quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ser campeão

No fundo, trata-se apenas disto. Contrata-se, vende-se, aposta-se, reza-se, apoia-se, lamenta-se, aponta-se, critica-se, tenta-se. Tudo para um só objectivo: ser campeão. Eu sei que nem me posso queixar: tenho 18 campeonatos nacionais em 28 anos de vida. Mas, no dia em que eu deixar de me lembrar pormenorizadamente como perdi os outros 10, podemos todos ficar preocupados.

Eu não sou mais ou menos do FCPorto consoante a equipa de futebol ganha ou não. Partamos, então, desse princípio que me parece óbvio e deixemo-nos de lamechices. Mas quero ganhar, certo? Portanto, é normal que, um ano e meio após o golo do Kelvin, eu esteja fodida. Certo? Não sou mais nem menos portista por isso, não vou mais nem menos à bola sequer. Passemos, então, a assumir que qualquer adepto deste clube está assim.

O que podemos fazer, então? Comecemos por nós, adeptos. Para mim, esta é a resposta mais fácil: andar atrás deles a apoiá-los. Isto não quer dizer aceitar tudo, ficar feliz nas derrotas porque há sempre um jogo a seguir ou deixar de ser exigente. Isto é só nós a fazermos o nosso papel. Só que não podemos ficar por aqui. Por exemplo, eu não percebo como é que um grande boi pode vir fazer um lançamento a centímetros da bancada e essa bancada estar a bater palminhas ou a comer pipocas. Juro. Só os que se levantaram, o insultaram, vá, até os que eventualmente lhe possam ter cuspido um ou outro pedaço de saliva totalmente justificada estavam a fazer o seu papel. Só esses podem reclamar com o nosso jogador que assistiu passivamente a toda a manha sem se mexer. Percebem a diferença?

Ser adepto não é só comprar bilhete. Como é que chegados aqui, ao jogo mais importante do ano, aos 90+2 minutos em que devíamos ter dado a volta ao filho da puta deste 2014, o Tello cai na área logo a começar e nós todos, todos mesmo, os mais de 40 mil, não nos levantámos todos a pedir penalty? Expliquem-me que eu juro que não percebo. Porque não era? A sério? Vocês viram lá isso? Porque o jogo estava mesmo a começar e havia tempo para ganharmos mesmo sem o penalty? A sério? Vocês são assim tão racionais? Eu, que não só me levantei, gritei penalty e pedi uma expulsão, tudo claríssimo e sem a mínima dúvida, quase que tive de pedir desculpa ao senhor que estava atrás e não viu bem o lance. Pensando bem, talvez eu me tenha levantado mal o Tello pegou na bola e estivesse a pedir falta e expulsão desde quando o André Almeida ainda nem tinha nascido. E então?

Agora passemos aos jogadores. Já toda a gente disse que fizeram o que podiam, que tiveram azar, que os outros executaram na perfeição a chamada táctica à boavista, mas com melhores jogadores. Tudo bem, adiante. Não concordo num pormenor: os nossos jogadores não fizeram tudo o que podiam, porque só quiseram jogar futebol. E esta merda não é o recreio da escola. Isto é e vai ser sempre para ganhar. Eu aplaudo a ideia de jogo, aplaudo o bom plantel que temos, aplaudo a tentativa, juro, mas não posso aceitar que um jogador dos outros e o árbitro, juntos, possam perder minutos em cada lançamento, cada canto, cada falta, sem que um jogador meu vá lá de peito feito. Desculpem, mas quando eu vi o Luisão no chão (já estava de pé a insultá-lo e a insultar a família do árbitro e, portanto, o senhor que estava atrás já não via nada outra vez), só me lembrei do Jorge Costa, do Maniche e do Costinha, a fazerem quase uma fila, ordeiramente, para dar uma festinha ao palhaço do Simão que estava no chão sem que ninguém lhe tivesse tocado (por amor de deus, toda a gente sabe que o Simão nunca sofreu uma falta na vida). O quê, C., mas tu defendes a violência? Violência? Violência é fazerem-me sentir que é melhor ter um Marcano, um Herrera e um Oliver, que, por muito que sejam bons jogadores, nunca na vida perceberão a importância disto.

Contra estes, não podemos ser os anjinhos que já perderam pontos com boavistas, guimarães e estoris. Contra estes, jogar bom futebol pode ser um passo para ganhar, mas é preciso muito mais do que isso. A cada canelada do Maxi nos pés do Brahimi, para não o deixar virar, um truque básico que pelos vistos não se usa nas escolas da Argélia ou do País Basco, tinham de ir todos a correr para cima dele. Não podemos ser só nós a levantarmo-nos, a tapar o senhor que está atrás e ficou sem ver e a pedir para que, se o mundo for justo, aquele Maxi acabar a dar caneladas no canil. O quê? Têm medo? É feio? E então?

Vamos ao treinador. O totó do André Almeida (porra, como é que um gajo com aquela cara tem mais chico-espertice do que um Indi?) levou um amarelo aos 2 minutos de jogo (penso que foi um recorde em jogos do benfica) e não se explora minimamente isso? O lateral esquerdo deles, que não só cumpre serviços mínimos naquela posição como tem cara de estúpido, está amarelado desde os 2 minutos de jogo e a puta da bola nunca mais vai para ali? Mas serei eu maluca? Eu sei que não tenho grande formação em tiki-taka, mas isto não se aprende nas aulas de Educação Física ou assim? E, estando o Brahimi a levar caneladas do Maxi e o Tello sem a bola desse lado, é mesmo preciso esperar tanto tempo para os trocar? Tanto extremo, tanta qualidade, e não há uma cabeça que reaja aos truques do Jesus? Tantos anos depois, o que nos falta aprender?

Não há ninguém que pense “hum, se o Samaris, o Enzo e o Talisca têm carta branca para distribuir pau, às tantas é melhor explicar ao meu meio-campo que pelo menos esta noite têm que parecer um bando de criminosos e não uns rapazinhos do coro”? Porra, mas o treinador não viu nenhum jogo deles? É preciso eu mandar-lhe o vídeo da traulitada que o grego deu no jogo do Arouca? É preciso eu fazer uma lista de pessoas que eu julgo estarem desaparecidas porque estão na cave da casa do argentino, que eu tenho a certeza ser um local de tortura? Oh, C., lá estás a exagerar. E então?

E terminemos lá em cima. O FCPorto-benfica não é um amigável. Admito que seja bonito não haver declarações nos dias anteriores a lembrar todas as roubalheiras que os meteram no primeiro lugar, ou declarações a seguir a notar que o primeiro classificado é um belo exemplo do anti-jogo dos pequeninos. Admito, sim. Mas não é por acaso que, mesmo quando éramos piores do que eles, lhes ganhámos. Não era por acaso que Vítor Pereira vinha falar de bloqueios quando só um ou dois de nós na bancada os tinham visto. E ele sabia tudo, tudo, sobre os truques do Jesus. Não foi por acaso que os destruímos em três décadas e que eu tive 18 campeonatos em 28 anos de vida. Foi porque, lá em cima, nunca ninguém se esqueceu do que é este clube.

Porque, no dia em que eu não passar pelo menos uma semana a pensar numa derrota, no dia em que perder com o maior rival em casa seja só menos 3 pontos, no dia em que um campeonato em risco não me deixar fodida, a comer e dormir mal, nesse dia, meus caros, já não haverá Futebol Clube do Porto.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Oportunidade

Isto não era esperado. A pré-época foi desastrosa, a planificação péssima, a equipa foi quase toda destruída e o nosso rival reforçou-se muito e bem. Tudo apontava para mais um campeonato fácil do Porto, daqueles resolvidos quase antes de acabar a primeira volta. No entanto, recebem-nos a 3 pontos de distância (sim, podem passar para primeiro, mas o campeonato não acaba depois deste clássico como previsto nas minhas sempre pessimistas previsões de Agosto) e com várias dúvidas que têm vindo a ser disfarçadas. Quem é este Porto a quem nós temos de ganhar hoje e porque é que é muito importante e dificil fazê-lo?

O FC Porto é o inimigo público número um do Benfica. Fosse o Benfica um clube sério e toda a estrutura estaria de tal maneira concentrada na sua destruição que eu seria forçado a divorciar-me da C. só para não haver riscos de espionagem. O Benfica só pode voltar a ser o clube hegemónico que já foi se o FC Porto deixar de o ser. Esta frase, aparentemente elementar, ainda não foi assimilada na direcção do Benfica, que se sentou à mesa com os azuis para "salvar o futebol português" ou uma treta do género. Se a destruição do futebol português equivaler à destruição do FC Porto, parece-me que a direcção do Benfica está a cometer um erro que só teria paralelo se António Costa estivesse acampado em greve de fome pelo prisioneiro 44 à frente do estabelecimento prisional de Évora. 
O FC Porto é, pela sua teia de organização, uma estrutura demasiado bem preparada e perigosa. Vou-vos dar um exemplo: Lopetegui. Eu não acho Lopetegui um bom treinador e parece-me que se não tivesse aquela concentração de craques no Olival que o FC Porto estaria bem abaixo do Benfica. No entanto, a sua contratação revela um pensamento estratégico e com visão e isso preocupa-me. Preocupa-me que alguém na Torre das Antas (que eu imagino como um local escuro e cheio de magia negra) tenha pensado que o futebol mudou, que o conceito Guardioliano de posse é o que está na berra e que é preciso alguém que domine isso e a formação: e chegaram a Lopetegui. Não é Lopetegui que me assusta, é quem pensou nele, é quem se debruçou sobre a evolução do futebol mundial actual até chegar a um nome. Esse método, essa capacidade de descobrir Robsons e Mourinhos (os dois desaproveitados em clubes rivais), é o que me preocupa no FC Porto. (eu gostava que alguém me viesse dizer agora que o bom do Julen tem é uma grande cunha de um empresário ou assim, mas eu, como futuro presidente do Benfica, assumo sempre o melhor dos meus adversários)

Porque é que isto é particularmente preocupante? Porque nós somos justamente o contrário: temos uma direcção que historicamente escolheu treinadores sem método até que descobriu, por obra e graça de Eusébio, Jorge Jesus. E Jesus elevou o futebol do Benfica a um nível que obrigou o FC Porto a dar Brahimi, Tello e Oliver ao seu novo treinador, além de manter Jackson e Danilo, jogadores a quem desejo lesões de tal modo graves em ambos os joelhos que serão publicadas no New England Journal of Medicine. Como tal, nós hoje somos reféns de JJ, temendo mais a sua saída do que um eventual regresso do Vale e Azevedo, e eles confiam quase cegamente na direcção deles, mesmo quando tentaram aguentar Paulo Fonseca até a um limite que nem um adepto do Betis ia aguentar (esta piada só será percebida por quem, como eu, viu tudo o que aconteceu ao Betis a época passada). 

E isto leva-nos a uma conjuntura estranha e particularmente bizarra antes do clássico: o Porto, historicamente um clube certeiro e silencioso, aparece a 3 pontos de desvantagem mesmo depois de ter feito all in e o Benfica, que em condições estilo anos 90 já estaria a planificar a época 2015/2016 dado que amanhã se consumariam os 18 pontos de atraso para os azuis, aparece no Dragão com o mesmo treinador e esquema táctico há 5 anos. 

