O M. ainda sorriu, mas só depois do fim do jogo conseguiu chorar a rir com aquela imagem. O meu sogro nem pestanejou, porque naqueles últimos segundos não era hora de fraquejar. O jogo acabou, acabou o sofrimento deles e, imagine-se, começou o meu. Suponho que tenha feito as mesmas caras, que tenha dito as mesmas coisas, que me tenha levantado da mesma poltrona até à televisão para mostrar ao Jackson como se finaliza. Eu também sofro, sofro muito, sobretudo quando não ganho, como foi o caso. E, se fôssemos do mesmo clube, talvez se tornasse perigoso não haver alguém para nos acalmar durante estes jogos: “M., não dês esses pontapés na mesa senão ela parte-se”, “C., vou distrair a nossa sobrinha de seis anos porque ela está com medo de ti”.

Parece-me óbvio: nós somos sofredores. Invejamos os adeptos de sombrero na cabeça, os felizes, os que se divertem. Mas não somos malucos. Em Maio, passei 92 minutos a sofrer mas depois rebentei de alegria. Fui mais feliz em poucos segundos do que muitos numa vida. Se me dissessem que, para passar pelo mesmo, iria ter de voltar a sofrer um campeonato inteiro, assinava logo por baixo. Sofrer é bom, sofrer faz parte, sofrer é ser adepto.

Eu e o M. vamos ser sempre de clubes diferentes, mas somos cada vez mais parecidos como adeptos. Vamos perder as idas juntos ao estádio, as cadeiras lado a lado, as longas conversas sobre tácticas, compras e vendas e substituições. Mas vamos ser sempre sofredores, porque queremos muito ganhar. E eu, que juntando a isso sou do FCPorto, exijo ganhar.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

De Dortmund a Coimbra

No fim-de-semana jogou-se um Dortmund-Bayern em que Klopp foi derrotado por Guardiola por 3-0. No final, os adeptos do Borussia fizeram isto:



Não sei se sou eu que sou muito fácil (eu choro com os livros de Nicholas Sparks e com aqueles episódios da Anatomia de Grey em que morre alguém muito especial), mas isto emociona-me. Há qualquer coisa neste vídeo que me deixa arrepiada, sem palavras, com vontade de ir a correr para ali.

Ora bem, situemo-nos. A equipa destes adeptos acaba de levar três secos do rival em casa, rival esse que ainda há uns meses os derrotou na final da Liga dos Campeões. Portanto, estamos a falar de uma das maiores humilhações de sempre. Qualquer adepto, dado a escolher entre isto ou uma queda do Everest sem qualquer equipamento de protecção, prefere a segunda, sem hesitações. Mas os adeptos do Dortmund não puderam escolher e aconteceu-lhes o pior. No entanto, no fim, fizeram isto à sua equipa.

Posso ser eu que sou muito violenta (eu torcia para que o Harry Potter fizesse feitiços Avada Kedavra a todos os Devoradores da Morte que o atacavam, mas ele era um menino e ficava-se pelo Expelliarmus. Explicando isto para muggles como o M., significa que há um grupo de pessoas muito más que vos está a tentar matar e tudo o que vocês fazem é tirar-lhes a varinha mágica da mão... Não ajudou muito à credibilidade do meu texto eu falar em varinha mágica e feitiços e mostrar que ainda penso nisto, pois não? Enfim, adiante), mas se um dia me acontecesse semelhante desastre (vade retro Voldemort!) tenho a certeza que no fim não faria isto. Poderia imolar-me pelo fogo para tentar apagar qualquer vestígio de tal resultado, mas isto não.

Mas os adeptos do Dortmund não o fizeram por serem uns totós como o Harry Potter. Os alemães não são propriamente conhecidos pelo seu lado doce e sentimental, capaz de perdoar a dívida de países em ruínas. O que aqueles adeptos sentiram, aquela gratidão mesmo perante um resultado tão mau, foi que aqueles jogadores fizeram o melhor que podiam. Não ganharam porque os outros foram superiores. Mas jogaram muito bem, correram, suaram, tentaram, nunca desistiram. Não ganharam porque isto é futebol. E quem tem visto estas duas equipas a jogar sabe do que se trata: do melhor futebol do mundo. Que mais pode um adepto pedir?

