sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Benfica-Porto, o elefante cor-de-rosa

Toda a gente nos pergunta, invariavelmente, como é que eu e a C. vivemos esta semana. Talvez imaginem cenas de guerra, discussões constantes. Outros, mais românticos, talvez nos imaginem só a falar sem parar do assunto, numa harmonia de compreensão pelo outro lado que serviria para Bruno Carvalho dizer que estávamos unidos a planear coisas contra o Sporting.
Nada mais falso. Quem passe cá por casa esta semana, se não falar do assunto, até poderá imaginar que está na presença de um casal culto e civilizado, com boa música a tocar no Spotify (passe a publicidade, isto é brutal), livros a serem lidos, trabalhos a serem acabados e, devido a interesse histórico e pitoresco (adoro quando alguém diz "pitoresco" numa tentativa condescendente de não desprezar algo), até se juntou para ver o Portugal-Coreia do Norte de 1966 (talvez aqui o meu fascínio pelo Jaime Graça - impressionou-me mesmo - nos denunciasse, mas adiante). Esta semana, vistos de fora, eu e a C. parecemos pessoas normais. Nada mais falso.

A verdade é que nenhum de nós pára de pensar no Benfica-Porto de domingo desde há muito tempo. Há um elefante cor-de-rosa a passear no nosso T1, mas nós fingimos que não o vemos e que há espaço para os três cá em casa. A verdade é que, para mim e para a C., adeptos sofredores e doentes, pessoas com uma personalidade anormalmente patológica no que aos nossos clubes diz respeito, o Benfica-Porto (e outros jogos importantes) são um inferno. São uma montanha de sofrimento, uma escalada gélida, de arrepios e ravinas perigosas que nenhum de nós quer fazer. Um sofrimento tal que, admitimos (os dois, no plural), praticamente não compensa. A alegria de ganhar um clássico (uma maravilha sem preço) valerá este sofrer por antecipação todo?

A nossa solução para o Benfica-Porto é a de qualquer pessoa adulta, ponderada, madura para os assuntos delicados: não falar sobre isso e esperar que passe. Se nós nos agarrarmos muito aos livros e ao trabalho e não falarmos do assunto, pode ser que me saia da cabeça o medo que o Oblak dê um frango e lixe com éfe grande toda a promissora carreira que tem. Se falarmos do trabalho e dessas coisas, a C. aspira a que também Paulo Fonseca pense em tudo menos no duplo-pivot. Se formos passear, se convidarmos amigos a vir cá a casa, pode ser que até aconteça, por milagre, que este sofrimento todo passe finalmente.

Eu gostava - ou não - de vos dizer que andamos em casa eu com camisola do Benfica e ela do Porto e que passamos o dia a provocar-nos subtil e inteligentemente. Mas isso, além de ser uma treta maior do que o fair-play, não somos nós. Nós andamos a telefonar às escondidas aos nossos pais a discutir táctica enquanto o outro não chega. Nós não vemos notícias na TV sobre os clássicos porque já lemos tudo três vezes na net. Nós não precisamos de perguntar ao outro em que é que está a pensar nesta semana (ou na anterior) porque já sabemos a resposta.

A C. está ao meu lado a fingir que isto não é nada com ela. Nem levantou os olhos quando uma notícia sobre o clássico foi dita agora, no resumo do telejornal. É normal, acabou de passar um elefante à frente da televisão.
Agora vamos os dos fazer o jantar. Além do elefante, temos amigos cá em casa.

3 comentários:

  1. A minha L. não liga nada a futebol, mas mesmo assim faço o mesmo que tu, calo-me e tento pensar em tudo menos nisso. Provavelmente porque este filme termina demasiadas vezes da mesma forma, dolorosamente.

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  2. Muito bom...e que a tua mais do que tudo tenha um final feliz para o jogo, que é o que mais desejo.

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