Vamos, então, enfrentar o nosso rival em condições bem melhores do que eu imaginava há uns meses atrás. Nada disto me torna optimista e confesso-vos que odeio visceralmente este jogo e que acho que não vai correr bem. Mas o que eu queria mais explicar é que independentemente do resultado do clássico, há uma organização no FC Porto muito forte e que só várias vitórias consecutivas do Benfica podem fazer cair. Ganhar hoje seria uma delas. Não era e não é esperado que assim fosse, mas é o que é: se o Benfica ganhar, sai do Dragão com 6 pontos de avanço e até a pessoa que raciocinou correctamente até chegar ao nome de Lopetegui fica em causa. Eu sonho com isso há anos. Vamos a eles, rapazes!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O Benfica ainda acredita em contos de fadas

A nossa sobrinha mais velha, sobre a qual a C. já escreveu, quando tinha os seus três ou quatro anos , adorava as princesas da Disney, como todas as meninas da idade dela. A M., loura e com os seus olhinhos muito azuis, sentava-se muito concentrada no canto do sofá a ver de seguida as cassetes de vídeo e perdia-se completamente naquilo. O meu irmão, o tio mais novo da M., que é um bocadinho um irmão (muito) mais velho dela, adorava fazer-lhe a seguinte maldade: chegava a casa vindo do surf com a prancha na mão e, sem sequer olhar para a miúda, antes de fechar a porta virava-se lá para fora e despedia-se: "Adeus, Branca de Neve! Amanhã fazemos surf outra vez! Beijinhos!", fazia adeus e fechava a porta. A M., coitadinha, levanta-se a correr, abria a porta e gritava: "BRAAAAAAAAANCA DE NEEEEEEEEVEEEEE!?" e ficava muito triste quando via que ela não lá estava. Olhava para o meu irmão à procura de respostas e o sacana dizia-lhe, muito calmo: "Se calhar ela não é tua amiga, é só minha", para fúria e desespero da nossa sobrinha. Obviamente, porque a M. é brilhantemente inteligente (um misto de Ramires em transição defensiva com Aimar com a bola nos pés, mas numa criança), a brincadeira acabou por se perder. O meu irmão despedia-se da Jasmine (é a namorada do Aladino) ou da Pequena Sereia, ou fingia que estava ao telefone com elas, mas a M. dizia-lhe "Não está nada a Branca de Neve lá fora" e continuava no sofá. A história é uma delícia, mas já não resulta (estamos à espera que a F. cresça para lhe fazermos o mesmo).

O Benfica foi este domingo a Braga. Tinha quatro pontos de avanço e o nosso principal rival estava em crise, com exibições coxas e uma eliminação prematura na Taça de Portugal com contornos de escândalo. O Benfica visitava um estádio de uma equipa treinada por um ex-jogador do FC Porto (ok, isto só não se aplica a duas ou três equipas do campeonato), cujo ambiente chega a ser pior que o Dragão e onde já tivemos desde agressões nos túneis (onde Cardozo foi expulso por levar um soco) a cortes de luz quando o Benfica ganhava o controlo do jogo. O que é que seria de esperar? Obviamente uma arbitragem à portuguesa, que permitisse toda a violência possível e imaginária e uma entrega de jogadores como Ruben Micael que raiasse o heróico. (Aproveito este parágrafo para anunciar que, se um dia eu presidir a instituição secular e gloriosa do Sport Lisboa e Benfica, vou mandar raptar o Ruben Micael e que este será colocado numa cave do estádio da Luz. Cada vez que um benfiquista pagar as quotas, terá direito a dar uma carga de porrada no madeirense, para aliviar o stress. Prevejo chegar aos 500 mil sócios nos dois primeiros meses.) O Benfica até entrou bem e fez uma primeira parte que me pareceu competente (não pude ver o jogo todo, admito). Perdeu por erros do JJ, por erros individuais e por alguma dose de azar (aquela última bola, se fosse cabeceada por um jogador do Porto ou do Sevilha, tinha batido de seguida na barra, na cabeça do defesa e na barriga do fiscal de linha, acabando por entrar), acontece. A minha crítica não é por aí. Fico pior que fodido, dá-me vontade de mandar pontapés em coisas e acho que o país devia fechar para podermos debater os problemas técnicos e tácticos que nos assolam, mas não é por aí que escrevo o texto.

O que me choca, o que me põe mesmo nervoso, é a meninice do Benfica. Que a bola não entre naquele último lance, eu perdoo (apetece-me que o mundo acabe, mas perdoo). Que aquele primeiro golo entre, eu perdoo (que charutada impressionante), agora, que o Benfica vá a Braga sem perceber que tem que lá entrar como se fosse combater pela Palestina em Jerusalém é que me faz impressão. Mas ninguém avisou para o que se ia passar? Mas ninguém pediu a expulsão do Danilo a um ponto que o árbitro fosse obrigado a parar de compactuar com o que se estava a passar em campo? Mas que cambada de crianças é que estava vestida à Benfica para se ter permitido que o Ruben Micael faça uma falta em cima da área sobre o Jonas e que ninguém tenha pedido amarelo? E depois, claro, a cereja no topo do bolo: aquela confusão final, aquele perder a cabeça completo e ridículo que nos impediu de aproveitar os minutos finais e que nos pode ainda valer castigos. Pareciam a M. irritada depois de descobrir que não estava nenhuma princesa da Disney lá fora. Já tinham idade para ser mais crescidos, rapazes.

O que pergunto é: mas, além de mim e vários doentes que conheço, ninguém estava mentalmente preparado para ir a Braga? É que a nossa sobrinha, coitadinha, tinha três, quatro anos e queria muito conhecer a Branca de Neve. Mas o Benfica também é assim tão ingénuo? 
Eu acho que o JJ esteve mal no domingo, sim. Acho que vários jogadores não foram felizes em vários lances (porra, Lima, volta), sim. Mas isso, num campeonato de 34 jornadas, acontece (mas não pode acontecer muito!). Agora, exijo sempre, mas sempre, que os jogadores deixem a pele em campo. E, mesmo admitindo que a concentração de um jogador e de uma equipa não é a mesma durante todo o ano, não se admite, não se pode permitir uma exibição daquelas em Braga, num terreno minado onde ganhar seria uma cartada psicológica fortíssima e que ia dar suores frios aos nossos rivais que, ao invés, já esfregam as mãos. A M. dava saltos e pedia o telefone ao meu irmão e gritava: "Deixa-me falar com ela!" quando o meu irmão fingia que estava a combinar sair à noite com a Pequena Sereia, mas o Benfica não pode ser uma criança de três anos, enternecedora de tão inocente. 

Eu sei que já escrevi este texto mil vezes, eu sei que estou sempre a pedir isto: um Benfica obcecado em ser campeão nacional e com gente que só pense nisso a tempo inteiro e que prepare a equipa técnica e os jogadores para todos os factores que não podem controlar. Eu, que sou médico e que tenho outras coisas para pensar e fazer, passo 90% (perdão, 900%) do meu tempo a pensar nisto. E, no entanto, isto não acontece e domingos como o último acabam por aparecer. 
A cereja no topo do bolo é ver o presidente do Benfica a confraternizar alegremente com o presidente de um clube que eu só espero que acabe nas distritais da Libéria. Como é que eu me posso chatear com o Talisca por meter no instagram uma fotografia com o Kelvin quando o presidente do Benfica se dá bem com o presidente de uma equipa que nos recebe assim todos os anos? Assim é difícil acreditar que o Benfica vai mudar para o Benfica que eu sonho. Mais depressa o meu irmão vai fazer surf com a Branca de Neve.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Ódio de estimação

A minha mãe descobriu há pouco tempo umas recordações um tanto ou quanto embaraçosas da minha infância. Entre elas, as minhas primeiras cadernetas escolares. Lembram-se das cadernetas, verdes, que no fundo só serviam para justificar faltas ou levar recados para casa? Bem, no meu caso, parece que elas serviam para eu escrever sobre coisas que me preocupavam na escola, como o facto de uma menina de outra turma andar a bater num amigo meu. E então eu descrevo como a D., que devia ser um brutamontes para eu andar a escrever mal dela na caderneta mas nem sequer me aproximar, andava a bater na malta e ninguém fazia nada. Um escândalo. Eu já não me lembro quem era aquela D., mas, aos 10 anos, ela parecia ser a pessoa que eu mais odiava.

No futebol, além, evidentemente, dos clubes rivais, é natural crescerem grandes ódios por jogadores. Já escrevi aqui, aliás, sobre o meu ódio de estimação a João Vieira Pinto (penálti para o Jardel, só de escrever isto). Também já passei por isso com João Moutinho (um anão do sportem que era extremamente irritante, sempre a mandar-se para o chão e que não valia nada, não sei o que é feito dele há vários anos). Maxi ainda é, obviamente, um excelente candidato. Adrien está a ganhar uma força brutaaaal. Em comum, têm todos algo: são do benfica ou do sportem. Parece-me fácil concluir que este é o meu requisito principal para tal ódio.

No entanto, nos últimos anos, há um fenómeno que tem crescido no Dragão que me incomoda. Fala-se muito da descaracterização da nossa equipa, da falta de cultura portista, de mística, no fundo, mas a verdade é que nas bancadas tudo isso também é visível. Já nem vou falar da massa assobiativa, que, por mim, era corrida a pontapé e ainda ganhava a inscrição de sócio noutro clube. Hoje, preocupa-me que um adepto do FCPorto seja capaz de odiar um jogador... do FCPorto.

Voltemos, então, à fatídica eliminatória da Taça. Como é que um jogador como o Adrien, um betinho que anda ali a dar pau a tudo o que mexe e que, porra, chama-se “Adrien”, portanto percebe-se bem como simboliza aquele clube, dizia eu, como é que este Adrien não é assobiado de cada vez que ousa fazer peito a um jogador nosso, e, no entanto, o Casemiro leva com uma assobiadela monumental? Expliquem-me, que eu juro que não percebo. É isto a exigência? Não querem saber dos outros, só querem que os nossos sejam sempre os melhores do mundo e arredores? Mas então e aquilo que tanto cobramos aos rapazes, a falta de noção do que é o Porto, o não perceberem como um rival nos une contra ele, também não devia ser assim com os adeptos? Um adepto que assobia o Casemiro em vez do Adrien não está precisamente a mostrar que o Porto mudou mesmo para pior?

E o Casemiro é só a última vítima. Ele que se prepare para meses disto. De assobios, de malta que preferia o Rúben, que preferia o Marcano, que preferia o Busquets ou o Yaya Touré, que preferia ficar entalada entre duas paredes do que, por momentos, parar para pensar que ele não fez nada para merecer isto. Por exemplo, se o Casemiro no próximo jogo marcar um golo, levantar a camisola e, por baixo, tiver uma do benfica, eu sou a primeira a invadir o relvado para o lincharmos logo ali. Sim, sou a favor disso, que é para não me virem acusar de achar que um bom portista é aquele que apoia sempre, em qualquer condição. Não, não, eu sou favor de executarmos um deles como exemplo para os outros se algum dia se atreverem, sei lá, a dizer que o Porto é feio.

Merecer. Acho que é por aí. O Casemiro fez aquela anormalidade no jogo contra os lagartos e atenção que eu também me levantei e disse duas ou três frases que não me atrevo a escrever aqui, mesmo depois do meu último texto ter desbravado quase tudo o que havia a desbravar em termos de linguagem. E então? Passámos a odiá-lo, foi? Desistimos dele? Não merece mais aquela camisola? Ele é dos outros agora? Vamos assobiá-lo sempre para quê? Na terça-feira, quando ouvi aqueles assobios na substituição dele, juro que me apeteceu abraçá-lo e dizer-lhe ao ouvido: “Não ligues, eles já fizeram isto ao gajo que vai entrar agora”.

Pois é, eu lembro-me do Dragão que assobiava o Quaresma. Eu lembro-me de os SuperDragões terem de cantar por ele para disfarçar os assobios. Porque os adeptos “exigentes” não gostavam da sua maneira de jogar, porque ele era muito egoísta e não passava a bola. Tudo certo, aliás, mas era mesmo preciso andarem a fazer isso anos a um jogador do nosso clube? Que, goste-se ou não (que é o meu caso), até ajuda a equipa de vez em quando? Quase que aposto que há muitos desses tempos que agora assobiam o treinador... por não meter o Quaresma. São cabeças difíceis de perceber. Portanto, Casemiro, a única coisa que te posso pedir é paciência, porque pode ser que um dia voltes ao FCPorto e esta malta já te endeuse de tal forma que parece que se esquecem que quem ganhou na terça-feira foi a nossa equipa e não um jogador.