Espero que tal vídeo sirva não só para nos questionarmos enquanto adeptos (quantos não irão a Coimbra no sábado porque estamos a jogar mal, porque está frio, porque é de noite, porque a Terra é redonda, enfim?), mas sobretudo para que a nossa equipa se questione enquanto Porto.

Da nossa parte, peço-vos que notem que estamos em primeiro e que, apesar da confusão, da falta de consistência depois da meia hora, das vantagens que nunca conseguimos segurar e de mais uns assuntos que não vou abordar para isto não se tornar uma palestra à Paulo Fonseca e vocês adormecerem, estamos a jogar melhor – ou menos mal, para ser exacta. Os últimos dois empates foram fruto de erros individuais gravíssimos (e não falo só dos defesas, porque um ponta-de-lança de categoria também não pode falhar um lance isolado no último minuto) e nem toda a gente pode ganhar jogos levando duas bolas na barra e marcando através de um falhanço do adversário.

Não quero pintar um cenário cor-de-rosa. É óbvio que isto está a correr mal e que, se continuar assim, vamos ter problemas. Mas os que só querem sangue – o treinador na rua, a contratação devolvida, o extremo crucificado, o central esventrado – esses são sempre os mesmos. Já o ano passado e há dois anos e há três e há dez o queriam. E não iam a Coimbra na mesma, mas acabavam a festejar os títulos.

À equipa, peço-vos que joguem o vosso melhor, que corram, que suem, que tentem, que nunca desistam. Só assim, fazendo a vossa parte, me terão na bancada como os adeptos do Dortmund: com a certeza de que não se pode ganhar sempre, mas grata por terem feito o melhor que podiam. Não é o caso, meus caros, e espero que isso acabe já no sábado. Lá estaremos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ronaldo: és um Diogo Valente!

Num já distante fim de tarde de 2005 (caramba, estou a ficar velho), eu vi o Sport Lisboa e Benfica a bater por 2-1 o Manchester United, apesar da equipa do Benfica ter alinhado com Quim, Alcides a defesa direito, Anderson, Luisão, Leo, Nelson a médio direito, Nuno Assis à esquerda, Beto e Petit no meio e, na frente, Nuno Gomes atrás de Geovanni a ponta-de-lança. Ganhámos 2-1 contra todas as probabilidades e eu, ainda longe, muito longe, de saber o fenómeno que viria a ser Cristiano Ronaldo, jurei-me seu inimigo futebolístico para sempre. Ronaldo, afectado pela pressão do público que não esqueceu (e nunca devia esquecer) a sua ascendência verde-ranho e branca, fez-nos um sinal com o dedo que mostrava bem que nunca gostou do meu clube. Nesse dia, a partir desse momento, percebi que eu e Ronaldo estaremos sempre em campos opostos.



Eu não perdoo o anti-benfiquismo. Quando um jogador, ou um dirigente, ou uma claque de outro clube, quando qualquer interveniente no jogo mostra ser anti-benfiquista, eu registo e não esqueço. É imperdoável. E essas manifestações podem ser várias e bem mais subtis do que a de Ronaldo. Por exemplo, sente-se no olhar do Diogo Valente que ele é um andrade. E, só por isso, só por eu, com o meu olho clínico, ter detectado anti-benfiquismo no olhar desse cepo, sempre que ele vai à Luz dedico-lhe todos os insultos. Digo-lhe que ele não vale um saco de merda, que nunca há-de ser ninguém, que é tão atrasado mental que trocou as botas, que nunca vai passar da Académica ou do Leixões ou de qualquer clube em que ele jogue, grito-lhe que ele é um andrade filho da..., pronto acho que vocês percebem a ideia. Reparem: eu nem sei se ele é andrade ou não. Mas parece! Isso chega.



