sábado, 25 de janeiro de 2014

10 anos sem Fehér e uma vida de recordações

Foi há 10 anos. Eu estava a ir de boleia para Lisboa, a voltar de Faro em plena época de exames. A ouvir o jogo na rádio com outro benfiquista, tínhamos acabado de gritar aquele golo do Fernando Aguiar como se fosse realmente importante. Eu não vi a queda em directo, mas ouvi a voz do repórter de campo nervosa, embargada, aflita, assustada, a dizer que Fehér tinha caído e que podia estar mal. Lembro-me vagamente do relato confuso de tudo o que se estava a passar, da aflição geral, das contradições normais, dos boatos. E lembro-me de chegar a casa e seguir aquilo tudo em directo com o R., no apartamento de Sete Rios que tantas memórias me traz.

Toda a gente se lembra da morte de Fehér. Se estava a ver o jogo ou não, da queda, do que pensou, do que sentiu. Faz hoje 10 anos e, para muitos, parece que foi ontem, tal a nitidez com que se lembram. Nem parece verdade que já passou uma década inteirinha, de tão apressados que andamos, com tantas coisas que já fizemos, se ainda ontem era domingo e estávamos a ver o Benfica em Guimarães, sem pensar em mais uma semana de trabalho. As recordações têm, depois, esse poder: são uma máquina do tempo brutal, uma viagem rápida a sítios há muito distantes, tão brutal nas suas contradições (como mudei em 10 anos!) que chega a dar tonturas. 

Esta expressão, que uso repetidamente, vem de um artigo que o D. me mostrou uma vez na Time. Escrito por um adepto do Liverpool, acabado de ser campeão europeu, o artigo é um maravilhoso elogio à eterna alegria e melancolia de ser adepto. O autor explica a quem não sabe e verbaliza por quem o sente que ser-se adepto é ter sempre a nossa vida à nossa volta, à distância de um golo, de um número nas costas numa camisola. Para 99,999% das pessoas, Fehér representa um domingo à noite trágico, uma memória brutal e inesquecível, a morte em directo. Obviamente que, para mim, Miki Fehér é sobretudo lembrado por essa tão triste noite. Mas não só. Fehér é também um jogo contra o Guimarães em casa emprestada no Jamor, um 2-0 insonso à segunda jornada, com um golo seu no fim, que me fez logo perceber que era mais um ano de seca. Foi uma tarde de pouco sol passada em Porto Covo, com o T. e o D., a beber cervejas no café do parque de campismo e a adivinhar mais uma época terrível. 
Fehér foi uma viagem espectacular para o Porto, para vermos o Benfica-Lazio no estádio do Bessa (perdemos 0-1 depois de termos perdido 3-1 em Roma). No meio de tantas e tantas gargalhadas naquele autocarro, preciosa ajuda para esquecermos a eliminação, lembro-me do M. gritar: "Podemos criticar todos, menos o Fehér! Esse dá tudo o que tem, não sabe é mais que aquilo!" - e no meio dos risos, da juventude e tempo que me permitia fazer viagens para ir ver o Benfica a todo o lado, ficou o único elogio futebolístico que me lembro de ouvir ao húngaro em vida (eu sei que não interessa para nada se ele era bom jogador ou não, é só uma história).

A verdade é que esse poder de aliar o futebol à memória e, por consequência, à minha vida, é uma das grandes razões pelas quais eu vou sempre amar este jogo. Eu sei que nunca vou esquecer Fehér, sobretudo por aquele domingo, mas também por me levar aquelas férias, aquela viagem e até a um reportagem da SportTv, que vi numa daquelas manhãs de ócio da vida estudantil, da qual só me lembro do Cajuda, na altura treinador do Braga, a virar-se para ele a dizer "toda a gente sabe que não estás no teu melhor momento", um fragmento bizarro que não sei porque é que cá ficou. 