Danilo é outro bom exemplo do que vos falo. Era ele o anterior ódio de estimação dos portistas. Assobiadíssimo, destruído nas redes sociais, até um cântico a gozar tinha... Na terça-feira, estava a sair do trabalho e a ouvir a flash no rádio quando o Danilo falou. Fiquei de boca aberta. Disse tudo bem, tudo com sentimento, parecia um gajo da Ribeira de tanto portismo que transparecia. E ainda com críticas certeiras, com a exigência que, sim, tanto nos caracteriza. O Danilo, neste momento, é provavelmente o jogador mais à Porto que temos, o que diz muito sobre a falta de Porto no Porto, mas enfim, estamos aqui para falar de outra coisa.

E, antes dele, o Hulk. Porra, como o Hulk sofreu no Dragão! Tanto, mas tanto assobio... Um jogador que agora, mesmo exilado na Sibéria, fala sempre com amor do nosso clube e que (só de pensar nisto já estou com uma lagrimazinha no canto do olho) sai do relvado da luz a gozar com eles. Ai, Hulk, perdoa esta gente! Acho que vou acrescentar na minha caderneta que, pior do que a D. andar a bater em amigos meus, são estes “portistas” que gostam tanto de bater nos nossos.

domingo, 19 de outubro de 2014

10 conselhos para a sobrevivência de um portista

1. Silêncio que só pode ser interrompido por asneiras

Estou fodida. Mal falei desde as 19.00 de sábado e continuo a não ter grande coisa para dizer. Sinto uma impotência do caralho. Estou farta desta merda.

2. Mandar todos para o caralho

Não considero adepto qualquer um que, nestas alturas, se dirige a outro adepto com piadolas ou provocações. Eu adoro gozar o benfica e o sportem nas suas humilhantes derrotas (e já vi tantas, foda-se!), mas nunca serei a pessoa que acha lindo ir massacrar o amigo adepto desses clubes. Vocês, que estão tão habituados a esta merda de sensação, deixem-me em paz. Não preciso de piadolas ou provocações, esta merda já custa que chegue. E isto estende-se a portistas que ficam contentes por estas coisas acontecerem, porque assim vêem validadas todas as suas previsões de catástrofe. Não são melhores do que eles, caralho.

3. Tentar pensar noutras merdas

Como se fosse possível. Tentar esquecer que esta merda não está a resultar, que já vimos este filme, que isto vai ser um filho da puta de um sofrimento até ao fim. Tentar não culpar tudo e todos, quando a vontade é toda essa. Tentar não desistir, nunca, não pode ser.

4. Acreditar que esta merda vai mudar

Foda-se, eu já me enganei muitas vezes em relação a treinadores, jogadores ou formas de jogar. Juro, sou uma merda de uma inutilidade como visionária. Mas até eu, até o caralho do meu peluche que é um urso azul com um símbolo do FCPorto, já percebemos que assim não dá. O que falta acontecer para o treinador perceber o mesmo? Um jogador do FCPorto entrar com uma bandeja no campo, colocar lá a bola e entregar tudo a um filho da puta de um adversário? Foda-se, parece-me que isso já está!!! Podemos seguir em frente, por favor??

5. Querer mais do que os outros filhos da puta

Já não via o Dragão assim há muito tempo. Que vontade! Cantei o hino até me engasgar, literalmente. Nas bancadas, entrámos com tudo, caralho. Estávamos capazes de os comer vivos. Estávamos a ser o Porto, foda-se, finalmente! Ao 8262044o passe falhado na defesa, levantámo-nos todos e juro que por momentos pensei que eram os nossos que não saíam dali vivos. Porra, isto é o Porto! Sofrer com aquilo até aos ossos! Se eles percebessem, se eles soubessem o que isto é...

6. Rezar para que alguém acorde aqueles cabrões

Andamos há muito tempo com esta conversa. Há tanto, que alguém lá em cima já a devia ter percebido. Falta Porto ao Porto. É assim tão difícil de aceitar a crítica? Seremos assim todos tão maluquinhos que não tenhamos percebido que é óptimo ter um jogador como Jackson, que foi um negócio do caralho ficar com ele mais um ano, mas que um capitão, um capitão à Porto, nunca tremeria naquela merda de penálti? Será assim tão de loucos esperar que um gajo que faz as asneiras do Marcano e do Casemiro se atire para o chão desesperado, chore, peça desculpa ou o caralho? Será assim tão impossível imaginar um mundo onde esses gajos tivessem de passar por nós na rua para saber como nós estamos depois da merda que fizeram? Foda-se, eu não peço um 11 de jogadores nascidos e criados no Porto. Já só queria um, UM gajo qualquer naquele relvado que percebesse um caralho do que é o nosso clube e do que estava ali em causa.

7. Manter alguma postura no meio desta merda toda

Nós não somos os gajos que foram campeões duas vezes nos últimos 30 anos. Nós não somos os gajos humilhados umas 92 vezes só nos últimos anos e que nem uma merda de uma final europeia são capazes de ganhar. Nós somos o Porto. Foda-se, e isso é um orgulho do caralho mesmo! Ninguém nos tirou nada, nem nós podemos deixar que se atrevam a tirar. Esta merda custa, mas não acaba aqui.

8. Levantar a cabeça, o caralho!

A partir de agora, a tolerância é 0! Recuso-me a repetir o mesmo erro dois anos seguidos. Se eu não vir imediatamente uma reacção à Porto, está tudo fodido.

9. Isto é só futebol? Foda-se!

Se acham que estou muito afectada, se vos parece que exagerei no tom, se nunca passaram por esta filha da puta de tristeza, então falamos daqui a uns dias, ou semanas, é mais seguro. O pouco que quero falar é com malucos que sabem o que é esta merda.

10. Amo-te muito, M.

Desculpa não te teres apaixonado por uma pessoa normal, que hoje chegaria aos teus braços feliz por te rever. Obrigada por perceberes o que se está a passar comigo, obrigada por aquela SMS no final do jogo a lembrar-me como o sportem é uma merda. És um marido do caraças, juro, mesmo sendo da merda do benfica. Foda-se, é que nem me posso lembrar dessa merda que ainda fico mais fodida.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Quaresma

Ricardo Quaresma é um óptimo exemplo do tipo de jogador de quem eu não gosto: individualista, egocêntrico, egoísta, incontrolável. É um jogador que irá sempre preferir fintar a passar ao lado, é um homem que irá sempre dizer ou pensar “eu” em vez de “nós”. Os especialistas dizem que nunca respeitou o suficiente a táctica, eu acrescento que o principal problema é nunca respeitar o suficiente a equipa. Mas também é, provavelmente, o jogador português mais talentoso desta geração. Ninguém tem aquela técnica, nem aqui nem em nenhum lado. O que Quaresma faz, só Quaresma é capaz de fazer. É único, não há igual e não dá para ensinar ou treinar.

Agora parem por momentos de imaginar o Quaresma com aquelas meias com caveiras a chegar ao treino da selecção, porque eu vou fazer uma comparação: Quaresma é aquele rapaz super giro, com grande corpo, demasiada areia para qualquer camião, que tu passas dias a admirar ao longe e a imaginar como é o homem perfeito… até que ele vem falar contigo e não sabe elaborar uma frase. Quaresma é o gajo que conheces na discoteca e ficas imediatamente apaixonada, até que, à primeira mensagem escrita que te manda, vem tudo cheio de erros e vomitas. Quaresma é o idiota com quem dás umas voltas, mas não apresentas a ninguém porque tens vergonha.

Após tantos anos no FCPorto, Quaresma continua a dar-nos umas voltas, a marcar uns golos porreiros, a fazer uns cruzamentos perfeitos, a fazer umas fintas únicas. Mas continuamos a ter vergonha dele. Nem que, de vez em quando, como no ano passado, seja a voz que é capaz de dizer em voz alta que a equipa não vale nada. O que era efectivamente verdade e que até nos fez agradecer-lhe a sinceridade. Mas até aí, nesse desabafo, o que Quaresma nos estava a dizer era que ele é bom demais para aquilo. Desculpem, mas tendo em conta o historial, não acredito no seu amor eterno ao FCPorto.

De qualquer modo, apreciei a sua reacção ao drama Lopetegui. Mais ainda apreciei ter um treinador que coloca a equipa acima das estrelas. Acho até que foi uma situação muito bem gerida, de parte a parte. Os únicos que estiveram mal nesta história, aliás, foram os adeptos, que assobiaram o nosso treinador por causa de um jogador. Vamos lá ver se nos entendemos: o único jogador que justificaria desestabilizar a equipa por um desejo nosso de o querer ver em campo, para mim, seria um jogador chamado Futebol Clube do Porto. Como não há (o que é uma pena, acho que dava um bom nome), não vos percebo.

Portanto, espero que agora, com o golo e a assistência pela selecção, não venham as exigências. Eu quero lá saber se joga o Quaresma ou o Tello, o Oliver ou o Quintero, o cão ou o gato. Se quem jogar der tudo em campo, estou satisfeita. Nenhum jogador está, em nenhuma situação, acima da equipa. Metam isso na vossa cabeça: podem adorar as meias com caveiras, as tatuagens, o estilo, a trivela, o que for… Mas, no estádio, ele é só mais um dos nossos.

E, se dúvidas houvesse sobre por que Quaresma nunca poderá ser um capitão ou um símbolo do FCPorto, hoje li as seguintes palavras: “O sportem vai estar sempre comigo”. E, dizem vocês, é muito lindo que ele não cuspa no prato do qual comeu. E, digo eu, em semana de clássico com o sportem, se ele não quer cuspir nesse prato, que se cale. Até sábado, tudo o que não for atirar esse prato de um 9º andar e ainda ir lá abaixo passar-lhe com uma retroescavadora em cima, é pouco para mim. Eu odeio esse prato e não admito que nenhum jogador que vá vestir a minha camisola nesse jogo pense em menos do que isso.

Porque o FCPorto, Quaresma, não é só o clube que te mostrou ao mundo, que te recuperou e que te paga ao fim do mês para poderes continuar a ter um grande carro. O FCPorto não é só essa conversa dos títulos, do tudo contra todos, do Somos Porto ou Sempre Preparados. O FCPorto é o entrar em campo no sábado com mais vontade do que eles, com as garras todas de fora, como se a vossa (e a nossa) vida dependesse daquela vitória. O FCPorto não é a equipa que jogou em alvalade, que foi roubada e podia ter ganho, note-se, mas que não quis tanto como os outros. E eu não posso admitir que alguém do meu clube não queira mais ganhar do que o beto do Adrien. Não posso admitir que um jogador corra menos do que o Cedric, faça mais asneiras do que o Saar, ou lute menos do que o Slimani.

Quaresma (e todos os outros totós que ainda não perceberam isto): no sábado, não é só um jogo da Taça. É um jogo contra o Acosta, que partiu o queixo ao Paulinho Santos. É um jogo contra o Bruno Paixão em Campomaior, que lhes deu um dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os penáltis do JVP para o Jardel, que lhes deu o outro dos 2 campeonatos em 30 anos. É um jogo contra os “tios” e as “tias” que não nos queriam ver a receber a Taça em 1994 e pelos corajosos jogadores que a levantaram. É um jogo contra o “Ricardismo” que afastou o nosso Baía da selecção. É um jogo contra adeptos que passam o jogo a reclamar de um lançamento, que querem é penáltis e expulsões e confusão, que não ganham nada mas são felizes na sua essência. É um jogo contra o presidente, que anda a falar sozinho, mas que tem de perder com os outros todos. É um jogo contra um rival. Portanto, vamos sofrer. Todos juntos, com Quaresma ou Tony Carreira, sei lá, nem quero saber.