Colocado o nome na lista negra, rogo todas as pragas, insulto do pior na Luz  e torço sempre, sempre, sempre contra os anti-benfiquistas. Em qualquer jogo em que o Diogo Valente aparece, eu torço contra o gajo e rio-me de cada centro que acaba no Mondego. E, desde que Ronaldo mostrou à Luz o seu dedo do meio, eu torço sempre contra ele. Sempre. É óbvio que é mais fácil torcer contra o Diogo Valente do que contra o Cristiano Ronaldo: torna as probabilidades de vitória maiores. Mas é uma questão de princípio. Isto mostra que, pelo menos, na hora de escolher inimigos, eu não sou cobarde nenhum. Mas parece-me lógico que, se um gajo formado nos lagartos que fez um pirete à Luz está de um lado, eu vou estar do outro. Quero lá saber se o gajo marca três golos por jogo e está numa forma inacreditável. Não torço a favor desse gajo. É biológico, é-me impossível, nunca na vida. Não quero saber se é português, se é muito humilde e trabalhou muito. Insultou o Benfica? Então, puta que te pariu. Meus caros: não consigo. Um jogador que não gosta, ostensivamente, do Glorioso, merece todo o meu desprezo. Se, para ajudar à festa, foi formado no Sétimo Clube de Portugal, então, meus amigos, sinto que este texto é uma redundância. 
Vocês vão jantar fora com quem insulta a vossa família? Vocês dão prenda de Natal àquele colega cabrãozinho que não faz nada e vos está sempre a lixar a vida no trabalho? Então por que é que eu hei-de torcer por um gajo que insultou o meu clube? Não é isto mais grave? E a seguir? Tenho que torcer pelo Mossoró? Ora que porra.

Pode um benfiquista admirar as capacidades futebolísticas de Ronaldo? Bem, é impossível não o fazer. Ronaldo é um atleta fenomenal (praticamente sobrenatural) que escolheu jogar futebol. É uma besta de força, tem um sprint de corredor de 100 metros, salta mais alto do que toda a gente, chuta brutalmente com os dois pés. Agora, posso eu, como benfiquista torcer por este gajo? Não. Nenhum golo apaga aquele gesto (e aquelas boquinhas de querer o Braga campeão... Eu não esqueço, Ronaldo, eu não esqueço...). É que, para mim, não há atenuantes para o anti-benfiquismo. É um crime que não prescreve, é o pecado futebolístico capital. Se não gostas do meu clube, eu não gosto de ti. Nunca.

Já sei: sou um fanático, devia apreciar o futebolista brutal que ele é, os argumentos patrióticos, e o gajo é humilde e mais não sei o quê. Amigos: até podia ganhar um Nobel da Química, descobrir a cura para o cancro e escrever obras literárias melhor do que Saramago. Podia marcar ainda mais golos, fazê-lo com o Hugo Almeida às cavalitas ou jogar descalço. Insultou o Benfica, não insultou? Então ficamos por aqui. 

Para mim, Ronaldo, tu estás no saco dos anti-benfiquistas. E não há sprint ou golo teu que me faça esquecer isso. Não há maneira de eu te perdoar aquele gesto, não há maneira de eu esquecer o teu berço verde-pus e branco, não há maneira de eu, sempre que olho para o teu focinho quando marcas um golo, me esquecer que eu sou do Benfica e tu não. Tu, para mim, és só um Diogo Valente.


PS: desculpem, houve uma vez que festejei um golo dele. E muito.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Nós e os árbitros

Quando, no Benfica-Porto do ano passado, cheguei a casa e a C. e os comentadores nacionais concordavam que Maxi Pereira merecia o cartão vermelho por uma entrada (?) sobre João Moutinho, eu, sem ver repetições, achei aquilo muito estranho. Em pleno estádio da Luz, quando esse lance aconteceu, pedi não só cartão amarelo para João Moutinho: "Nem te tocou, seu grande filho da puta! Levanta-te, cabrão!" e depois pedi cartão vermelho para Vítor Pereira e todo o banco do Porto: "Vejam-me só como é que aqueles animais falam com o árbitro! E nem cartão levam! Que filhos da puta!". Hoje, olhando para as imagens, concedo que talvez haja motivo para falta e que Vítor Pereira talvez não merecesse o vermelho, mas pelo menos o amarelo ficou por mostrar. Penso que as imagens são esclarecedoras:




E hoje venho falar sobre árbitros porque, pelo meu facebook, vejo éne amigos lagartos a partilharem vídeos e montagens sobre Duarte Gomes, numa correria de insultos e de argumentos que levam a milhares de comentários, a discussões que acabam normalmente em foras-de-jogo não assinalados em 1978 e a referências às vezes demasiado obscuras (vocês sabem do que eu estou a falar), sem qualquer lógica, mas sempre com uma convicção brutal. 
Amigos lagartos: eu percebo por que é que vocês partilham isso. Eu também ainda partilho o penalty do Jardel assinalado pelo mesmo árbitro (e só tenho pena que não haja uma montagem que mostre que nesse mesmo jogo Beto, Viana e JVP tenham ficado por expulsar) e montagens com o roubo em Alvalade neste campeonato. Sabem porquê? Porque achamos todos o mesmo, porque somos todos assim. Temos todos mil argumentos guardados, repetidos e treinados, temos todos contas a ajustar e razões para desconfiar de todos os árbitros. 