Hoje, 10 anos depois da sua morte, milhares de pessoas também usarão o futebol como máquina do tempo e vão viajar uma década, recordar onde estavam, com quem estavam. Vão lembrar-se de projectos dessa época, de sonhos, de desilusões, da vida, da sua vida. Infelizmente, será por um motivo trágico e marcante. Hoje, toda a gente fará essa viagem com os adeptos de futebol. Mas, no próximo jogo, um pormenor qualquer fará um adepto recorda-se de uma conversa, de uma piada dita com um amigo a ver a bola, de um craque, de uma viagem, de um familiar. E fará essa viagem sozinho, sorrirá para dentro e contará isso a alguém da nossa tribo. Uma das maiores alegrias que tenho como adepto é que facilmente viajo para locais distantes (Budapeste, a perder 2-1 com o Manchester United para a Champions, em que eu e o R., recebendo a mensagem do golo de Simão de livre, imitámos os festejos pela praça), para datas (o meu dia de anos, em que a C. festejou o primeiro golo do Porto em Old Trafford (2-2) agarrando-se à minha perna e eu a olhei com ar ameaçador e lhe pedi para nunca mais repetir aquilo), para pessoas (o meu avô e o Benfica-Beira Mar de 93/94). Hoje, infelizmente, o futebol vai fazer-nos recordar uma tragédia colectiva. Mas, acreditem, várias vezes me leva aos meus tesouros pessoais. 

"...ser adepto é mais que derrotar a distância e a geografia. É a nossa máquina do tempo pessoal. Se há coisa que eu fiz de forma consistente nos últimos 50 anos foi apoiar o Liverpool. Ser adepto é uma benção, porque nos liga à infância como mais nada o faz, e a tudo e todos que marcaram as nossas vidas entre a infância e o presente. Por isso, (...) quando vi o jogo na televisão, não tive que estar à procura dos fragmentos da minha vida. Eles estavam todos à minha volta. Chá em casa da minha avó depois de um jogo; o meu tio favorito que morreu muito cedo; namoradas que não perceberam a essência disto (casei com a única que percebeu); o meu bolo do 21º aniversário, feito pela minha mãe, com as cores do Liverpool; as minhas filhas vestidas com os primeiros equipamentos delas; os grandes amigos com quem já não falo há muito.

What does being a fan mean? It means you`ll never walk alone"

(Michael Elliot, hopelessly devoted. Para quem tiver assinatura da Time, está aqui. A minha tradução vem do meu antigo blog, com a revista ao meu colo)

3 comentários:

  1. É isto.

    Eu também estava a seguir na rádio porque me recusava a assinar o canal oliveira e foi isto.

    O Benfica liga-nos à infância. para mim foi ser Benfica no Restelo
    http://noparalelo23.blogspot.pt/2014/01/o-benfica-no-belenenses.html




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  2. Tenho, enquanto Benfiquista devoto, muitas recordações similares às tuas (até porque temos mais ou menos a mesma idade e eu ainda hoje vivo na zona de Sete-rios). Mas o que mais me chama a atenção - tirando a parte do Feher, sobre essa prefiro não falar, foi horroroso e violento de ver, nada a acrescentar - é a referência ao Benfica-Lázio. Também fui ao Porto com um grupo de amigos. Estávamos por esses dias a tentar levantar um Benfica competente, mas aquela ainda era uma equipa frágil. Ao primeiro contra-ataque italiano Ricardo Rocha (encostado à esquerda ... piadas não, por favor) falha a intercepção e do desequilíbrio levamos um golo com centro ao segundo poste. Regressei a Lisboa em silêncio, cheguei às duas da manhã. Ser do Benfica levou-me a dias assim (e também dos outros) mas sei que nunca deixarei de ser lamp. Prefiro a felicidade intensa dos momentos em que tudo corre bem. Não a trocaria por nada, tirando pelos meus.

    Ps e o Fever Pitch, já leste? Inesquecível.

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  3. André, um abraço de quem vive com o inimigo! (E até me enganei e escrevi em nome da C. este comentário... Tive que o ir eliminar)
    Pulha: clássico obrigatório para quem gosta de bola. Essa eliminatória foi perdida lá. Porra, foi há tanto tempo. Um abraço

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