Claro que, Quaresma, se marcares dois golos, deres outros dois a marcar, festejares mostrando o rabo à bancada visitante e com uma camisola a dizer “Estava a brincar no outro dia, o sportem afinal cheira a cocó” (perdoem-me a linguagem, ando a ouvir muito o Bruno porque estou viciada na sportem TV), estás perdoadíssimo. E prometo-te que venho aqui e mudo este texto todo, porque, se isso acontecesse, eras o melhor jogador da história do futebol, como é evidente. Aliás, vou mais longe, porque, se fizeres isto tudo, segunda-feira vou assim vestida para o trabalho:




quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O Bernardo do Benfica

Confesso-vos que demorei a ver o Bernardo Silva. Por escolhas erradas que tomei ao longo da vida, nomeadamente ter escolhido ser médico em vez de jogador de futebol do Sport Lisboa e Benfica, só tenho tempo para saber tudo e mais alguma coisa da nossa equipa de futebol. Os juniores, a equipa B e as modalidades não têm a atenção que merecem a minha parte e penitencio-me por isso. Assim, ao invés de pessoas mais bem informadas do que eu, a minha atenção só se virou para o Bernardo quando começaram a correr nas redes sociais as fotografias dele no instagram: foi como uma bomba, havia um jogador do Benfica B que era do Benfica desde pequenino e que vive o clube como nós.



Comecei a espreitar resumos da equipa B, a ver os consecutivos golos e prémios de melhor em campo e dei por mim, mesmo sem lhe ver 90 minutos completos, a torcer por ele. O Bernardo Silva - independentemente do que venha a ser enquanto jogador de futebol - é um adepto do Benfica. E aos adeptos do Benfica quer-se sempre o melhor. Se o Bernardo chegar a jogar na Luz pelo Glorioso e marcar, virá festejar connosco e vai ter a alegria que nós teríamos. Só uma pessoa sem coração (ou sem acesso às redes sociais) podia não torcer por um jogador que ia à Luz de cachecol como nós.

Apesar de ser um adepto e de ter um ideal romântico sobre o mundo da bola, sou muito pragmático: não há Bernardos que substituam os Enzos, os Oblaks, os Garays, os craques a sério. Eu também sou mesmo muito do Benfica e duvido que fosse útil, neste meu momento de forma, à equipa de futebol, portanto não sou nenhum fundamentalista do "jogador da formação", do "jogador português" e dessas coisas. Eu quero que o Benfica tenha os melhores, não me interessa a idade, a nacionalidade nem se são vegetarianos ou se comem três bitoques ao pequeno-almoço. O que me faz confusão é que, em condições iguais, não se dê prioridade ao jogador da formação, ou - e isto ainda é mais importante - que sente o clube. Porque uma coisa é comparar o Ivan Cavaleiro ao Markovic, em que o primeiro será uma eterna promessa do futebol português e o segundo, enfim (pausa para chorar de saudades), outra é achar que o Bernardo não tem lugar neste plantel do Benfica. 


A questão é grave por dois prismas: em primeiro lugar, porque o Benfica perde um jogador que lhe podia ser muito útil porque me parece muito bom, ponto. Eu sei que desde que desperdiçámos Mario Stanic e Deco que o Bernardo pode não parecer muito grave, mas algo me diz que sim. Em segundo, pela identidade do clube. Este que vos escreve tem a mania que sabe muito de futebol e que acerta muito, mas, assim que vi o Talisca, ia morrendo. O Talisca, a número oito então, pareceu-me ser rapaz para ser responsável por 275 cateterismos e 12 pacemakers só na minha pessoa. Em todos os jogos, era sempre o jogador que eu tirava na primeira substituição. E o que é facto é que o rapaz tem 6 golos e que está a humilhar a minha opinião inicial sobre ele. Eu, sobre o Benfica, não faço questão de ter razão. Oxalá o Talisca se sagre Bota de Ouro este ano e que nunca mais ninguém ligue ao que eu escrevo. Mas o Talisca, apesar da sua meia dúzia de golos, além de não saber quem é o D'Artagnan, não sabe o que é o Benfica. Tanto assim é, que decidiu tirar fotografias com o Kelvin e escrever inclusivamente que o ama. 



As boas notícias (para os adeptos do Porto) é que o Kelvin está vivo, as más é que a jovem promessa goleadora do Benfica não percebe que uma fotografia destas é um choque para os adeptos do clube que representa. Tenho a certeza que o Bernardo não metia uma foto com o Kelvin nem que este lhe salvasse a família inteira e lhe entregasse três chaves vencedoras do Euromilhões. E isto é importante, isto é fundamental para um clube. Não acho que haja uma escolha Talisca versus Bernardo; o Benfica podia ter perfeitamente os dois e beneficiava disso. Eu prefiro o Talisca ao Ivan Cavaleiro e ao Nélson Oliveira. Mas prefiro uma oportunidade ao Bernardo do que aos negócios estilo Djavan, Candeias e Luís Felipes. É aí que me dói, que o Bernardo não tenha uma oportunidade no Benfica. É que há jogadores francamente maus que a têm só por jogos de comissões e empresários. O Bernardo não merece lugar cativo no Benfica só porque tem um número de sócio baixo, mas o seu futebol e o mais que declarado amor ao clube têm que se sobrepor a várias negociatas estranhas.

É que o Bernardo tem tudo para ser um Paneira. Um daqueles que só de vestir a camisola do Benfica se sente maior. E essa raça de jogadores que se confunde com a camisola tem uma grande virtude: torna o clube mais forte. Porque passa a haver alguém no balneário que lhes explica por que sofrem tanto os adeptos, que lhes explica por que é especial este ou aquele acontecimento, este ou aquele jogo. Porque esses jogadores comunicam melhor com os adeptos, fazem-nos sentir menos clientes, fazem-nos sentir mais próximos das camisolas. E esses clubes são melhores, são mais fortes, ganham mais do que os outros. É isso que eu quero para o Benfica. Porque eu sou do Benfica como o Bernardo Silva.


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O sportem em 2014

Queridos filhos e netos,

Escrevo-vos do passado, mais exactamente de Setembro de 2014, para que vocês finalmente percebam por que é que os vossos pais/avós estão sempre a falar “no tal de sportem”. O desprezo com que vocês dizem isto, a maneira como ignoram o grande ódio que nos une no futebol português, é demasiado difícil de suportar para dois adeptos doentes do Porto e do benfica. Por isso, espero ajudar-vos a perceber a razão de eu e o vosso pai/avô nos rirmos tanto quando, no tradicional almoço de domingo, damos todos as mãos para rezar o “Bruno Carvalho que estais no céu”.

O sportem, em 2014, ainda era considerado um grande. Parece estúpido para vocês, eu sei. Bem, na verdade já o era um bocado nessa altura, mas fazia-nos impressão reduzir o campeonato a dois e acabava por ter a sua piada incluir os lagartos nas nossas discussões futebolísticas do dia-a-dia. Por exemplo, se o sportem não fosse considerado um grande em 2014 (como fazia sentido…), não tínhamos o Dias Ferreira, o Eduardo Barroso e o Rui Oliveira e Costa nos programas sobre futebol e, assim, não podíamos ter feito essas compilações das maiores vergonhas televisivas, que vemos sempre ao domingo à tarde todos juntos.

Em 2014, o sportem não era campeão há 12 anos. Hoje, isto para vocês até é um choque, porque quer dizer que o sportem já foi campeão, mas tentem aguentar a notícia. Sejam fortes, porque, antes de 2014, em três décadas, o sportem até foi campeão duas vezes. Chocante, certo? Mas olhem que foram tempos esquisitos no futebol português, vejam lá que até o boavista foi campeão (menos uma vez do que o sportem em 30 anos, reforçamos) e vocês sabem que o boavista andou depois muito tempo em divisões inferiores, que era o que devia ter acontecido ao sportem pelo menos em 2013 e infelizmente só veio a acontecer mais tarde.

Em defesa da nossa rivalidade com o sportem, a verdade é que eles até ganharam vários campeonatos ao longo dos tempos. Troféus internacionais, no entanto, foi mais difícil. Não é do nosso tempo, mas uma vez até ganharam uma Taça das Taças. Escusado será dizer que essa competição acabou. O melhor momento internacional do sportem de sempre está, aliás, encaixilhado na nossa sala - esse quadro enorme que vocês estão a ver é uma montagem das caras dos adeptos verdes quando o sportem falha o empate contra o CSKA e sofre o 3-1 em contra-ataque. Estamos fartos de vos dizer e a sério que a nossa repetição não é um sinal de velhice: aquele lance diz tudo do que era o sportem.

Mas o sportem teve muitos adeptos, juramos. Além de todos os “Bettencourts” e “Bernardos”, havia mesmo dois ou três “Joões” e “Silvas” que torciam pelos verdes. Na nossa família, como sabem, nunca ninguém sofreu desse mal. O vosso sangue pode ser vermelho, da parte rasca do vosso pai/avô, e azul, da parte nobre da vossa mãe/avó, mas nunca verde. Houve uma altura, quando nós lançámos o livro do nosso blog no qual vocês agora também escrevem, que as pessoas diziam muitas vezes que um dia ainda nos ia sair um filho do sportem. Tem piada imaginar como estavam tão enganadas, não tem queridos sócios nº 250273, 250274, 250275 e 250276 do FCPorto?

Bem, dizia eu que o sportem até era um clube a considerar no panorama do futebol português. No início da época 2014/2015, aliás, até se consideravam na “pole position” do ataque ao título. A sério, parem de se rir e continuem a ler até ao fim, chega de malcriadices. Nessa altura, o presidente deles era o tal das nossas rezas (Bruno Carvalho que estais nos céus, Santificado seja o vosso onze, Venha a nós o vosso sexto lugar, Sejam feitos os vossos empates, Assim em casa como fora. Os pontos nossos de cada dia nos dá o sportem. Perdoai-nos as nossas ofensas, Assim como nós perdoamos a quem nos deu o Moutinho. Não nos deixeis cair em alvalade, Mas livrai-nos do mal que é ir lá e não ganhar.) O Bruno Carvalho... Ai, bons tempos… Aliás, querido Jorge Nuno, meu filho mais velho, fica a saber que estiveste para te chamar assim, mas, como vieste na altura em que o Bruno foi parar à prisão, achámos por bem não brincar e dar-te o nome de uma pessoa decente e boa.

Mas, voltando a 2014, o Bruno estava com a pica toda. Quase não havia dia em que não viesse dizer mal do nosso FCPorto. Ninguém lhe respondia, o que tinha ainda mais piada. É que o Bruno achava não só que o sportem ainda podia bater-se com o FCPorto, como ele podia bater-se com o vosso padrinho, aquele que ainda outro dia foi jantar lá em casa e mostrou que está de perfeita saúde, o senhor Pinto da Costa. Todos juntos, agora sim: ámen.

No entanto, a vossa mãe/avó, que como sabem tem sempre razão, avisou logo na altura os outros portistas: não podíamos andar outra vez a dormir com as palavras daquele gajo para depois acabarmos a ser roubados em alvalade (alvalade era o estádio deles, onde agora é aquele cemitério que, sempre que passamos, eu e o vosso pai/avô fazemos coisas das quais não nos orgulhamos com os dedos).

Portanto, em 2014, ainda tínhamos de estar atentos ao sportem. E era bom, sabem? Sempre eram mais uns para nós, portistas e às vezes até o vosso pai/avô lampião, brincarmos. Se bem me lembro, não estávamos em Portugal quando o nosso FCPorto jogou em alvalade nessa altura. A vossa mãe/avó estava muito nervosa, como ainda hoje fica quando o sportem, da III divisão, nos calha para a Taça de Portugal. A rivalidade é assim mesmo: quero ganhar-lhes sempre, sempre. Percebem agora?