Isto tem a sua graça cá em casa porque para mim o Porto é o clube mais beneficiado que já existiu e desconfio que se jogasse contra a Casa Branca ia conseguir saber que árbitro era nomeado antes do Obama, mesmo com isto das escutas. Quando conheci a C. achei, do alto do meu benfiquismo militante e fanático, que ela, sendo desse clube odioso e tão escandalosamente beneficiado, ao menos teria a decência de ficar calada sobre árbitros. Mas não, também odeia todos os árbitros, sabe nomes de fiscais-de-linha e ainda fala de um jogo com o Campomaiorense que, suponho, foi a única vez que o Porto não foi beneficiado desde a invenção da regra do fora-de-jogo. Para o lado dela, as coisas são mais ou menos o mesmo. A minha sogra, mesmo já me conhecendo este tempo todo, depois de ler um texto meu, perguntou à C. "Ele diz isto do Benfica ser sempre roubado a brincar, não é?" porque achava que eu, como benfiquista, devia ter consciência que o Benfica é sempre beneficiado (o que é praticamente uma impossibilidade matemática, cara sogrinha, ainda para mais contra o seu clube. Acho que uma vez tive um lançamento mal assinalado no Dragão, mas ainda no meio-campo do Benfica). 

Eu não escrevo isto numa de moralista, do género "deixem-se disso, que somos todos iguais e os erros acabam por se compensar". Para mim, o Benfica é roubado e perseguido todos os jogos e sei de cor todos os pontinhos que nos devem deste campeonato e de todos os campeonatos que me lembro.  Mas escrevo isto para nós, adeptos, não nos levarmos tão a sério. Não é que nenhum de nós um dia vá admitir que o seu clube foi beneficiado (eu não posso porque isso nunca acontece, estou a falar para vós, azuis e verdes), mas convinha, de vez em quando, que nos soubéssemos rir de nós, da loucura persecutória que temos todos, do facto de nenhum árbitro ser bem-vindo, dos posts com 187 comentários, dos vídeos completamente viciados que aparecem na net.

Uma vez, a falar com um ultra do Torino, caí no erro de elogiar a maneira como o Roberto Baggio batia livres. A resposta dele foi mortal: "Esse cabrão marcava mal. Tinha era tantos, tantos, que um havia de entrar". Eu na altura, em plena curva, não me pude rir e tive que concordar. Mas hoje esta história parece-me retratar em pleno aquilo que vos queria dizer. Nenhum adepto verdadeiro admite a derrota, a superioridade do rival. Nem sequer se admite que o Baggio marca bem livres. Essa intransigência, essa cegueira e luz que eu vejo na C. e em mim (e aqui a ordem de "cegueira" e "luz", "C." e "M." não foi despropositada) é uma maravilha.

Viva nós, adeptos cegos. 

PS: um grande abraço para Tacuara Cardozo, que lhe viu sonegado o poker quando Duarte Gomes não quis apitar o óbvio penalty sobre Luisão.

sábado, 9 de novembro de 2013

Mi casa es tu casa

Roberto,

Tenho muitas saudades tuas. O pouco tempo que passámos juntos deixou-me marcas profundas. Foi como um amor de Verão: curto, mas muito bem aproveitado. Confesso que ao início tive muitas dúvidas em relação a ti - um gigante vindo de outro gigante parece assustador. Mas depois vi a tua estreia num jogo de pré-época, quando sais da baliza desamparado, a bola bate à tua frente e entra em chapéu. Lembro-me que o M. parou uns segundos para processar e que depois disse: “Esta jabulani é lixada”. Coitado, nem te deu valor nenhum. O problema para ele era a bola. Mas eu vi logo: tu, Roberto, eras a minha solução.

A verdade é que uma pessoa passa anos a torcer para que o guarda-redes do rival seja como tu. Eu tinha o Baía, mas tinha de aturar o Preud’homme. Ainda levei com o Schmeichel, mas os deuses compensaram-me com o Ricardo. E, quando eu já sentia falta de um alvo fácil, apareceste tu. Tu, Roberto, com aquele ar de menino órfão que sofre de bullying nos relvados, provavelmente estás no top 10 de coisas boas que o futebol me deu. Por isso não penses que estou a gozar – o que sinto por ti ainda hoje é sincero.

Eu sei que nós não te facilitámos a vida no Dragão, cheio daqueles cartazes com o objectivo de te desconcentrar, e com aquele frango solto no relvado a demonstrar várias semelhanças contigo. Mas para mim, Roberto, tu foste um herói nessa noite – em cinco golos que sofreste, não tiveste culpa em nenhum!



Essa fabulosa época deu-me muitas histórias para contar mais tarde. Na nossa sala, chegámos a ter uma foto tua que saiu num jornal desportivo, quando, no jogo contra o Nacional, a bola vai tão devagar na tua direcção que até já se vê o Cardozo a correr para a frente à espera do contra-ataque. Mas era nesses momentos que tu te superavas: ficaste a olhar e a bola entrou. Foi lindo.

O culminar da nossa paixão deu-se na Luz. É verdade que o Porto era tão superior que poderia marcar em qualquer altura, de qualquer forma. Mas tu não resististe a despedir-te desse campeonato sem qualquer emoção: aquele meio remate, meio cruzamento do Guarin entrou tão elegantemente na tua baliza que soube ali que te iria ficar eternamente grata.

O problema, Roberto, é que o teu regresso à Luz trouxe-me um amargo de boca. Estava mesmo a contar que, por uma vez, cedesses à tentação de chamar a atenção e que passasses ao lado da partida mais entediante que vi este ano (e eu fui ao Restelo ver aquela merda, por isso imagina). Fiquei com aquela sensação de ser traída, por estares a dar prazer a outros que não eu. Não era justo, logo a mim que sempre te aclamei.

Mas a nossa história não podia acabar ali, tu tinhas de provar-me que ainda havia uma réstia de esperança para nós os dois. E lá, em Antenas (Jorge Jesus dixit), tu revelaste um novo Roberto que já não me deu tantas gargalhadas, é verdade, mas cujo resultado final me deixou tão satisfeita como naquelas derrotas do benfica com a tua marca.

Por isso, Roberto, quero que saibas que tens aqui uma fã. Estou-te sinceramente muito agradecida pelo que fizeste por mim e sinto que nunca te vou conseguir retribuir tamanha bondade. Se algum dia te faltar alguma coisa - um abraço, um incentivo, uma palavra querida - é só bateres à minha porta. Mi casa es tu casa. Tenta só aparecer quando o M. estiver a trabalhar porque ele está capaz de te matar. E ambos sabemos que tu não ias conseguir agarrá-lo a tempo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Temos de crescer, Benfica

Tenho quase 30 anos. É uma sensação agridoce de contente pelas coisas que tenho (mulher de sonho, emprego que sempre quis, família perfeita) e aquela vontade de se ser sempre pequeno. Nada nos faz lembrar mais Peter Pan do que ter de ir tratar de uma burocracia qualquer à Loja do Cidadão. Gosto de ser médico, marido e tio, mas odeio o ter que tratar de uma casa, de documentos, de impostos. 

Ganhámos ontem em Coimbra, 0-3. Parece que foi fácil, mas não foi. A equipa anda cabisbaixa, de birra, mãos nos bolsos, ombros caídos e a olhar para o chão como se o mundo estivesse contra ela. Como um adolescente a quem mandaram arrumar o quarto e vê nisso uma conspiração mundial. O Benfica não cresce, não ganha maturidade, não consegue arrumar o quarto sem se enervar e enervar toda a gente, quanto mais tomar conta de uma casa, arranjar mulher, tratar dos documentos da segurança social.

Sempre achei que os adultos eram super-heróis. A minha mãe sabe sempre o que fazer, o meu pai tem resposta para tudo. Achei que chegaria a uma idade em que ficaria assim, de um dia para o outro, a saber o que fazer. Não é assim, mas vai ter de ser. Tenho que tratar de coisas, de burocracias que odeio, de coisas que me tiram tempo para fazer o que gosto. Sou um péssimo adulto, mas tenho de o ser. 