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O roubo

Cá em casa, discute-se muito sobre louça mal lavada e roupa fora do sítio, mas pouco sobre arbitragem. Não nos entendam mal: não é que cada um de nós não ache que o seu clube é sempre roubado pelos árbitros (com a diferença que eu, efectivamente, tenho razão, e o M. parece só maluquinho). O que conseguimos foi, ao longo dos anos, perceber que simplesmente não vale a pena.

As pessoas que não nos conhecem ficam muito surpreendidas quando dizemos que não vemos os jogos juntos, porque de um casal, e de um que ainda por cima gosta muito de bola, espera-se que faça tudo em conjunto, especialmente o que mais gosta. Mas o que esta relação nos ensinou é que perder tempo a discutir arbitragens um com o outro não contribui para nada além de um eventual divórcio.

Infelizmente, às vezes não me consigo desmarcar do M., como o Brahimi da defesa do Vitória, e fico, ao contrário do argelino, em fora-de-jogo. Isto é, tenho de ver um jogo com o meu marido. O que já é normalmente mau, mas piora consideravelmente quando estamos perante um grande e escandaloso roubo. Que foi o que aconteceu no último domingo.

Podia vir para aqui falar da má primeira parte do FCPorto, de como entrou mal Tello, de como Evandro parece merecer a titularidade, de como não percebo a entrada de um avançado aos 89 minutos, mas há momentos em que realmente isto não interessa muito. Pode ficar bonito, apontar as falhas que ainda é normal esta equipa ter, dá assim um ar de intelectual da bola porreiro, mas quando estamos a falar de um grandessíssimo roubo acho isso uma perda de tempo para um adepto.

Já devíamos, no entanto, estar habituados. Não é preciso recuar muito. O ano passado, quando até o totó do Fonseca ia em primeiro, uma arbitragem escandalosa fez questão de roubar os primeiros pontos ao FCPorto. Seríamos campeões se não tivesse acontecido? Bem, na verdade não. Mas cansa um bocado isto do primeiro sinal de destabilização vir de fora.

Por isso, espero que desta vez os portistas estejam mais atentos. Eu sei que é quase impossível pedir-vos que não assobiem a próxima hesitação da equipa, mas pensem nisto quando levarem a merda desses dedos à boca: o que estas inocentes arbitragens fazem é levar-nos a duvidar, a criticar, a colocar em questão um trabalho que, a meu ver, está a ser bem feito. E isso parece-me um bocado estúpido.

Portanto, a nossa relação sobreviveu a mais um domingo de roubo ao FCPorto. À custa de muito silêncio, muita omissão de pensamentos e de um controlo notório sobre a vontade que temos de denunciar o outro à polícia, como quando o M. disse que não era penalty a nosso favor. A sério, é nestas alturas que eu não percebo como posso gostar tanto de uma pessoa tão vil.



P.S. Queremos deixar por escrito um elogio ao presidente do Vitória pela atitude depois da vergonhosa carga policial sobre os adeptos. Não é qualquer um que faz aquilo. Os nossos parabéns.

sábado, 13 de setembro de 2014

M. na Benfica TV

Fui à Benfica TV falar da actualidade do clube, do blog e do livro. Muito obrigado ao João Martins pelo convite e pela conversa à Benfica antes do programa.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Época de exame

Eu fui um bom aluno. Na faculdade tinha dois objectivos: acabar o curso com uma boa média - coloquei a meta nos 16 valores e atingi-a sem grandes problemas - e nunca deixar nada para Setembro porque isso me ia lixar as férias. Palavras sábias que alguém uma vez disse ao meu pai: "Ser o melhor aluno dos bebâdos e o mais bebâdo dos melhores alunos". Este objectivo não consegui, mas pronto.

Como aluno de 16, havia vários tipos de exame. Havia os exames em que tinha estudado para mais do que 16, em que o exame era fácil e eu sabia que ia ter boa nota antes de começar. Uma pessoa está plenamente confiante, não há discussões interiores sobre a matéria, aquilo já faz parte de nós. Como, a certa altura, o Benfica de 2013/2014. Em Fevereiro de 2014, quando o Benfica atropelou o Sporting no Estádio da Luz, o Benfica sabia a matéria de cor. Era o aluno sem medo, perfeitamente capacitado do que sabia, que nem imaginava que podia ter dúvidas. Os jogadores abordavam os jogos e os lances sem colocarem a hipótese de não os ganharem. Estavam concentrados, e respondiam a perguntas aparentemente fáceis como "Rio Ave em casa", sem se esquecerem daquela coisinha que o professor tinha dito na aula e que ia ser descontada se não estivesse lá. Não havia engonhanços, ronha, as respostas eram claras, precisas, de quem sabia em que página do livro estava a resposta e ainda tinha preparado uns pozinhos para requintar a resposta. Em perguntas de alínea, como "Guimarães em casa", "Braga fora", o Benfica foi cuidadoso e humilde. Leu as alíneas todas para ir cortando as que tinha a certeza que estavam erradas e assinalou com cuidado, sem arriscar. O Benfica intramuros de 2013/2014, na segunda metade da época, foi o aluno de 20, o menino bonito em que um professor e um adepto se podia orgulhar e a quem se augurava um futuro risonho.

Houve exames que eu odiei fazer. Não gostava da cadeira (o curso de medicina é longo e tem várias coisas que depois nos esquecemos e que nunca vamos usar na vida. Sei mesmo muito pouco - nada? - de otorrinolaringologia, por exemplo), não tinha estudado, enfim. Eram cadeiras que eu fazia, mas em que não me aplicava a 100%. Não era o aluno modelo. E o Benfica, várias vezes, não o é. A preparação é deficiente, não se estudou o suficiente, a coisa vai correr mal. E aqui depende muito do professor que está do lado de lá. Num exame oral é preciso sorte com o professor, com a maneira como ele acordou, com as perguntas, com o facto de ter ou não simpatizado connosco. Uma vez fiz uma oral com um médico que tinha estado de urgência, sem dormir. Acho que se tivesse falado do Benfica em vez de medicina teria tido a mesma nota. E fiz orais com professores brilhantes, inteligentes, capazes de perceber só pela maneira como começávamos a frase se sabíamos ou não do que estávamos a falar (uma saudação à minha tutora de pediatria). Ou seja, muito do sucesso do Benfica depende do Porto (e vice-versa). Quando o Porto é implacável (2010), um Benfica mal preparado só vai levar sovas. Um Porto sem dormir, como o de 2005, foi vencido por um Benfica em que o primeiro médio suplente era o Bruno Aguiar.

Depois havia os exames dúbios. Aqueles onde eu tinha estudado, mas sabia que não eram fáceis. Os exames onde eu gostava da matéria, mas não sabia tudo. Eram as épocas de exames tramadas, com muitos exames em cima uns dos outros,  às vezes na época de Natal, quando eu ia a casa visitar a família. E, nestes exames, as coisas eram imprevisíveis. Tudo é fácil quando se sabe a matéria toda - não há professor nem Estoril que nos tire dois pontos - e tudo é também fácil quando sabemos que não estamos preparados: não há ilusões e vamos só tentar não baixar muito a média e recuperar no próximo. Mas eram estes exames intermédios que eram uma incógnita e que puxavam pelos alunos. Era preciso ser-se esperto, concentrado e ter alguma sorte. Sinceramente, nunca fui suficientemente calmo para ser consistentemente bom nestes exames e, mais desafortunadamente, o Benfica também não. Um exame em que não soubéssemos tudo obrigava a ser inteligente na maneira como respondíamos com confiança, escondendo a matéria que não sabíamos. Era preciso trazer o exame até à nossa zona de conforto, ser inteligente e usar cada bala (os alunos de 20 acabam o exame com pena de não terem mostrado tudo o que sabiam). O Benfica nunca é bom nestes exames. Em anos em que o Porto é do nosso campeonato, nem muito superior nem muito inferior, o Benfica não tem sabido fazer o exame com inteligência (2011/2012), ou não tem tido sorte (2012/2013).

O Benfica de 2014/2015 tem o mesmo treinador de há 5 anos, aguentou Gaitan, Enzo Perez, Salvio, Lima e Luisão. Mas não tem Garay nem grandes avançados. É o bom aluno, o aluno de 16, mas o aluno que não estudou tudo. E tem um professor que sabe a matéria, ainda que haja lacunas. Para ser campeão, o Benfica tem que ser inteligente nas respostas, tem que estar sempre concentrado, tem que puxar persistentemente os jogos para aquilo em que faz melhor. Não pode entrar a achar que não vai ter boa nota, não pode achar que isto é um exame para 20 valores. É um exame duro, no qual é preciso sorte, é preciso que o professor falhe as perguntas e é preciso muita, muita concentração. 2014/2015 é um teste de maturidade, de mentalidade competitiva, de saber sofrer. 2013/2014 foi de cruz, 2014/2015 é uma pergunta de desenvolvimento.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

2014/2015

Perdon a todos los jugadores y a el entrenador del Oporto, pero voy a escribir en portugués porque mi español no es todavia perfecto

Está quase. Vem aí. Preparados? Vai começar uma nova época e nenhum de nós consegue prever se vamos ganhar ou perder tudo, se temos treinador ou contratador de espanhóis, se há uma equipa ou apenas um plantel. É está a beleza da coisa, certo? A expectativa, a ansiedade, o incalculável. Então vamos lá, vamos a isso.

O FCPorto mudou muito em dois meses. Saíram Mangala e Fernando, só o futuro nos dirá o quanto perdemos Helton e graças a nosso senhor Pinto da Costa por agora mantemos Jackson. Afastámos todos os Licás e Josués (moços, nada contra, mas isto é outro nível) e fomos buscar Tellos e Olivers. Temos treinador. Não faço ideia se foi aposta certeira ou não, se seremos tiki-taka ou flop-flop, mas, pela primeira vez em mais de um ano que nos pareceu uma eternidade, vejo uma ideia a ser efectivamente treinada.

Uma ideia. Não era pedir muito, pois não, treinador da equipa que traja de amarelo (sem ser o alternativo do sportem, desculpem a confusão)? Enfim, adiante, que não sou de chorar sobre Fonsecas derramados. O FCPorto da pré-época pelo menos apresentou-se aos adeptos. É isto que eles querem. Bola no pé, muita calma e cabeça no sítio. Só de pensar no duplo pivot, quase que choro a escrever isto, de tão simples que é.

Mas uma ideia e um conjunto de jogadores de qualidade não fazem uma equipa vencedora. São um bom princípio, é verdade, mas não chega. Até porque estamos a falar do FCPorto. E não sei se nuestros hermanos já terão percebido o que isso significa. Nós queremos jogar bem, queremos que eles tenham sucesso e possam sonhar com grandes carreiras, mas, sobretudo e até apenas, nós queremos é ganhar. O mais rapidamente possível.

Sim, eu sei que um treinador inexperiente nestas lides e jogadores muito jovens não são o cenário ideal para as vitórias imediatas, mas, se eu escrevesse que eles têm todo o tempo do mundo para mostrar o que valem, estaria a trair o FCPorto com o qual cresci. Os nossos adversários, ainda inebriados com os títulos aos quais não estão habituados (aqui incluo os verdes, que não ganharam nada mas ostentam aquela aura de vitória simplesmente por estarem vivos), dizem que, se não ganharmos o campeonato este ano, é o fim do mundo. Tentam, desta forma, colocar-nos uma pressão enorme desde o primeiro dia.

O que eles não percebem é que têm toda a razão. No FCPorto, já ninguém anda a celebrar o penta, o duplo Mourinho e o poker de Villas Boas (o quê?? Quatro títulos na mesma época? Isso não é só do benfica??). Jardel, Deco e Falcao são passado. O golo do Kelvin parece que foi há 92 anos. É exactamente essa a pressão que nos colocamos, que nos torna tão diferentes de vocês e, em último caso, que nos faz ganhar mais. No FCPorto, não sabemos nem aceitamos perder. Nunca. Em nenhuma situação. E o ano passado perdemos. Com estrondo, aliás. Como nunca vimos. Daí esta exigência, esta vontade, esta fome.