O Benfica ainda é mais adolescente do que eu. Deixa-se levar por qualquer moda que apareça (isto do Ivan Cavaleiro passar a titular é uma coisa que me mata, não lhe reconheço qualidade nenhuma para ser titular no Benfica), entra em casa de phones sem cumprimentar ninguém e põe-se a pensar na vida dele em vez de fazer os TPC. Vitimiza-se, entra em depressão por tudo e por nada, excita-se com qualquer vitória como aqueles adolescentes que lêem uma coisa e acham imediatamente que aquilo é a melhor coisa que já foi escrita no mundo e passam a vangloriar-se disso e a falar vezes sem conta dessa vitória. É de uma instabilidade que não dá confiança a ninguém.

Eu também sou terrível nestas coisas e a C. passa a vida a chatear-me (e cheia de razão) porque eu não pago logo as contas e me meto a estudar primeiro, porque eu demorei meses/anos para tratar da via verde, mas que demorei só uns dias a assinar a revista Panenka depois de ler o primeiro exemplar que me chegou à mão. A C. tem razão. Mas, sabes, Benfica, eu pelo menos sou bom médico e bom marido (a própria C. o reconhece), faltando-me só este último obstáculo - a capacidade para perceber que um assunto chato tem de ser resolvido e fazê-lo o mais depressa possível - para atingir o grau de adulto e a C. deixará de ter medo que eu venha a ser um daqueles pais que se esquece dos filhos na escola (não, a C. não está grávida, calma). Se calhar este último obstáculo é grande, admito, mas caramba, já não falta tudo, percebes, Benfica? 

É que o Benfica não consegue encarar a mínima tarefa decentemente. O jogo em Cinfães eram favas contadas, como quem diz "estive com atenção nas aulas, não preciso de estudar" e pelos vistos foi péssimo. Com o Estoril acabámos com o credo na boca, a fazer uma directa a arrumar o quarto antes dos pais chegarem de fim-de-semana. Com o Olympiakos foi chegar a um teste sem estudar e ele foi adiado uma semana e, pelos vistos, continuamos sem estudar. No entanto, com o golo do Markovic ontem, já temos com que nos entreter para uma semana, como um adolescente que começa a ler Eça de Queiroz e deixa de estudar para o teste de Matemática ou como eu, que me esqueço sempre de deixar comida a descongelar ou que quando ponho comida a descongelar acabo a deixá-la lá sem a cozinhar.

Benfica: temos de crescer. Temos mesmo. Eu já estou quase nos 30, não estou totalmente fora de controlo, mas às vezes ainda deixo a C. à beira de um ataque de nervos. Agora tu, meu querido e amado clube, passas a vida a lixar-me a cabeça. Não há jogo que não seja uma carga de nervos, não vejo a mínima entrega, a mínima concentração. Pior, com quase 30 anos a ver-te, não te reconheço a mínima maturidade. Não sabes esconder a bola, não sabes ser menos vertical, não sabes encarar o jogo com a calma e concentração necessárias para ganhar, mas sem a sofreguidão e loucura de quem não sabe dosear nada. Tudo é difícil contigo, Benfica. Ainda és pior do que eu. 
Preciso muito que tu cresças porque não há a mínima hipótese de nos separarmos, mas gostava de, um dia, conseguir ver um jogo confiante que tu vais resolvê-lo como um adulto, calma e serenamente, como quem espera numa fila da Loja do Cidadão e depois resolve tudo educadamente e tem os papéis prontos e todos certinhos, percebes? Contigo falta sempre um papel, Benfica. Falta sempre um carimbo, ou chegas com a loja quase a fechar e acabas sempre a ser multado e eu lixado contigo, aos berros.

Vá, Benfica, temos de crescer. Os dois. Mas tu mais do que eu. Vou começar por pagar a renda da casa (estás a ler, C.? Não pagues também.). Vê se ganhas na Grécia e na Luz, contra aqueles gajos. Tens de crescer, Benfica, tens de crescer.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Reportagem no Porto Canal

Reportagem "Azul e Branco" com o Lá em casa mando eu a partir dos 9.50

M. na Liga dos Campeões

A partir dos 73 minutos:

http://www.tvi.iol.pt/videos/13996812

Com uma pequena e adorável referência ao blog no programa Maisfutebol da TVI24. Obrigada!