Ninguém, a não ser os portistas, sabe o que isto é. Queremos tanto que comece, depressa, já não aguentamos mais! Neste momento, ao contrário da grande maioria dos arranques a que o meu clube me habituou nos meus 27 anos, tenho saudades de que as coisas nos corram bem. Tenho saudades de ver entrar 11 jogadores em campo com um espírito de missão em prol da minha, da nossa, felicidade. Tenho saudades de ganhar. Porque, no FCPorto, uma época só com uma Supertaça é mesmo o fim do mundo.

Que volte tudo ao normal. Já.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Até amanhã, camarada

O José Cardoso Pires dizia que não era do Benfica, era do Nené - António Lobo Antunes

Eu devia estar a escrever sobre a terrível pré-época do Benfica, sobre a falta de um guarda-redes, de um central, de um trinco e até de um avançado. Aliás, quando disse à C. que ia escrever sobre o Cardozo, ela até soltou um "Outra vez?", talvez com razão. A verdade é que já escrevi duas vezes sobre Cardozo e nem sequer vos vou prometer que é a última. Se eu escrevesse um texto por cada vez que me sinto agradecido ao Tacuara, era provável que não fizesse mais nada na minha vida. 

O futebol mudou e os nossos ídolos ficaram com a nossa inocência, algures lá atrás, perdida no tempo. O amor à camisola é uma expressão em desuso, é uma fantasia de uns totós que ainda vão ao estádio. Hoje, o futebol (e a vida) é uma combustão muito rápida: os jogadores chegam, metem o emblema no Instagram, dão uma conferência a dizer que sempre ouviram falar no Benfica, têm um estandarte ao segundo jogo, há quatro bandeiras do seu país na central ao terceiro, marcam um golo e são uns heróis e no próximo mercado estão a fazer o mesmo num clube qualquer, sem metade da história do Benfica, mas que lhe paga a quadruplicar. Eu chego a esquecer-me que jogadores fabulosos, como Nemanja Matic, estiveram na Luz: é tudo muito depressa. A culpa é nossa, que pactuámos com isto. Eu, por exemplo, fico logo fã de qualquer gajo que faça bem a transição defensiva (num dos meus dias mais desvairados sou capaz de por o Ramires no melhor onze do futebol do século XXI). Eu, sócio pagante, nem me apercebi que o meu clube já gastou cerca de vinte (!) milhões de euros em jogadores sem conseguir um reforço sem ser Derley. A máquina tritura-nos.

No meio disto, desta confusão toda, com uma pré-época tenebrosa a desenrolar-se, anuncia-se a saída de um ídolo da Luz: Oscar Cardozo. O nosso Tacuara, homem de golos e mais golos, nunca foi consensual. Talvez os maiores aplausos que tenha ouvido na Luz tenham sido na segunda volta de 2013/2014, quando fez os piores jogos vestido à Benfica. Um homem que tantas e tantas vezes nos salvou e foi assobiado, foi aplaudido e incentivado numa fase onde era mais empecilho que o matador ponta de lança que foi, só para que ninguém esqueça, na primeira metade de 2013/2014. 
Uma das coisas mais fantásticas da relação de Cardozo com o Benfica é que sobreviveu ao tempo. Cardozo podia ter-se ido embora na primeira ou na segunda época que fez connosco. Mas não, ficou sete temporadas, número quase irreal nos dias que correm e na realidade do Benfica. Sete, como o número que levava nas costas. Cardozo teve tempo de ser o melhor marcador estrangeiro da história do Benfica, tornar-se o nono (?) melhor marcador do clube de todos os tempos e de inscrever, com letras de ouro e vermelho, o seu nome na história do derby. Com 13 golos aos verdes, Cardozo era já um símbolo de terror. Recordo-me que, o ano passado, naquele 2-0 de banho aos verdes, a Luz praticamente cair quando Tacuara entrou, a poucos minutos do fim. Eles já estavam de rastos, o jogo decidido e o Benfica muito por cima. Mas quando Cardozo se apresentou a arranjar a camisola, junto à linha, todo o estádio achou que íamos marcar mais três ou quatro. Repito, na segunda metade da época, Cardozo era pouco mais que inofensivo, mas sete anos e tantos, tantos golos depois, Cardozo conseguiu aquilo que o futebol moderno parecia fazer impossível: tornou-se um símbolo. E, a ganhar 2-0, com os verdes de rastos, a Luz cresceu porque vinha aí um símbolo de golos, de vitória no derby. Aquele calmeirão podia estar lento e desengonçado, mas aquele sete nas costas já era história.

Essa história vai-se embora. Não vai, sequer, para um Everton, para um Valência ou para qualquer outro clube desses, a milhares de anos da nossa história, mas ainda assim respeitáveis. Não, Cardozo, aquele homem que só de estar prestes a entrar contra o Sporting fazia com que a Luz se sentisse mais forte, vai sair, como se nada fosse. Um homem destes tinha que ter uma saída séria, com agradecimento público de presidente e treinador e com a possibilidade de ser aplaudido de pé pelos adeptos que lhe devem tanto. Um jogador que decidiu ir ao lado do caixão de Eusébio a pé e não no autocarro, com os restantes jogadores. Este homem não é para tratar como os outros, que se despedem no Facebook.
Eu sei, Cardozo hoje já só era isso mesmo - história. Mas a história é para ser respeitada e aplaudida. Cardozo devia sair com cumprimento e vénia de treinador e presidente. E devia ter tido uma saída suficientemente estudada para lhe darmos um último aplauso de pé no estádio da Luz. Eu sei - racionalmente - que tenho que estar mais preocupado com a compra dos 4 reforços que nos faltam urgentemente e com a possibilidade das saídas de Enzo e Gaitan (hoje infinitamente mais úteis que Cardozo), mas vai partir um dos poucos que já merecia mesmo que lhe pedissem a camisola, que merecia um bandeira. 

Eu, ao contrário do José Cardoso Pires, nunca fui do Cardozo. Ele é que decidiu ser do Benfica.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

10 anos do Diário de um Ultra

Um comentário muito simpático no blog lembrou a efeméride: faz hoje 10 - dez! - anos que comecei o Diário de um Ultra. Foi o meu primeiro blog e nasceu na minha fase mais "claqueira". Do Diário vim cá para casa, de onde espero não mais sair. A maior parte dos textos deve já envergonhar-me (é por isso que foram escritos há uma década...), mas a data é para celebrar: faz hoje dez anos que me sentei a escrever pela primeira vez, para vossa manifesta infelicidade.

sábado, 26 de julho de 2014

Questionário para quem assobiou Messi no Dragão

1. O jogo era...
a) de homenagem ao Deco
b) um Real Madrid-Barcelona
c) um anúncio de champôs

2. O Messi interrompeu as férias para...
a) homenagear o nosso Deco
b) matar crianças em Gaza
c) abater o avião na Ucrânia

3. A grande dúvida que te inquieta é: o melhor jogador de todos os tempos é...
a) Vítor Baía
b) Deco
c) Secretário

4. Assobiaste o Messi porque...
a) é a tua forma de ovacionar um astro do futebol mundial
b) pensaste que dessa forma ele podia olhar para ti e tiravas uma selfie
c) és só atrasado mental

5. Preferes assobiar o Messi do que...
a) o treinador que não festejou a nossa Champions de 2004 e que não apareceu na homenagem ao Deco
b) qualquer jogador de uma equipa adversária do FCPorto nos jogos a sério
c) qualquer jogador formado num rival nosso que nos marque golos e nos elimine da Champions

6. Foste ao Dragão porque...
a) as pipocas estavam baratas
b) acabou-te a Coca Cola em casa
c) o que é o Dragão?

7. Quando começar a época, prometes...
a) assobiar da mesma forma todos os adversários do FCPorto
b) ir ao Dragão fazer cenas além de assobiar
c) dedicares-te à pesca desportiva

8. Agora, a frio, és capaz de admitir que...
a) assobiar o Messi num jogo de homenagem ao Deco foi a coisa mais estúpida que já fizeste
b) o FCPorto não merece ter-te como "adepto"
c) não devias ter nascido

9. Não vais ler mais este blog porque...
a) nós somos fãs do Messi
b) não percebes nada disto
c) não tens tempo para mais nada além de ler o livro da mãe do Ronaldo

10. Vá, agora a sério...
a) choraste com o Deco porque não há igual a ele
b) não consegues dormir porque tens saudades do portismo daqueles jogadores
c) nunca mais começa a bola a sério para nos deixarmos destas merdas


terça-feira, 22 de julho de 2014

Vinte anos depois

Passaram vinte anos desde que começou o capítulo mais negro da história do Benfica, ou seja, passaram vinte anos desde a chegada de Artur Jorge como treinador ao Benfica. Há vinte anos, a nação benfiquista assistia à destruição de uma equipa que fora campeã contra todas as previsões e de maneira heróica. O Benfica, numa fase crescente da história do Porto e arruinado financeiramente, desceu o seu nível desportivo para patamares terríveis que nos afundaram anos. Artur Jorge e Manuel Damásio, se o mundo fosse justo, não se podiam aproximar a menos de 50 Km do Estádio da Luz sem lhes cair um balde de estrume em cima.
Passaram vinte anos, vinte anos de trevas, de ruína. Desde aquela noite de Maio em Alvalade e daquelas tardes de uma alegria melancólica de Braga e na Luz, contra o Guimarães (como se toda a gente já soubesse o futuro), que o Benfica se separou de uma glória e de uma aura que nunca o tinham abandonado nos 90 anos prévios. 

As melhores personagens literárias são, para mim, as que têm passado. O Conde de Monte Cristo - o meu romance favorito - é fantástico porque todas as personagens têm uma história. Ou porque foram traídos ou porque foram conspiradores, ou porque amaram quem não podiam amar ou porque beberam demais numa tarde. Em "Vinte anos depois", também romance de Alexandre Dumas, encontramos os três mosqueteiros e D`Artagnan outra vez. O romance, longe de ser genial (Dumas era um boémio que escrevia muitíssimos livros para pagar os seus ainda maiores excessos), tem o condão de dar ao leitor aquilo que ele mais pode pedir: saber o que se passou, muitos anos depois, com os seus personagens favoritos. 

Chegados aqui, vinte anos depois da aparição do "poeta" Artur (que há quem diga que é exactamente a mesma pessoa que um célebre avançado do Benfica, especialista no pontapé em moinho - mas eu não acredito), temos o prazer de saber o que se vai passar com o Benfica, tal e qual como os quatro mosqueteiros. Maio de 2014, que podia ter sido perfeito não fosse um velhaco ter defendido os penalties quase para lá da própria marca de penalty, foi o melhor ano dos últimos vinte. Pela primeira vez desde a chegada de Artur Jorge, o Benfica foi inequivocamente superior ao Porto, com melhor plantel, melhor treinador e melhores resultados. Passaram-se coisas incríveis, entretanto. Longe da aventura de cordel de D`Artagnan e dos três mosqueteiros, longe do sorriso da Julieta (perdão, Constança. Julieta era no Dartacão) e daquele final de honra e glória, os últimos vinte anos foram uma tragédia onde o Cardeal Richelieu gozou a seu bel-prazer. Mais: apesar da vitória do ano passado e dos seus melhores anos já terem ido, a sua posição ainda é fortíssima. 

Em "Vinte anos depois", D`Artagnan é o único mosqueteiro. Athos, Porthos e Aramis seguiram os seus destinos (como Oblak, Garay, Markovic, Rodrigo...). E é aqui que as metáforas se separam: eu tive um prazer genuíno quando li o "Vinte anos depois" enquanto adolescente porque encontrar o futuro daquelas personagens (tão cheias de passado) era uma ânsia. E vivi aquilo tudo, o drama, as mentiras, a decadências e os erros irreversíveis com avidez. Porque o que eu queria era saber o que aconteceu, como é que estavam as minhas personagens aquele tempo todo depois. Em relação ao Benfica, não houve propriamente uma pausa entre os livros. Eu vivi estes anos, eu cresci com isto. Ou seja, o Benfica é a personagem da qual eu conheço o passado, é a personagem que eu mais estudei, que eu mais absorvi. Mas vinte anos são vinte anos e o marco histórico merece ser assinalado. Para onde queres ir Benfica? 

Vinte anos, além de um número redondo, simbolizam a primeira vez que o Benfica podia ter partido na frente para um bi-campeonato, podiam significar uma vida diferente, uma coroação, podia ser o princípio de qualquer coisa muito diferente das últimas duas décadas. Ao contrário, há uma estranha sensação de deja-vu. Como aquele festejo do título triste de 1993/1994, em que se despediu o último plantel à Benfica, sente-se esse espírito de revolução falhada: foi bonita a festa, pá. 
Eu gosto de personagens tristes, falhadas, com erros (Athos tem um filho com a amante de Aramis, sabiam?), eu gostei que, ao fim de vinte anos, os quatro mosqueteiros não ficassem juntos, num final de nostalgia amarga. Mas, quanto ao Benfica, nada me custava mais que os mesmos erros, que a mesma tragédia se assolasse sobre nós. Já não há paciência para finais tristes, já não há paciência para vinte anos que pareceram vinte séculos. 

Sinto que todos os anos, desde há vinte, começo a época com a mesma sensação. Gostava de, um dia, tantos anos depois, fechar este capítulo. 


quarta-feira, 9 de julho de 2014

A derrota da incompetência




Se há coisa que eu detesto é a incompetência. Se há coisa que eu detesto são frases começadas por "se há coisa que eu detesto", porque na verdade eu detesto muita coisa, mas agora já está, já está. A incompetência mexe particularmente comigo quando é recompensada. Todos os dias vejo gente incompetente a ser promovida numa empresa, num clube, num Governo, e isso deixa-me realmente irritada. Se o mundo fosse um local perfeito, nunca a minha vida poderia depender de um incompetente, fosse num call-center, num hospital ou num Parlamento. E, se o mundo fosse um local perfeito, sobretudo um treinador como Paulo Fonseca nunca chegaria ao meu clube.

Há, no entanto, um ingrediente que aumenta o meu nível de irritação com a incompetência. Porque há incompetentes que são esforçados, coitados, mas que têm noção do seu pequeno valor. Estes normalmente têm o dom de não pisar ninguém durante a sua estadia neste mundo. Mas há aqueles que, dentro da sua evidente incompetência, precisam de estragar a vida a alguém para consagrar a sua alegre ascensão ao reino dos incompetentes. São estes os que me tiram realmente do sério: os que são uma valente merda e acham que são uma grande coisa.

Já devem ter reparado, portanto, que este texto é sobre Scolari. Devo admitir desde já que acho que o Scolari é a pessoa que eu mais odeio no mundo. O que não diz muito sobre ele, na verdade, mas diz muito sobre a provável demasiada importância que eu dou ao futebol na minha vida. Às tantas devia dizer que a pessoa que eu mais odeio no mundo é o Cavaco,  sei lá, dava assim um ar mais sério e ativista da minha parte, mas hoje estou numa de ser honesta. Eu já não posso ouvir o Presidente falar em consensos pós-troika, mas mais depressa atiro um sapato à televisão quando ouço o Scolari avaliar a Colômbia como uma equipa com muitos talentos individuais e uma grande disciplina táctica, "tal como o meu time".

Não, Scolari, o teu time não é nada disso. Mas voltemos atrás. Scolari foi campeão do mundo em 2002, com uma equipa que tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo, ou seja, com uma equipa que seria no mínimo candidata ao título com um pónei a treiná-la. Também tinha o Polga, é verdade, (saudades tuas, Anderson!) mas às vezes um daqueles incompetentes esforçados também dá jeito. Eu não gostava do Brasil de 2002, nem gostei de um Mundial afastado da paixão pelo futebol e dominado pelos esquemas de arbitragem. Mas o nosso problema só surgiu depois.

Scolari chegou à selecção portuguesa e, como toda a gente sabe, adoptou a estratégia de abrir uma guerra com o FCPorto para ganhar credibilidade junto dos nossos adversários e poder, assim, juntar um grupo de jogadores motivados em mostrar que ele tinha razão. Para isso, fez de Vítor Baía, o português com mais títulos de sempre, o seu novo Romário. Não é segredo que eu acho o Baía o melhor jogador de todos os tempos e de todas as constelações e que, se a Terra fosse explodir e me dessem a oportunidade de salvar alguém, ele seria o escolhido (desculpa M., amo-te muito, pensa que pelo menos assim morríamos os dois juntos e não há história de amor mais linda do que essa). Portanto, esta seria uma razão mais do que suficiente para justificar a minha relação com Scolari.

Mas é a incompetência do homem e a respectiva compensação dela que me tira do sério. Vamos, então, ao Euro 2004, maior orgulho dos adeptos da selecção pró-Scolari e, portanto, pessoas menos credíveis do universo. No primeiro jogo, contra a Grécia, Scolari entrou com o seu onze em campo. Resultado? Derrota. Inesperada, dirão aqueles que tinham uma bandeira na janela. Totalmente previsível, tendo em conta as escolhas e o mau trabalho do seleccionador, dirão aqueles que percebem alguma coisa de futebol. No segundo jogo, Scolari, que é incompetente mas não é totalmente burro, fez entrar os campeões europeus em título. Do FCPorto, pois claro. Resultado? Caminho aberto para a final. Demonstrou sabedoria, porque aprendeu com o erro, dirão aqueles que acreditam em Caravaggios. Mostrou que qualquer um podia treinar aquela equipa, dirão aqueles que sabem que o tal pónei também poria o Deco a titular.

Pelo meio, Ricardo tornou-se a figura de proa da selecção de Scolari. Desde logo pelo tal assunto Vítor Baía, que levava aquelas pessoas que pintam a cara de verde e vermelho a acreditar mesmo que o seleccionador tinha escolhido o melhor. E porque defendeu penalties. Uau, penalties. E logo contra a Inglaterra, uma especialista! O que se assemelha àquele momento em que o totó da turma acerta numa resposta e fica toda a gente espantada e com vontade de bater palmas. É fixe para o totó durante dois segundos, mas se está toda a gente tão excitada e emocionada com uma simples resposta certa, então deve ser um mau sinal a longo prazo. O resultado viu-se, aliás, na final desse Europeu.

Ainda hoje tenho de discutir essa final contra a Grécia com gente que acha que Portugal perdeu por azar. Ficou só 1-0, portanto é azar. E a culpa foi dos gregos, que eram feios e maus. Admito que quando fica 7-1 as coisas sejam mais evidentes, mas quem viu aquela final e tem alguma estima por futebol sabe que a grande derrotada foi a incompetência. Scolari não estudou minimamente o adversário (que, surpreendam-se agora, já tinha derrotado a selecção no jogo de estreia, portanto foi mesmo difícil não estar preparado), os gregos foram muito mais organizados e brincaram com a motivação e as rezas dos portugueses e, parem tudo o que estão a fazer, ainda por cima à custa de um enorme frango do menino do Scolari! Se eu fosse mesmo má, diria que foi perfeito. Olhem, já está, já está.

Este Brasil de Scolari mostrou cedo ao que vinha: desorganização máxima, teimosias tipo Fred, que merece o prémio de pior do Mundial (desculpa, Miguel Veloso), choradeiras e santas que defendem penalties, um discurso anti-árbitros e teorias da conspiração que, se não fossem tão idiotas e sem sentido, até nós poderiam incomodar. Mas lá foi passando e juro que quando vi o remate do Pinilla à barra pensei: "Tu queres ver que a €#%£ da Caravaggio me vai estragar o Mundial?" Felizmente, apareceu a Alemanha.

O que a Alemanha fez ontem foi colocar as coisas no lugar, dar sentido ao futebol, consagrar em números a vitória do trabalho sobre a incompetência, do mérito sobre a crença, da organização sobre a sacanagem. E, por isso, eu tenho de agradecer aos alemães, perdão, ao Guardiola. Não é nada contra o Brasil (a minha primeira memória futebolística até são os festejos em família em 94), note-se. O Mundial é que já estava a ser o melhor de sempre para mim, mas ver Scolari e toda a sua filosofia destruída vai muito além disso. O que vimos ontem e nunca vamos esquecer não foi só uma goleada ou uma humilhação, não foi só uma doce sensação de justiça ou uma vingança dos que não acreditam em santas. Foi uma lição de vida.

sábado, 21 de junho de 2014

Hasta luego, Xavi

Think quickly, look for spaces. That's what I do: look for spaces. All day. I'm always looking. 

Em 2008 eu tinha 24 anos e pensava que já sabia tudo sobre futebol. Era um adepto informado, atento à história, plenamente consciente da evolução física do futebol. Achava que era preciso jogar bem, sim, mas que isso já não chegava. Era preciso ser forte, alto, duro, era preciso ganhar os duelos todos. O futebol tinha evoluído para uma idade mais avançada, robotizada. Kaká e Cristiano Ronaldo eram super-jogadores não pelos seus pés, mas, sobretudo, pelos seus corpos de atleta. Até que tu, Xavi Hernández, me ensinaste que não.

Até ao Europeu de 2008, Xavi era para mim - e penso que para todos - o homem que falhou na substituição de Guardiola. Ninguém ousaria dizer que era mau, mas não era Pep. Guardávamos na memória aquele Barcelona-Valência onde o Barça rodava a bola à volta da área che e Pep, em vez de continuar a rodar o jogo da esquerda para a direita, faz um passe mortal para o meio e descobre Kluivert, que fuzila o guarda-redes. Kluivert corre imediatemente para Pep que lhe aponta a bochecha, pedindo um beijo de agradecimento. Guardiola era inigualável, um cavalheiro, um intelectual. Xavi era uma imitação.


A Espanha de 2008 fez o seu jogo perfeito contra a Rússia, nas meias-finais. Foi um banho, uma aula, a primeira lição. Mas foi na final, com 24 anos, que eu percebi que estava na presença de uma inteligência superior. A Espanha ganha 1-0 à Alemanha (assistência de Xavi) e pode ganhar o seu segundo Europeu. Até aos 24 anos, todas as equipas que eu tinha visto a ganhar em momentos decisivos, por muito superiores ao seu adversários que fossem, encolhiam-se. Era uma coisa normal, explicável por psicologia básica: estás a ganhar e vais defender essa vantagem. E defender significava recolheres. No futebol da primeira década de 2000, dos altos, fortes e duros, nada mais normal do que suportar estoicamente bolas bombeadas pelo adversário a quem se cedia a posse porque se estava a ganhar. Até que, com 24 anos, eu aprendi a ver futebol de maneira diferente: com o jogo a acabar, Xavi recolhe a bola no meio-campo alemão. E em vez de se esconder ou de chutar contra o alemão e ganhar lançamento, esperou calmamente por Cazorla e Iniesta. E tabelou. Pôs a bola no sítio onde queria que os companheiros estivessem. "Põe-te aí." - parecia ordenar, como um jogador de xadrez que coloca as peças. Mexeu-se para o espaço livre como quem diz "Põe aqui. Estão a ver como é fácil?". E, com um minuto para acabar o Europeu, a Espanha defendeu com a bola e acabou a jogar na área alemã, quase fazendo o segundo. Lembro-me perfeitamente de dizer ao meu pai "Nunca vi isto na vida". Felizmente para mim e para o futebol, tinha acabado de começar. Foram anos magníficos. 



Ao lado de Iniesta, com os seus pés de ouro e com o pontapé decisivo no Mundial de 2010, e ao lado de Messi, para mim o melhor da história, Xavi parecia apenas um apêndice. Essencial, mas nunca a estrela mais brilhante. São dele as assistências para Torres na final do Euro 2008, para Puyol nas meias de 2010, para Villa nos oitavos de 2010 contra Portugal e para Jordi Alba na final do Euro 2012. Marcou o primeiro da manita ao Madrid, pôs a bola na cabeça de Puyol no 1-2 do 2-6 no Bernabéu e na cabeça de Messi na final da Champions em Roma contra o Manchester United. Quase nada. Mas fez-nos quase acreditar que não era imprescindível. Afinal, tudo o que fazia era receber e dar, não é verdade? Punha aquele ar sério de quem não tinha feito nada, cara fechada enquanto Puyol apertava com força a braçadeira e Casillas levantava as taças. Xavi gozava por dentro sabendo que, no fundo, ele é que os punha ali. Estão a ver como é fácil? Um general que não era o mais alto, o mais forte, o com melhores pés. Era só mais inteligente.

Xavi Hernandéz, que eu tristemente só comecei a dar valor em 2008, quando já era um jogador mais que experiente, foi a maior aula do futebol moderno. Explicou-nos, com o seu futebol, que estávamos todos enganados e que não era preciso ser alto nem bruto nem saltar muito alto. Havia que pensar antes, isso sim. E não bastassem as suas aulas em campo, deu entrevistas maravilhosas à Panenka, ao Guardian, cujas citações começam e acabam este texto, e ainda escreveu uma crónica para o El País sobre a morte de Aragonés. Guardiola já brilhava no banco quando nos apercebemos que talvez Xavi, enquanto futebolista, fosse Pep refinado. 


O Mundial de 2014, delicioso até agora, torna-se desde já mítico por ser a mais que provável despedida de Xavi dos grandes palcos. Um homem assim, que mudou o jogo, devia sair pela porta grande. Quanto a saídas lembro-me sempre de Michael Jordan - para mim o melhor desportista da história. O último ponto de Jordan é um deprimente lance livre pelos Washington Wizards no seu segundo e escusado regresso. Não que belisque em nada a sua carreira, mas foi completamente escusado. A última jogada de Jordan pelos Bulls tinha sido épica. Perdiam por 3 contra os Utah Jazz no jogo 6 da final e Jordan marca um lançamento com cerca de 20 segundos para jogar. A ganhar por 1, os Jazz metem a bola em Karl Malone, a sua estrela maior. Jordan rouba-a sem o deixar lançar e não pede desconto de tempo. Um para um, finge que arranca para o cesto, o adversário recua e escorrega. Jordan eleva-se e o tempo pára. Bola dentro, um ponto de avanço. Stockton falharia o triplo decisivo e Jordan conquistaria o seu sexto anel. Era a saída perfeita, heróica, como o Deus que foi. O regresso pelos Wizards, para mim, nunca existiu.


Xavi devia, como Jordan, ter saído em grande. Depois daquela assistência teleguiada para Jordi Alba, em Kiev, devia ter renunciado à selecção. Tipos assim não podem sair pela porta pequena. O seu último momento tem que ser mítico. Como o regresso aos Wizards de Jordan, para mim o Mundial de 2014 de Xavi não existiu. Ficará sempre presente aquela primeira aula de 2008 e tudo o que se seguiu desde então.

Este texto é o meu agradecimento. Até em Madrid se estende a homenagem no merenguíssimo As: "Esto duró lo que duró Xavi Hernández". Foi o melhor médio centro que vi na minha vida. Melhor que Redondo, Guardiola, Deschamps e Pirlo. Admito que a opinião é discutível, mas este foi o homem que, na minha idade adulta, me ensinou a ver futebol de outra maneira. Tu sim, eras o puto amo, o cérebro maior do melhor futebol da história. 
7 Ligas, 2 Taças, 3 Champions, 2 vezes campeão do mundo por clubes, 2 vezes campeão da Europa por selecções e Campeão do Mundo. Mas mais do que isso, um futebol diferente. E não há Bola de Ouro que supere isso. Aliás, se ta tivessem dado, suponho que a ias receber e passar logo.


Do you see yourself as a defender of the faith? An ideologue?
It was that or die. I'm a romantic. I like the fact that talent, technical ability, is valued above physical condition now.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Para a M., que quase foi do Porto

Quem pensa que a dificuldade de ter um marido benfiquista passa só por gostar muito de uma pessoa que era capaz de ceder o lugar num autocarro cheio para o Maxi Pereira se sentar, engana-se. É que eu cresci numa família em que toda a gente está do lado certo da paixão clubística e, portanto, há problemas sérios como "De que clube vai ser esta criança?" que nunca tive de enfrentar. Parecendo que não, influencia muito um bebé que todos os pais, irmãos, tios, primos, avós, vizinhos e porventura conhecidos sejam do mesmo clube e, sendo assim, todas as prendas, músicas de embalar e primeiras palavras sejam naturalmente das mesmas cores. Não só isto não me choca nada, como estou convencida que é o ambiente ideal para uma criança desenvolver valores importantes como "Ou és do mesmo clube que nós, ou então vais ter de procurar outra família".

O M. trouxe-me outra família, que eu adoro e que, apesar de claramente não me colocar tanta comida no prato quando o FCPorto ganha, me trata muito bem. E é nessa família que me deparo, pela primeira vez, com crianças a crescer sem a pressão o carinho da orientação clubística sempre no mesmo sentido. Estranhamente para mim, a primeira palavra da nossa sobrinha mais velha não foi "bola", ou "golo", ou "Pôto", que eram os conjuntos de duas sílabas que eu achava que toda a gente tentava ensinar aos pequenos seres humanos. A M. lá foi crescendo à sua maneira, feliz, maravilhosa, querida e fofinha, como uma princesa, sem nunca ligar muito àqueles tios que de vez em quando apareciam e a obrigavam lhe pediam com muito jeitinho para levantar um braço no golo do Porto ou correr para celebrar um golo do benfica.

As dúvidas surgiram por volta dos 4 anos, quando a M. começou a dizer que era do Porto e do benfica, para nos agradar aos dois. Como somos duas pessoas inteligentes e racionais, dissemos-lhe sempre que é impossível ser dos dois clubes ao mesmo tempo e que tinha de se decidir. A pressão O carinho começou a intensificar-se quando, aproveitando aquela fase de menina que vive num mundo de princesas e castelos, o M. lhe mostrou que o benfica tinha uma camisola cor-de-rosa e eu e a mãe a tivemos de convencer que, por dentro do azul e branco às riscas, o equipamento do FCP era cor-de-rosa, mas com brilhantes! Mal sabíamos, claro, que a fantasia um dia não estaria assim tão longe da realidade, mas adiante.

Na verdade, a querida M. sempre tendeu muito para os vermelhos (talvez por ser a cor mais próxima do rosa... percebem, pessoas que desenharam o alternativo deste ano e pessoas que eventualmente o vão comprar?). Durante algum tempo, e porque somos as melhores amigas, gostou de me agradar com uma suposta tolerância ao Porto, mas isso nunca chegou a preocupar o tio M., que às escondidas lhe ensinava músicas que depois eu a apanhava a trautear. Porque as pessoas do benfica são assim: más, porque actuam na sombra e ganham campeonatos nos túneis ou no Algarve, influenciando os árbitros, ou as sobrinhas, sem ninguém a ver. Mas isso eu ensinarei mais à frente à M., quando ela consolidar as ideias do bem e do mal, que é como quem diz do Porto e dos outros todos.

Quando a M. me disse que era só do benfica não consegui evitar ficar triste. Como é que alguém tão doce, tão lindo, tão inteligente, pode torcer pelo benfica? Mas enfim, eu casei com um benfiquista, por isso estas são perguntas às quais ando há muitos anos a tentar responder. Consegui, ainda assim, continuar a gostar da M. da mesma maneira, o que, reparem, mostra como sou uma pessoa espectacular, mas o assunto ganhou outros contornos quando ela se tornou um pequeno Rui Gomes da Silva. Em todas as vitórias, campeonatos e outros títulos ganhos pelo FCPorto nos últimos anos, eu tentei explicar à M. que ainda estava a tempo de mudar para ser mais feliz. Mas ela, mais fiel ao clube do que a todas as regras da lógica, respondia-me sempre: "Isso é mentira. O benfica é que ganha sempre".

E até parece um argumento fácil de contrariar, porque o benfica vai-se a ver e não ganha sempre. Mas experimentem vencer uma criança com factos quando ela coloca aquele ar impenetrável, de quem tem tanta certeza que o benfica ganha sempre como que a Cinderela vai casar com o príncipe. Felizmente, a M. aprendeu a ler muito cedo e então eu pude tomar a atitude mais adulta. Peguei num jornal desportivo, apontei para a tabela classificativa e perguntei-lhe, num tom agressivo descontraído: "Vá, lê lá quem vai em primeiro". Podia ter sido este o meu momento de glória, aquele em que a M., ao ver FCPorto ali em cima, me abraçaria e me diria "Leva-me já ao Estádio do Dragão, não quero ficar mais aqui". Teria sido lindo! Mas não.

"É o Porto... mas o benfica não vai em último!" Portanto, estamos conversadas. A minha sobrinha só admitiria trocar de clube se o benfica fosse em último. E, por muito que eu queira acreditar que um dia o mundo vai ser um local perfeito, onde não há fome nem guerra e o benfica vai em último, achei que estava na altura de desistir. A M. é do benfica e eu juro que não gosto menos dela por isso. O problema, como sabemos, vai ser dela quando descobrir que esteve tão perto de ser de um clube decente.

Talvez ela me venha a culpar porque não aproveitei quando, depois daquele golo do Kelvin que tento encaixar em todos os meus textos, estávamos as duas a brincar e, num programa desportivo que estava a dar na televisão, um comentador diz "Porque o benfica perdeu o campeonato, perdeu a Liga Europa, perdeu a taça, perdeu tudo" e a M., que estava de costas, dá um salto e fica de boca aberta a olhar para a televisão. "C., isto é verdade?", perguntou-me, no seu primeiro duro contacto com o mundo real. E eu, que fui mais tia do que super dragona naquele momento, infelizmente, disse-lhe só "Sim", em vez de lhe enumerar todo o palmarés do FCPorto e de lhe revelar logo ali todos os enganos e falcatruas que os lampiões inventam para convencerem as crianças a torcer pelo benfica. "Mas o meu pai disse-me que o benfica ganha sempre..." Foi ali, aos 6 anos, que a M. descobriu que os adultos não são de confiança, nem que sejam os nossos pais e, claro, muito menos se forem do benfica.

A M. tem agora 7 anos. Já não fala em princesas, já nem sequer gosta de cor-de-rosa. Já passou essa fase, assim como a de me tolerar enquanto 100% portista. Ao meu lado, vai cantando com desprezo a sua versão do cântico "slb... slb... campeões da Liga Europa...", sem saber por que razão eu me estou a rir com aquilo e o tio M. a ficar triste.

"- C., podias ser do Porto, mas gostar do benfica também.
- Não, M., ninguém é do Porto e do benfica ao mesmo tempo.
- Então já sei! Podes só gostar do benfica porque eu e o M. somos do benfica, mas não ficar mesmo a torcer pelo benfica".

Notem que a nossa sobrinha já tem uma dose de humanidade incrível, que lhe permite sugerir que eu podia abdicar de um pouco do meu ódio ao benfica por amor ao meu marido e a ela própria. A pequena M. não vai conseguir o que quer, mas nem por isso desiste.

"- C., por que é que tu não és do benfica?
- Porque o benfica é mau.
- Não é nada. O benfica é o melhor.
- Não é nada, isso é mentira. O Porto é o melhor.
- C., (ar benevolente, de quem está a dizer aquilo só para me ajudar...), se o benfica não fosse o melhor, tu achas que eu era do benfica?"

Mesmo estando do lado errado, tenho de admitir que estou orgulhosa, porque não há factos, derrotas ou números nenhuns que abalem a crença da M. no seu clube. A nossa sobrinha já é uma adepta como nós. Um bocadinho mais convencida, vá.